terça-feira, 2 de abril de 2019

A VIÚVA DO EXPRESSO DO ORIENTE Capítulo 2 (Continuação)



Escrito por Lopes Barbosa



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E depois de tudo isto, eu quem sou?
Nem eu sei responder, devidamente, a esta questão.
Sei que de momento já me encontro na casa dos quarenta!
Muito tempo, pouco tempo! Tudo relativo! Se me perguntarem se gosto da minha vida, acabarei por responder, com sinceridade, não gostar!
É uma vida adiada porque foi sempre uma vida protegida!
Minha mãe se encarregou de a moldar desta maneira!  
Sempre foi a minha sombra tutelar!
Por tal motivo, e uma vez que não teve mais filhos dos vários casamentos que realizou, eu acabei por herdar tudo aquilo que estaria disponível para outros filhos se ela os tivesse tido!
Assim, com quase tudo a mais ao meu dispôr, eu acabei por me converter num inútil!
É claro que me engano a mim próprio porque descubro ou invento, para iludir o tédio, uma séries de actividades que acabam por ser inócuas mas vão preenchendo as intermináveis horas de que disponho dentro do casulo que é comboio onde habito!
O que faço nesse tempo?
Desenho, pinto, fotografo e escrevo!
Podem dizer que com essas janelas abertas ao meu dispôr bastaria talvez um pouco de talento da minha parte para fazer do meu dia-a-dia um preenchimento, por que não, exemplar!
Renda não pago, comida para me suster - não preciso de fazer seja o que for para conseguir dividendos para suprir essa necessidade -, dinheiro para comprar materiais também não me falta!
Falta então o quê?
Talvez outras condições para eu poder sentir-me motivado a produzir qualquer coisa que tenha valor real!
Mas, perguntarão? Com todas essas condições porque não surge então, nem que sejam uns gatafunhos, para justificar minimamente o que me dão de mão beijada?
Bem, dentro do possível, eu lá vou fazendo alguma coisa!
A minha carruagem está repleta de mamarrachos, é assim que rotulo o que produzo: tenho telas pintadas, fotos expostas como se estivessem numa galeria e quanto a escritos, tenho imensas folhas impressas que organizo como se fosse um diário!
Portanto, produção não falta!
Falta então o quê para que eu valorize todo esse material!
Ter vontade somente de o valorizar. Nada mais do que isso?
Talvez!
Talvez o que esteja a faltar seja eu ter uma espécie de agente literário ou artístico que chame até si a incumbência de tentar comercializar todo esse material!
Por exemplo:
Ainda agora neste momento releio o que acabei de organizar como uma possível resposta a um tema que reputo de algum interesse. A resposta de Buda dada aos não crentes, trânscrito dum livro, a si dedicado (1):  
“... – Uma coisa, Ó venerável, apreciei acima de todas as outras na tua doutrina. Tudo nos teus ensinamentos é perfeitamente claro e demonstrado; como uma cadeia perfeita, ininterrupta, mostras o mundo como uma cadeia eterna, composta de causas e de efeitos. Nunca foi isso visível de forma tão clara, nunca apresentado de forma tão irrefutável; o coração dos brâmanes certamente baterá mais depressa quando, através dos teus ensinamentos, virem o mundo como uma continuidade, perfeita, sem falhas, clara como o cristal, não dependente do acaso, não dependente  dos deuses. Se isso é bom ou mau, se a vida é dor ou alegria, são questões que podem continuar em aberto, talvez não sejam importantes – mas a unidade do mundo, a continuidade de todos os acontecimentos, a coexistência de todas as coisas grandes e pequenas na mesma torrente, na mesma lei das causas, da mudança e da morte, isso fica claro na tua sublime doutrina, ó Ser Perfeito. Mas então, segundo os teus próprios ensinamentos, esta unidade e esta continuidade de todas as coisas são quebradas num ponto, através de uma pequena falha corre para este mundo da unidade algo estranho, algo novo, algo que não existia anteriormente e que não pode ser visto ou demonstrado: é a tua doutrina da derrota do  mundo, da libertação. Mas com esta pequena falha, com esta pequena fractura, todas as leis eternas e unas do mundo são também destruídas e abolidas. Perdoa-me por fazer estes reparos.
Gotama ouviu-o silenciosamente, quieto. Com a sua voz bondosa, delicada e clara o Perfeito disse:
