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sexta-feira, 8 de maio de 2020

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (4)

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (4)
Exercício de memória episódico e crepuscular


- Quinzinho, aquele ó teu pai!
Foi com esta simples frase que a minha tia desfez o mistério que me envolvia desde que tivera a faculdade de pensar.
- Quinzinho, aquele é o teu pai! – Frase maldita, como malditas foram todas as horas envolvidas no meu crescimento sem a sua presença!
Onde estava esse pai que de forma irresponsável, até esse momento, abrira uma cratera enorme de silencio numa vida pautada por omissões, interditos e sussurros piedosos?
O tal pai que tivera a habilidade de me conceber fugira quando soube que a minha mãe engravidara dele ainda solteira!
Para que serve um homem que não tem a coragem de assumir um filho que ele mesmo criou?
- Quinzinho, aquele é teu pai!
Vi-o à distancia de alguns metros integrado naquele procissão que parecia nunca mais ter fim.
A minha tia, coitada, vencida pela sua pequenez e falta de audácia,  não teve a coragem de me levar até ele e dizer-lhe, esfregando-lhe na fase e no seu perfil autoritário, essa simples frase:
- Este é o teu filho! Olha bem para ele, seu merda, olha bem para ele! Este é o teu filho, o que tu recusaste de forma leviana, nojenta, imbecil, como se este menino fosse algum demonizado!
Mas nada disso aconteceu.
Pobre tia, fora vencida pelas leis patriarcais, aquelas que frente aos poderosos, custumam subjugar os mais fracos: os pobres!
E aquele homem passou por mim, sem se deter frente à minha frágil figura, que o olhava com olhos desmesuradamente abertos a querer tragar para sempre aquela sombra que jamais voltaria a ver!


sexta-feira, 17 de abril de 2020

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (2) e (3)

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (2)
Exercício de memória episódico e crepuscular



A minha família era constituída por o avô, a avó, tia, irmã e eu.
O meu pai e a minha mãe eram ausentes.
A minha mãe concebeu-me solteira e assim ficou até se casar com o que veio a ser o meu padrasto.
Às vezes aparecia lá para casa uma espécie de segunda tia que viria a ter a repercussões negativas na minha vida.

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (3)




Conheci o meu pai de forma fugaz, e somente uma vez, quando desfilava fardado a rigor de oficial de polícia, integrado numa profissão dedicada ao Senhor dos Passos, numa cidade um pouco a norte do sitio onde vivia.


quinta-feira, 16 de abril de 2020

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (01)

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (01)

Exercício de memória episódico e crepuscular


Por: Lopes Barbosa

A imagem mais antiga que retenho de mim mesmo, dou a mão a minha tia/mãe e contemplo o futuro sem saber o que é o futuro, como será esse futuro ou mesmo se terei algum dia esse futuro.

Narrativa em busca de um sentido ético para a vida.