quarta-feira, 17 de abril de 2019

A VIÚVA DO EXPRESSO DO ORIENTE Capítulo 5 (Continuação)


Escrito por Lopes Barbosa





5


O PADRE E MINHA MÃE



Quando o comboio regressou a Istambul, praticamente eu já me tinha despedido da cidade. Depois da conversa que mantive com Orhan Pamuk o interesse pela cidade tinha-se desvanecido.  Ficava a recordação do encontro com alguém que reputava de importante para a minha vida futura de romancista, se é que algum dia ela iria concretizar-se.
Mas a esperança de poder ouvir comentários sobre aquilo que eu escrevia por alguém mais que abalizado passou a constituir para mim um antídoto sobre o tédio ou a tristeza.

Quando entrei finalmente no comboio e na carruagem que nos estava destinada, a nossa carruagem especial, fui encontrar minha mãe deveras abatida. Parecia doente; mas para me tranquilizar mentiu sobre o seu estado de saúde! Disse que não era nada e só precisava de conversar com alguém, coisa que já não fazia há muito tempo! Eu nunca fui a melhor pessoa para ter diálogos ela e por tal motivo cada qual vivia no seu casulo sem praticamente comunicar um com o outro.
Perguntei-lhe: a mãe precisa de conversar com alguém ou simplesmente são desabafos o que quer expressar?
- Uma coisa e outra... – respondeu ela.
- Mas que tipo de pessoa seria a adequada para ter como interlocutor?
- Penso que a pessoa ideal seria um padre!
- Um padre?
- Sim, um padre! Com ele estaria à vontade para poder abrir a minha alma, que me parece estar a tentar pregar-me algumas partidas! Tenho-me lembrado dos meus maridos e chego à conclusão que se calhar não me portei muito bem com todos eles!
- Pensa isso, porquê? – indaguei eu num misto de curiosidade e apreensão?
- Nada de significativo! São simplesmente algumas suspeitas sobre a forma como vivi a minha vida com eles, nada mais1 Penso que não os traí de maneira nenhuma, mas sinto um certo peso que gostaria de partilhar com alguêm! Acabo por não saber se que o que sinto são remorsos por coisas que não fiz bem feitas ou simplesmente saudades por um tipo de vida que já desapareceu para sempre!
- E o meu pai? Como é avaliado? A mãe sente por ele alguma coisa, alguma ternura, por exemplo?
- Por esse não posso responder, nem positivamente nem negativamente, já que teve uma passagem meteórica pela minha vida!
- Como assim? – perguntei-lhe bastante curioso por saber como a minha mãe o avaliaria no meio de todos os outros!
   - O teu pai nunca me fez sofrer! Por isso não lhe guardo qualquer rancor! Mas também não me deu uma felicidade permanente e duradoura! O nosso envolvimento fui bastante efémero uma vez que depois de me engravidar foi acometido de doença súbita e veio a falecer pouco tempo depois! Nem tivemos tempo de casar!
Por isso as memórias que guardo dele são bastante frágeis. Tu, nasceste, é verdade, e isso já é muito importante, porque passou  a representar a coisa mais importante que tinha acontecido à minha vida! Mas, infelizmente, faltou o resto!
 Os meus verdadeiros problemas são outros e todos eles dizem respeito à vida que tive com os meus maridos, os que viveram comigo e dos quais não sobrou descendentes!

Calamo-nos por um instante.

- Pelo que posso depreender, parece que a mãe reputa como algo de especial o relacionamento que teve com o meu pai!
- É verdade! Apesar de fugaz, o nosso envolvimento foi intenso e muito enriquecedor!
Foi pena não termos tido hipótese de construir a nossa visa à volta do teu nascimento, porque tu vinhas colmatar uma grande lacuna que ambos tinhamos! O teu pai e eu provinhamos de famílias miseráveis que praticamente não nos garantiram qualquer tipo de futuro.
Assim, o nosso encontro representou para as nossas vidas uma espécie de tábua de salvação! Agarramo-nos um ao outro e no breve período em que estivemos juntos as nossas vidas começaram a ter um mínimo de solidez que anteriormente nunca haviamos experimentado!
Foi um período breve mas muito enriquecedor! Infelizmente não tivemos futuro! A vida tem destas coisa: cria barreiras a quem se quer bem! A morte é algo que não podemos contornar!
Mas o teu nascimento acabou por garantir para mim um rumo!
Apesar da ausência do teu pai eu lutei abnegadamente para construir, contigo à minha volta, um projecto um vida que felizmente acabei por concretizar de forma sólida!
O meu primeiro marido era comerciante mas eu ajudei-o muito na sua actividade. Posso dizer que do muito que ele construiu teve a minha participação nesse desenvolvimento. E com os outros aconteceu a mesma coisa... sucessivamente a todos eles eu assessorei, ajudei, apoiei, etc.     
  E eles construiram as suas fortunas tendo-me sempre a mim como sua sombra protectora!
Por isso, tenho a minha consciência tranquila!
- Então, não entendo a sua preocupação em relação às vidas que viveu com eles ao ponto de agora estar a interrogar-se se a sua conduta foi a melhor? – acabei por lhe dizer.
- Não é isso. O que se passa comigo possivelmente tem mais a ver com a solidão em que se converteu a minha vida!
- Então, porquê um padre para dialogar? Se não são pecados o que quer confessar porquê um padre?
 - Porque de repente, talvez, me deu vontade de conhecer o outro lado da vida de que andei à muito tempo arredada, o lado religioso, coisa que só minimanenete vislumbrei na infância e sempre de forma fugidia e incompleta!
- Ah! A religião! – disse eu. – Talvez a mãe se venha a desenganar se entrar a fundo nessa questão!  
- Talvez! Mas gostava de experimentar. Porque não?
- Se é isso que quer não custa nada! Posso ir à procura de um padre, agora mesmo, e digo-lhe que está alguém moribundo a precisar urgentemente de se confessar! Talvez assim ele não negue em me acompanhar e tê-lo-à junto de si num instante!
- Ok, faz isso! Há muito tempo que não falo com alguém! Talvez me faça bem, mas se não fizer bem também mal não pode fazer... Sinto que estou a precisar em mudar um pouco de vida! Talvez se abrir a minha vida a algo de novo qualquer coisa de novo também possa ocorrer!
- Ok, mãe, enquanto o comboio não parte vou à procura de um padre. Não me demoro1 Volto já.

Não foi difícil encontrar uma igreja e também não foi difícil convencer o padre da urgência da sua vinda junto de minha mãe. Mantive a versão de ela estar a precisar de se confessar por se encontrar possivelmente no fim da sua vida!
O caminho até ao comboio foi feito velozmente e mal entrarmos no comboio este pôs-se em movimento.

Fiz as apresentações.

Mas depois por considerar que estava a mais, retirei-me discretamente Era meu dever deixá-los a sós.
Mas em vez de me retirar dissimulei a saída mas mantive-me escondido dentro da carruagem. Daí pude assistir prefeitamente ao diálogo que o padre manteve com minha mãe.

