segunda-feira, 25 de março de 2019

A VIÚVA DO EXPRESSO DO ORIENTE Capítulo 1






A VIÚVA DO EXPRESSO DO ORIENTE


Escrito por Lopes Barbosa






Minha mãe é uma mulher excêntrica, talvez uma das mais excêntricas que possam existir à face da terra.
Herdeira de uma colossal fortuna, que herdou dos vários homens com quem se casou, acumulou, com as suas mortes, esse património a que faço referência.
Mas não se trata de nenhuma viúva-negra -  gémea daquela que determinada literatura imortalizou -  a tal que matava os maridos para posteriormente lhes sugar a fortuna.
Não, não se trata dessa personagem; no entanto, não ponho as mãos no fogo por uma conduta da sua parte cem por cento correcta com os seus ex., apesar de todos os registos da história da sua vida apontarem nesse sentido.
Sem me querer comprometer, mas à luz da verdade não posso deixar de tomar partido a seu favor, e dizer que, apesar de não ser santa, minha mãe sempre pautou a sua conduta por um quadro de valores onde no topo imperou a lealdade.
É isso, minha mãe podia ter defeitos mas se os tivesse tinha arte de os enconder.
No entanto, trair alguém que ela considerasse como amigo penso que isso era algo impossível de ser concretizado por si.
Assim, e a reafirmar esse tipo de valor, a capa de esposa fiel
  que sempre ostentou apagava qualquer mancha que pudesse escorrer do seu comportamento e essa fidelidade, aparente ou cem por cento verdadeira, grangeou-lhe um património que é hoje o bastião económico que ela gere de forma principesca.
Mas se me perguntarem se conheço bem a mulher que me pôs no mundo a minha resposta é um rotundo não.
Sim, decididamente, não conheço a minha mãe: há muitas zonas de penumbra na sua personalidade que me impossibilitam de a conhecer, verdadeira e completamente.
Se é que é possivel alguém poder conhecer alguém na sua total plenitude!
Assim, limito-me a dizer que a única mulher que continuo desesperadamente a tentar conhecer - como prisioneiro de um esteriótipo de investigador que nunca alcança o objecto da sua investigação -  é ela, a minha mãe, esse ser misterioso que parece cavalgar as núvens com a mesma facilidade que os restantes mortais pisam a terra.

Presentemente, damos corpo - ou melhor, ela dá corpo porque eu limito-me a segui-la como um cão amestrado -  à sua última grande excentricidade e que passo descrever de forma sucinta:
a nossa casa passou a ser o comboio chamado de grande velocidade: o TGV.

Nem mais!, vivemos, ou melhor arrastamos a nossa existência lunática, e porque não sonâmbula, fabulosa mas também medíocre, no
interior de um desses comboios que circulam pela Europa fora, como já disse, a grandes velocidades que chegam a atingir os 250 kilómetros por hora!
Uma das carruagens é dela, ou melhor é exclusivamente nossa, porque é aí que habitamos e principalmente é aí que ela dá vazão aos seus sonhos megalómanos e incongruentes.
A minha mãe comporta-se como uma rainha – uma rainha árabe, diga-se, parecendo ter sido arrancada literalmente de uma das páginas do livro As mil e uma Noites – o que me obriga também a comportar-me como um personagem à altura de tal enredo, uma espécie de pajem num tipo de harém onde só ela existe praticamente.
O que não deixa de ser engraçado, por um lado, e altamente problemático, por outro!
  
Só que este tipo de comportamente tem os seus custos e no nosso caso bastante gravosos! Porque a certa altura passa a ser perigoso - quando a ficção se mistura com a realidade - deixando-se de se conhecer as fronteiras que as deviam separar.
Assim, o nosso dia-a-dia é uma espécie de comédia burlesca onde convive um tipo surreal de poesia e uma imensidade de gestos inúteis.
O facto de não termos assistência e representamos só para nós esvasia de qualquer significado o bom que pudessemos extrair de uma existência que tem ao seu dispor um maná de possibilidades.  
Por outro lado a nossa ânsia de nos enganarmos a nós próprios ofusca-nos a compreensão  e o que vamos fazendo não passa de numa infinidade de dias repetidos, tão iguais que não dá para ver qualquer tipo de diferença entre eles.
Este sonho da minha mãe, além de excêntrico, tem sido matéria de reflexão de muita gente da imprensa internacional que tem acompanhado o nosso caso quando este caiu no domínio público. 
Além de excêntrico, o nosso modo de vida tornou-se de tal maneita pitoresco que, posso garantir, uma vez que tem sido explorado pela media internacional, hoje somos alvo do interesse de
um público que não deixa de crescer nas estações por onde a nossa carruagem passa!

 (Carruagem expressamenre decorada como réplica fiel do clássico Expresso do Oriente!)

Não digo toda a imprensa, mas determinada imprensa mais dedicada às celebridades, ao lado escabroso ou cor de rosa da vida, encarregou-se de difundir uma
imagem de uma família (a minha) excêntrica e multimilionária, o que tem feito com que muitos passageiros ao entrarem no
comboio não deixam de imediato de nos tentar localizar e identificar, e muitos deles fazem mesmo questão de nos cumprimentar e solicitar que os autorizemos a tirar fotos ao nosso lado para posteriormente poderem mostrar à família e aos amigos.

Arre! Nalguns casos até nos pedem que assinemos os nossos nomes em camisetes, bonés, etc..
Não deixa de ser um fenómeno curioso de popularidade!

Todos querem ver a rainha e o seu pajem, aqueles dois seres pírulas
 que habitam num comboio que circula pela europa a alta velocidade completamente alheios à verdadeira realidade de uma Europa em crise, para não dizer de um mundo em profunda agonia de valores!

