sexta-feira, 15 de maio de 2020

MÁRCIA - A Traição e a Morte

                                                          


MÁRCIA

 A Traição e a Morte


Escrito por Lopes Barbosa
                                                                         
                                                                         
                        Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor
                                                   

                   Joaquim Lopes Barbosa INLDNº De REGISTO 6686/RLINLD/2018

   
                                                                  
  1

Um homem.
Um homem de pé, olhando: a praia, o mar. O mar está baixo, calmo, a estação indefinida, o tempo, lento.
O homem está em cima de um estrado de madeira, ao longo da praia.
Veste um fato sombrio. Tem um rosto distinto mas de linhas duras.
Os seus olhos são claros.
O homem não se mexe: olha.
O mar, a praia, há poças, superfícies isoladas de água morta.
O homem de pé, volta a cabeça e vê: um corpo de mulher, morto, boiando entre duas rochas do mar.
O corpo está seminu e cheio de escoriações. Foi maltratado antes de morrer.
O homem tem consciência de ter chegado tarde de mais. Nas condições em que actua chegar tarde é quase sempre uma fatalidade.
O homem, do lugar em que se encontra, de pé no estrado de madeira da esplanada do hotel, no limite da areia da praia, vê o corpo da mulher boiando na água do mar, entalado entre duas rochas. Sabe de quem se trata. Como sabe que já nada pode fazer.
Do sítio onde se encontra o corpo é pouco visível.
É de manhã. O dia mal rompeu. Há poucos banhistas na praia. Por esse motivo o corpo não foi ainda descoberto.
Não lhe compete a ele dar o alarme. Espera que alguém o faça. Ele só está ali porque chegou tarde. É um intruso. A sua missão, se tivesse chegado a tempo, teria sido tentar salvá-la.
Ela estava indefesa. E o Movimento sabia disso. Se nada fosse feito ela não teria forma de escapar. Seria eliminada. E foi o que aconteceu.
  
                                                                              2
  
O corpo da mulher, precisamente neste momento, acaba por ser descoberto. Quem o encontra é um servente do hotel que corre a dar o alarme.
Mas o alarme é dado de forma discreta. A gerência não quer que este acontecimento inusitado, na sua praia privativa, cause perturbação entre a clientela.
A sorte é que ainda é cedo para os hóspedes terem descido dos quartos e se fazerem à praia.                         
Quando a  polícia aparece, sem ter sido chamada, ainda há pouca gente a assistir à remoção do cadáver.  
Mas a gerência do hotel não pode deixar sentir um calafrio: como soube a polícia que estava um cadáver a boiar nas águas da sua praia privativa? Ninguém do hotel ainda tivera tempo de comunicar essa ocorrência e a polícia já estava ali! Será que tinha sido avisada por alguém que descobrira o cadáver mais cedo? E quem teria sido essa pessoa se a praia estava vedada à frequência de pessoas estranhas ao hotel?
Com a chegada da polícia, por estranho que pareça, também não vieram as perguntas incómodas: quem era a mulher morta? Se estava registada no hotel? Se estava só? E se acompanhada, quem era o acompanhante? Simples formalidades... Mas parecia que a polícia já estava na posse de todos esses elementos.
Além da polícia só o homem que tem estado a observar toda esta azáfama à distância pode responder.
Só que ele não o faz, por desnecessário.
A sua missão não é fornecer pistas à polícia.
Pelo contrário, quanto menos a polícia souber melhor.
Portanto, o homem retira-se de forma discreta, quase invisível. A sua presença naquele local deixou de ser necessária, pode mesmo tornar-se perigosa, para ele e para a organização.
E desaparece.
   
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 Márcia.
O nome da mulher morta era Márcia.
Mas não era um nome verdadeiro. Era um nome falso.
Como quase todas as mulheres que actuam no mercado do sexo os seus nomes verdadeiros nunca são revelados.
Márcia foi o nome que ela escolheu para dar ao homem que a foi procurar com um objectivo preciso, eminentemente político.
Só que isso, num primeiro tempo, não foi detectado, nem o podia ser nem por ela nem por ninguém. O que estava em jogo era demasiado importante. Os Serviços Secretos do Regime rodearam a operação de todo o secretismo. Não admitiam falhas.
Foram seleccionados os melhores agentes. Finalmente a operação recebeu um nome de código. Passou a chamar-se: HARAKIRI.
No princípio as acções foram conduzidas de forma discreta, quase invisível. Só que com o desencadear dos acontecimentos alguma coisa começou a transpirar. Tinha começado a haver gente demais envolvida.
Mesmo assim, os principais protagonistas, até à última hora, nada souberam do que lhes estava reservado como sorte.
Foi o caso daquela mulher, a prostituta, que nunca soube porquê foi escolhida para ser o pivot da operação.
Mulher que para aquele cliente, e por pura decisão alieatória resolveu chamar-se, Márcia.   
  