Padre: - Como está, senhora? Sente forças para falar comigo?
Mãe: - Sim, padre! Ainda conservo forças suficientes para ter consigo um diálogo que noutras circunstâncias possivelmente não teria.
P.: - Muito bem!
M.: Comecemos então.
P.: — Chegada a hora fatal em que o véu da ilusão se rasga para mostrar ao ser humano seduzido o quadro cruel de seus erros e vícios, não vos arrependeis, minha filha, das múltiplas desordens a que vos levaram a fragilidade e as fraquezas humanas?
M.: — Sim, meu amigo, arrependo-me.
P.: — Então, no tempo que vos resta, aproveitai esses benditos remorsos para receber do céu a absolvição geral de vossas faltas, e saibais que só pela mediação do santíssimo sacramento da penitência ser-vos-á possível alcançá-la do Eterno.
M.: — Não te entendo mais do que me compreendes.
P.: — Como?
M.: — Eu disse que me arrependo.
P.: — Já o dissestes.
M.: — Mas não compreendeste.
P.: — O quê?!
M.: — O seguinte: criado pela natureza, com apetites muito vivos e paixões muito fortes, posto neste mundo unicamente para entregar-me a eles e satisfazê-los, sendo tais efeitos de minha criação apenas necessidades relativas aos primeiros fins da natureza, ou, se preferires, derivações essenciais de seus projetos sobre mim, todos cm razão de suas leis, só me arrependo de não ter reconhecido o bastante sua onipotência, e meus únicos remorsos são pelo uso medíocre que fiz das faculdades (criminosas para ti, tão simples para mim) com que me dotou para servi-la. Por vezes lhe resisti e arrependo-me por isso. Cega pelo absurdo de teus sistemas, combati por eles toda a violência dos desejos recebidos por uma inspiração bem mais divina. Disso me arrependo. Só colhi flores quando poderia ter feito uma ampla colheita de frutos... Eis os justos motivos de meus arrependimentos; estima-me bastante para eu não procurar outros.
P.: — Onde vossos erros vos arrastam, onde vossos sofismas vos conduzem! Emprestai à coisa criada a onipotência do criador, e não vedes que as inclinações infelizes que vos desencaminharam são apenas efeitos dessa natureza corrompida a que atribuis a onipotência.
M.: — Amigo, parece-me que tua dialética é tão falsa quanto teu espírito. Gostaria que raciocinasses de modo mais justo, ou que me deixasses descansar em paz. O que entendes por criador e por natureza corrompida?
P.: — O criador é o senhor do universo. Aquele que tudo fez e criou e que tudo conserva por um simples efeito de sua onipotência.
M.: — Um grande homem, seguramente... Mas se é tão poderoso, por que criou uma natureza corrompida?
P.: — Que mérito as criaturas teriam se Deus não lhes tivesse deixado o livre-arbítrio, e o que ganhariam com isso se não houvesse na terra a possibilidade de fazer o bem e a de evitar o mal?
M.: — Então esse teu Deus quis ser do contra, fazendo tudo só para tentar ou testar sua criatura. Logo, não a conhecia e duvidava do seu resultado?
P.: — Ele a conhecia, sem dúvida, mas uma vez mais queria deixar-lhe o mérito da escolha.
M.: — Para quê, se sabia seu partido de antemão e só a ele competia, já que o dizes onipotente, só a ele competia, digo, fazer com que escolhesse o do bem?
P.: — Quem pode compreender os desígnios imensos e infinitos de Deus sobre o homem e quem pode compreender tudo o que vemos?
M.: — Quem simplifica as coisas, meu amigo, e sobretudo não multiplica as causas para melhor confundir os efeitos. Por que colocas outra questão quando não me podes explicar a primeira? Sendo possível que a natureza tenha feito sozinha tudo o que atribuis a teu Deus, por que pretendes arrumar-lhe um senhor? A causa do que não compreendes talvez seja a coisa mais simples do mundo. Aperfeiçoa tua física e entenderás melhor a natureza; purifica tua razão, elimina teus preconceitos e não necessitarás mais desse deus.
P.: — A senhora é uma infeliz, pensei apenas que fosses sociniana!... Tinha armas para combater-te, mas vejo bem que é ateia! E já que teu coração se nega à imensidade das provas autênticas que recebemos todos os dias da existência do criador, nada mais tenho a te dizer. Não se devolve a luz a um cego.
M.: — Meu amigo, conforma-te com a evidência de que cego é quem se veda com uma fita, não quem a arranca dos olhos. Tu edificas, inventas, multiplicas; eu destruo, simplifico. Tu acumulas erros sobre erros; eu combato todos. Qual de nós é o cego?
P.: — Então não crês mesmo em Deus?
M.: — Não, por uma razão bem simples. E perfeitamente impossível crer no que não se compreende. Entre a compreensão e a fé devem existir relações imediatas. A compreensão é o primeiro alimento da fé. Onde a compreensão falha, a fé está morta; e aqueles que assim mesmo continuam a crer, enganam-se redondamente. Desafio-te a crer no deus que me pregas, pois não saberias me demonstrá-lo, nem compete a ti me defini-lo; por conseguinte não o compreendes, e, se não o compreendes, como me podes fornecer um argumento razoável a seu respeito? Em suma: sendo quimera ou inutilidade tudo o que ultrapassa os limites do espírito humano, e teu deus só podendo ser uma dessas coisas, no primeiro caso eu seria louca de crer nele, no segundo uma imbecil. Meu amigo, prova-me a inércia da matéria e admito o criador. Prova-me que a natureza não se basta a si mesma, e te permito conceber-lhe um senhor. Até então não esperes nada de mim. Só me rendo à evidência que recebo dos sentidos; onde eles cessam, minha fé desfalece. Creio no sol porque o vejo, concebo-o como o centro de reunião de toda a matéria inflamável da natureza, aceito sua marcha periódica sem espantar-me. É uma operação física, talvez tão simples quanto a da eletricidade, mas que não nos é permitido compreender. Para que ir mais longe? Não terei avançado mais quando edificares teu deus acima disso e não me será preciso o mesmo esforço tanto para compreender o operário quanto para definir a obra? Assim sendo, não me terás prestado nenhum serviço com a edificação de tua quimera; por me confundires o espírito, em vez de esclarecê-lo, só te devo ódio em lugar de reconhecimento. Teu deus é uma máquina que fabricaste para servir tuas paixões, movida a seu bel-prazer, mas desde que interfere nas minhas, não estranhes que eu a rejeite; e no instante em que minha alma fraca mais precisa de calma e filosofia, não me venhas com esses sofismas espantá-la, que só a aterrorizam sem convencê-la e a irritam sem torná-la melhor. Esta alma, meu amigo, é o que a natureza desejou que fosse, isto é, o resultado dos órgãos com que me formou em razão de suas metas e necessidades; e como ela necessita igualmente de virtudes e de vícios, quando quis levar-me às primeiras, ela o fez, e quando desejou conduzir-me aos segundos, inspirou-me tais desejos aos quais entreguei-me do mesmo modo. Toma apenas essas leis como a única causa de nossa inconseqüência humana, e não estabeleça para elas outros princípios que suas vontades e necessidades.
