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E
depois de tudo isto, eu quem sou?
Nem eu
sei responder, devidamente, a esta questão.
Sei que
de momento já me encontro na casa dos quarenta!
Muito
tempo, pouco tempo! Tudo relativo! Se me perguntarem se gosto da minha vida,
acabarei por responder, com sinceridade, não gostar!
É uma
vida adiada porque foi sempre uma vida protegida!
Minha
mãe se encarregou de a moldar desta maneira!
Sempre
foi a minha sombra tutelar!
Por tal
motivo, e uma vez que não teve mais filhos dos vários casamentos que realizou,
eu acabei por herdar tudo aquilo que estaria disponível para outros filhos se
ela os tivesse tido!
Assim,
com quase tudo a mais ao meu dispôr, eu acabei por me converter num inútil!
É claro
que me engano a mim próprio porque descubro ou invento, para iludir o tédio,
uma séries de actividades que acabam por ser inócuas mas vão preenchendo as
intermináveis horas de que disponho dentro do casulo que é comboio onde habito!
O que
faço nesse tempo?
Desenho,
pinto, fotografo e escrevo!
Podem
dizer que com essas janelas abertas ao meu dispôr bastaria talvez um pouco de
talento da minha parte para fazer do meu dia-a-dia um preenchimento, por que
não, exemplar!
Renda
não pago, comida para me suster - não preciso de fazer seja o que for para
conseguir dividendos para suprir essa necessidade -, dinheiro para comprar
materiais também não me falta!
Falta
então o quê?
Talvez
outras condições para eu poder sentir-me motivado a produzir qualquer coisa que
tenha valor real!
Mas,
perguntarão? Com todas essas condições porque não surge então, nem que sejam
uns gatafunhos, para justificar minimamente o que me dão de mão beijada?
Bem, dentro
do possível, eu lá vou fazendo alguma coisa!
A minha
carruagem está repleta de mamarrachos, é assim que rotulo o que produzo: tenho
telas pintadas, fotos expostas como se estivessem numa galeria e quanto a
escritos, tenho imensas folhas impressas que organizo como se fosse um diário!
Portanto,
produção não falta!
Falta
então o quê para que eu valorize todo esse material!
Ter
vontade somente de o valorizar. Nada mais do que isso?
Talvez!
Talvez
o que esteja a faltar seja eu ter uma espécie de agente literário ou artístico
que chame até si a incumbência de tentar comercializar todo esse material!
Por
exemplo:
Ainda
agora neste momento releio o que acabei de organizar como uma possível resposta
a um tema que reputo de algum interesse. A resposta de Buda dada aos não
crentes, trânscrito dum livro, a si dedicado (1):
“... –
Uma coisa, Ó venerável, apreciei acima de todas as outras na tua doutrina. Tudo
nos teus ensinamentos é perfeitamente claro e demonstrado; como uma cadeia
perfeita, ininterrupta, mostras o mundo como uma cadeia eterna, composta de
causas e de efeitos. Nunca foi isso visível de forma tão clara, nunca
apresentado de forma tão irrefutável; o coração dos brâmanes certamente baterá
mais depressa quando, através dos teus ensinamentos, virem o mundo como uma
continuidade, perfeita, sem falhas, clara como o cristal, não dependente do
acaso, não dependente dos deuses. Se
isso é bom ou mau, se a vida é dor ou alegria, são questões que podem continuar
em aberto, talvez não sejam importantes – mas a unidade do mundo, a
continuidade de todos os acontecimentos, a coexistência de todas as coisas
grandes e pequenas na mesma torrente, na mesma lei das causas, da mudança e da
morte, isso fica claro na tua sublime doutrina, ó Ser Perfeito. Mas então,
segundo os teus próprios ensinamentos, esta unidade e esta continuidade de
todas as coisas são quebradas num ponto, através de uma pequena falha corre
para este mundo da unidade algo estranho, algo novo, algo que não existia
anteriormente e que não pode ser visto ou demonstrado: é a tua doutrina da
derrota do mundo, da libertação. Mas com
esta pequena falha, com esta pequena fractura, todas as leis eternas e unas do
mundo são também destruídas e abolidas. Perdoa-me por fazer estes reparos.
