quinta-feira, 14 de maio de 2020

Deixem-me ao menos Subir As Palmeiras (Parte,01,02 e 03)


Deixem-me ao menos Subir As Palmeiras (01)


Deixem-me ao menos Subir As Palmeiras (Parte 02)

Deixem-me ao menos Subir As Palmeiras (03)

  

Criticas, Sobre o filme
DEIXEM-ME AO MENOS SUBIR ÀS PALMEIRAS



Em Moçambique, o cinema de libertação incluía apenas documentários, com excepção de um filme de ficção que tinha uma trajetória singular: Deixem-me ao Menos Subir às Palmeiras, longa-metragem dirigida por Lopes Barbosa, de 1972.
O que faz Deixem-me ao Menos Subir às Palmeiras singular não é que tenha sido produzido sob o sistema colonial, mas que foi o único filme que realmente sugeriu a luta armada como um meio legítimo de lutar contra o colonialismo português. Foi também o primeiro filme em que os personagens falaram em Ronga, uma das línguas faladas em sul de Moçambique.
O Deixem-me ao Menos Subir às Palmeiras é um filme de libertação e o seu público-alvo são os Moçambicanos, especialmente os trabalhadores. “O filme dirige-se a essa camada social” – seus falantes em ronga [ ... ]; uma estratégia narrativa essencialmente visual, a lentidão, o simbolismo transparente de situações, o direcionamento de uma leitura que não manipula, para além das experiências técnicas específicas necessária à narrativa.
Lopes Barbosa provavelmente foi o primeiro diretor a se preocupar com o público moçambicano, e com a criação de uma nova linguagem fílmica dirigida posteriormente pelo Instituto de Cinema de Moçambique em 1976, no despertar da independência. Deixem-me ao Menos Subir às Palmeiras... é uma obra que transcende a questão dos nacionalismos e se coloca na dimensão da humanidade.
Fá-lo na lógica de um internacionalismo marxista, mas antecipando a hibridez que os estudos pós-coloniais e o culturalismo colocaram no centro da discussão académica. Julgo que é referencial enquanto obra nascida do encontro do autor com as culturas angolana e moçambicana por via da interiorização destas e pelo processamento a que Lopes Barbosa as submeteu através do processo fílmico.
Daí surgiu um projeto a que deu a forma cinematográfica que lhe pareceu mais adequada para um encontro da sua sensibilidade criativa e dos não-atores com um público com uma cultura visual distinta, nunca antes visado como audiência específica de uma criação cinematográfica que não veiculasse a ideologia do Estado Novo.
Deixem-me ao Menos Subir às Palmeiras...é notável como híbrido: ponto de encontro das literaturas de territórios que têm em comum a fixação da desumanização  por via da colonização, encontro também com uma música que lhes sustenta a voz e a tradução da busca do melhor modo de expressão, em imagens, de ideias e emoções destinadas a partilhar com um público de sensibilidade não formatada pelos padrões ocidentais.
O seu «desalinhamento» corresponde a uma «marginalidade» do autor que, apesar de ter sido convidado para participar no ciclo sobre Cinema Novo que a Cinemateca organizou na década de 80, não fez nunca parte integrante da «margem ao centro».


Nenhum comentário:

Postar um comentário