segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

O MEDO! SEMPRE O MEDO!

 


Por: Lopes Barbosa

Sabes qual é o teu principal inimigo, o que está a toda a hora próximo de ti, que é invisível e que só o vês quando estiveres a entrar praticamente em pânico! Exactamente: O MEDO!

 

Ele é o tal inimigo real de que não te dás conta como dominá-lo, enfrentá-lo e vencê-lo!

Mete de uma vez para sempre na cabeça que o medo é aquilo que não te faz vencer! De uma forma geral o medo é aquela estratégia , que quem te manipula, usa para te dominar e paralisar!

Vamos por partes: quantas vezes hesitastes em tomar atitudes com medo das possíveis consequências que irias desencadear se fosses em frente, enfrentando quem te domina e te humilha, te rouba e acaba por destruir a tua vida?

Estamos a falar de quem?

Na esfera política/econômica estamos a falar dos teus inimigos de classe: os ricos!

São eles, que ao contrário de ti tem uma estratégia de dominação, ousam enfrentar o medo é tem a audácia suficiente para te explorar, sabendo da tua inoperância para te opores a esta exploração!

Podes crer que esta é a verdade mais comezinha que gravita à tua volta e tu não a vês!

E porquê?

Porque o cenário para te iludir está de tal maneira montado e é de tal maneira convincente, que não te dá tempo de raciocinares, dado o frenesim com que esta cena exploradora é montada! E tu cais na esparrela de pensares que não tens recursos que se possam impor para saíres desta dominação/crucificação!

E sabes por quê? Porque ninguém te ensinou a entenderes as armadilhas da tua dominação!

Se queres aprender alguma coisa de relevante sobre a exploração que os ricos usam para te extorquir tudo o que seja esforço para a tua sobrevivência, lê Marx!

Ele te ensina como os ricos te exploram e desmonta genialmente toda a panóplia de engodos que te levam a seres explorado bem como a todos os teus irmãos de Classe!

Liberta-te de vez! Usa à tua inteligência e coloca-a ao serviço da tua libertação!

Se um líder! Usa a arma do conhecimento para te libertares a ti e a todos os companheiros de infortúnio!

 


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

CAROLINA!



Por: Lopes Barbosa

Como-a sua figura era graciosa, o seu corpo estreito, os seus olhos - um azul outro verde -, o seu cabelo preto nos seus trinta anos, o anúncio de pedido de casamento deve-a ter  intrigado, o desejo de conhecer a pessoa que estava por detrás da sua publicação no jornal local, a sua  vinda até ele, doente, a precisar de alguém que preenchesse o total abandono de si mesmo, a doença súbita a arrasta-lo para a dependência, para o sofrimento, principalmente para o vazio de não ter ninguém ao seu lado,, a cara feia de sua mãe pensando que ele lhe iria tirar o pouco que tinha com a sua doença, a sua fuga para África, em cima de um tratamento anti-tuberculose, a queda das suas faculdades, o colapso nervoso, súbito, fulminante, o destruir de todas as ilusões, os sonhos deitados por terra, as bichas para os aviões trazendo de regresso os colonos que haviam permanecido em África por centenas de anos, o recomeço, e ele, o abandono de um futuro que mal começará!

O casamento, os seus óculos escuros a querer esconder uns olhos pisados, que o desfiguravam e nos quais ele não se reconhecia!

Ela graciosa no teu vestido de noiva, a sua atitude de cumplicidade, para ele a salvação, para ela possivelmente o desejo de felicidade!

Depois os gêmeos, um nasceu tarde demais, que o haveria de afectar diminuindo-o para sempre, o outro saudável, a corrida para comprar às pressas um enxoval que faltava, incongruentemente os gêmeos apareciam quase no fim da gestação por erro médico, a urgência da cesariana para salvá-los, dois meninos desiguais gerados em placentas diferentes, atrasados logo no acto de nascer!

Depois foram habitar um apartamento quase vazio porque não tinham reunido dinheiro suficiente para comprar as mobílias, o simples colchão pousado no chão e aí dormiam desde a lua de mel, assim mesmo, rodeados simplesmente do fundamental.

A  luta dela tricotando camisolas de lã para completar o ordenado dele que era pequeno para as suas necessidades! Mas conseguiram equilibrar as despesas alugaram um quarto que tinham disponível a um casal de ocasião!

