Escrito por Lopes Barbosa
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O PADRE
E MINHA MÃE
Quando
o comboio regressou a Istambul, praticamente eu já me tinha despedido da
cidade. Depois da conversa que mantive com Orhan Pamuk o interesse pela cidade
tinha-se desvanecido. Ficava a
recordação do encontro com alguém que reputava de importante para a minha vida
futura de romancista, se é que algum dia ela iria concretizar-se.
Mas a
esperança de poder ouvir comentários sobre aquilo que eu escrevia por alguém mais
que abalizado passou a constituir para mim um antídoto sobre o tédio ou a
tristeza.
Quando
entrei finalmente no comboio e na carruagem que nos estava destinada, a nossa
carruagem especial, fui encontrar minha mãe deveras abatida. Parecia doente;
mas para me tranquilizar mentiu sobre o seu estado de saúde! Disse que não era
nada e só precisava de conversar com alguém, coisa que já não fazia há muito
tempo! Eu nunca fui a melhor pessoa para ter diálogos ela e por tal motivo cada
qual vivia no seu casulo sem praticamente comunicar um com o outro.
Perguntei-lhe:
a mãe precisa de conversar com alguém ou simplesmente são desabafos o que
quer expressar?
-
Uma coisa e outra... – respondeu ela.
-
Mas que tipo de pessoa seria a adequada para ter como interlocutor?
-
Penso que a pessoa ideal seria um padre!
- Um
padre?
-
Sim, um padre! Com ele estaria à vontade para poder abrir a minha alma, que me
parece estar a tentar pregar-me algumas partidas! Tenho-me lembrado dos meus
maridos e chego à conclusão que se calhar não me portei muito bem com todos
eles!
- Pensa
isso, porquê? – indaguei eu num misto de curiosidade e apreensão?
-
Nada de significativo! São simplesmente algumas suspeitas sobre a forma como vivi
a minha vida com eles, nada mais1 Penso que não os traí de maneira nenhuma, mas
sinto um certo peso que gostaria de partilhar com alguêm! Acabo por não saber
se que o que sinto são remorsos por coisas que não fiz bem feitas ou
simplesmente saudades por um tipo de vida que já desapareceu para sempre!
- E
o meu pai? Como é avaliado? A mãe sente por ele alguma coisa, alguma ternura,
por exemplo?
-
Por esse não posso responder, nem positivamente nem negativamente, já que teve
uma passagem meteórica pela minha vida!
-
Como assim? – perguntei-lhe bastante curioso por saber como a minha mãe o
avaliaria no meio de todos os outros!
- O teu pai nunca me fez sofrer! Por isso
não lhe guardo qualquer rancor! Mas também não me deu uma felicidade permanente
e duradoura! O nosso envolvimento fui bastante efémero uma vez que depois de me
engravidar foi acometido de doença súbita e veio a falecer pouco tempo depois!
Nem tivemos tempo de casar!
Por
isso as memórias que guardo dele são bastante frágeis. Tu, nasceste, é verdade,
e isso já é muito importante, porque passou
a representar a coisa mais importante que tinha acontecido à minha vida!
Mas, infelizmente, faltou o resto!
Os meus verdadeiros problemas são outros e
todos eles dizem respeito à vida que tive com os meus maridos, os que viveram
comigo e dos quais não sobrou descendentes!
Calamo-nos
por um instante.
- Pelo
que posso depreender, parece que a mãe reputa como algo de especial o
relacionamento que teve com o meu pai!
- É
verdade! Apesar de fugaz, o nosso envolvimento foi intenso e muito
enriquecedor!
Foi
pena não termos tido hipótese de construir a nossa visa à volta do teu
nascimento, porque tu vinhas colmatar uma grande lacuna que ambos tinhamos! O
teu pai e eu provinhamos de famílias miseráveis que praticamente não nos
garantiram qualquer tipo de futuro.