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 Márcia não era uma prostituta vulgar.
Podemos mesmo dizer que à época dos acontecimentos além de poder ser a prostituta mais famosa da cidade, senão mesmo do país, nada teria sido mais controverso do que admitir-se ter sido a escolhida para ser o alvo duma operação gigantesca de caça ao homem.
No passado, o porquê de Márcia ter aderido ao Movimento também ninguém sabia.
Mas as explicações que surgiram de imediato como as mais evidentes é que pudesse a estar ser usada pela polícia política para infiltrar no Movimento alguém da sua confiança.
Além das informações valiosas que pudesse passar para o exterior sobre as estruturas clandestinas, não estaria posta de lado inclusivé a possibilidade de poder seduzir alguém importante dentro do Movimento para na hora certa o  destruir.
É que uma mulher como aquela podia jogar em simultâneo em vários tabuleiros.
E uma vez que estava no auge da fama era de supor que se alguém a pudesse controlar podia tirar dessa circunstância inúmeras vantagens. Tanto o regime como o próprio Movimento.
No fundo foi essa ambiguidade que veio a trair o Movimento. E em simultâneo a perdeu a ela.  
Quem tem o poder de chamar até à sua cama uma  indiscriminada série de homens pode chamar aqueles que o regime tem interesse em investigar.
  
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Assim, a primeira reacção do Movimento foi não aceitá-la quando ela um dia lhes bateu à porta para se alistar.
As campinhas de alarme suaram com toda a força!
O primeiro momento foi de pânico. Aquela mulher era altamente perigosa sendo só simplesmente quem era!
Além do mais, o próprio regime podia estar a usá-la no sentido de a infiltrar nas fileiras do Movimento! E a primeira reacção foi não a aceitar sabendo de antemão que era um risco ter alguém dentro do Movimento que não era fácil de controlar.
Portanto a resposta foi um não categórico.  
Mas a partir de certa altura, mercê dos contactos que ela mantinha com elementos masculinos de proa do regime, que a procuravam no desempenho da sua actividade sexual, elementos esses que involuntariamente podiam ir deixando escapar determinadas informações preciosas que ela depois podia canalizar para o Movimento, mudou radicalmente a forma como o Movimento encarou a sua colaboração.  
Talvez razões sentimentais a tivessem motivado, mas o que é facto é que Márcia a prazo veio a aderir ao Movimento tornando-se finalmente uma operacional.
  
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Ela, Márcia, é uma mulher bela e graciosa. Sedutora mesmo. Não tem mais do que trinta e cinco anos de idade. Não é culta, mas é arguta. Quase uma felina. É elegante nos seus vestidos justos que lhe moldam o corpo. A sua cabeleira é farta e ondulada. Os lábios são carnudos, que o baton de cor vermelhada mais acentua a sua feminilidade. Com o treino a que foi submetida tornou-se uma operacional especial do Movimento de Guerrilha Nacionalista.
Ele, Teófilo, o acompanhante, pelo contrário, é um homem quase velho, de aparência severa, mas de compleição ainda atlética, hirto, profere palavras secas, quase ordens de comando.
Não é um personagem de ficção. É bem real. É outro operacional. Dos serviços secretos.
Ambos lutam em campos opostos. Cada um tem uma missão a cumprir. Mas só um deles sairá vencedor.
Tinham chegado ao hotel no dia anterior. Registaram-se como marido e mulher.
Era a mentira conveniente, para evitar perguntas desnecessárias. Ela não é um engate de ocasião dum presumível homem casado, cinquentão, com a parência de um banqueiro endinheirado, próximo dos centros de decisão. Do Poder. Pelo contrário: ele é um polícia frio, desapiedado, brutal.
Ela por sua vez é uma nacionalista sempre disposta presumivelmente a vender caro a sua pele  pela libertação do seu país.
Só que desta vez tem um handicap: não acautelou devidamente a protecção dos filhos e eles encontram-se sequestrados pela polícia política do regime à espera de serem moeda de troca se algo correr mal para o lado do regime.
Apesar de estar tudo praticamente decidido à partida, com a possível vitória quase garantida para um dos lados, nem por isso eles deixarão de empreender uma luta de vida ou morte para lograr atingir cada qual o seu objectivo.
Teófilo, o agente encarregado para chefiar a captura do agente estrangeiro da potência que dá cobertura militar à guerrilha e que entrou clandestinamente no país com o propósito de recolher informações, a sua captura passou a ser um trunfo valioso na troca por algumas cabeças da inteligência política do Movimento.
Por sua vez, Márcia como elemento escolhido pelo Movimento para recolher informações junto de gente importante do  regime, tanto do sector militar como do sector político, informações vitais sobre as futuras estratégias militares do exército colonial, tudo fará  para salvar os filhos nem que tenha de ir até ao limite: trair o Movimento.
No final só restará um vencedor: Teófilo.
Apesar da sua traição, Márcia não será poupada e será sentenciada à morte. Os seus filhos também irão morrer.
O seu sacrifício terá sido inútil.
A morte dos seus filhos passará a representar o preço dessa ignóbil traição aos ideais da revolução.
                                                                 