- Tu ouviste a doutrina, ó filho de brâmane, e ainda bem que tão profundamente reflectiste sobre ela. Encontraste nela uma falha, um erro. Que possas continuar a reflectir sobre ela, Deixa-me, contudo, avisar-te, a ti que és àvido de saber, acerca do problema das opiniões e das disputas sobre palavras. Nada se encontra nas opiniões, podem ser belas ou feias, inteligentes ou imprudentes, qualquer um pode aceitá-las ou refutá-las. Mas a doutrina que de mim ouviste não é uma opinião e o seu objectivo não é explicar o mundo aos que são ávidos de saber. O seu objectivo é outro, o seu objectivo é a libertação do sofrimento. É isto que Gotama ensina, nada mais.
- Não fiques zangado comigo, Ó Sublime – disse o jovem.
- Não te falei nestes termos para procurar uma disputa contigo, uma disputa sobre palavras. Tens de facto razão, pouco se encontra nas opiniões. Mas permite que eu diga ainda isto: nem por um instante duvidei de ti. Nem por um instante duvidei que és o Buda, que alcançaste o Objectivo, o mais elevado, aquele que tantos milhares de brâmanes e de filhos de brâmanes perseguem. Encontraste a libertação da morte. Conseguiste-o pela tua própria procura, pelo teu próprio pé, através da reflexão, da meditação, do conhecimento, da revelação. Nada conseguiste através de doutrinas!
E – é isto o que eu penso, ó Sublime – ninguém conseguirá a libertação através de doutrinas! Com ninguém, ó Venerável, conseguirás partilhar e dizer o que te aconteceu na hora da tua iluminação! Os ensinamentos do Buda iluminado contém muitas coisas, ensinam muitas coisas, a viver com honradez e a evitar o mal. Mas uma coisa esses ensinamentos tão claros, tão veneráveis, não contêm: não contêm o segredo daquilo que o Sublime viveu, ele, o único entre centenas de milhares. Foi isto que eu pensei e compreendi ao escutar a tua doutrina. Esta é a razão pela qual prossigo a minha  peregrinação – não para procurar uma doutrina diferente e melhor, pois sei que tal não existe, mas para abandonar todas as doutrinas e todos os mestres, para alcançar sozinho o meu objectivo ou para morrer. Mas muitas vezes recordarei este dia, ó Sublime, e esta hora, em que os meus olhos viram um santo.
Os olhos do Buda olharam calmamente para o chão, o seu rosto imperscrutável irradiando perfeita serenidade.
- Que os teus pensamentos – disse o Venerável lentamente – não estejam esganados!
Que tu possas alcançar o teu objectivo! Mas diz-me: viste os meus samanas, os meus muitos irmãos que adiriram à doutrina? E crês tu, samana distante, crês que seria melhor para todos eles abandonarem a doutrina e regressarem à vida do mundo e dos desejos?
- Tal pensamento nunca ocorreu – exclamou Siddhartha. – Que todos eles possam permanecer na doutrina, que todos possam alcançar o objectivo! Não me compete opinar sobre uma outra vida! Somente sobre mim, apenas para mim devo julgar, devo rejeitar algo! Nós, samanas, procuramos a libertação do Eu, ó Sublime. Se eu continuasse a ser um dos teus discípulos, ó Venerável, receio que apenas na aparência, apenas falsamente o meu Eu se aquietaria e se libertaria, mas que na realidade sobreviveria e cresceria, pois eu teria unido ao meu Eu a tua doutrina, a minha fidelidade, o meu amor por ti, a comunidade dos monges!
Com meio sorriso, com uma luminosidade e cordialidade não abalada, Gotama fitou o estranho e despediu-o com um gesto quase imperccptível.
- És inteligente, samana – disse o Venerável. – Falas com inteligência, meu amigo. Acautela-te contra o excesso de inteligência!
O Buda afastou-se, e o seu olhar e meio sorriso ficaram para saempre gravados na memória de Siddhartha. “Nunca vi um homem olhar e sorrir, sentar-se e caminhar desta maneira – pensou -, quem me dera poder também olhar e sorrir assim, sentar-me e caminhar assim, tão livre, tão venerável, tão secreto, tão aberto, tão ingénuo e cheio de segredos.
Na verdade, só o homem que penetrou nas profundezas de si mesmo consegue olhar e caminhar assim. Mas também eu tentarei penetrar nas profundezas de mim mesmo”
“Vi um homem – pensou Siddhartha -, um único, perante quem tive de baixar os meus olhos. Não voltarei a baixar os meus perante nenhum outro, nunca mais.
Nenhuma outra doutrina me seduzirá, uma vez que a doutrina deste homem não o conseguiu”.     


