quarta-feira, 17 de abril de 2019

A VIÚVA DO EXPRESSO DO ORIENTE Capítulo 5 (Continuação)


Escrito por Lopes Barbosa





5


O PADRE E MINHA MÃE



Quando o comboio regressou a Istambul, praticamente eu já me tinha despedido da cidade. Depois da conversa que mantive com Orhan Pamuk o interesse pela cidade tinha-se desvanecido.  Ficava a recordação do encontro com alguém que reputava de importante para a minha vida futura de romancista, se é que algum dia ela iria concretizar-se.
Mas a esperança de poder ouvir comentários sobre aquilo que eu escrevia por alguém mais que abalizado passou a constituir para mim um antídoto sobre o tédio ou a tristeza.

Quando entrei finalmente no comboio e na carruagem que nos estava destinada, a nossa carruagem especial, fui encontrar minha mãe deveras abatida. Parecia doente; mas para me tranquilizar mentiu sobre o seu estado de saúde! Disse que não era nada e só precisava de conversar com alguém, coisa que já não fazia há muito tempo! Eu nunca fui a melhor pessoa para ter diálogos ela e por tal motivo cada qual vivia no seu casulo sem praticamente comunicar um com o outro.
Perguntei-lhe: a mãe precisa de conversar com alguém ou simplesmente são desabafos o que quer expressar?
- Uma coisa e outra... – respondeu ela.
- Mas que tipo de pessoa seria a adequada para ter como interlocutor?
- Penso que a pessoa ideal seria um padre!
- Um padre?
- Sim, um padre! Com ele estaria à vontade para poder abrir a minha alma, que me parece estar a tentar pregar-me algumas partidas! Tenho-me lembrado dos meus maridos e chego à conclusão que se calhar não me portei muito bem com todos eles!
- Pensa isso, porquê? – indaguei eu num misto de curiosidade e apreensão?
- Nada de significativo! São simplesmente algumas suspeitas sobre a forma como vivi a minha vida com eles, nada mais1 Penso que não os traí de maneira nenhuma, mas sinto um certo peso que gostaria de partilhar com alguêm! Acabo por não saber se que o que sinto são remorsos por coisas que não fiz bem feitas ou simplesmente saudades por um tipo de vida que já desapareceu para sempre!
- E o meu pai? Como é avaliado? A mãe sente por ele alguma coisa, alguma ternura, por exemplo?
- Por esse não posso responder, nem positivamente nem negativamente, já que teve uma passagem meteórica pela minha vida!
- Como assim? – perguntei-lhe bastante curioso por saber como a minha mãe o avaliaria no meio de todos os outros!
   - O teu pai nunca me fez sofrer! Por isso não lhe guardo qualquer rancor! Mas também não me deu uma felicidade permanente e duradoura! O nosso envolvimento fui bastante efémero uma vez que depois de me engravidar foi acometido de doença súbita e veio a falecer pouco tempo depois! Nem tivemos tempo de casar!
Por isso as memórias que guardo dele são bastante frágeis. Tu, nasceste, é verdade, e isso já é muito importante, porque passou  a representar a coisa mais importante que tinha acontecido à minha vida! Mas, infelizmente, faltou o resto!
 Os meus verdadeiros problemas são outros e todos eles dizem respeito à vida que tive com os meus maridos, os que viveram comigo e dos quais não sobrou descendentes!

Calamo-nos por um instante.