                                                                              
                                                                              7

É de noite.
Márcia quase completamente submersa pela água do mar, em agonia, sente que a vida se esvai.
Não tem qualquer hipótese de sobreviver. As pancadas a que foi sujeita, há umas horas atrás, desferidas pela coronha da arma de Teófilo, principalmente no rosto e no cránio, deixaram-na entre a vida e a morte.
Portanto, quando Teófilo a arrasta para a água, sabe que será ali que irá morrer. 
Quando Teófilo se afasta tenta pedir socorro mas da sua boca não sai qualquer som.
Os maxilares não lhe obedecem. A sua boca é uma massa viscosa de sangue e de dentes partidos. Uma névoa tolda-lhe o raciocínio.
O manto da morte desce sobre si.
Ainda que vagamente tenta reconstituir todo o trajecto até à sua captura.
Mas de que servia isso agora? Tinha perdido a batalha. Fora apanhada. E quando isso acontece, como sempre lhe disseram, não havia nada a fazer... ninguém viria salvá-la. Estava entregue a si mesma. Toda a operação fora um fiasco e a sua traição tinha sido inútil.
Pressentia agora  que os próprios filhos não seriam poupados E amaldiçoou-se.
Antes de sucumbir por completo, o seu último lampejo de lucidez não vai para a sorte dos seus filhos, que sabe que estão condenados, mas para o momento em que conheceu o seu assassino: Teófilo.
  
                                                                       8

Naquele dia fatídico, chove torrencialmente.
Teófilo toca à campainha instalada, na parte exterior, da porta principal de casa onde habita Márcia.
Aguarda uns momentos até a porta se abrir. Teófilo transporta consigo uma pasta de cabedal, de cor preta.
Zacarias, o mainato, vestido de certa forma cerimoniosa, abre a porta.
Só ele podia executar esse serviço de abrir a porta, bem ao estilo inglês, como se de um  verdadeiro mordomo se tratasse.
No entanto, esse serviço de porteiro não era o único que executava naquela casa. Simultaneamente era também motorista, estafeta e conselheiro da patroa.
Zacarias, abre a porta e faz a pergunta da praxe: - Boa tarde. Deseja falar com quem?
Teófilo: -  O meu nome é Teofilo e tenho hora marcada. Telefonei previamernte. A tua patroa espera-me.
Zacarias: -  Um momento.
E volta a fechar a porta. Teófilo aguarda no exterior.
Zacarias encontra-se numa pequena divisão, construida com a finalidade de não permitir o acesso imediato ao interior da casa para quem vem de visita, levanta o oscultador dum telefone que está pousado em cima de uma pequena mesa:
Zacarias: - o Senhor Teófilo já chegou. Posso deixá-lo subir? (Pequeno silêncio): - Concerteza, madame.  Vou encaminhá-lo...
E pousa o oscultador. Seguidamente abre a porta a Teófilo.
Zacarias: - Faz o favor de entrar. A madame espera-o.
Teófilo, esboça um sorriso, e entra nesse pequeno aposento.
Imediatamente a seguir, Zacarias abre uma segunda porta que dá acesso à grande sala de estar, e ambos entram nesse aposento decorado com requinte, próprio de gente abastada.
No lado esquerdo dessa sala existe umas escadas, em formato circular. No topo dessa escada existe uma nova porta que dá acesso aos aposentos de Márcia.
Zacarias: - Senhor Teófilo, a madame espera-o. Faça o favor de subir... – e indica-lhe as escadas.
Teófilo sobe as escadas, com o olhar atento de Zacarias e, transposto metade do trajecto, a porta abre-se e Márcia aparece envergando um roupão florido.
Espera que Teófilo se aproxime  e cumprimenta-o.
Márcia (com um sorriso nos lábios): - Como está?
Teófilo (arfando um pouco pelo esforço da subida): - Bem, obrigado. É um prazer conhecê-la.
Márcia: - O prazer é todo meu... – e dá-lhe a mão que Teófilo beija.
Márcia: - Vamos entrar?
Teófilo: - Com todo o prazer.
Entram no aposento. A porta é fechada nas suas costas.