Fecho o manuscrito e coloco-o na cadeira vazia ao meu lado.
“Não voltarei a baixar os meus olhos perante nenhum outro!” Era isso que eu teria também de fazer. Não baixar o meu olhar perante nada, nem ninguém!
Porque o fazia, hoje?
Falta de amor próprio? Falta de confiança? Falta de vontade de viver, de me afirmar?
Um pouco de tudo isso!
Estaria na hora de dar uma reviravolta à minha vida?
E de que maneira?
Ainda não o sei.
Mas no essencial terei de começar a valorizar o que faço, banir o conceito de que só o faço para preencher o tédio da minha vida, mesmo que o que faça com desprazer, com a mesma falta de vontade “com que rasguei o ventre de minha mãe”, como dizia José Regio no seu Cântigo Negro!



Levanto-me e vou espreitar pela janela a paisagem que desaparece veloz à medida que o comboio galga léguas atrás de léguas!
Acendo o cachimbo.
E de novo sento-me, desta vez numa das poltronas que tem vista para o exterior.
Coloco uns óculos escuros e recosto-me melhor na poltrona.
Fecho os olhos.
Parece que sonho acordado!

O comboio não me leva a nenhum lado que já não conheça de cor e salteado!
Há quantos anos vivo desta maneira?
Exactamente , há um ano e poucos meses!
E estou farto!
Penso mudar! Mas como?
Ninguém com quarenta e tal anos pode empreender uma mudamça radical de uma vida que está cem por cento formatada!
Assim, será mais realista pensar devidamente antes de arriscar algo que possa dar para o torto!
O que me falta?
Talvez uma mulher?
Porque não?
O que faço, hoje, para aliviar as tensões a que estou sujeito?
Masturbo-me! Um vez, várias vezes! Quase que passa a ser um vício!
 
 Houve um período em que quase enchi a minha carruagem com mulheres de várias nacionalidades e proveniências.
Mas a coisa não resultou!
A certa altura, e à medida que iam se decepcionando, várias foram desertando quando concluiam que aquela aventura com um homem quarentão, com algumas posses, é óbvio, mas excêntrico, pensando bem, não lhes garantia nada por aí além, uns quantos e poucos trocados em dinheiro vivo, é verdade, mas nada que elas não conseguissem nas suas profissões de mulheres que vendem prazeres à hora!

As viagens de sonho por uma Europa fora afinal não passava de pura propanganda do seu mentor, eu!
 

                                 O comboio finalmente chega ao término da viagem.
Istambul.
Resolvo sair
Aviso minha mãe que vou ficar na cidade até que o comboio volte na próxima viagem.
Decidi tirar umas férias, fazer um interregno daquele inferno!
Minha mãe, acaba por compreender as minhas razões! Uma vida daquelas acaba por se tornar insuportável!
Dito e feito: faço as malas, apanho um taxi e vou directo ao hotel onde me hospedo.