- Pelo que posso depreender, parece que a mãe reputa como algo de especial o relacionamento que teve com o meu pai!
- É verdade! Apesar de fugaz, o nosso envolvimento foi intenso e muito enriquecedor!
Foi pena não termos tido hipótese de construir a nossa visa à volta do teu nascimento, porque tu vinhas colmatar uma grande lacuna que ambos tinhamos! O teu pai e eu provinhamos de famílias miseráveis que praticamente não nos garantiram qualquer tipo de futuro.
Assim, o nosso encontro representou para as nossas vidas uma espécie de tábua de salvação! Agarramo-nos um ao outro e no breve período em que estivemos juntos as nossas vidas começaram a ter um mínimo de solidez que anteriormente nunca haviamos experimentado!
Foi um período breve mas muito enriquecedor! Infelizmente não tivemos futuro! A vida tem destas coisa: cria barreiras a quem se quer bem! A morte é algo que não podemos contornar!
Mas o teu nascimento acabou por garantir para mim um rumo!
Apesar da ausência do teu pai eu lutei abnegadamente para construir, contigo à minha volta, um projecto um vida que felizmente acabei por concretizar de forma sólida!
O meu primeiro marido era comerciante mas eu ajudei-o muito na sua actividade. Posso dizer que do muito que ele construiu teve a minha participação nesse desenvolvimento. E com os outros aconteceu a mesma coisa... sucessivamente a todos eles eu assessorei, ajudei, apoiei, etc.     
  E eles construiram as suas fortunas tendo-me sempre a mim como sua sombra protectora!
Por isso, tenho a minha consciência tranquila!
- Então, não entendo a sua preocupação em relação às vidas que viveu com eles ao ponto de agora estar a interrogar-se se a sua conduta foi a melhor? – acabei por lhe dizer.
- Não é isso. O que se passa comigo possivelmente tem mais a ver com a solidão em que se converteu a minha vida!
- Então, porquê um padre para dialogar? Se não são pecados o que quer confessar porquê um padre?
 - Porque de repente, talvez, me deu vontade de conhecer o outro lado da vida de que andei à muito tempo arredada, o lado religioso, coisa que só minimanenete vislumbrei na infância e sempre de forma fugidia e incompleta!
- Ah! A religião! – disse eu. – Talvez a mãe se venha a desenganar se entrar a fundo nessa questão!  
- Talvez! Mas gostava de experimentar. Porque não?
- Se é isso que quer não custa nada! Posso ir à procura de um padre, agora mesmo, e digo-lhe que está alguém moribundo a precisar urgentemente de se confessar! Talvez assim ele não negue em me acompanhar e tê-lo-à junto de si num instante!
- Ok, faz isso! Há muito tempo que não falo com alguém! Talvez me faça bem, mas se não fizer bem também mal não pode fazer... Sinto que estou a precisar em mudar um pouco de vida! Talvez se abrir a minha vida a algo de novo qualquer coisa de novo também possa ocorrer!
- Ok, mãe, enquanto o comboio não parte vou à procura de um padre. Não me demoro1 Volto já.

Não foi difícil encontrar uma igreja e também não foi difícil convencer o padre da urgência da sua vinda junto de minha mãe. Mantive a versão de ela estar a precisar de se confessar por se encontrar possivelmente no fim da sua vida!
O caminho até ao comboio foi feito velozmente e mal entrarmos no comboio este pôs-se em movimento.

Fiz as apresentações.

Mas depois por considerar que estava a mais, retirei-me discretamente Era meu dever deixá-los a sós.
Mas em vez de me retirar dissimulei a saída mas mantive-me escondido dentro da carruagem. Daí pude assistir prefeitamente ao diálogo que o padre manteve com minha mãe.