P.: — Sendo assim, tudo é necessário no mundo.
M.: — Seguramente.
P.: — Mas se tudo é necessário, não está tudo regulado?
M.: — Quem diz o contrário?
P.: — E quem pode regular tudo como está a não ser uma mão onipotente e sábia?
M.: — Não é necessário que a pólvora inflame ao se lhe atear fogo?
P.: — Sim.
M.: — E que sabedoria vês nisso?
P.: — Nenhuma.
M.: — Portanto é possível haver coisas necessárias sem sabedoria, e possível, consequentemente, tudo derivar de uma causa primeira sem haver nessa causa razão ou sabedoria.
P.: — Onde quereis chegar?
M.: — A provar-te que tudo pode ser o que é e o que vês, sem que nenhuma causa sábia e razoável o conduza, e que efeitos naturais devem ter causas naturais sem que seja necessário supô-las antinaturais, como esse teu deus propriamente, o qual, conforme disse, necessita de explicação e não fornece nenhuma; se ele não serve para nada, é perfeitamente inútil, sendo evidente que o que é inútil é nulo e o que é nulo é nada; portanto, para convencer-me de que teu deus é uma quimera, não necessito de outro raciocínio senão o que me fornece a certeza de sua inutilidade.
P.: — Nesse momento, parece-me necessário falar-vos de religião.
M.: — Por que não? Nada me diverte como as provas do excesso a que chegaram os homens sobre esse ponto tratando-se de fanatismo e de imbecilidade. São espécies de desvios prodigiosos como esses que tornam o quadro horrível, mas sempre interessante para mim. Responde com franqueza e, sobretudo, sem egoísmo: seu eu fosse fraca o bastante para deixar-me surpreender por teus ridículos sistemas sobre a fabulosa existência do ser que torna a religião necessária, sob que forma me aconselharias a lhe oferecer um culto? Gostarias que eu adotasse os devaneios de Confúcio mais do que os absurdos de Brahma, que eu adorasse a grande serpente dos negros, o astro dos peruanos, ou o deus dos exércitos de Moisés? A qual das seitas de Maomé desejarias que eu me rendesse, ou qual das heresias cristãs seria para ti preferível? Cuidado com a resposta.
P.: — Poderia haver dúvidas?
M.: — Ela então é egoísta.
P.: — Não, amar-te tanto quanto a mim mesmo é aconselhar-te o que creio.
M.: — E dar ouvidos a semelhantes erros é amar-nos muito pouco.
P.: — E quem pode fechar os olhos diante dos milagres de nosso divino redentor.
M.: — Quem só vê nele o mais ordinário dos tratantes e o mais vulgar dos impostores.
P.: — O Deus, vós o ouvistes... e não bramastes? 1.
M.: — Não, meu amigo, está tudo em paz, porque esse deus, por impotência, razão, ou tudo o que queiras enfim em um ser que só admito por um momento em condescendência a ti, ou se preferires, para auxiliar-te a vista estreita, esse deus, digo, se existe mesmo como loucamente crês, não pode ter usado meios tão ridículos para nos convencer quanto aqueles que teu Jesus supõe.
P.: — Então as profecias, os milagres, os mártires, tudo isso não serve como provas?
M.: — Como queres que eu aceite em boa lógica como provas tudo aquilo que carece delas em si mesmo? Para que a profecia se comprovasse, eu deveria, primeiramente, ter certeza absoluta de que ela fora feita. Ora, estando isso consignado na história, não pode ter mais força para mim do que outros fatos históricos dentre os quais três quartos são bastante duvidosos; e se acrescentarmos a isso a aparência mais que verossímil de que só me são transmitidos por historiadores interesseiros, terei, como vês, mais que direito em duvidar. Além disso, quem me assegurará de que essa profecia não fora feita posteriormente, de que não fora o efeito da combinação da mais simples política, como a que estabelece um reino feliz sob um rei justo ou geada no inverno? E se assim é, como queres que a profecia, com tal necessidade em ser comprovada, possa ela mesma tornar-se uma prova? Quanto aos teus milagres, também não me impressionam. Todos os astutos fizeram isso e todos os tolos acreditaram. Para persuadir-me da veracidade de um milagre, seria preciso estar bem segura de que o evento assim chamado fosse absolutamente contrário às leis da natureza, pois só o que se situa fora dela pode passar por milagre; e quem a conhece o bastante para ousar afirmar qual é precisamente o ponto em que ela pára e qual aquele em que é violada? Para se acreditar em um pretenso milagre bastam duas coisas: o mágico e os incautos. Vai, não busques jamais outra origem para os teus. Todos os novos sectários fizeram-no; e o que é mais singular, todos encontraram imbecis que creram neles. Teu Jesus nada fez de mais singular que Apolônio de Tiana e, entretanto, ninguém tomou este por um deus. Quanto a teus mártires, sem dúvida, o mais fraco de teus argumentos, são necessários apenas entusiasmo e resistência para fazê-los; como a causa contrária oferece-me tantos quanto a tua, jamais terei autoridade bastante para crer mais em uma do que outra, mas, em compensação, serei levada a achar ambas piedosas. Ah, meu amigo, se o deus que me pregas existisse de fato, teria necessidade de milagres, de mártires e de profecias para erigir seu império? E se, como dizes, o coração do homem fosse obra sua, não haveria de ser escolhido para santuário de sua lei? Emanada de um deus justo, esta lei igual estaria igualmente gravada de modo irresistível em todos os corações, e de uma parte do universo à outra, assemelhando-se todos os homens por esse órgão delicado e sensível, assemelhar-se-iam da mesma forma pela homenagem que rendessem ao deus de