Assim,
o nosso encontro representou para as nossas vidas uma espécie de tábua de
salvação! Agarramo-nos um ao outro e no breve período em que estivemos juntos
as nossas vidas começaram a ter um mínimo de solidez que anteriormente nunca
haviamos experimentado!
Foi um
período breve mas muito enriquecedor! Infelizmente não tivemos futuro! A vida
tem destas coisa: cria barreiras a quem se quer bem! A morte é algo que não
podemos contornar!
Mas o
teu nascimento acabou por garantir para mim um rumo!
Apesar
da ausência do teu pai eu lutei abnegadamente para construir, contigo à minha
volta, um projecto um vida que felizmente acabei por concretizar de forma sólida!
O meu
primeiro marido era comerciante mas eu ajudei-o muito na sua actividade. Posso
dizer que do muito que ele construiu teve a minha participação nesse
desenvolvimento. E com os outros aconteceu a mesma coisa... sucessivamente a
todos eles eu assessorei, ajudei, apoiei, etc.
E eles construiram as suas fortunas tendo-me
sempre a mim como sua sombra protectora!
Por
isso, tenho a minha consciência tranquila!
-
Então, não entendo a sua preocupação em relação às vidas que viveu com eles ao
ponto de agora estar a interrogar-se se a sua conduta foi a melhor? – acabei
por lhe dizer.
- Não é
isso. O que se passa comigo possivelmente tem mais a ver com a solidão em que
se converteu a minha vida!
- Então,
porquê um padre para dialogar? Se não são pecados o que quer confessar porquê
um padre?
- Porque de repente, talvez, me deu vontade de
conhecer o outro lado da vida de que andei à muito tempo arredada, o lado
religioso, coisa que só minimanenete vislumbrei na infância e sempre de forma
fugidia e incompleta!
- Ah! A
religião! – disse eu. – Talvez a mãe se venha a desenganar se entrar a fundo
nessa questão!
- Talvez!
Mas gostava de experimentar. Porque não?
- Se é
isso que quer não custa nada! Posso ir à procura de um padre, agora mesmo, e
digo-lhe que está alguém moribundo a precisar urgentemente de se confessar!
Talvez assim ele não negue em me acompanhar e tê-lo-à junto de si num instante!
- Ok,
faz isso! Há muito tempo que não falo com alguém! Talvez me faça bem, mas se
não fizer bem também mal não pode fazer... Sinto que estou a precisar em mudar
um pouco de vida! Talvez se abrir a minha vida a algo de novo qualquer coisa de
novo também possa ocorrer!
- Ok,
mãe, enquanto o comboio não parte vou à procura de um padre. Não me demoro1
Volto já.
Não foi
difícil encontrar uma igreja e também não foi difícil convencer o padre da
urgência da sua vinda junto de minha mãe. Mantive a versão de ela estar a
precisar de se confessar por se encontrar possivelmente no fim da sua vida!
O
caminho até ao comboio foi feito velozmente e mal entrarmos no comboio este pôs-se
em movimento.
Fiz as
apresentações.
Mas depois
por considerar que estava a mais, retirei-me discretamente Era meu dever
deixá-los a sós.
Mas em
vez de me retirar dissimulei a saída mas mantive-me escondido dentro da
carruagem. Daí pude assistir prefeitamente ao diálogo que o padre manteve com
minha mãe.
Padre:
- Como está, senhora? Sente forças para falar comigo?
Mãe: -
Sim, padre! Ainda conservo forças suficientes para ter consigo um diálogo que
noutras circunstâncias possivelmente não teria.
P.: -
Muito bem!
M.:
Comecemos então.
P.: — Chegada a hora fatal em que o véu da
ilusão se rasga para mostrar ao ser humano seduzido o quadro cruel de seus
erros e vícios, não vos arrependeis, minha filha, das múltiplas desordens a que
vos levaram a fragilidade e as fraquezas humanas?