A malta do hotel já me conhece, não é a primeira vez que lá fico. Mas desta vez vai ser por um período bastante mais longo.


(1) Siddhartha, de Herman Hesse

segunda-feira, 25 de março de 2019

A VIÚVA DO EXPRESSO DO ORIENTE Capítulo 1






A VIÚVA DO EXPRESSO DO ORIENTE


Escrito por Lopes Barbosa






Minha mãe é uma mulher excêntrica, talvez uma das mais excêntricas que possam existir à face da terra.
Herdeira de uma colossal fortuna, que herdou dos vários homens com quem se casou, acumulou, com as suas mortes, esse património a que faço referência.
Mas não se trata de nenhuma viúva-negra -  gémea daquela que determinada literatura imortalizou -  a tal que matava os maridos para posteriormente lhes sugar a fortuna.
Não, não se trata dessa personagem; no entanto, não ponho as mãos no fogo por uma conduta da sua parte cem por cento correcta com os seus ex., apesar de todos os registos da história da sua vida apontarem nesse sentido.
Sem me querer comprometer, mas à luz da verdade não posso deixar de tomar partido a seu favor, e dizer que, apesar de não ser santa, minha mãe sempre pautou a sua conduta por um quadro de valores onde no topo imperou a lealdade.
É isso, minha mãe podia ter defeitos mas se os tivesse tinha arte de os enconder.
No entanto, trair alguém que ela considerasse como amigo penso que isso era algo impossível de ser concretizado por si.
Assim, e a reafirmar esse tipo de valor, a capa de esposa fiel
  que sempre ostentou apagava qualquer mancha que pudesse escorrer do seu comportamento e essa fidelidade, aparente ou cem por cento verdadeira, grangeou-lhe um património que é hoje o bastião económico que ela gere de forma principesca.
Mas se me perguntarem se conheço bem a mulher que me pôs no mundo a minha resposta é um rotundo não.
Sim, decididamente, não conheço a minha mãe: há muitas zonas de penumbra na sua personalidade que me impossibilitam de a conhecer, verdadeira e completamente.
Se é que é possivel alguém poder conhecer alguém na sua total plenitude!
Assim, limito-me a dizer que a única mulher que continuo desesperadamente a tentar conhecer - como prisioneiro de um esteriótipo de investigador que nunca alcança o objecto da sua investigação -  é ela, a minha mãe, esse ser misterioso que parece cavalgar as núvens com a mesma facilidade que os restantes mortais pisam a terra.

Presentemente, damos corpo - ou melhor, ela dá corpo porque eu limito-me a segui-la como um cão amestrado -  à sua última grande excentricidade e que passo descrever de forma sucinta:
a nossa casa passou a ser o comboio chamado de grande velocidade: o TGV.

Nem mais!, vivemos, ou melhor arrastamos a nossa existência lunática, e porque não sonâmbula, fabulosa mas também medíocre, no
interior de um desses comboios que circulam pela Europa fora, como já disse, a grandes velocidades que chegam a atingir os 250 kilómetros por hora!
Uma das carruagens é dela, ou melhor é exclusivamente nossa, porque é aí que habitamos e principalmente é aí que ela dá vazão aos seus sonhos megalómanos e incongruentes.
A minha mãe comporta-se como uma rainha – uma rainha árabe, diga-se, parecendo ter sido arrancada literalmente de uma das páginas do livro As mil e uma Noites – o que me obriga também a comportar-me como um personagem à altura de tal enredo, uma espécie de pajem num tipo de harém onde só ela existe praticamente.
O que não deixa de ser engraçado, por um lado, e altamente problemático, por outro!
  