quem o receberam; todos só conheceriam um modo de amá-lo, de adorá-lo ou de servi-lo, e lhes seria tão impossível desconhecer esse deus quanto resistir à inclinação secreta de seu culto. Em vez disso, o que vejo no universo? Tantos deuses quanto países, tantas maneiras de servir suas divindades quanto diferentes cabeças ou imaginações; e esta multiplicidade de opiniões dentre as quais me é fisicamente impossível escolher seria para ti obra de um deus justo? Ora, pregador, ultrajas teu deus mostrando-o assim. Deixa-me negá-lo totalmente, pois, se ele existe, tu o ultrajas bem mais com tuas blasfêmias do que eu com minha incredulidade. Volta à razão, pregador! Teu Jesus não vale mais que Maomé, Maomé não mais que Moisés, e todos os três não são melhores que Confúcio, que apesar de tudo ditou alguns bons princípios, enquanto que esse trio disparatou. Mas ao fim das contas são todos impostores de quem o filósofo caçoou, em quem os canalhas creram, e quem a justiça deveria ter enforcado.
P.: — Sim, e ela passou dos limites em relação a um deles.
M.: — Foi o que mais mereceu: sedicioso, desordeiro, caluniador, trapaceiro, libertino, grosseiro, farsante, em suma, um perigoso mau elemento que possuía a arte de dirigir o povo e que, sem dúvida, não passaria impune no estado em que então se encontrava o reino de Jerusalém. Este foi muito sábio em ter se livrado dele, caso único, talvez, em que minhas máximas, aliás, extremamente suaves e tolerantes, possam admitir a severidade de Têmis . Perdôo todos os erros, menos aqueles que podem ser perigosos para o governo sob o qual se vive. Os reis e sua majestade são as únicas coisas que me se me impõem, as únicas que respeito, e quem não ama seu país e seu rei não é digno de viver.
P.: — Mas deveis admitir algo após esta vida. E impossível que vosso espírito jamais tenha desejado dissipar as trevas do destino que nos aguarda. E qual sistema pode satisfazê-lo melhor do que o de uma profusão de penas para quem pratica o mal e uma eternidade em recompensas para quem pratica o bem?
M.: — Qual sistema, meu amigo? O do nada, claro. Este jamais me espantou; só vejo nele consolo e simplicidade. Os outros são obra do orgulho, só ele pertence à razão. Além disso, o nada não é repelente nem absoluto. Não tenho sob os olhos o exemplo de tudo o que é gerado e regenerado perpetuamente pela natureza? Coisa alguma perece ou se destrói no mundo, meu amigo; hoje homem, amanhã verme, depois de amanha mosca, não é sempre existir? E por que seria recompensado por virtudes de que não tenho mérito algum ou punida por crimes de que não fui senhora? Podes conciliar a bondade de teu pretenso deus com este sistema, e como ele me pode ter criado só para se dar ao prazer de me punir, e ainda em conseqüência de uma escolha de qual não me deixa ser senhora?
P.: — Vós o sois.
M.: — Sim, conforme teus preconceitos. Mas a razão os destrói, e o sistema de liberdade do homem foi inventado apenas para fabricar o da graça, que se tornou tão favorável a teus devaneios. Qual homem no mundo, vendo o cadafalso ao lado do crime, cometê-lo-ia, se estivesse livre de não cometê-lo? Somos arrastados por uma força irresistível, e jamais, sequer um instante, temos o poder de nos determinar para outra coisa além daquela a que estamos inclinados. Não há uma só virtude que não seja necessária à natureza e, da mesma forma, um só crime de que ela não tenha necessidade. Toda a sua ciência consiste na manutenção de ambos em perfeito equilíbrio. Somos culpados pelo lado em que ela nos lança? Não mais que a vespa ao aferroar tua pele.
P.: — Então, nem o maior dos crimes nos deve inspirar horror?
M.: — Não foi isso que eu disse. Para que ele nos inspire repulsa ou horror, basta a lei condená-lo e o gládio da justiça puni-lo; mas se infelizmente foi cometido, é preciso saber tomar seu partido sem se entregar ao remorso estéril; o efeito deste é vão, já que não nos livra de o ter cometido, e nulo, já que não se pode repará-lo. Portanto, é um absurdo entregar-se ao remorso e mais ainda temer ser punido em outro mundo se somos felizes de termos escapado disso neste. Deus me livre encorajar com isso o crime: certamente é preciso evitá-lo o quanto se possa, mas é pela razão que devemos saber fugir a ele, não por falsas crenças que não levam a nada, e cujo efeito logo se dissipa numa alma que seja um pouco firme. A razão, meu amigo, tão somente a razão nos deve advertir que prejudicar nossos semelhantes jamais nos tornará felizes, e nosso coração, que contribuir para a felicidade deles é a melhor coisa que a natureza nos pode conceder na terra. Toda a moral humana encerrase nestas palavras: tomar os outros tão felizes quanto desejamos sê-los nós mesmos, e jamais lhes fazer mais mal do que gostaríamos de receber. Eis aí, meu amigo, os únicos princípios que devemos seguir; e não necessitamos de religião nem deus para prová-los e admiti-los, somente um bom coração. Mas estou perdendo as forças. Pregador, abandona teus preconceitos, sê homem, sê humano, sem temor nem esperança. Deixa de lado teus deuses e tuas religiões, que só servem para acorrentar os homens; só o nome desses horrores derramou mais sangue sobre a terra do que todas as guerras e flagelos ao mesmo tempo. Renuncia à idéia de outro mundo, que não existe, mas jamais ao prazer em ser e tornar outros felizes neste em que vivemos. Eis o único modo que a natureza oferece para dobrar ou prolongar tua existência. Meu amigo, a volúpia sempre foi o mais caro dos meus bens; eu a incensei durante toda a vida e gostaria de acabar em seus braços.
P.: - És irredutível! Não tenho mais nada para te dizer!
M.: - Sim, padre, não temos mais nada para dizer! Mas mesmo assim estou contente por te ter conhecido e por teres vindo até mim! A tua presença galvanizou-me e algumas dúvidas dissiparam-me do meu íntimo! Hoje sou uma mulher nova e apesar da idade tenciono recomeçar a viver ainda com mais intensidade! E só a ti agradeço! Obrigado!
P.: - Não sei o que aprendeste comigo... mas se te fui útil, ainda bem!
M.: - Muito útil... nem sabes quanto! E agora vou convidar-te a tomares um chá comigo para selarmos o nosso encontro.