Gotama
ouviu-o silenciosamente, quieto. Com a sua voz bondosa, delicada e clara o
Perfeito disse:
- Tu
ouviste a doutrina, ó filho de brâmane, e ainda bem que tão profundamente
reflectiste sobre ela. Encontraste nela uma falha, um erro. Que possas
continuar a reflectir sobre ela, Deixa-me, contudo, avisar-te, a ti que és
àvido de saber, acerca do problema das opiniões e das disputas sobre palavras.
Nada se encontra nas opiniões, podem ser belas ou feias, inteligentes ou
imprudentes, qualquer um pode aceitá-las ou refutá-las. Mas a doutrina que de
mim ouviste não é uma opinião e o seu objectivo não é explicar o mundo aos que
são ávidos de saber. O seu objectivo é outro, o seu objectivo é a libertação do
sofrimento. É isto que Gotama ensina, nada mais.
- Não
fiques zangado comigo, Ó Sublime – disse o jovem.
- Não
te falei nestes termos para procurar uma disputa contigo, uma disputa sobre
palavras. Tens de facto razão, pouco se encontra nas opiniões. Mas permite que
eu diga ainda isto: nem por um instante duvidei de ti. Nem por um instante
duvidei que és o Buda, que alcançaste o Objectivo, o mais elevado, aquele que
tantos milhares de brâmanes e de filhos de brâmanes perseguem. Encontraste a
libertação da morte. Conseguiste-o pela tua própria procura, pelo teu próprio
pé, através da reflexão, da meditação, do conhecimento, da revelação. Nada
conseguiste através de doutrinas!
E – é
isto o que eu penso, ó Sublime – ninguém conseguirá a libertação através de
doutrinas! Com ninguém, ó Venerável, conseguirás partilhar e dizer o que te
aconteceu na hora da tua iluminação! Os ensinamentos do Buda iluminado contém
muitas coisas, ensinam muitas coisas, a viver com honradez e a evitar o mal.
Mas uma coisa esses ensinamentos tão claros, tão veneráveis, não contêm: não
contêm o segredo daquilo que o Sublime viveu, ele, o único entre centenas de
milhares. Foi isto que eu pensei e compreendi ao escutar a tua doutrina. Esta é
a razão pela qual prossigo a minha peregrinação
– não para procurar uma doutrina diferente e melhor, pois sei que tal não
existe, mas para abandonar todas as doutrinas e todos os mestres, para alcançar
sozinho o meu objectivo ou para morrer. Mas muitas vezes recordarei este dia, ó
Sublime, e esta hora, em que os meus olhos viram um santo.
Os
olhos do Buda olharam calmamente para o chão, o seu rosto imperscrutável
irradiando perfeita serenidade.
- Que
os teus pensamentos – disse o Venerável lentamente – não estejam esganados!
Que tu
possas alcançar o teu objectivo! Mas diz-me: viste os meus samanas, os meus
muitos irmãos que adiriram à doutrina? E crês tu, samana distante, crês que
seria melhor para todos eles abandonarem a doutrina e regressarem à vida do
mundo e dos desejos?
- Tal
pensamento nunca ocorreu – exclamou Siddhartha. – Que todos eles possam
permanecer na doutrina, que todos possam alcançar o objectivo! Não me compete
opinar sobre uma outra vida! Somente sobre mim, apenas para mim devo julgar,
devo rejeitar algo! Nós, samanas, procuramos a libertação do Eu, ó Sublime. Se
eu continuasse a ser um dos teus discípulos, ó Venerável, receio que apenas na
aparência, apenas falsamente o meu Eu se aquietaria e se libertaria, mas que na
realidade sobreviveria e cresceria, pois eu teria unido ao meu Eu a tua
doutrina, a minha fidelidade, o meu amor por ti, a comunidade dos monges!
Com
meio sorriso, com uma luminosidade e cordialidade não abalada, Gotama fitou o
estranho e despediu-o com um gesto quase imperccptível.
- És
inteligente, samana – disse o Venerável. – Falas com inteligência, meu amigo.