M.: — Sim, meu amigo, arrependo-me.
P.: — Então, no tempo que vos resta,
aproveitai esses benditos remorsos para receber do céu a absolvição geral de
vossas faltas, e saibais que só pela mediação do santíssimo sacramento da
penitência ser-vos-á possível alcançá-la do Eterno.
M.: — Não te entendo mais do que me
compreendes.
P.: — Como?
M.: — Eu disse que me arrependo.
P.: — Já o dissestes.
M.: — Mas não compreendeste.
P.: — O quê?!
M.: — O seguinte: criado pela natureza, com
apetites muito vivos e paixões muito fortes, posto neste mundo unicamente para
entregar-me a eles e satisfazê-los, sendo tais efeitos de minha criação apenas
necessidades relativas aos primeiros fins da natureza, ou, se preferires,
derivações essenciais de seus projetos sobre mim, todos cm razão de suas leis,
só me arrependo de não ter reconhecido o bastante sua onipotência, e meus
únicos remorsos são pelo uso medíocre que fiz das faculdades (criminosas para
ti, tão simples para mim) com que me dotou para servi-la. Por vezes lhe resisti
e arrependo-me por isso. Cega pelo absurdo de teus sistemas, combati por eles
toda a violência dos desejos recebidos por uma inspiração bem mais divina.
Disso me arrependo. Só colhi flores quando poderia ter feito uma ampla colheita
de frutos... Eis os justos motivos de meus arrependimentos; estima-me bastante
para eu não procurar outros.
P.: — Onde vossos erros vos arrastam, onde
vossos sofismas vos conduzem! Emprestai à coisa criada a onipotência do
criador, e não vedes que as inclinações infelizes que vos desencaminharam são
apenas efeitos dessa natureza corrompida a que atribuis a onipotência.
M.: — Amigo, parece-me que tua dialética é tão
falsa quanto teu espírito. Gostaria que raciocinasses de modo mais justo, ou
que me deixasses descansar em paz. O que entendes por criador e por natureza
corrompida?
P.: — O criador é o senhor do universo. Aquele
que tudo fez e criou e que tudo conserva por um simples efeito de sua
onipotência.
M.: — Um grande homem, seguramente... Mas se é
tão poderoso, por que criou uma natureza corrompida?
P.: — Que mérito as criaturas teriam se Deus
não lhes tivesse deixado o livre-arbítrio, e o que ganhariam com isso se não
houvesse na terra a possibilidade de fazer o bem e a de evitar o mal?
M.: — Então esse teu Deus quis ser do contra,
fazendo tudo só para tentar ou testar sua criatura. Logo, não a conhecia e
duvidava do seu resultado?
P.: — Ele a conhecia, sem dúvida, mas uma vez
mais queria deixar-lhe o mérito da escolha.
M.: — Para quê, se sabia seu partido de
antemão e só a ele competia, já que o dizes onipotente, só a ele competia,
digo, fazer com que escolhesse o do bem?
P.: — Quem pode compreender os desígnios
imensos e infinitos de Deus sobre o homem e quem pode compreender tudo o que
vemos?
M.: — Quem simplifica as coisas, meu amigo, e
sobretudo não multiplica as causas para melhor confundir os efeitos. Por que
colocas outra questão quando não me podes explicar a primeira? Sendo possível
que a natureza tenha feito sozinha tudo o que atribuis a teu Deus, por que
pretendes arrumar-lhe um senhor? A causa do que não compreendes talvez seja a
coisa mais simples do mundo. Aperfeiçoa tua física e entenderás melhor a
natureza; purifica tua razão, elimina teus preconceitos e não necessitarás mais
desse deus.
P.: — A senhora é uma infeliz, pensei apenas
que fosses sociniana!... Tinha armas para combater-te, mas vejo bem que é ateia!
E já que teu coração se nega à imensidade das provas autênticas que recebemos
todos os dias da existência do criador, nada mais tenho a te dizer. Não se
devolve a luz a um cego.