Padre: - Como está, senhora? Sente forças para falar comigo?
Mãe: - Sim, padre! Ainda conservo forças suficientes para ter consigo um diálogo que noutras circunstâncias possivelmente não teria.
P.: - Muito bem!
M.: Comecemos então.
P.: — Chegada a hora fatal em que o véu da ilusão se rasga para mostrar ao ser humano seduzido o quadro cruel de seus erros e vícios, não vos arrependeis, minha filha, das múltiplas desordens a que vos levaram a fragilidade e as fraquezas humanas?
M.: — Sim, meu amigo, arrependo-me.
P.: — Então, no tempo que vos resta, aproveitai esses benditos remorsos para receber do céu a absolvição geral de vossas faltas, e saibais que só pela mediação do santíssimo sacramento da penitência ser-vos-á possível alcançá-la do Eterno.
M.: — Não te entendo mais do que me compreendes.
P.: — Como?
M.: — Eu disse que me arrependo.
P.: — Já o dissestes.
M.: — Mas não compreendeste.
P.: — O quê?!
M.: — O seguinte: criado pela natureza, com apetites muito vivos e paixões muito fortes, posto neste mundo unicamente para entregar-me a eles e satisfazê-los, sendo tais efeitos de minha criação apenas necessidades relativas aos primeiros fins da natureza, ou, se preferires, derivações essenciais de seus projetos sobre mim, todos cm razão de suas leis, só me arrependo de não ter reconhecido o bastante sua onipotência, e meus únicos remorsos são pelo uso medíocre que fiz das faculdades (criminosas para ti, tão simples para mim) com que me dotou para servi-la. Por vezes lhe resisti e arrependo-me por isso. Cega pelo absurdo de teus sistemas, combati por eles toda a violência dos desejos recebidos por uma inspiração bem mais divina. Disso me arrependo. Só colhi flores quando poderia ter feito uma ampla colheita de frutos... Eis os justos motivos de meus arrependimentos; estima-me bastante para eu não procurar outros.
P.: — Onde vossos erros vos arrastam, onde vossos sofismas vos conduzem! Emprestai à coisa criada a onipotência do criador, e não vedes que as inclinações infelizes que vos desencaminharam são apenas efeitos dessa natureza corrompida a que atribuis a onipotência.
M.: — Amigo, parece-me que tua dialética é tão falsa quanto teu espírito. Gostaria que raciocinasses de modo mais justo, ou que me deixasses descansar em paz. O que entendes por criador e por natureza corrompida?
P.: — O criador é o senhor do universo. Aquele que tudo fez e criou e que tudo conserva por um simples efeito de sua onipotência.
M.: — Um grande homem, seguramente... Mas se é tão poderoso, por que criou uma natureza corrompida?
P.: — Que mérito as criaturas teriam se Deus não lhes tivesse deixado o livre-arbítrio, e o que ganhariam com isso se não houvesse na terra a possibilidade de fazer o bem e a de evitar o mal?
M.: — Então esse teu Deus quis ser do contra, fazendo tudo só para tentar ou testar sua criatura. Logo, não a conhecia e duvidava do seu resultado?
P.: — Ele a conhecia, sem dúvida, mas uma vez mais queria deixar-lhe o mérito da escolha.
M.: — Para quê, se sabia seu partido de antemão e só a ele competia, já que o dizes onipotente, só a ele competia, digo, fazer com que escolhesse o do bem?
P.: — Quem pode compreender os desígnios imensos e infinitos de Deus sobre o homem e quem pode compreender tudo o que vemos?
M.: — Quem simplifica as coisas, meu amigo, e sobretudo não multiplica as causas para melhor confundir os efeitos. Por que colocas outra questão quando não me podes explicar a primeira? Sendo possível que a natureza tenha feito sozinha tudo o que atribuis a teu Deus, por que pretendes arrumar-lhe um senhor? A causa do que não compreendes talvez seja a coisa mais simples do mundo. Aperfeiçoa tua física e entenderás melhor a natureza; purifica tua razão, elimina teus preconceitos e não necessitarás mais desse deus.