E neste instante minha mãe levantou-se e fez soar uma campainha. Uns segundos depois a sua camareira privativa entrava no salão. E minha mãe com tua a delicadeza pediu que o chã da tarde fosse servido.
  
Resolvi afastar-me do meu esconderijo e fui directo aos meus aposentos.
A minha mãe tinha-me dado uma tremenda lição de filosofia!
Durante muito tempo as suas palavras ficaram a soar bem nítidas nos meus ouvidos.

O padre acabou por sair na próxima estação.

sexta-feira, 12 de abril de 2019

A VIÚVA DO EXPRESSO DO ORIENTE Capítulo 4 (Continuação)

                                                         
                                                               Escrito por Lopes Barbosa



4


ORHAN PAMUK



Na manhã seguinte parti à procura do endereço de Orhan Pamuk.
O meu interesse por si aumentara desde que li, entre muitos outros, o seu livro, ISTAMBUL, Memórias de uma cidade! Acabei por encontrá-lo sentado numa esplanada tomando a sua bebida preferida, café!
Passando por cima de todas as etiquetas, resolvi pedir-lhe uma entrevista! A princípio pareceu hesitar; mas depois deve ter achado piada ao meu descaramento e resolveu perguntar o que é que eu queria saber dele.
Bom, acabei por gaguejar e as perguntas não saiam da minha garganta!
Ao invés disso, acabei por lhe falar de mim, das minhas tentativas falhadas em me tornar um escritor, e também em simultâneo, potencialmente, ser um aprendiz de pintor, fotografo, etc.
Ele aí esboçou mesmo uma tentativa de se levantar e ir-se embora.
Eu implorei e acabei por lhe confessar que vivia num comboio que nunca chegava ao fim da linha, já que as suas viagens eram ininterruptas. E falei-lhe da minha mãe, que vivia comigo nesse comboio, em carruagens decoradas a rigor numa imitação burlesca do comboio Expresso do Oriente.
E ele aí quase que dava um salto da cadeira.
Parece que estaria à espera de qualquer coisa estapafúrdia ou irreverente da minha parte, mas nunca aquela revelação de que eu era um personagem de um mundo de que ainda não havia sido inventado! Uma espécie de realidade que mais parecia ter sido estraída de uma peça surrealista ou em última estância talvez fazendo parte de um reportário de um grupo teatral a roçar algo parecido com uma espécie de quinta dimensão futurista.
Agora foi ele que teve interesse em perguntar:
Orhan Pamuk: Quando posso ler algo que você tenha escrito?
Respondi : hoje, mesmo! Daqui a pouco! É só dar-me tempo de eu correr ao hotel e apanhar a  pasta onde guardo os manuscritos e trago-os usando a mesma velocidade que usei quando decidi ir buscá-los!
OP: - Você, é cómico!
: - Obrigado. E a minha entrevista, ainda está de pé?

OP: O que é que você quer saber?
: - É fácil para um escritor como você continuar a publicar livros?
OP: - Esses bons anos se foram. Quando eu estava publicando meus primeiros livros, a geração anterior de autores estava desaparecendo, então fui bem recepcionado porque eu era um novo autor.
: -  Quando diz geração anterior, quem você tem em mente?
OP: Os autores que sentiam uma responsabilidade social, que sentiam que a literatura serve à moralidade à política. Eles eram realistas plenos, não experimentais. Como autores em tantos países pobres, eles desperdiçaram seus talentos tentando servir à nação.
Eu não queria ser como eles, porque mesmo na minha juventude eu aproveitei [as leituras de] Faulkner, Virginia Woolf, Proust – nunca aspirei ao modelo sócio-realista de Steinbeck e Gorky. A literatura produzida nos anos 60 e 70 estava ficando ultrapassada, então fui recepcionado como um autor de uma nova geração.
Após a metade da década de 90, quando meus livros começaram a vender quantidades que ninguém na turquia sonhou, meus anos de lua de mel com a imprensa e a intelectualidade turquesa acabaram. Dali em diante, a recepção crítica era mais uma reacção à publicidade e às vendas em vez do conteúdo dos meus livros.
Agora, infelizmente, sou notório por meus comentários políticos – muitos deles pegos de entrevistas internacionais e vergonhosamente manipulados por alguns jornais nacionalistas Turqueses que me fazem parecer mais radical e tolo politicamente do que realmente sou.
: - Orhan, seu homônimo e narrador de Neve se descreveu como um escrivão que se senta na mesma hora todo dia. Você tem essa mesma disciplina na escrita?
OP: Eu estava enfatizando a natureza clerical do romancista em vez da do poeta, que tem uma imensa e prestigiada tradição na Turquia. Ser poeta é algo popular e respeitoso. Muitos dos sultões e homens de Estados Otomanos eram poetas. Mas não da maneira que entendemos poetas hoje. Por centenas de anos foi uma forma de se estabelecer como um intelectual. Muitas dessas pessoas costumavam colecionar suas poesias em manuscritos chamados divãs. De fato, a poesia da corte Otomana é chamada poesia de divã. Metade dos homens de Estado Otomano fizeram divãs. Era uma forma sofisticada e educada de escrever coisas, com muitas regras e rituais. Muito convencional e muito repetitivo. Após as ideias do Ocidente terem vindo à Turquia, esse legado foi mesclado com a ideia romântica e moderna do poeta como alguém que queima por verdade. Adicionou peso extra ao prestígio do poeta. Por outro lado, um romancista é essencialmente uma pessoa que cobre a distância através de sua paciência, lentamente, como uma formiga. Um romancista nos impressiona não por suas visões demoníacas e românticas, mas por sua paciência.
: -  Quando você era jovem você quis ser um pintor. Quando o seu amor pela pintura deu espaço ao seu amor pela escrita?
OP: Com 22 anos. Desde os meus 7 eu queria ser um pintor, e minha família aceitou isso. Todos pensaram que eu seria um pintor famoso. Mas algo aconteceu na minha cabeça – eu percebi que um parafuso afrouxou – e parei de pintar e imediatamente comecei meu primeiro romance.
: - Um parafuso afrouxou?
OP: Não consigo dizer os meus motivos para fazer aquilo. Recentemente publiquei um livro chamado Istambul. Metade dele é minha autobiografia até aquele momento e a outra metade é um ensaio sobre Istambul, ou mais precisamente, Istambul pela visão de uma criança. É uma combinação de pensar sobre imagens e paisagens e a química de uma cidade, e a percepção de uma criança sobre essa cidade, e a autogiografia dessa criança. A última sentença do livro diz “Eu não quero ser um artista”, eu disse. “Eu vou ser um escritor”. E isso não é explicado. Embora ler o livro inteiro possa explicar algo.
: -  Sua família ficou feliz com essa decisão?
OP: Minha mãe ficou triste. Meu pai em parte foi mais compreensivo porque na juventude ele quis ser poeta e traduziu Válery para o turquês, mas desistiu quando foi zombado pelo círculo de classe mais elevada ao qual ele pertencia.
: - A abertura de A Nova Vida é “Eu li um livro um dia e minha vida inteira       mudou”. Algum livro teve esse efeito em você?
OP: O Som e a Fúria foi muito importante para mim quando eu tinha 21, 22. Comprei uma cópia da edição da Penguin. Era difícil de entender, especialmente com meu inglês pobre.  Mas tinha uma tradução maravilhosa do livro para o turquês, então eu colocava o turquês e o inglês na mesa e lia meio parágrafo de um e ia voltava a outra. Aquele livro deixou uma marca em mim. Aquele resíduo foi a voz que desenvolvi. Logo comecei a escrever na primeira pessoa do singular. Na maior parte do tempo me sinto melhor quando estou interpretando outra pessoa do que quando escrevo em terceira pessoa.
: - Com frequência os críticos caracterizam seus romances como pós-modernos. Me parece, porém, que você recorre a truques narrativos principalmente de fontes tradicionais. Você cita, por exemplo, As Mil e Uma Noites e outros textos clássicos da tradição oriental.
OP: Isso começou com O Livro Negro, apesar de eu ter lido Borges e Calvino mais cedo. Fui aos Estados Unidos com minha esposa em 1985, e lá encontrei a predominância e a imensa riqueza da cultura Americana. Com um turco vindo do Oriente Médio, tentando se reestabelecer como autor, eu me senti intimidado. Então retornei, voltei às minhas ‘raízes’. Percebi que minha geração tinha de inventar uma literatura nacional moderna.
Borges e Calvino me libertara. A conotação da literatura islâmica tradicional era tão reaccionária, tão política, e usada por conservadores de uma forma tão antiquada e tola, que eu nunca pensei que poderia fazer algo com esse material. Mas nos Estados Unidos, percebi que poderia voltar para esse material com uma mentalidade Calvinesca ou Borgianesca. Eu tive que começar a fazer uma distinção forte entre as conotações religiosas e literárias da literatura islâmica, para que eu pudesse me apropriar facilmente da riqueza de seus jogos, artifícios e parábolas. A Turquia tinha uma tradição sofisticada de uma literatura ornamental altamente refinada. Mas então os escritores socialmente comprometidos esvaziaram nossa literatura de seu conteúdo inovador.
Há muitas alegorias que se repetem nas várias tradições orais de narrar histórias – China, Índia Pérsia.Eu decidi as usar e contextualizar na Istambul contemporânea. É um experimento – coloque tudo junto, como em uma colagem Dadaísta; O Livro Negro tem essa qualidade. As vezes todas essas fontes se fundem e algo novo emerge. Então ajustei todas essas histórias reescritas a Istambul, adicionei um enredo detetivesco, e então veio O Livro Negro. Mas em sua fonte estava a força completa da cultura americana e o meu desejo de ser um escritor experimental sério. Eu não podia escrever um comentário social sobre os problemas da Turquia – eu era intimidado por eles. Então tive de tentar outra coisa.
: - O senhor nasceu e cresceu em Istambul, uma cidade em que as tradições do Ocidente e do Oriente se encontram e se misturam. Como vê esse encontro de tradições?