M.: — Meu amigo, conforma-te com a evidência
de que cego é quem se veda com uma fita, não quem a arranca dos olhos. Tu
edificas, inventas, multiplicas; eu destruo, simplifico. Tu acumulas erros
sobre erros; eu combato todos. Qual de nós é o cego?
P.: — Então não crês mesmo em Deus?
M.: — Não, por uma razão bem simples. E
perfeitamente impossível crer no que não se compreende. Entre a compreensão e a
fé devem existir relações imediatas. A compreensão é o primeiro alimento da fé.
Onde a compreensão falha, a fé está morta; e aqueles que assim mesmo continuam
a crer, enganam-se redondamente. Desafio-te a crer no deus que me pregas, pois
não saberias me demonstrá-lo, nem compete a ti me defini-lo; por conseguinte
não o compreendes, e, se não o compreendes, como me podes fornecer um argumento
razoável a seu respeito? Em suma: sendo quimera ou inutilidade tudo o que
ultrapassa os limites do espírito humano, e teu deus só podendo ser uma dessas
coisas, no primeiro caso eu seria louca de crer nele, no segundo uma imbecil.
Meu amigo, prova-me a inércia da matéria e admito o criador. Prova-me que a
natureza não se basta a si mesma, e te permito conceber-lhe um senhor. Até
então não esperes nada de mim. Só me rendo à evidência que recebo dos sentidos;
onde eles cessam, minha fé desfalece. Creio no sol porque o vejo, concebo-o
como o centro de reunião de toda a matéria inflamável da natureza, aceito sua
marcha periódica sem espantar-me. É uma operação física, talvez tão simples
quanto a da eletricidade, mas que não nos é permitido compreender. Para que ir
mais longe? Não terei avançado mais quando edificares teu deus acima disso e
não me será preciso o mesmo esforço tanto para compreender o operário quanto
para definir a obra? Assim sendo, não me terás prestado nenhum serviço com a
edificação de tua quimera; por me confundires o espírito, em vez de
esclarecê-lo, só te devo ódio em lugar de reconhecimento. Teu deus é uma
máquina que fabricaste para servir tuas paixões, movida a seu bel-prazer, mas
desde que interfere nas minhas, não estranhes que eu a rejeite; e no instante
em que minha alma fraca mais precisa de calma e filosofia, não me venhas com
esses sofismas espantá-la, que só a aterrorizam sem convencê-la e a irritam sem
torná-la melhor. Esta alma, meu amigo, é o que a natureza desejou que fosse,
isto é, o resultado dos órgãos com que me formou em razão de suas metas e
necessidades; e como ela necessita igualmente de virtudes e de vícios, quando
quis levar-me às primeiras, ela o fez, e quando desejou conduzir-me aos
segundos, inspirou-me tais desejos aos quais entreguei-me do mesmo modo. Toma
apenas essas leis como a única causa de nossa inconseqüência humana, e não
estabeleça para elas outros princípios que suas vontades e necessidades.
P.: — Sendo assim, tudo é necessário no mundo.
M.: — Seguramente.
P.: — Mas se tudo é necessário, não está tudo
regulado?
M.: — Quem diz o contrário?
P.: — E quem pode regular tudo como está a não
ser uma mão onipotente e sábia?
M.: — Não é necessário que a pólvora inflame
ao se lhe atear fogo?
P.: — Sim.
M.: — E que sabedoria vês nisso?
P.: — Nenhuma.
M.: — Portanto é possível haver coisas
necessárias sem sabedoria, e possível, consequentemente, tudo derivar de uma
causa primeira sem haver nessa causa razão ou sabedoria.
P.: — Onde quereis chegar?