As preces dele a Deus, tal como faz hoje, para conseguir vencer a doença que arrastava consigo desde África e que a viu nascer!

A corrida quase inglória aos médicos, quando finalmente encontrou aquele que o corou!

Como tudo mudou desde então!

Tornou-se tremendamente ingrato com ela  e foi namorar com outra mulher, como se ela já  tivesse préstimo, esquecendo-se miseravelmente que tinha sido ela que o salvara quando tinha ficado somente ao meu lado

Que ingratidão! Que miserável ele se tornou desde esse dia!

A traição maior viria logo a seguir, quando foi viver com essa mulher, deixando-a só com a responsabilidade de tratar de duas crianças, uma delas deficiente!

Que vergonha ele hoje sente! 

Que remorsos e que saudades ele tem hoje dela, da sua época, da sua luta, da sua abnegação e pelo respeito que ela sentia por ele!

Para, enxuga as lágrimas, mas hoje é tarde para obter dela o perdão de que necessita!

Os gêmeos cresceram: hoje são homens maduros, um vive com ela, o que precisa de si desde que nasceu, o outro é um homem feito, com carácter, que recusa falar com o pai que não teve ao seu lado no seu crescimento!

Que vergonha!

Mas a sua  infidelidade não se ficou só por uma mulher, estendeu-se por outras, revelando uma tremenda falta de respeito por ela e por essas outras de quem ele se estava somente a servir!

O afecto andou sempre ausente desses enlaces que nada mais representaram do que puro egoísmo dum homem doente! 

Doente de quê? De afirmação? De vaidade? De estupidez? De niilismo? De incultura?

E ela?

Suportava essas infidelidades com um silêncio magoado e nada mais dizia que pudesse representar um ataque à sua arrogância, ignorância e desfaçatez!

Hoje, sozinho, quando redige esta carta o que lhe vem ao pensamento é uma imensa saudade desse tempo vivido ao seu lado, profundas saudades dos seus filhos que não viu crescer!

Daria a sua vida para poder estar de novo ao seu lado e voltar a travar as lutas por uma sobrevivência, que nessa altura não sabiam que eram exemplares !

Ela com a sua máquina de tricotar e ele usando os seus expedientes toscos e improvisados de molde a garantir uma sobrevivência que não os desonrasse perante nada nem ninguém!

Quando ele morrer, espera que ela lhe  perdoe, porque nesse dia gostaria de partir vendo os   olhos dela enxutos de lágrimas!

Pede-lhe perdão!

Espero-a no Céu!

 


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS

 

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (9)

Exercício de memória episódico e crepuscular



Por: Lopes Barbosa


SAUDADES!

Como um sonâmbulo olha para dentro de todo o seu passado e o que vê é um infindável cortejo de actos levianos, que não lhe garantiram nada de substancial e sólido na actualidade da vida!

Agora é tarde para retroceder!

No passado, não ficou nada!

É um deserto verdadeiramente estéril!

Nada ficou lá para trás que ele possa recuperar!

Nem filhos, nem amigos, nem família!

Nada, absolutamente nada!

 

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS

                                            

                                        O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (8)

Exercício de memória episódico e crepuscular



Por: Lopes Barbosa


NINGUÉM  GOSTA DE  PERDEDORES!

Nem os pobres aceitam os perdedores!

Os pobres, se pensarmos bem, são uns grandes vencedores!

Porque praticamente sem condições conseguem garantir a sua vida na base de uma precariedade que eles transformam em abundância!

Sebastiao Batista, gostava de ser um pobre vencedor!

Mas não é; é um pobre perdedor!

Resumindo a sua condição podemos dizer que Sebastiao Batista é um escravo que trabalha, sem horizontes nem futuro, pelo preço das refeições e do alojamento que o vão mantendo vivo!


terça-feira, 24 de novembro de 2020

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (7)

Exercício de memória episódico e crepuscular



    Por: Lopes Barbosa


Inquietante!

Ver uma muçulmana totalmente tapada com uma burca (Século 15) de cor negra - daquelas que só deixam ver uns olhos que parecem assustados - , com um celular da última geração (Século 21) na mão, é um cliché dos contorvados tempos em que vivemos!





segunda-feira, 23 de novembro de 2020

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS

                                               O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (6)

Exercício de memória episódico e crepuscular


            Por: Lopes Barbosa

Que vergonha!