OP: - Eu não tinha consciência disso como tenho hoje, porque o 11/9 fez com que esse “confronto” de civilizações entre o ocidente e o oriente se tornasse um tema global. Na minha infância, isso era um tema turco. Por causa de suas geografia e história, a Turquia está situada tanto na Europa quanto na Ásia. Era parte do Império Otomano. Quando esse império ruiu, todas as diferentes nações se tornaram Estados separados. Então, ficamos sozinhos com nossa “turquice”. Atatürk (Kemal Atatürk, fundador da República da Turquia e primeiro presidente do país) impôs tradições turcas a nós, junto com visões ocidentais de progresso. Foi uma decisão de “ocidentalizar” o país, algo semelhante ao que acontece com o Japão e com a Rússia. Isso gerou reações contrárias. Essa luta formou a cultura e a identidade turcas. Isso acabou até criando o romance oriental/ocidental, em que os valores do oriente e do ocidente se encontram, e então alguma garota, que acredita demais nos valores ocidentais, acaba se prostituindo... Meu próprio livro O castelo branco se baseia um pouco nesse tema.

: - Eu ia perguntar se esse encontro afetou seus trabalhos.


OP: - Sim, não afetou apenas O castelo branco, mas praticamente todos os meus romances tratam desse assunto. É preciso compreender que quem vive em Istambul não fica se perguntando: “sou ocidental ou sou oriental?” Elas vivem suas vidas. Por isso, eu não tinha consciência desse confronto entre Oriente e Ocidente como tenho hoje, porque o modo como a Turquia impôs a modernidade e a secularização, pela força das armas, a uma sociedade tradicional islâmica é basicamente o que os Estados Unidos estão tentando fazer no mundo.


: - Como o senhor vê o papel político de um escritor? Ele precisa tomar partido e defender sua posição sempre que possível?

OP: - Não. Nós tomamos partidos políticos por conta de nossa ética pessoal. Eu acredito fortemente que um escritor não deve se envolver em situações políticas, mas é inevitável. Escrever um romance é se identificar com pessoas. Não apenas o seu tipo de pessoa, mas com pessoas que são muito diferentes de você. Quando você começa a fazer isso, como eu fiz em Neve, você precisa compreender questões políticas islâmicas. Isso não significa que eu concorde com as situações políticas islâmicas apresentadas no livro. Meu dever ético não é julgar e criticar, mas me colocar na posição de alguém e tentar entender por que ele tem tanta raiva do Ocidente.

: - Assim com o senhor sofreu forte oposição por comentar assuntos considerados tabus (como o genocídio de armênios cometido pelos turcos em 1915), vários escritores latino-americanos foram vítimas de oposição por causa de seus livros. O senhor sente algum tipo de identificação com eles?

OP: - Claro. Depois que meus problemas começaram, eu senti ainda mais essa identificação. Mas em 1979, quando Harold Pynter e Arthur Miller foram à Turquia – naquela época eu não era um escritor tão famoso, mas tinha alguns livros publicados –, eu servi de guia a eles. E era um período de forte repressão, mas eu acreditava na liberdade de expressão. No final, meu principal valor é a liberdade de expressão. Eu entendo qualquer escritor, de qualquer lugar no mundo, que sofra repressão.

: - Para o senhor, qual é o papel da literatura?

OP: - Comunicação. Olhar para o coração humano. Ver humanidade em todas as culturas, em todas as situações, em todas as classes, cores, raças, sexos. Ver a vida claramente. Para me perguntar a mim mesmo coisas como “por que vivemos, quais são nossos valores na vida, quais são os valores que devemos respeitar, que tipo de vida devemos viver”. Questões que as pessoas esperam da religião, da filosofia, eu espero de romances, de literatura. Não acredito em força política fora dos romances, mas, sabe, às vezes as pessoas me pedem para assinar algo, um abaixo-assinado, e eu preciso assinar. É inevitável, em países em que a democracia é limitada, não fazer parte disso. Tenho sorte, sou famoso, e acabo me envolvendo. Mas minhas motivações não são nunca políticas. Quero escrever bons romances. Eu escrevo pela beleza do romance. Ponto final. Mas também quero ser uma pessoa politicamente correcta.

: - Notei que o senhor tem uma conexão muito forte com Jorge Luis Borges. Como o senhor vê essa relação?

OP: - Literatura não tem a ver com política. Traduções são feitas, você pode comprar livros em lojas como o Amazon em cinco minutos...  literatura é, hoje, um mundo muito grande, mas a comunicação o torna bem pequeno de se alcançar. Não prestamos atenção se ele argentino. Ele é um grande escritor, queremos ler o que ele escreve. Ele transforma a literatura. Eu gosto do Borges, como um escritor. Sinto prazer em ler suas coisas. Mas como me ajudou na minha vida! Em 1985, eu estava em Nova York, e pela primeira vez na vida eu passava tanto tempo longe da Turquia. Eu estava fascinado pelas bibliotecas americanas, pela cultura americana, pelos museus... Eu ficava me perguntando: “onde está meu sentimento turco?” Depois disso, comecei a ler literatura clássica islâmica. E Borges me ajudou a enxergar as alegorias, os jogos de palavras, os truques narrativos, que podem ser encontrados aos montes na literatura islâmica. Por causa de Borges, li esses textos apenas pelo seu valor intelectual. E a partir de então eu decidi que eu poderia usar esses truques nos meus romances, como fiz com O livro negro e Meu nome é vermelho.