                                                                    9

Teófilo e Márcia penetram no quarto, que é enorme, onde se vê uma cama majestosa e alguns sofãs.
Vários candeeiros acesos em cima das respectivas mesas estão distribuidos pelo quarto.  Há também quadros nas paredes. As cortinas das janelas estão corridas dando ao quarto uma certa penumbra. É um quarto acolhedor.
Márcia: - Como me descobriu?
Teófilo: - Tudo se descobre quando é grande a vontade de estar com alguém que está no auge da fama...
Márcia: - Fama? Refere-se a mim?
Teófilo: - Sem sombra de dúvida. É neste momento a pessoa mais famosa  da noite da cidade, madame. É assim que a tratam? Madame! Só se ouve falar de si. Qual é o seu nome verdadeiro, madame, posso saber?
Marta, sorri, ao mesmo tempo que se senta na cama, deixando que o roupão se abra
um pouco mostrando o principio das suas coxas.
Márcia: -  Acontece que tenho vários nomes. Tenho um nome para cada um dos meus clientes. Para si, por exemplo, qual seria o nome apropriado?
Teófilo: - Não faço a mais pequena ideia. Mas contentava-me com o do baptismo. Pode ser?
Márcia: - Esse está vedado. Na minha profissão usamos sempre um nome falso, uma espécie de nome de guerra, sabe disso, não sabe?
Teófilo: - Sim, é assim que todas procedem, tem sempre um nome falso. Pensei que no seu caso fosse diferente!
Márcia: - No fundo, acabamos por sermos todas iguais! O que nos distingue é o pedestal em que nos colocam. Pelo vistos, eu estou no topo!
Teófilo: - Não se faça de humilde. Não há homem que não fale de si, não digo todos os homens, mas um certo tipo de homem...
Márcia: - Um certo tipo de homem?
Teófilo: - Sim, os mais influentes, ou os mais ricos, por exemplo...
Márcia (soltando uma gargalhada): O Teófilo está bem informado! Teófilo, é assim que se chama, não é? Ou é um nome postiço como o meu?
Teófilo:- Não, o meu nome  é mesmo Teófilro. Posso mostrar-lhe a minha identificação!
Márcia: - Não é preciso, acredito em si.  Mas vamos deixar esta conversa da fama e do nome de lado. Mas se quer realmente um nome, o meu nome de guerra, é Márcia. Márcia, o que é que acha?
Teófilo: - Márcia, é um nome bonito.
E Márcia levanta-se da cama vem até junto de Teófilo. Ajeita-lhe as abas do casaco e, calmamente, abre-lhe o respectivo botão, ajudando-o o despi-lo.
Márcia (Com ternura): - Vamos despir este casaco para que se sinta mais á vontade...  Vamos pousar a pasta aqui... (E pega na pasta que Teófilo trás e pousa-a em cima de um sofã.)
 Márcia: - Quer beber alguma coisa, Teófilo?
Teófilo: - O que tem para beber?
Márcia: - Tudo. O que bebe usalmente, whisky?
Teófilo: - Sim, é a minha bebida preferida.
Márcia: -Com gelo? Simples? Com água?
Teófilo: - Com um pouco de gelo.
Márcia executa esta tarefa e entrega a Teófilo o copo, já com gelo. Para si, vai buscar um  martini. Erguem os copos.
Márcia: - Xin- Xin, ao nosso primeiro encontro.
Teófilo: - Xin- Xin.
Ambos bebem dos respectivos copos. Em seguida, Márcia delicadamente arrasta Teófilo para a cama e força-o a sentar-se nos pés da cama, sentando-se ela também ao seu lado. Passa-lhe as mãos pela cara, ternamente. Depois beijam-se com delicadeza, primeiro calmamente, depois um pouco mais acentuadamente.                                                                       

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Noite.
Praia. As ondas rebentam nas rochas onde o corpo Márcia continua a boiar, já sem vida.
Um homem de forma cautelosa aproxima-se do corpo.
Procura no pescoço o batimento da pulsação e constata que a mulher já não vive.
Afasta-se rapidamente, a coberto pela noite.  

