Por: Lopes
Barbosa
Como-a sua figura era graciosa, o seu corpo estreito, os seus olhos - um
azul outro verde -, o seu cabelo preto nos seus trinta anos, o anúncio de
pedido de casamento deve-a ter intrigado, o desejo de conhecer a pessoa
que estava por detrás da sua publicação no jornal local, a sua vinda até
ele, doente, a precisar de alguém que preenchesse o total abandono de si mesmo,
a doença súbita a arrasta-lo para a dependência, para o sofrimento,
principalmente para o vazio de não ter ninguém ao seu lado,, a cara feia de sua
mãe pensando que ele lhe iria tirar o pouco que tinha com a sua doença, a sua
fuga para África, em cima de um tratamento anti-tuberculose, a queda das suas
faculdades, o colapso nervoso, súbito, fulminante, o destruir de todas as
ilusões, os sonhos deitados por terra, as bichas para os aviões trazendo de
regresso os colonos que haviam permanecido em África por centenas de anos, o
recomeço, e ele, o abandono de um futuro que mal começará!
O casamento, os seus óculos escuros a querer esconder uns olhos pisados,
que o desfiguravam e nos quais ele não se reconhecia!
Ela graciosa no teu vestido de noiva, a sua atitude de cumplicidade,
para ele a salvação, para ela possivelmente o desejo de felicidade!
Depois os gêmeos, um nasceu tarde demais, que o haveria de afectar
diminuindo-o para sempre, o outro saudável, a corrida para comprar às pressas
um enxoval que faltava, incongruentemente os gêmeos apareciam quase no fim da
gestação por erro médico, a urgência da cesariana para salvá-los, dois meninos
desiguais gerados em placentas diferentes, atrasados logo no acto de nascer!
Depois foram habitar um apartamento quase vazio porque não tinham
reunido dinheiro suficiente para comprar as mobílias, o simples colchão pousado
no chão e aí dormiam desde a lua de mel, assim mesmo, rodeados simplesmente do
fundamental.
A luta dela tricotando camisolas de lã para completar o ordenado
dele que era pequeno para as suas necessidades! Mas conseguiram equilibrar as
despesas alugaram um quarto que tinham disponível a um casal de ocasião!
As preces dele a Deus, tal como faz hoje, para conseguir vencer a doença
que arrastava consigo desde África e que a viu nascer!
A corrida quase inglória aos médicos, quando finalmente encontrou aquele
que o corou!
Como tudo mudou desde então!
Tornou-se tremendamente ingrato com ela e foi namorar com outra
mulher, como se ela já tivesse préstimo, esquecendo-se miseravelmente que
tinha sido ela que o salvara quando tinha ficado somente ao meu lado
Que ingratidão! Que miserável ele se tornou desde esse dia!
A traição maior viria logo a seguir, quando foi viver com essa mulher,
deixando-a só com a responsabilidade de tratar de duas crianças, uma delas
deficiente!
Que vergonha ele hoje sente!
Que remorsos e que saudades ele tem hoje dela, da sua época, da sua
luta, da sua abnegação e pelo respeito que ela sentia por ele!
Para, enxuga as lágrimas, mas hoje é tarde para obter dela o perdão de
que necessita!
Os gêmeos cresceram: hoje são homens maduros, um vive com ela, o que
precisa de si desde que nasceu, o outro é um homem feito, com carácter, que
recusa falar com o pai que não teve ao seu lado no seu crescimento!
Que vergonha!
Mas a sua infidelidade não se ficou só por uma mulher, estendeu-se
por outras, revelando uma tremenda falta de respeito por ela e por essas outras
de quem ele se estava somente a servir!
O afecto andou sempre ausente desses enlaces que nada mais representaram
do que puro egoísmo dum homem doente!
Doente de quê? De afirmação? De vaidade? De estupidez? De niilismo? De
incultura?
E ela?
Suportava essas infidelidades com um silêncio magoado e nada mais dizia
que pudesse representar um ataque à sua arrogância, ignorância e desfaçatez!
Hoje, sozinho, quando redige esta carta o que lhe vem ao pensamento é
uma imensa saudade desse tempo vivido ao seu lado, profundas saudades dos seus
filhos que não viu crescer!
Daria a sua vida para poder estar de novo ao seu lado e voltar a travar
as lutas por uma sobrevivência, que nessa altura não sabiam que eram exemplares
!
Ela com a sua máquina de tricotar e ele usando os seus expedientes
toscos e improvisados de molde a garantir uma sobrevivência que não os
desonrasse perante nada nem ninguém!
Quando ele morrer, espera que ela lhe perdoe, porque nesse dia
gostaria de partir vendo os olhos dela enxutos de lágrimas!
Pede-lhe perdão!
Espero-a no Céu!

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