P.: — A senhora é uma infeliz, pensei apenas que fosses sociniana!... Tinha armas para combater-te, mas vejo bem que é ateia! E já que teu coração se nega à imensidade das provas autênticas que recebemos todos os dias da existência do criador, nada mais tenho a te dizer. Não se devolve a luz a um cego.
M.: — Meu amigo, conforma-te com a evidência de que cego é quem se veda com uma fita, não quem a arranca dos olhos. Tu edificas, inventas, multiplicas; eu destruo, simplifico. Tu acumulas erros sobre erros; eu combato todos. Qual de nós é o cego?
P.: — Então não crês mesmo em Deus?
M.: — Não, por uma razão bem simples. E perfeitamente impossível crer no que não se compreende. Entre a compreensão e a fé devem existir relações imediatas. A compreensão é o primeiro alimento da fé. Onde a compreensão falha, a fé está morta; e aqueles que assim mesmo continuam a crer, enganam-se redondamente. Desafio-te a crer no deus que me pregas, pois não saberias me demonstrá-lo, nem compete a ti me defini-lo; por conseguinte não o compreendes, e, se não o compreendes, como me podes fornecer um argumento razoável a seu respeito? Em suma: sendo quimera ou inutilidade tudo o que ultrapassa os limites do espírito humano, e teu deus só podendo ser uma dessas coisas, no primeiro caso eu seria louca de crer nele, no segundo uma imbecil. Meu amigo, prova-me a inércia da matéria e admito o criador. Prova-me que a natureza não se basta a si mesma, e te permito conceber-lhe um senhor. Até então não esperes nada de mim. Só me rendo à evidência que recebo dos sentidos; onde eles cessam, minha fé desfalece. Creio no sol porque o vejo, concebo-o como o centro de reunião de toda a matéria inflamável da natureza, aceito sua marcha periódica sem espantar-me. É uma operação física, talvez tão simples quanto a da eletricidade, mas que não nos é permitido compreender. Para que ir mais longe? Não terei avançado mais quando edificares teu deus acima disso e não me será preciso o mesmo esforço tanto para compreender o operário quanto para definir a obra? Assim sendo, não me terás prestado nenhum serviço com a edificação de tua quimera; por me confundires o espírito, em vez de esclarecê-lo, só te devo ódio em lugar de reconhecimento. Teu deus é uma máquina que fabricaste para servir tuas paixões, movida a seu bel-prazer, mas desde que interfere nas minhas, não estranhes que eu a rejeite; e no instante em que minha alma fraca mais precisa de calma e filosofia, não me venhas com esses sofismas espantá-la, que só a aterrorizam sem convencê-la e a irritam sem torná-la melhor. Esta alma, meu amigo, é o que a natureza desejou que fosse, isto é, o resultado dos órgãos com que me formou em razão de suas metas e necessidades; e como ela necessita igualmente de virtudes e de vícios, quando quis levar-me às primeiras, ela o fez, e quando desejou conduzir-me aos segundos, inspirou-me tais desejos aos quais entreguei-me do mesmo modo. Toma apenas essas leis como a única causa de nossa inconseqüência humana, e não estabeleça para elas outros princípios que suas vontades e necessidades.
P.: — Sendo assim, tudo é necessário no mundo.
M.: — Seguramente.
P.: — Mas se tudo é necessário, não está tudo regulado?
M.: — Quem diz o contrário?
P.: — E quem pode regular tudo como está a não ser uma mão onipotente e sábia?
M.: — Não é necessário que a pólvora inflame ao se lhe atear fogo?
P.: — Sim.
M.: — E que sabedoria vês nisso?
P.: — Nenhuma.
M.: — Portanto é possível haver coisas necessárias sem sabedoria, e possível, consequentemente, tudo derivar de uma causa primeira sem haver nessa causa razão ou sabedoria.
P.: — Onde quereis chegar?
