segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS

                                               O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (6)

Exercício de memória episódico e crepuscular


            Por: Lopes Barbosa

Que vergonha!

Sentado em cima do muro, continua a alimentar a ficção de ser pessoa importante, que efetivamente não é, que nunca seria atingido por nada de grave que pudesse pôr em risco a sua vida, estando assim fadado a ser invulnerável às agruras da vida!

Mas que vida?

Que raio de vida ele teve nessa caminhada que começou muito lá para trás?

Se ele fosse capaz de reflectir – o que não é o caso – o que ele encontraria seria uma sucessão infindável de fugas para a frente, na esperança vã de fugir às dificuldades que inevitavelmente a vida lhe colocou para ele poder somente sobreviver!

E disto tudo o que resultou?

Simplesmente o adiamento dum sofrimento, que poderia ter sido bem maior se ele não tivesse tido a habilidade de enganar as carências de que era depositário!

Oriundo de uma família de baixos recursos, não lhe foi permitido estudar para além da fase primária e mesmo matriculado no ensino noturno nunca demonstrou o mínimo de vocação para a aprendizagem das matérias desse ensino secundário, por as considerar uma grande inutilidade! O autodidatismo tornou-se a matéria-prima do seu conhecimento!

Depois o que fez?

Foi enganando as suas falsas bases com golpes essencialmente de sorte e finalmente, hoje, na velhice, compreende que o tempo dos malabarismos para enganar a vida chegou ao fim!

Pelo caminho ficou uma série interminável de lugares comuns, uma porrada de histórias malogradas, que fundamentalmente se cristalizaram na impossibilidade de constituir uma família sólida, a falta de um reconhecimento sincero dos seus falhanços onde o amor esteve sempre ausente, filhos não amados, mulheres desprezadas, que nalguns casos lhe salvaram a vida, a falta de bondade para com essas pessoas que tiveram a inocência e a força de o amparar quando ele estava no fundo, a vertigem com que ele viveu uma vida de aventureiro em fuga essencialmente a um destino que ele pressentia cáustico se não abraçasse a irreflexão que fazia de si um ser alienado!

Como corolário dessa vida desditosa o que lhe resta hoje?

As saudades de não poder regredir no tempo e corrigir com paciência as insuficiências que fizeram de  si um ser incompleto e frágil!

Pensa essencialmente nas mães dos seus filhos, que ele largou na berma da estrada, e ouvindo o seu coração que hoje palpita finalmente de forma honesta, um pedido de perdão pelos  crimes que cometeu sobre seres frágeis atravessa-lhe as entranhas, estando aí desnudos os corpos dos seus filhos igualmente indefesos, um misto de terror e de perplexidade abala-o!

O que fazer então perante factos consumados? 

Pedir perdão não basta, é preciso ir mais longe para compensar a profunda tristeza de não ter visto os seus filhos e filhas crescerem, não lhes ter dado a mão quando precisaram, não os ter beijado e abraçado quando o nascimento do afecto brotava e era reconhecível nos seus olhares doces, tudo isto foi negado pela sua fuga!

E hoje como compensar tudo isto?

Haverá perdão para tamanha cobardia?

 



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