Só que este tipo de comportamente tem os seus custos e no nosso caso bastante gravosos! Porque a certa altura passa a ser perigoso - quando a ficção se mistura com a realidade - deixando-se de se conhecer as fronteiras que as deviam separar.
Assim, o nosso dia-a-dia é uma espécie de comédia burlesca onde convive um tipo surreal de poesia e uma imensidade de gestos inúteis.
O facto de não termos assistência e representamos só para nós esvasia de qualquer significado o bom que pudessemos extrair de uma existência que tem ao seu dispor um maná de possibilidades.  
Por outro lado a nossa ânsia de nos enganarmos a nós próprios ofusca-nos a compreensão  e o que vamos fazendo não passa de numa infinidade de dias repetidos, tão iguais que não dá para ver qualquer tipo de diferença entre eles.
Este sonho da minha mãe, além de excêntrico, tem sido matéria de reflexão de muita gente da imprensa internacional que tem acompanhado o nosso caso quando este caiu no domínio público. 
Além de excêntrico, o nosso modo de vida tornou-se de tal maneita pitoresco que, posso garantir, uma vez que tem sido explorado pela media internacional, hoje somos alvo do interesse de
um público que não deixa de crescer nas estações por onde a nossa carruagem passa!

 (Carruagem expressamenre decorada como réplica fiel do clássico Expresso do Oriente!)

Não digo toda a imprensa, mas determinada imprensa mais dedicada às celebridades, ao lado escabroso ou cor de rosa da vida, encarregou-se de difundir uma
imagem de uma família (a minha) excêntrica e multimilionária, o que tem feito com que muitos passageiros ao entrarem no
comboio não deixam de imediato de nos tentar localizar e identificar, e muitos deles fazem mesmo questão de nos cumprimentar e solicitar que os autorizemos a tirar fotos ao nosso lado para posteriormente poderem mostrar à família e aos amigos.

Arre! Nalguns casos até nos pedem que assinemos os nossos nomes em camisetes, bonés, etc..
Não deixa de ser um fenómeno curioso de popularidade!

Todos querem ver a rainha e o seu pajem, aqueles dois seres pírulas
 que habitam num comboio que circula pela europa a alta velocidade completamente alheios à verdadeira realidade de uma Europa em crise, para não dizer de um mundo em profunda agonia de valores!

Quando se deu essa clivagem, essa mudança súbita da minha mãe? Não sei.
O que posso dizer, no passado, tal como qualquer família vulgar, eu e minha mãe sempre haviamos habitado casas normais.  

Mas a partir de certa altura as casas normais passaram à categoria de palácios, tal a sua sumptuosidade  - daquelas que só vemos em filmes de Hollywood – e tudo isso passou a ser possível graças à  generosidade dos seus maridos, que num ímpeto de altruismo, penso, quiseram presenteá-la,  sabe- se lá por que razão, não esperando o momento da sua morte para fazê-la herdeira de toda uma fortuna que acumularam, também sabe-se lá como!
O resultado foi que eu e ela, que tinhamos nascido no seio de familias pobres, cada qual
à sua maneira, tornamo-nos herdeiros de um património para o qual não contribuimos nem com um mísero chavo!

Eu explico melhor.

Apesar de pobre, minha mãe sempre foi uma mulher bela.
E eu como produto do seu primeiro casamento tive o privilégio de poder testemunhar o desenrolar da sua trajectória de vida, aventurosa e
enigmática, podendo mesmo afirmar só ser concebível se imaginarmos uma vida criada
no espaço encantatório da literatura ou poesia, e não vivida naturalmente.

Querendo isso também dizer,
 com altos e baixos, erros e acertos, como é normal acontecer em todas as
vidas vividas pelas pessoas ditas normais.

No entanto, o dinheiro sempre fluiu nas nossas vidas de forna fácil.
Ao ponto de eu poder dizer não me lembrar algum dia termos passado por qualquer tipo de necessidade ou privação mais gravosa, isto dentro dum quadro de valores  
                                              considerados de “razoáveis”!
                                                                 
Não, o dinheiro sempre entrava e saia nas nossas contas bancárias – na dela muito mais do que na minha, como era óbvio – de forma fácil e segura,
               beneficiando-a muito mais a ela - como também não podia deixar de ser -
 já que era ela a galinha dos ovos de ouro e eu o simples pinto que
bracejava à volta da mamá-galinácea!