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Márcia ajuda Teófilo a vestir o casaco.
Ele dá-lhe um beijo à laia de despedida, abre a porta do quarto e sai.
Teófilo: - Gostei de te conhecer, mereces a fama que tens...
Márcia: - És muito gentil, gostei também muito de te conhecer, Teófilo. Volta mais vezes...
Teófilo: - Hei-de voltar. Adeus.
E Teófilo sai do quarto, aparentemente, esquecendo-se de pegar na pasta que fica abandonada em cima do sofã. E desce as escadas em direcção à porta de saída.
Zacarias, abre a porta da rua para Teófilo passar, e volta a fechá-la após Teófilo abrir a porta do automóvel, estacionado frente à casa e sair dali, conduzindo-o rua a baixo.
No quarto, Márcia repara na pasta que Teofilo deixara esquecida em cima do sofa.
E resolve pegar nela, primeiramente, indecisa, depois com curiosidade para ver o que ela tem dentro. E abre-a. Os documentos que ela contem tem apenso um carimbo com a palavra: SECRETO.
Percorre um a um os vários documentos, analisa-os, e volta a colocá-los na pasta, fechando-a com as correias que a protege.
Depois mete-a dentro de uma outra bolsa larga, de estilo feminino.
Dirige-se até à casa de banho e toma um duche.
Depois de limpa, veste uma roupa, penteia-se, coloca um baton, pega na bolsa e sai do quarto. Desce as escadas e chama Zacarias:
Márcia: - Zacarias, vai buscar o carro. Preciso de ir à cidade.
Zacarias: - Muito bem, Madame.
E Zacarias sai pela porta da cozinha que dá acesso à garagem. Cruza-se com a empregada e diz-lhe:
Zacarias: - Venho já, vou levar a patroa à cidade.
Márcia (Entrando na cozinha): - Maria, o meu filho já chegou? E a minha filha?
Maria: - Ainda não, senhora.
Márcia: - Quando eles vierem, diz ao meu filho que não saia sem eu chegar.
Maria: - Muito bem senhora, direi.
E Márcia sai da cozinha pela mesma porta que Zacarias usou, que vai dar à garagem. Entra no carro , ocupando o banco detrás. Zacarias põe o carro a trabalhar e sai para o exterior da garagem.
Maria, fecha a porta da garagem e posteriormente abre o portão da casa por onde sai o carro conduzido por Zacarias.
Um carro de cor preta segue à distância o carro conduzido por Zacarias, fazendo o possível por não ser notado.

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Teófilo está de pé atrás da secretária, com o telefone na mão.
 Teófilo: - Agora só temos de esperar para ver o que acontece. Se o rato morde a isca, ou não?
E vai ouvindo atentamente o que lhe dizem do outro lado da linha.
Teófilo: - Muito bem, excelência. Lhe darei mais informações, desde que as disponha. (Pequeno silêncio): - Sim. Já temos gente atrás dela. (Pequeno silêncio): - Os procedimentos do costume. Está a ser seguida, como habitualmente fazemos. (Pequeno silêncio): - Se ela for quem suspeitamos, não escapa. Isso lhe posso garantir! (Pequeno silêncio): - Sim, volto a ligar depois. Obrigado.
E pousa o telefone no descanso. Vai até à janela do gabinete e olha para o exterior. Veste o casaco que está nas costas da cadeira e sai do gabinete.


                                                                    13

Zacarias conduz o automóvel e para junto da praça de taxis. Márcia sai do carro e entra num taxi que está estacionado. O taxi arranca, levando Márcia no interior e Zacarias dá volta ao automóvel que conduz e afasta-se em sentido oposto ao do taxi.
Márcia manda o taxi seguir até ao extremo da cidade, entrando na cidade de caniço e dá ordem ao motorista para parar junto duma casa feita de materiais precários e coberta de chapas de zinco, bem no meio de outras exactamente iguais. Paga ao motorista e diz-lhe:
Márcia: - Aguarde uns minutos que não demoro.
E sai do taxi, entrando no quintal da casa. Chama:
Márcia: - Vovó, vovó, posso entrar?
Uma mulher negra, de idade avançada, sai da casa e reconhece Márcia.
Vovó: - Ah? És tu, minha filha? O que te trás por cá?
Márcia (Abraçando e beijando a mulher negra): - Vovó, como está? Como tem passado?
Vovó: - Tenho passado bem, querida. E tu, como estás?
Márcia: - Eu estou bem. Mas vamos entrar, quero falar consigo.
E Márcia enlaça a mulher negra e ambas entram na casa.
  