Sentado em cima do muro, continua a alimentar a ficção de ser pessoa importante, que efetivamente não é, que nunca seria atingido por nada de grave que pudesse pôr em risco a sua vida, estando assim fadado a ser invulnerável às agruras da vida!

Mas que vida?

Que raio de vida ele teve nessa caminhada que começou muito lá para trás?

Se ele fosse capaz de reflectir – o que não é o caso – o que ele encontraria seria uma sucessão infindável de fugas para a frente, na esperança vã de fugir às dificuldades que inevitavelmente a vida lhe colocou para ele poder somente sobreviver!

E disto tudo o que resultou?

Simplesmente o adiamento dum sofrimento, que poderia ter sido bem maior se ele não tivesse tido a habilidade de enganar as carências de que era depositário!

Oriundo de uma família de baixos recursos, não lhe foi permitido estudar para além da fase primária e mesmo matriculado no ensino noturno nunca demonstrou o mínimo de vocação para a aprendizagem das matérias desse ensino secundário, por as considerar uma grande inutilidade! O autodidatismo tornou-se a matéria-prima do seu conhecimento!

Depois o que fez?

Foi enganando as suas falsas bases com golpes essencialmente de sorte e finalmente, hoje, na velhice, compreende que o tempo dos malabarismos para enganar a vida chegou ao fim!

Pelo caminho ficou uma série interminável de lugares comuns, uma porrada de histórias malogradas, que fundamentalmente se cristalizaram na impossibilidade de constituir uma família sólida, a falta de um reconhecimento sincero dos seus falhanços onde o amor esteve sempre ausente, filhos não amados, mulheres desprezadas, que nalguns casos lhe salvaram a vida, a falta de bondade para com essas pessoas que tiveram a inocência e a força de o amparar quando ele estava no fundo, a vertigem com que ele viveu uma vida de aventureiro em fuga essencialmente a um destino que ele pressentia cáustico se não abraçasse a irreflexão que fazia de si um ser alienado!

Como corolário dessa vida desditosa o que lhe resta hoje?

As saudades de não poder regredir no tempo e corrigir com paciência as insuficiências que fizeram de  si um ser incompleto e frágil!

Pensa essencialmente nas mães dos seus filhos, que ele largou na berma da estrada, e ouvindo o seu coração que hoje palpita finalmente de forma honesta, um pedido de perdão pelos  crimes que cometeu sobre seres frágeis atravessa-lhe as entranhas, estando aí desnudos os corpos dos seus filhos igualmente indefesos, um misto de terror e de perplexidade abala-o!

O que fazer então perante factos consumados? 

Pedir perdão não basta, é preciso ir mais longe para compensar a profunda tristeza de não ter visto os seus filhos e filhas crescerem, não lhes ter dado a mão quando precisaram, não os ter beijado e abraçado quando o nascimento do afecto brotava e era reconhecível nos seus olhares doces, tudo isto foi negado pela sua fuga!

E hoje como compensar tudo isto?

Haverá perdão para tamanha cobardia?

 



quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS

O CRIADOR DE CREPÚSCULOS (5)

Exercício de memória episódico e crepuscular


          Por: Lopes Barbosa


Coitado! 

Nunca te passaria pela cabeça como serias medíocre quando crescesses!

Em criança, no teu ritmo próprio de crescimento, que aconteceu de forma natural, nunca suspeitaste que quando chegasses a adulto a vida reservava-te um sem número de obstáculos e ciladas, que abafariam, também nessa altura, que estarias longe de supor que a mediocridade seria o teu destino!

Viveste os teus vários estádios de crescimento sem te dares conta, que o que fazias nada mais era do que a vulgar vulgaridade!

É curioso como nunca te interrogaste porque motivo aquilo que fazias não poderia ter ficado melhor e aceitavas as tuas realizações como se fossem o expoente máximo do teu desempenho!

Hoje quando olhas para o passado o que vês é uma enormidade de actos semi falhados, que não te levaram a nada de sério, e essas pequenas, digo mais, raquíticas proezas acabaram por não serem dignas de qualquer nota!

As conquistas que pensas ter realizado foram muito poucas e os teus fracassos imensos, o que acabas por desembocar numa mão cheia de coisa nenhuma!

Coitadito!

Hoje o balanço é irrefutável: ficaste  para sempre amarrado a uma existência mais que vulgar e essencialmente medíocre!