Como mãe, esposa e, posteriormente, viúva de homens ricos que lhe vieram cair no regaço de forma misteriosa, eu ouso afirmar que no seu conjunto, a minha mãe sempre se comportou de forma irrepreensível, tal como se estivesse a cumprir com rigor o articulado de um tipo de contrato de compra e venda, onde falhar seria de todo impossível por as penalizações serem duras de mais para serem suportadas!
  
 Duma parte substancial da sua vivência só arrisco dizer conhecer somente umas migalhas dessa personalidade oblícua e opaca, para não ir mais longe nos adjectivos.

Não, não é exagero!

Minha mãe sempre encarnou essa possibilidade de se furtar às análises mais argutas e seguras! E, tal como phoenix, após cada descida aos infernos, ela sempre foi capaz de reencarnar outras vidas e sabedorias.

Minha mãe é isso mesmo: um enigma, uma esfinge plantada num deserto de conhecimentos onde os vulgares humanos parecem ser incapazes de entrar e explicar.

Para mim, posso afirmá-lo, esse mistério sempre existiu!

E, não tendo sido testemunha directa de todos os actos da sua vida, quase ouso dizer que esse mistério deve ter sido uma constante para a maioria dos representantes do sexo masculino que tiveram a sorte ou desdita de se cruzaram no seu caminho!
Principalmente, para os que ousaram unir com ela os seus destinos.

E porquê?

Pelo simples facto de - apesar da sua já proveta idade nos dias de hoje - ela continuar viva e eles estarem todos mortos!

É isso!

Não sobrou nenhum para contar como foi a vida conjugal com essa mulher, que além de ter sido muito bela em jovem, era  - todos o afirmam - possuida por espíritos!

Nem mais!

Exactamente: espíritos, almas do outro mundo ou outro nome que lhe queiramos dar, desde que consubstancie uma ligação a um mundo que está para além da vida!
Ou, como é corrente dizer-se, ligada às forças da morte!

Nesta fase do texto temos de ter a coragem de aceitar estarmos a mexer numa matéria
volátil, tipo nitroglicerina, que nos pode estourar nas mãos a todo o momento.

Mas voltando a minha mãe! Posso dizer tratar-se de alguém que não podemos classificar ou rotular, facilmente!
 Figura esguia e multifacetada, bela demais, e senhora de muitos talentos na arte de encantar, quando nova, rompia da sua pela morena uma radiação que a fazia ser desejada por quantos homens se cruzassem com o seu olhar.
O íman desse olhar ou as mensagens eróticas  - ou outras que cada qual lia conforme a sua inclinação - que deles transbordavam levava-os, de cabeça perdida, a ser declararem a todo o momento e só a fidelidade ao marido vigente fazia refrear e anular essas múltiplas pretensões.
Minha mãe era uma mulher fiel, à antiga.
Pretendentes, sim, mas só admitidos se se mantivessem na bicha, esperando a sua vez.  
Sim, apesar de todas as evidências que pareciam testemunhar o llógico, minha mãe não era uma mulher infiel.
Pelo contrário, a sua fidelidade era canina, o mesmo querendo dizer que nem por um segundo a vi vacilando numa relação matrimonial que parecia ter sido escolhida a dedo. A dedo, é uma força de expressão, já que os maridos de minha mãe devem ter passado pelo crivo da selecção além túmulo, se é que queriam ter algum êxito de virarem a consorte dessa diva protegida por forças que, os que consigo conviviam , não compreendiam mas pareciam venerar!

No total foram seis os seus maridos oficiais!

Para meu infortúnio, descendo do seu primeiro marido porque os restantes não deixaram prole.





Continua