: - No seu livro, O romancista ingênuo e o sentimental, o senhor fala da sua experiência como leitor de romances. O senhor consegue se lembrar se houve algum momento claro em que decidiu não apenas ler, mas também escrever?

OP: - Foi algo relacionado ao fato de eu ter chegado a um beco sem saída com minhas pinturas. Eu queria ser um pintor, como disse no meu livro Istambul, mas, de alguma maneira, cheguei a um beco sem saída. Não sei explicar como. Mas eu sabia que estava destinado a viver num quarto, sozinho, sendo criativo, em vez de trabalhar em uma empresa, recebendo ordens, ou sendo um professor, um vendedor... Sabia que não seria assim. Então, minha decisão foi ser criativo. De fazer algo sozinho, com papel e caneta. Então, trocar para a literatura foi uma maneira de usar minha criatividade. Me lembro do dia em que quis ser romancista. Eu estava assustado, mas sabia que precisava escrever algo em uma página. Lembro de ler, naquela época, apenas O estrangeiro, de Albert Camus. Simplesmente porque ele lhe dá tanta boa vontade. Eu me sentia optimista. Escrever parecia tão simples: ir à praia, observar pessoas, escrever de maneira lírica. Eu estava lendo, relendo, relendo, e tentando escrever minhas sentenças. Meu primeiro livro não teve nada a ver com ele – tinha mais a ver com longos épicos, mas eu estava tentando me formar lendo esse livro de que eu gostava tanto.

: - Nesse mesmo livro, o senhor fala de escritores famosos. Quais foram os autores que mais influenciaram sua maneira de escrever?

OP: - Nesse ponto, não sou muito diferente de outros: Tolstói, Dostoievski, Proust e Thomas Mann são meus quatro maiores romancistas. Eles são muito bons. Gosto do apetite deles e da atenção aos detalhes. E eles também escrevem grandes livros, e eu gosto disso. Eles também continuaram por anos, e espero ser capaz de fazer isso. Além disso, há também outro grupo de escritores: Borges, Nabokov, Calvino. Eles me deram algo para pensar em uma literatura “caixa dentro de caixa dentro de caixa”. Literatura pós-moderna. Me deram os meios de sair do formato padrão do romance do século XIX, que eu respeito e, de certa maneira, voltei a ele em meu livro O museu da inocência. Mas é preciso usar esse formato de maneiras diferentes.

: - Há algum escritor que foi inócuo em sua formação? O senhor leu, mas ele não teve influência nenhuma na sua maneira de escrever?

OP: - Li Patricia Highsmith, mas não fui influenciado por ela. Não que eu não quisesse ser influenciado – não tenho medo das influências. Como vivo em um lugar tão distante, o fato de escrever sobre Istambul já evita que as influências fiquem claras.

: - Hoje, quais são os autores que mais chamam sua atenção?

OP: - Não leio mais tanto quanto costumava. Admiro Thomas Bernhardt, Samuel Beckett.  García Marquez também.


: - O senhor dá várias palestras ao redor do mundo. Conhecer seus leitores é algo importante?

OP: - Quando você dá uma palestra, você não conhece apenas seus leitores. Você chega perto de suas culturas. É sempre óptimo conhecer meus leitores, que gostam dos meus livros, sorriem de maneira tão gentil. É óptimo, eu me sinto honrado. Mas ando pelas ruas, vou a museus, tento compreender os jornais, visito livrarias. Eu gostei muito do que vi, porque sempre comparo com o que vejo em Istambul. Sou professor de Humanidade na Universidade de Columbia. Mas quero ser professor de Modernidade Comparada, que é uma disciplina que eu quero inventar. Brasil, México, Índia, China, Coreia são muito similares. Jornais, publicidade, programas de televisão, raivas, diferença entre classes mais e menos abastadas, pretensões das classes superiores, legitimação do poder, papel do exército... Essas coisas são tão parecidas e tão diferentes, ao mesmo tempo, em vários lugares, que eu digo a mim mesmo que deveria haver uma cadeira de Modernidade Comparada em Columbia. Gosto de comparar esses detalhes. Sempre que viajo tento observar isso.


: - O senhor é adepto de novas tecnologias? Como o senhor escreve seus romances?

OP: - Eu escrevo à mão, e isso não vai mudar. Quando as primeiras máquinas de escrever chegaram, eu já escrevia à mão. Quando surgiram os primeiros computadores eu tentei escrever, mas eles machucavam meus olhos, porque eram muito primitivos. Já sou velho, não vou mudar meus hábitos. Mas é claro que eu mando emails, que eu tenho um iPad, um celular... Tenho interesse nessas tecnologias, mas elas mudam tão rápido que preciso que alguém me ensine como usá-las. Eu tenho uma assistente que me ajuda. Livros digitais são, definitivamente, uma revolução. Editores falam muito deles e escritores estão assustados. Nós, escritores, não conhecemos muito sobre o assunto. Mas é uma revolução. Os hábitos de leitura vão mudar. No final, isso vai dar mais livros às pessoas de maneira barata. Mas vai haver brigas porque eles mudam os direitos dos autores, dos editores, das editoras. Mas se você olhar, por exemplo, de Marte, você vai ver a evolução. Um dia, você vai apertar um botão e vai ter todos os livros do mundo em um pequeno aparelho. Claro, vai ser barato e bom para as pessoas.

: - Quando o senhor está escrevendo um romance, qual é seu método de trabalho?

OP: - Eu acordo, às vezes ainda de pijama, sento na minha mesa e tomo meu café e meu chá enquanto leio o que escrevi no dia anterior, como as pessoas leem jornais. Eu só leio jornais depois das duas da tarde, porque quero manter minha mente livre de raiva, porque são sempre más notícias. Gosto de manter minha mente limpa de manhã para escrever. Depois, leio jornais, leio meus emails, e volto a trabalhar depois. Eu gosto do meu trabalho. Tenho tantas coisas para escrever, tantos romances que quero escrever...

: - Quando o senhor se dedica a um romance, já tem o enredo pronto em sua cabeça?

OP: - Em comparação com outros autores, eu planeio mais meus livros. Eu tenho um cuidado especial com a primeira frase. Isso é importante, mas pensar no final é ainda mais importante. Depois que você tem isso, é uma alegria. Eu sempre tento encontrar o final. Isso me ajuda muito. Ser um escritor é como ser um corredor de maratonas. É preciso ter força. A força de um romancista não é apenas sua criatividade, mas sua persistência e determinação. Há dias bons e dias ruins, você precisa seguir como um comboio.

: - O senhor está trabalhando em um novo romance?