Acautela-te contra o excesso de inteligência!
O Buda
afastou-se, e o seu olhar e meio sorriso ficaram para saempre gravados na
memória de Siddhartha. “Nunca vi um homem olhar e sorrir, sentar-se e caminhar
desta maneira – pensou -, quem me dera poder também olhar e sorrir assim,
sentar-me e caminhar assim, tão livre, tão venerável, tão secreto, tão aberto,
tão ingénuo e cheio de segredos.
Na
verdade, só o homem que penetrou nas profundezas de si mesmo consegue olhar e
caminhar assim. Mas também eu tentarei penetrar nas profundezas de mim mesmo”
“Vi um
homem – pensou Siddhartha -, um único, perante quem tive de baixar os meus
olhos. Não voltarei a baixar os meus perante nenhum outro, nunca mais.
Nenhuma
outra doutrina me seduzirá, uma vez que a doutrina deste homem não o
conseguiu”.
Fecho o
manuscrito e coloco-o na cadeira vazia ao meu lado.
“Não
voltarei a baixar os meus olhos perante nenhum outro!” Era isso que eu teria
também de fazer. Não baixar o meu olhar perante nada, nem ninguém!
Porque
o fazia, hoje?
Falta
de amor próprio? Falta de confiança? Falta de vontade de viver, de me afirmar?
Um
pouco de tudo isso!
Estaria
na hora de dar uma reviravolta à minha vida?
E de
que maneira?
Ainda
não o sei.
Mas no
essencial terei de começar a valorizar o que faço, banir o conceito de que só o
faço para preencher o tédio da minha vida, mesmo que o que faça com desprazer,
com a mesma falta de vontade “com que rasguei o ventre de minha mãe”, como
dizia José Regio no seu Cântigo Negro!
Levanto-me
e vou espreitar pela janela a paisagem que desaparece veloz à medida que o
comboio galga léguas atrás de léguas!
Acendo
o cachimbo.
E de
novo sento-me, desta vez numa das poltronas que tem vista para o exterior.
Coloco
uns óculos escuros e recosto-me melhor na poltrona.
Fecho
os olhos.
Parece
que sonho acordado!
O comboio
não me leva a nenhum lado que já não conheça de cor e salteado!
Há
quantos anos vivo desta maneira?
Exactamente
, há um ano e poucos meses!
E estou
farto!
Penso
mudar! Mas como?
Ninguém
com quarenta e tal anos pode empreender uma mudamça radical de uma vida que
está cem por cento formatada!
Assim,
será mais realista pensar devidamente antes de arriscar algo que possa dar para
o torto!
O que
me falta?
Talvez
uma mulher?
Porque
não?
O que
faço, hoje, para aliviar as tensões a que estou sujeito?
Masturbo-me!
Um vez, várias vezes! Quase que passa a ser um vício!
Houve um período em que quase enchi a minha
carruagem com mulheres de várias nacionalidades e proveniências.
Mas a
coisa não resultou!
A certa
altura, e à medida que iam se decepcionando, várias foram desertando quando
concluiam que aquela aventura com um homem quarentão, com algumas posses, é óbvio,
mas excêntrico, pensando bem, não lhes garantia nada por aí além, uns quantos e
poucos trocados em dinheiro vivo, é verdade, mas nada que elas não conseguissem
nas suas profissões de mulheres que vendem prazeres à hora!
As
viagens de sonho por uma Europa fora afinal não passava de pura propanganda do
seu mentor, eu!
O comboio
finalmente chega ao término da viagem.
Istambul.
Resolvo sair
Aviso
minha mãe que vou ficar na cidade até que o comboio volte na próxima viagem.
Decidi
tirar umas férias, fazer um interregno daquele inferno!
Minha
mãe, acaba por compreender as minhas razões! Uma vida daquelas acaba por se
tornar insuportável!
Dito e
feito: faço as malas, apanho um taxi e vou directo ao hotel onde me hospedo.
A malta
do hotel já me conhece, não é a primeira vez que lá fico. Mas desta vez vai ser
por um período bastante mais longo.
(1) Siddhartha, de Herman Hesse

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