O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (6)
Exercício de memória episódico e crepuscular
Que vergonha!
Sentado em cima do
muro, continua a alimentar a ficção de ser pessoa importante, que efetivamente
não é, que nunca seria atingido por nada de grave que pudesse pôr em risco a
sua vida, estando assim fadado a ser invulnerável às agruras da vida!
Mas que vida?
Que raio de vida ele
teve nessa caminhada que começou muito lá para trás?
Se ele fosse capaz de
reflectir – o que não é o caso – o que ele encontraria seria uma sucessão
infindável de fugas para a frente, na esperança vã de fugir às dificuldades que
inevitavelmente a vida lhe colocou para ele poder somente sobreviver!
E disto tudo o que
resultou?
Simplesmente o
adiamento dum sofrimento, que poderia ter sido bem maior se ele não tivesse
tido a habilidade de enganar as carências de que era depositário!
Oriundo de uma família
de baixos recursos, não lhe foi permitido estudar para além da fase primária e
mesmo matriculado no ensino noturno nunca demonstrou o mínimo de vocação para a
aprendizagem das matérias desse ensino secundário, por as considerar uma grande
inutilidade! O autodidatismo tornou-se a matéria-prima do seu conhecimento!
Depois o que fez?
Foi enganando as suas
falsas bases com golpes essencialmente de sorte e finalmente, hoje, na velhice,
compreende que o tempo dos malabarismos para enganar a vida chegou ao fim!
Pelo caminho ficou uma
série interminável de lugares comuns, uma porrada de histórias malogradas, que
fundamentalmente se cristalizaram na impossibilidade de constituir uma família
sólida, a falta de um reconhecimento sincero dos seus falhanços onde o amor
esteve sempre ausente, filhos não amados, mulheres desprezadas, que nalguns
casos lhe salvaram a vida, a falta de bondade para com essas pessoas que
tiveram a inocência e a força de o amparar quando ele estava no fundo, a
vertigem com que ele viveu uma vida de aventureiro em fuga essencialmente a um destino
que ele pressentia cáustico se não abraçasse a irreflexão que fazia de si um
ser alienado!
Como corolário dessa
vida desditosa o que lhe resta hoje?
As saudades de não
poder regredir no tempo e corrigir com paciência as insuficiências que fizeram
de si um ser incompleto e frágil!
Pensa essencialmente
nas mães dos seus filhos, que ele largou na berma da estrada, e ouvindo o seu
coração que hoje palpita finalmente de forma honesta, um pedido de perdão pelos
crimes que cometeu sobre seres frágeis atravessa-lhe as entranhas,
estando aí desnudos os corpos dos seus filhos igualmente indefesos, um misto de
terror e de perplexidade abala-o!
O que fazer então
perante factos consumados?
Pedir perdão não
basta, é preciso ir mais longe para compensar a profunda tristeza de não ter
visto os seus filhos e filhas crescerem, não lhes ter dado a mão quando
precisaram, não os ter beijado e abraçado quando o nascimento do afecto brotava
e era reconhecível nos seus olhares doces, tudo isto foi negado pela sua fuga!
E hoje como compensar
tudo isto?
Haverá perdão para
tamanha cobardia?

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