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No interior da casa da mulher negra nada mais existe do que é habitual nas casas de pessoas pobres. Uma esteira no chão. Uma mesa e quatro cadeiras de plástico com aspecto de muito uso. Márcia senta-se numa das cadeiras e pede à velha que se sente na outra que fica à sua frente.
Márcia (Com voz sussurrada): - Vovó, sente-se. Não posso demorar muito. Por isso vou direita ao assunto. (Pequeno silêncio, e com voz ainda mais sussurrada): - Preciso de falar com o Chiquinho, com urgência. A Vovó encarrega-se de o mandar chamar?
A mulher Velha (arrastrando a voz, é quase inaudível, quando fala): - O Chiquinho, minha filha? Há muito tempo que ninguém lhe põe a vista em cima. Não sei como o contactar!
Márcia (Insistindo): - Vovó, é muito urgente. Preciso de contactá-lo, sem falta. O mais urgentemente possivel!
Vovó : - Vou ver se mando alguém á procura dele... Mas não sei se vai ser fácil. Há muito tempo que desapareceu. Dizem que fugiu porque a policia já andava com olho nele...
Márcia (Inquieta): - Não me diga? Eles descobrem tudo! Não é de estranhar! Isto está cheio de informadores! Quase que ninguem escapa! Até eu, já estou com medo! Um dia destes,  apanham-me! (E virando-se novamente para a velha): - Se alguem conseguir contactar o Chiquinho, digam-lhe que tenho uma coisa para lhe entregar. Se não for ele, que mande alguém de confiança vir ter comigo. (E escreve rápido num papel, o número de telefone): Que esse alguém me telefone.
E entrega à velha o papel com o número de telefone. A mulher negra, olha-a com olhar inquieto e acena sim com a cabeça.
Márcia (Levando-se agil da cadeira): - E agora, vovó, vou embora, rápido. Vir aqui  já foi uma imprudência!
E Márcia dá um beijo à velha e sai da casa. Entra no taxi e este arranca. Ao tentar dar a volta apertada na rua  estreita, o caminho é barrado por outro  carro preto. Do seu interior, saiem dois homens que retiram Márcia violentamente de dentro do taxi e a mentem à força no carro. Este arranca de imediato, deixando para trás o taxi imobilizado sem qualquer reacção do motorista.                                                                      

                                                                          15

Zacarias, entra na igreja e deposita as flores aos pés do altar onde está exposta a Virgem Maria. O padre aproxima-se vindo da sacristia.
Padre: - Não custumo ver-te aos domingos! Porque não vens à igreja, Zacarias?
Zacarias: - Mas eu venho à igreja todas as semanas, senhor padre, nao me vê aqui?
Padre: - Nao falo nos dias da semana, falo aos domingos, que é o dia mais importante para se vir à igreja...
Zacarias: - Não tenho tido muito tempo, senhor padre, mas sempre apareço quando venho colocar as flores. Nessas alturas aproveito para rezar.
Padre: -  As flores continuam a ser mandadas pela tua patroa?
Zacarias: - Sim, é ela que faz questão que o altar da Virgem Maria tenha sempre flores aos seus pés.
Padre: - Grande penitência. A tua patroa deve ser uma grande pecadora para estar a tentar redimir a sua alma através desse gesto! Mas como Deus vê tudo, possivelmente, não lhe vai servir de muito! Quem chafurda na podridão não pode ser perdoado!
Zacarias: - Senhor padre, sempre ouvi dizer que Deus perdoa os nossos pecados quando é sincero o nosso arrependimento?
Padre: - O que não deve ser o caso da tua patroa! Ainda não a vi arrepender-se da vida que leva!
Zacarias: - Mas a minha patroa nao faz mal a ninguém!
Padre: - Faz mal sim: pratica actos que são condenados por Deus e pela sua igreja. Sabes muito bem a que me refiro?
Zacarias: - Senhor padre, eu não sei nada. Limito-me a cumprir o meu trabalho. Um deles é depositar flores aos pés da virgem Maria.
Padre: - Isso não serve de nada. Já estou enjoado de ver tantas flores. Um dia destes não te deixo entrar.
Zacarias: - O senhor padre não pode fazer isso. A igreja é a casa de Deus  e deve estar aberta a todos. Não é isso que está escrito?
Padre:- Tu sabes lá o que está escrito! Estou a dizer-te que, talvez, da próxima, não entres.
Zacarias: - Se o senhor padre não me deixar entrar, deixarei as flores à porta da igreja...
Padre: - Não ouses enfrentar-me, rapaz! Basta uma palavra  minha e tu levas sumisso! Sabes o que estou a dizer? Sabes? Que desapareces, como o fumo. Por isso, quero-te aqui no próximo Domingo. Da tua patroa, encarregamo-me dela, depois!

E vira costas a Zacarias e desaparece no interior da igreja. Zacarias fica só. Depois vai depositar as flores no altar da virgem e a seguir sai da igreja.