M.: — A provar-te que tudo pode ser o que é e o que vês, sem que nenhuma causa sábia e razoável o conduza, e que efeitos naturais devem ter causas naturais sem que seja necessário supô-las antinaturais, como esse teu deus propriamente, o qual, conforme disse, necessita de explicação e não fornece nenhuma; se ele não serve para nada, é perfeitamente inútil, sendo evidente que o que é inútil é nulo e o que é nulo é nada; portanto, para convencer-me de que teu deus é uma quimera, não necessito de outro raciocínio senão o que me fornece a certeza de sua inutilidade.
P.: — Nesse momento, parece-me necessário falar-vos de religião.
M.: — Por que não? Nada me diverte como as provas do excesso a que chegaram os homens sobre esse ponto tratando-se de fanatismo e de imbecilidade. São espécies de desvios prodigiosos como esses que tornam o quadro horrível, mas sempre interessante para mim. Responde com franqueza e, sobretudo, sem egoísmo: seu eu fosse fraca o bastante para deixar-me surpreender por teus ridículos sistemas sobre a fabulosa existência do ser que torna a religião necessária, sob que forma me aconselharias a lhe oferecer um culto? Gostarias que eu adotasse os devaneios de Confúcio mais do que os absurdos de Brahma, que eu adorasse a grande serpente dos negros, o astro dos peruanos, ou o deus dos exércitos de Moisés? A qual das seitas de Maomé desejarias que eu me rendesse, ou qual das heresias cristãs seria para ti preferível? Cuidado com a resposta.
P.: — Poderia haver dúvidas?
M.: — Ela então é egoísta.
P.: — Não, amar-te tanto quanto a mim mesmo é aconselhar-te o que creio.
M.: — E dar ouvidos a semelhantes erros é amar-nos muito pouco.
P.: — E quem pode fechar os olhos diante dos milagres de nosso divino redentor.
M.: — Quem só vê nele o mais ordinário dos tratantes e o mais vulgar dos impostores.
P.: — O Deus, vós o ouvistes... e não bramastes? 1.
M.: — Não, meu amigo, está tudo em paz, porque esse deus, por impotência, razão, ou tudo o que queiras enfim em um ser que só admito por um momento em condescendência a ti, ou se preferires, para auxiliar-te a vista estreita, esse deus, digo, se existe mesmo como loucamente crês, não pode ter usado meios tão ridículos para nos convencer quanto aqueles que teu Jesus supõe.
P.: — Então as profecias, os milagres, os mártires, tudo isso não serve como provas?
M.: — Como queres que eu aceite em boa lógica como provas tudo aquilo que carece delas em si mesmo? Para que a profecia se comprovasse, eu deveria, primeiramente, ter certeza absoluta de que ela fora feita. Ora, estando isso consignado na história, não pode ter mais força para mim do que outros fatos históricos dentre os quais três quartos são bastante duvidosos; e se acrescentarmos a isso a aparência mais que verossímil de que só me são transmitidos por historiadores interesseiros, terei, como vês, mais que direito em duvidar. Além disso, quem me assegurará de que essa profecia não fora feita posteriormente, de que não fora o efeito da combinação da mais simples política, como a que estabelece um reino feliz sob um rei justo ou geada no inverno? E se assim é, como queres que a profecia, com tal necessidade em ser comprovada, possa ela mesma tornar-se uma prova? Quanto aos teus milagres, também não me impressionam. Todos os astutos fizeram isso e todos os tolos acreditaram. Para persuadir-me da veracidade de um milagre, seria preciso estar bem segura de que o evento assim chamado fosse absolutamente contrário às leis da natureza, pois só o que se situa fora dela pode passar por milagre; e quem a conhece o bastante para ousar afirmar qual é precisamente o ponto em que ela pára e qual aquele em que é violada? Para se acreditar em um pretenso milagre bastam duas coisas: o mágico e os incautos. Vai, não busques jamais outra origem para os teus. Todos os novos sectários fizeram-no; e o que é mais singular, todos encontraram imbecis que creram neles. Teu Jesus nada fez de mais singular que