Quando se deu essa clivagem, essa mudança súbita da minha mãe? Não sei.
O que posso dizer, no passado, tal como qualquer família vulgar, eu e minha mãe sempre haviamos habitado casas normais.  

Mas a partir de certa altura as casas normais passaram à categoria de palácios, tal a sua sumptuosidade  - daquelas que só vemos em filmes de Hollywood – e tudo isso passou a ser possível graças à  generosidade dos seus maridos, que num ímpeto de altruismo, penso, quiseram presenteá-la,  sabe- se lá por que razão, não esperando o momento da sua morte para fazê-la herdeira de toda uma fortuna que acumularam, também sabe-se lá como!
O resultado foi que eu e ela, que tinhamos nascido no seio de familias pobres, cada qual
à sua maneira, tornamo-nos herdeiros de um património para o qual não contribuimos nem com um mísero chavo!

Eu explico melhor.

Apesar de pobre, minha mãe sempre foi uma mulher bela.
E eu como produto do seu primeiro casamento tive o privilégio de poder testemunhar o desenrolar da sua trajectória de vida, aventurosa e
enigmática, podendo mesmo afirmar só ser concebível se imaginarmos uma vida criada
no espaço encantatório da literatura ou poesia, e não vivida naturalmente.

Querendo isso também dizer,
 com altos e baixos, erros e acertos, como é normal acontecer em todas as
vidas vividas pelas pessoas ditas normais.

No entanto, o dinheiro sempre fluiu nas nossas vidas de forna fácil.
Ao ponto de eu poder dizer não me lembrar algum dia termos passado por qualquer tipo de necessidade ou privação mais gravosa, isto dentro dum quadro de valores  
                                              considerados de “razoáveis”!
                                                                 
Não, o dinheiro sempre entrava e saia nas nossas contas bancárias – na dela muito mais do que na minha, como era óbvio – de forma fácil e segura,
               beneficiando-a muito mais a ela - como também não podia deixar de ser -
 já que era ela a galinha dos ovos de ouro e eu o simples pinto que
bracejava à volta da mamá-galinácea!

Como mãe, esposa e, posteriormente, viúva de homens ricos que lhe vieram cair no regaço de forma misteriosa, eu ouso afirmar que no seu conjunto, a minha mãe sempre se comportou de forma irrepreensível, tal como se estivesse a cumprir com rigor o articulado de um tipo de contrato de compra e venda, onde falhar seria de todo impossível por as penalizações serem duras de mais para serem suportadas!
  
 Duma parte substancial da sua vivência só arrisco dizer conhecer somente umas migalhas dessa personalidade oblícua e opaca, para não ir mais longe nos adjectivos.

Não, não é exagero!

Minha mãe sempre encarnou essa possibilidade de se furtar às análises mais argutas e seguras! E, tal como phoenix, após cada descida aos infernos, ela sempre foi capaz de reencarnar outras vidas e sabedorias.

Minha mãe é isso mesmo: um enigma, uma esfinge plantada num deserto de conhecimentos onde os vulgares humanos parecem ser incapazes de entrar e explicar.

Para mim, posso afirmá-lo, esse mistério sempre existiu!

E, não tendo sido testemunha directa de todos os actos da sua vida, quase ouso dizer que esse mistério deve ter sido uma constante para a maioria dos representantes do sexo masculino que tiveram a sorte ou desdita de se cruzaram no seu caminho!
Principalmente, para os que ousaram unir com ela os seus destinos.

E porquê?

Pelo simples facto de - apesar da sua já proveta idade nos dias de hoje - ela continuar viva e eles estarem todos mortos!

É isso!

Não sobrou nenhum para contar como foi a vida conjugal com essa mulher, que além de ter sido muito bela em jovem, era  - todos o afirmam - possuida por espíritos!

Nem mais!

Exactamente: espíritos, almas do outro mundo ou outro nome que lhe queiramos dar, desde que consubstancie uma ligação a um mundo que está para além da vida!
Ou, como é corrente dizer-se, ligada às forças da morte!

Nesta fase do texto temos de ter a coragem de aceitar estarmos a mexer numa matéria
volátil, tipo nitroglicerina, que nos pode estourar nas mãos a todo o momento.

Mas voltando a minha mãe! Posso dizer tratar-se de alguém que não podemos classificar ou rotular, facilmente!
 Figura esguia e multifacetada, bela demais, e senhora de muitos talentos na arte de encantar, quando nova, rompia da sua pela morena uma radiação que a fazia ser desejada por quantos homens se cruzassem com o seu olhar.
O íman desse olhar ou as mensagens eróticas  - ou outras que cada qual lia conforme a sua inclinação - que deles transbordavam levava-os, de cabeça perdida, a ser declararem a todo o momento e só a fidelidade ao marido vigente fazia refrear e anular essas múltiplas pretensões.
Minha mãe era uma mulher fiel, à antiga.
Pretendentes, sim, mas só admitidos se se mantivessem na bicha, esperando a sua vez.  
Sim, apesar de todas as evidências que pareciam testemunhar o llógico, minha mãe não era uma mulher infiel.
Pelo contrário, a sua fidelidade era canina, o mesmo querendo dizer que nem por um segundo a vi vacilando numa relação matrimonial que parecia ter sido escolhida a dedo. A dedo, é uma força de expressão, já que os maridos de minha mãe devem ter passado pelo crivo da selecção além túmulo, se é que queriam ter algum êxito de virarem a consorte dessa diva protegida por forças que, os que consigo conviviam , não compreendiam mas pareciam venerar!

No total foram seis os seus maridos oficiais!

Para meu infortúnio, descendo do seu primeiro marido porque os restantes não deixaram prole.





Continua