  
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Os dois agentes da PIDE que tinham interceptado o taxi onde seguia Márcia, entram no gabinete trazendo Márcia algemada. Fazem-na sentar numa cadeira que está próxima duma mesa colocada do meio do gabinete.
AGENTE 1 (ao mesmo tempo que lhe dá uma valente bofetada): - E agora princesa, vais vomitar tudo o que sabes.
Teófilo entra no gabinete.
Teófilo: - A gaja já disse alguma coisa?
AGENTE 1: - Ainda não, mas vai dizer... Não é querida? Vais ou não dizer aquilo que precisamos de saber?
Teófilo: - E antes que te engasgues tenho uma coisa para te mostrar.
E Teófilo dirige-se até uma das paredes e carrega num botão. A parede perde a sua aparência opaca e converte-se num espelho. Do outro do espelho, que separa o gabinete da outra sala, estão dois agentes que agarram duas crianças adolescentes, um rapaz e uma rapariga, filhos de Márcia. Estes, da sala onde se encontram, não podem ver o gabinete onde está Márcia, mas Márcia pode vê-los.
Márcia (Entrando em aflição): - O que vão fazer aos meus filhos?
Teófilo (Acionando de novo o botão, desligando a aparente luz): - Tudo vai depender de ti e da forma como vais colaborar connosco (E cinicamente, agarrando-lhe o queixo):- Não é verdade, princesa?
Márcia: - Mas o querem de mim? Porque me trouxeram para aqui?
Teófilo: - Não te faças de inocente, estupor! Conhecemos muito bem a tua vida! Não é verdade que colaboras com a força da guerrilha que tenta dizimar a nossa tropa?
Márcia: - Não sei do que falam... Força da guerrilha! O que quer isso dizer?
Teófilo (Dá-lhe uma forte chapada na cara): - Filha da puta, não nos faças perder tempo! Sabemos muito bem quem tu és e o que fazes, para além de seres uma reles prostituta!
Márcia: - Vocês estão equivocados! Não estou de maneira nenhuma ligada a qualquer organização subversiva!
Teófilo: - Ah sim! Estão explica-nos o que foste fazer à casa daquela velha onde te apanhamos?
Márcia: - Aquela velha é minha familiar, uma espécie de avó, por parte de minha mãe!
Teófilo (Bufando de raiva):- Então essa velha também está fodida, se não colaboras connosco! Vão os teus filhos para o caralho conjuntamente com a merda da velha! Estás disposta a falar ou não?
E prega-lhe outra sonora bofetada, ou mesmo tempo que volta a carregar no botão, voltando a ver-se de novo os filhos de Márcia, que continuam na sala agarrados pelos dois agentes. Na sala onde se encontram não chega nenhum som proveniente do gabinete onde se encontra Márcia.
Teófilo: Pela última vez, estás disposta a falar ou não?
E faz sinal aos dois agentes que se movimentam colocando-se ao lado de Márcia. Um deles dá um pontapé na cadeira onde Márcia está sentada, derrubando-a, fazendo com que Márcia caia no chão. O outro agente, aproveita para pontapeá-la. Márcia geme de dor. O primeiro agente puxa-a pelos cabelos e volta a sentá-la na cadeira.
Teófilo: - Só estamos a começar...
Márcia (Com os cabelos em desalinho e com um fio de sangue saindo-lhe de um dos lábios): - Mas eu nao sei nada... juro.
Teófilo (Virando-se para um dos agentes): - Vai buscar a rapariga, talvez dessa forma ela fale.
E o agente visado sai do gabinete. Poucos segundos depois volta a entrar trazendo a filha de Márcia, agarrada por um braço. Esta ao ver a mãe sagrando, dá um grito e tenta aproximar-se de Márcia, mas o agente não deixa que chegue perto dela.
Filha (Gritando): Mãe... mãe... ( E tenta libertar-se das mãos do agente, sem o conseguir).
Márcia (reagindo): - Filhos da puta, não vão conseguir o que querem...
O agente que segura a filha de Márcia, retira do coldre uma pistola e aponta-o à cabeça da rapariga.
Teófilo: - Ou falas agora, ou não voltas a ver esta preciosidade...
Márcia (Chora, convulsamente e grita): - Filhos da putas... filhos da puta...
O agente que segura a filha de Márcia, destrava o detonador da arma, engatilhando-a, ouvindo-se bem o ruído que esse dispositivo faz.
Teófilo: - Vou contar até três, filha da puta! Estás a entender bem o que vai acontecer á tua filhinha? Vamos lá à contagem: Um... (silêncio na sala, só se ouvindo o choro de Márcia): – Dois...
Filha de Márcia (Gritando): - Mãe...
Márcia (Gritando, igualmente): - Tiram-na daqui...
Teófilo: - Vais falar?
Márcia: - Tiram-na daqui...
Teófilo (Faz sinal ao agente que se retira do gabinete levando a rapariga, que continua chorando): - Assim é que eu gosto, não nos deixarmos arrastar para as inutilidades, para o desperdício... Tão jovem para morrer! Um, dois três... como é linda esta canção: um, dois, três... Fizeste bem minha querida! Entendeste perfeitamente o alcance desta partitura. Um. dois, três. Que bonito! Mas agora vamos ao que interessa: quem é esse Chiquinho que foste procurar e que lugar ocupa na organizaçao? Vamos lá outra vez: um, dois, três...
Márcia: - O lugar que ocupa não sei, só sei que se chama chiquinho.
Teófilo (Rindo-se): - Não me canses, querida, isso é treta. Quero muito mais do que isso... Muito mais.  Vamos, novamente: um, dois, três...
Márcia: - Não sei mais nada, juro. Chiquinho é o nome que me deram quando precisasse de contactar com o Movimento.
Teófilo: - Ah, agora já falas do Movimento! Linda menina, assim é que eu gosto! E a velha da casa, a tua pretensa avó, o que é ela dentro d0 Movimento?
Márcia: -  Não é nada, não sabe de nada...
O agente que tinha saído com a filha de Márcia, volta a entrar no gabinete.
Teófilo: - Tudo o que nos tens estado a dizer não vale nada. Parece que temos de ser menos benevolentes...
Um dos agentes dá-lhe duas bofetadas violentas. Márcia chora de dor.
Teófilo: - Já vistes o que pode acontecer aos teus filhinhos se não abres as goelas?
Márcia (Cede): - Ok! Há mais três nomes: Luis, José e Ngwenya. E a partir daqui não sei mais nada.
Teófilo: - Quem são esses e que lugar ocupam na rede?
Márcia: - Que lugar ocupam, não sei. O chiquinho falou-me deles de passagem, sem grande relevância. Nâo sei se fazem parte de qualquer célula. Só sei o que fazem para sobreviver: um pinta quadros, outro trabalho num jornal e o terceiro escreve histórias.
Teófilo: - Jornalista, pintor e poeta... Que fauna! (E voltando-se para o agente 1): - Vai ver o que consta nos arquivos, se temos alguém referenciado com este tipo de perfil.
O agente 1 sai do gabinete.
Teófilo: -  Minha querida, reza para que tudo bata certo... (E sai do gabinete, ficando somente o agente 2 a guardar Márcia).