Apolônio de Tiana e, entretanto, ninguém tomou este por um deus. Quanto a teus mártires, sem dúvida, o mais fraco de teus argumentos, são necessários apenas entusiasmo e resistência para fazê-los; como a causa contrária oferece-me tantos quanto a tua, jamais terei autoridade bastante para crer mais em uma do que outra, mas, em compensação, serei levada a achar ambas piedosas. Ah, meu amigo, se o deus que me pregas existisse de fato, teria necessidade de milagres, de mártires e de profecias para erigir seu império? E se, como dizes, o coração do homem fosse obra sua, não haveria de ser escolhido para santuário de sua lei? Emanada de um deus justo, esta lei igual estaria igualmente gravada de modo irresistível em todos os corações, e de uma parte do universo à outra, assemelhando-se todos os homens por esse órgão delicado e sensível, assemelhar-se-iam da mesma forma pela homenagem que rendessem ao deus de quem o receberam; todos só conheceriam um modo de amá-lo, de adorá-lo ou de servi-lo, e lhes seria tão impossível desconhecer esse deus quanto resistir à inclinação secreta de seu culto. Em vez disso, o que vejo no universo? Tantos deuses quanto países, tantas maneiras de servir suas divindades quanto diferentes cabeças ou imaginações; e esta multiplicidade de opiniões dentre as quais me é fisicamente impossível escolher seria para ti obra de um deus justo? Ora, pregador, ultrajas teu deus mostrando-o assim. Deixa-me negá-lo totalmente, pois, se ele existe, tu o ultrajas bem mais com tuas blasfêmias do que eu com minha incredulidade. Volta à razão, pregador! Teu Jesus não vale mais que Maomé, Maomé não mais que Moisés, e todos os três não são melhores que Confúcio, que apesar de tudo ditou alguns bons princípios, enquanto que esse trio disparatou. Mas ao fim das contas são todos impostores de quem o filósofo caçoou, em quem os canalhas creram, e quem a justiça deveria ter enforcado.
P.: — Sim, e ela passou dos limites em relação a um deles.
M.: — Foi o que mais mereceu: sedicioso, desordeiro, caluniador, trapaceiro, libertino, grosseiro, farsante, em suma, um perigoso mau elemento que possuía a arte de dirigir o povo e que, sem dúvida, não passaria impune no estado em que então se encontrava o reino de Jerusalém. Este foi muito sábio em ter se livrado dele, caso único, talvez, em que minhas máximas, aliás, extremamente suaves e tolerantes, possam admitir a severidade de Têmis . Perdôo todos os erros, menos aqueles que podem ser perigosos para o governo sob o qual se vive. Os reis e sua majestade são as únicas coisas que me se me impõem, as únicas que respeito, e quem não ama seu país e seu rei não é digno de viver.
P.: — Mas deveis admitir algo após esta vida. E impossível que vosso espírito jamais tenha desejado dissipar as trevas do destino que nos aguarda. E qual sistema pode satisfazê-lo melhor do que o de uma profusão de penas para quem pratica o mal e uma eternidade em recompensas para quem pratica o bem?
M.: — Qual sistema, meu amigo? O do nada, claro. Este jamais me espantou; só vejo nele consolo e simplicidade. Os outros são obra do orgulho, só ele pertence à razão. Além disso, o nada não é repelente nem absoluto. Não tenho sob os olhos o exemplo de tudo o que é gerado e regenerado perpetuamente pela natureza? Coisa alguma perece ou se destrói no mundo, meu amigo; hoje homem, amanhã verme, depois de amanha mosca, não é sempre existir? E por que seria recompensado por virtudes de que não tenho mérito algum ou punida por crimes de que não fui senhora? Podes conciliar a bondade de teu pretenso deus com este sistema, e como ele me pode ter criado só para se dar ao prazer de me punir, e ainda em conseqüência de uma escolha de qual não me deixa ser senhora?
P.: — Vós o sois.
