quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

CAROLINA!



Por: Lopes Barbosa

Como-a sua figura era graciosa, o seu corpo estreito, os seus olhos - um azul outro verde -, o seu cabelo preto nos seus trinta anos, o anúncio de pedido de casamento deve-a ter  intrigado, o desejo de conhecer a pessoa que estava por detrás da sua publicação no jornal local, a sua  vinda até ele, doente, a precisar de alguém que preenchesse o total abandono de si mesmo, a doença súbita a arrasta-lo para a dependência, para o sofrimento, principalmente para o vazio de não ter ninguém ao seu lado,, a cara feia de sua mãe pensando que ele lhe iria tirar o pouco que tinha com a sua doença, a sua fuga para África, em cima de um tratamento anti-tuberculose, a queda das suas faculdades, o colapso nervoso, súbito, fulminante, o destruir de todas as ilusões, os sonhos deitados por terra, as bichas para os aviões trazendo de regresso os colonos que haviam permanecido em África por centenas de anos, o recomeço, e ele, o abandono de um futuro que mal começará!

O casamento, os seus óculos escuros a querer esconder uns olhos pisados, que o desfiguravam e nos quais ele não se reconhecia!

Ela graciosa no teu vestido de noiva, a sua atitude de cumplicidade, para ele a salvação, para ela possivelmente o desejo de felicidade!

Depois os gêmeos, um nasceu tarde demais, que o haveria de afectar diminuindo-o para sempre, o outro saudável, a corrida para comprar às pressas um enxoval que faltava, incongruentemente os gêmeos apareciam quase no fim da gestação por erro médico, a urgência da cesariana para salvá-los, dois meninos desiguais gerados em placentas diferentes, atrasados logo no acto de nascer!

Depois foram habitar um apartamento quase vazio porque não tinham reunido dinheiro suficiente para comprar as mobílias, o simples colchão pousado no chão e aí dormiam desde a lua de mel, assim mesmo, rodeados simplesmente do fundamental.

A  luta dela tricotando camisolas de lã para completar o ordenado dele que era pequeno para as suas necessidades! Mas conseguiram equilibrar as despesas alugaram um quarto que tinham disponível a um casal de ocasião!

As preces dele a Deus, tal como faz hoje, para conseguir vencer a doença que arrastava consigo desde África e que a viu nascer!

A corrida quase inglória aos médicos, quando finalmente encontrou aquele que o corou!

Como tudo mudou desde então!

Tornou-se tremendamente ingrato com ela  e foi namorar com outra mulher, como se ela já  tivesse préstimo, esquecendo-se miseravelmente que tinha sido ela que o salvara quando tinha ficado somente ao meu lado

Que ingratidão! Que miserável ele se tornou desde esse dia!

A traição maior viria logo a seguir, quando foi viver com essa mulher, deixando-a só com a responsabilidade de tratar de duas crianças, uma delas deficiente!

Que vergonha ele hoje sente! 

Que remorsos e que saudades ele tem hoje dela, da sua época, da sua luta, da sua abnegação e pelo respeito que ela sentia por ele!

Para, enxuga as lágrimas, mas hoje é tarde para obter dela o perdão de que necessita!

Os gêmeos cresceram: hoje são homens maduros, um vive com ela, o que precisa de si desde que nasceu, o outro é um homem feito, com carácter, que recusa falar com o pai que não teve ao seu lado no seu crescimento!

Que vergonha!

Mas a sua  infidelidade não se ficou só por uma mulher, estendeu-se por outras, revelando uma tremenda falta de respeito por ela e por essas outras de quem ele se estava somente a servir!

O afecto andou sempre ausente desses enlaces que nada mais representaram do que puro egoísmo dum homem doente! 

Doente de quê? De afirmação? De vaidade? De estupidez? De niilismo? De incultura?

E ela?

Suportava essas infidelidades com um silêncio magoado e nada mais dizia que pudesse representar um ataque à sua arrogância, ignorância e desfaçatez!

Hoje, sozinho, quando redige esta carta o que lhe vem ao pensamento é uma imensa saudade desse tempo vivido ao seu lado, profundas saudades dos seus filhos que não viu crescer!

Daria a sua vida para poder estar de novo ao seu lado e voltar a travar as lutas por uma sobrevivência, que nessa altura não sabiam que eram exemplares !

Ela com a sua máquina de tricotar e ele usando os seus expedientes toscos e improvisados de molde a garantir uma sobrevivência que não os desonrasse perante nada nem ninguém!

Quando ele morrer, espera que ela lhe  perdoe, porque nesse dia gostaria de partir vendo os   olhos dela enxutos de lágrimas!

Pede-lhe perdão!

Espero-a no Céu!

 


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