                                                                                                                            
                                                                  17

Teófilo regressa ao gabinete onde Márcia se encontra.
Teófilo: - Vamos ser claros! Se queres que os teus filhos sobrevivam temos uma tarefa para ti! A pasta que eu deixei em tua casa, e que tu prontamente tentaste passá-la para o Movimento, está de novo na nossa posse! Não sei se te apercebeste do que essa pasta contém?
Márcia: - Não, nem a abri! Não sei o que contém!
Teófilo: - Mentira, sabes muito bem o que contém!
Márcia: - Juro! Não faço ideia do que ela tem dentro!
Teófilo: - Ok, façamos de conta que é verdade o que tu dizes! No entanto, tentaste entregá-la ao teu comparsa, esse famoso Chiquinho, que para já ninguém se sabe onde se esconde! Mas vamos apanhá-lo brevemente! O plano é o seguinte: vais de novo à procura dele, desta vez à vontade sem receio de estares a ser seguida! Estás debaixo da nossa alçada! Mas queremos que procedas exatamente como estivesses a ser seguida, como fizeste da primeira vez! Só que desta vez terás todo tempo necessário até encontrares esse tal Chiquinho! Queremos que entregues essa pasta a ele ou alguém que o Movimento mande ao teu encontro para esse efeito! Estás a entender? A tua missão é só essa: fazer com que a pasta chegue às mãos do Movimento!   
Márcia: - E para quê?
Teófilo: - Para quê, não é do teu interesse! Basta saberes que terás de entregar a pasta a alguém que venha ao teu encontro! É muito importante que procedas de uma forma a não levantar suspeitas! A pasta foi roubada por ti e tem de chegar às mãos do Movimento, de preferência à chefia máxima! Estás a entender?
Márcia: - Não.
Teófilo: - Oh, grande merda! Não me facas enervar! A puta da pasta tem de chegar à mãos do Movimento! É claro como água e tu vais proceder exatamente como eu estou a ensinar-te, senão estás fodida... conjuntamente com os teus filhos! Mas será que tu no entendes uma coisa tão simples? A pasta tem de chegar até à Tanzânia para ser analisada pela chefia do Movimento! A partir daí não serás mais necessária: serás solta e teus filhos te serão entregues saudáveis e vivinhos da costa! Estás a entender minha querida?
Márcia: - Não vão acreditar em mim!
Teófilo: - Quem não vai acreditar em ti?
Márcia: - A malta do Movimento! Vão achar tudo muito estranho! Como chegou a pasta às minhas mãos? Eles não são burros ao ponto de pensarem que eu tive capacidade de roubar uma pasta recheada de documentos secretos! Há qualquer coisa que não bate certo! Como a maldita pasta veio ter às minhas mãos será a primeira coisa que vão perguntar! E eu vou responder o quê?

Teófilo e os agentes entreolham-se. Márcia tinha colocado uma questão pertinente. Como ser convincente numa matéria tão delicada?

Continua...

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