M.: — Sim, conforme teus preconceitos. Mas a razão os destrói, e o sistema de liberdade do homem foi inventado apenas para fabricar o da graça, que se tornou tão favorável a teus devaneios. Qual homem no mundo, vendo o cadafalso ao lado do crime, cometê-lo-ia, se estivesse livre de não cometê-lo? Somos arrastados por uma força irresistível, e jamais, sequer um instante, temos o poder de nos determinar para outra coisa além daquela a que estamos inclinados. Não há uma só virtude que não seja necessária à natureza e, da mesma forma, um só crime de que ela não tenha necessidade. Toda a sua ciência consiste na manutenção de ambos em perfeito equilíbrio. Somos culpados pelo lado em que ela nos lança? Não mais que a vespa ao aferroar tua pele.
P.: — Então, nem o maior dos crimes nos deve inspirar horror?
M.: — Não foi isso que eu disse. Para que ele nos inspire repulsa ou horror, basta a lei condená-lo e o gládio da justiça puni-lo; mas se infelizmente foi cometido, é preciso saber tomar seu partido sem se entregar ao remorso estéril; o efeito deste é vão, já que não nos livra de o ter cometido, e nulo, já que não se pode repará-lo. Portanto, é um absurdo entregar-se ao remorso e mais ainda temer ser punido em outro mundo se somos felizes de termos escapado disso neste. Deus me livre encorajar com isso o crime: certamente é preciso evitá-lo o quanto se possa, mas é pela razão que devemos saber fugir a ele, não por falsas crenças que não levam a nada, e cujo efeito logo se dissipa numa alma que seja um pouco firme. A razão, meu amigo, tão somente a razão nos deve advertir que prejudicar nossos semelhantes jamais nos tornará felizes, e nosso coração, que contribuir para a felicidade deles é a melhor coisa que a natureza nos pode conceder na terra. Toda a moral humana encerrase nestas palavras: tomar os outros tão felizes quanto desejamos sê-los nós mesmos, e jamais lhes fazer mais mal do que gostaríamos de receber. Eis aí, meu amigo, os únicos princípios que devemos seguir; e não necessitamos de religião nem deus para prová-los e admiti-los, somente um bom coração. Mas estou perdendo as forças. Pregador, abandona teus preconceitos, sê homem, sê humano, sem temor nem esperança. Deixa de lado teus deuses e tuas religiões, que só servem para acorrentar os homens; só o nome desses horrores derramou mais sangue sobre a terra do que todas as guerras e flagelos ao mesmo tempo. Renuncia à idéia de outro mundo, que não existe, mas jamais ao prazer em ser e tornar outros felizes neste em que vivemos. Eis o único modo que a natureza oferece para dobrar ou prolongar tua existência. Meu amigo, a volúpia sempre foi o mais caro dos meus bens; eu a incensei durante toda a vida e gostaria de acabar em seus braços.
P.: - És irredutível! Não tenho mais nada para te dizer!
M.: - Sim, padre, não temos mais nada para dizer! Mas mesmo assim estou contente por te ter conhecido e por teres vindo até mim! A tua presença galvanizou-me e algumas dúvidas dissiparam-me do meu íntimo! Hoje sou uma mulher nova e apesar da idade tenciono recomeçar a viver ainda com mais intensidade! E só a ti agradeço! Obrigado!
P.: - Não sei o que aprendeste comigo... mas se te fui útil, ainda bem!
M.: - Muito útil... nem sabes quanto! E agora vou convidar-te a tomares um chá comigo para selarmos o nosso encontro.

E neste instante minha mãe levantou-se e fez soar uma campainha. Uns segundos depois a sua camareira privativa entrava no salão. E minha mãe com tua a delicadeza pediu que o chã da tarde fosse servido.
  
Resolvi afastar-me do meu esconderijo e fui directo aos meus aposentos.
A minha mãe tinha-me dado uma tremenda lição de filosofia!
Durante muito tempo as suas palavras ficaram a soar bem nítidas nos meus ouvidos.

O padre acabou por sair na próxima estação.

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