OP: - Sim. É sobre um vendedor de rua que vende iogurte e boza, uma bebida fermentada popular encontrada no Oriente Médio e no norte da África. É uma crônica da imigração da Anatólia para Istambul. Veremos o surgimento de uma nação. Veremos muita pobreza, mas assim como acontece com países como Brasil e China, essa nação vai ficando rica. Em paralelo, veremos a imigração para velhas cidades imperiais, que acabam mudando. Estou escrevendo, nesse sentido, sobre os excluídos de Istambul. É uma crônica das pessoas pobres de Istambul, do século XVII até hoje. Mas não estou escrevendo um livro do John Steinbeck. Estou escrevendo um livro de Orhan Pamuk, então essa crônica de costumes, assim como em Neve e Meu nome é vermelho, vai ser combinada com minha imaginação, com anedotas, com surrealismo, observação antropológica. O título, por enquanto, é Strangeness in my mind (Estranheza em minha mente). O romance quer ser tanto uma crônica realista da vida de vendedores de rua quanto um panorama da vida em Istambul e da imigração.

: - Vai ser um grande livro, então.

OP: - Sim, assim espero! E vai me tomar muito tempo.

Paramos. Tinha a sensação que esgotara os temas para continuar com a entrevista. Olhamos um para o outro a indagar se tinhamos realmente chegado ao fim.
Ele aproveitou para dizer:

OP: E então? Os seus manuscritos? Posso dar-lhes uma vista de olhos?

Passei-lhe a pasta e disse-lhe: empresto-os somente com uma condição! Que os leve e os analize em sua casa numa apreciação não apressada! É muito importante a sua opinião sobre eles! Promete?

OP: - Concerteza! Está prometido! A minha apreciação crítica será honesta! A impressão que eu tiver deles lhe direi com a máxima objectividade e isenção!

Apertamos as mãos e à laia de despedida ainda lhe disse: quando nos voltaremos a ver?

OP: - De imediato, não. Parto amanhã para Nova Iorque! Quando você voltar a Istambul, na sua próxima viagem, procure-me. Nessa altura já terei lido os seus manuscritos e estarei em condições de poder falar deles. Até breve.

Apertamos as mãos mais uma vez e comecei a vê-lo a afastar-se rua abaixo até desaparecer na dobra da esquina.

Voltei para o hotel.

Enquanto a comboio não trazia a minha casa de volta restava-me somente esperar!

No entanto tinha a impressão que dera finalmente um passo gigante para colocar alguma ordem no caos da minha vida!

quinta-feira, 11 de abril de 2019

A VIÚVA DO EXPRESSO DO ORIENTE Capítulo 3 (Continuação)


Escrito por Lopes Barbosa

  

3



  ISTAMBUL

Istambul. A sua beleza é reconhecida há centenas de anos, quando a cidade ainda se designava  de outra maneira: Constantinopla.
Edmondo de Amicis, sobre ela escreveu: “o sítio mais bonito do mundo, e quem se atrever a negá-lo demonstra uma falta de gratidão perante Deus e a Natureza”, e “os nossos sentidos não conseguiriam suportar uma beleza maior do que a de Constantinopla”.
Por sua vez, Paul Theroux, afirmou que Istambul “é tão mágica como escrevem. Dizer que é maravilhosa é tão óbvio que é frívolo, mas a visão das suas mesquitas e igrejas pode ser quase de fazer parar o coração.”
Quando conheci a cidade pela primeira vez parecia que essas afirmações correspondiam ao seu perfil de cidade magestática e misteriosa!
Assim que saí do hotel, fui a pé até à ponte de Galata, para desse ponto ter uma visão panorâmica de Istambul.
À minha direita, a parte asiática da cidade (onde começa a Anatólia) e o Bósforo, o estreito que divide a Europa da Ásia e que liga o Mar Negro ao Mar de Mármara.
Do meu lado esquerdo, fica o Corno de Ouro, um braço de mar que penetra a margem europeia de Istambul, onde antigamente começava a Trácia.
Frente aos meus olhos, estão as antigas cidades de Galata e Pera, que já foram Bizâncio e que são hoje os mais cosmopolitas bairros de Istambul.
Atrás de mim, abarcando as sete colinas, está o centro histórico, o coração palpitante da majestosa Constantinopla.
Reparando bem, Istambul e Veneza têm bastantes semelhanças. Uma delas é pertinente: a água domina-as.
Veneza foi erguida sobre estacas, Istambul, a pérola turca, não.
Veneza é atravessada por centenas de canais, Istambul praticamente tem só dois grandes canais.
Durante todo o dia uma quantidade de ferries liga os principais pontos de Istambul.
“Istambul não é uma cidade; é um delírio colectivo. Em nenhuma outra parte do planeta pode existir uma cidade onde cada um dos sentidos do visitante é estimulado e abalado de forma tão implacável. É uma experiência simultaneamente confusa, vagamente enervante e estranhamente excitante”, escreveu Bill Bryson sobre o centro de Istambul.
Por sua vez, Sultanahmet é “o Oriente das mil cores”, um mundo de mesquitas, bazares, vendedores ambulantes e lojas de todas as formas e feitios.
É difícil aos nossos sentidos absorverem tamanha quantidade de pormenores informativos, daí a necessidade de não explorarmos uma área demasiado grande. É mais sensato dedicarmos a nossa atenção a um conjunto de ruas! A riqueza dos detalhes de uma cidade conseguimos abarcá-los desta maneira, doutra forma eles nos escapariam.
Acabei o dia atravessando a ponte de Galata e detive-me junto ao Bósforo.
Como afirmava o mais célebre escritor istambulense, Orhan Pamuk, “o espírito e a força de Istambul provêm do Bósforo.” Parti à procura dessas características.
Encontrei-as em Karakoy, mesmo encostado ao mar.
“Gosto de contemplar os crepúsculos precoces, as árvores nuas que tremem no poyraz [vento norte] e, nos dias de transição entre Outono e o Inverno, as pessoas que, pela meia escuridão das ruas regressam apressadas a casa, embrulhadas nos sobretudos pretos. E as paredes dos prédios antigos e dos konak de madeira em ruínas, que em Istambul ganham uma tonalidade própria por falta de manutenção e pintura, despertam em mim uma agradável tristeza e o prazer da contemplação”, escreveu Orhan Pamuk.
Como ele, perdi-me em horas de contemplação junto  ao cais de Karakoy.
Daí pude contemplar o movimento incessante dos ferries, numa coreografia lenta, a que se misturavam centenas de gaivotas atrás de cada um à espera de um pedaço de pão.
Pamuk ainda os usa como antídoto para a melancolia, dedicando-se a contá-los enquanto cruzam o Bósforo: “se não contar os barcos que passam, serei mais rapidamente agarrado pela tristeza e pelo sentimento de perda que a cidade difunde”.
Quando resolvi regressar ao hotel, não pude deixar de sentir uma enorme sensação de quietude e de tranquilidade de espírito! Penso que o muezim das cinco da tarde e a suave luminosidade do crepúsculo também contribuiram para isso
Pela primeira vez em muitos dias, dormi profundamente e em paz comigo mesmo.