M.: — A provar-te que tudo pode ser o que é e
o que vês, sem que nenhuma causa sábia e razoável o conduza, e que efeitos
naturais devem ter causas naturais sem que seja necessário supô-las
antinaturais, como esse teu deus propriamente, o qual, conforme disse,
necessita de explicação e não fornece nenhuma; se ele não serve para nada, é
perfeitamente inútil, sendo evidente que o que é inútil é nulo e o que é nulo é
nada; portanto, para convencer-me de que teu deus é uma quimera, não necessito
de outro raciocínio senão o que me fornece a certeza de sua inutilidade.
P.: — Nesse momento, parece-me necessário
falar-vos de religião.
M.: — Por que não? Nada me diverte como as
provas do excesso a que chegaram os homens sobre esse ponto tratando-se de
fanatismo e de imbecilidade. São espécies de desvios prodigiosos como esses que
tornam o quadro horrível, mas sempre interessante para mim. Responde com
franqueza e, sobretudo, sem egoísmo: seu eu fosse fraca o bastante para
deixar-me surpreender por teus ridículos sistemas sobre a fabulosa existência
do ser que torna a religião necessária, sob que forma me aconselharias a lhe
oferecer um culto? Gostarias que eu adotasse os devaneios de Confúcio mais do
que os absurdos de Brahma, que eu adorasse a grande serpente dos negros, o
astro dos peruanos, ou o deus dos exércitos de Moisés? A qual das seitas de
Maomé desejarias que eu me rendesse, ou qual das heresias cristãs seria para ti
preferível? Cuidado com a resposta.
P.: — Poderia haver dúvidas?
M.: — Ela então é egoísta.
P.: — Não, amar-te tanto quanto a mim mesmo é
aconselhar-te o que creio.
M.: — E dar ouvidos a semelhantes erros é
amar-nos muito pouco.
P.: — E quem pode fechar os olhos diante dos
milagres de nosso divino redentor.
M.: — Quem só vê nele o mais ordinário dos
tratantes e o mais vulgar dos impostores.
P.: — O Deus, vós o ouvistes... e não
bramastes? 1.
M.: — Não, meu amigo, está tudo em paz, porque
esse deus, por impotência, razão, ou tudo o que queiras enfim em um ser que só
admito por um momento em condescendência a ti, ou se preferires, para
auxiliar-te a vista estreita, esse deus, digo, se existe mesmo como loucamente
crês, não pode ter usado meios tão ridículos para nos convencer quanto aqueles
que teu Jesus supõe.
P.: — Então as profecias, os milagres, os
mártires, tudo isso não serve como provas?
M.: — Como queres que eu aceite em boa lógica
como provas tudo aquilo que carece delas em si mesmo? Para que a profecia se
comprovasse, eu deveria, primeiramente, ter certeza absoluta de que ela fora
feita. Ora, estando isso consignado na história, não pode ter mais força para
mim do que outros fatos históricos dentre os quais três quartos são bastante
duvidosos; e se acrescentarmos a isso a aparência mais que verossímil de que só
me são transmitidos por historiadores interesseiros, terei, como vês, mais que
direito em duvidar. Além disso, quem me assegurará de que essa profecia não
fora feita posteriormente, de que não fora o efeito da combinação da mais
simples política, como a que estabelece um reino feliz sob um rei justo ou
geada no inverno? E se assim é, como queres que a profecia, com tal necessidade
em ser comprovada, possa ela mesma tornar-se uma prova? Quanto aos teus
milagres, também não me impressionam. Todos os astutos fizeram isso e todos os
tolos acreditaram. Para persuadir-me da veracidade de um milagre, seria preciso
estar bem segura de que o evento assim chamado fosse absolutamente contrário às
leis da natureza, pois só o que se situa fora dela pode passar por milagre; e
quem a conhece o bastante para ousar afirmar qual é precisamente o ponto em que
ela pára e qual aquele em que é violada? Para se acreditar em um pretenso
milagre bastam duas coisas: o mágico e os incautos. Vai, não busques jamais
outra origem para os teus. Todos os novos sectários fizeram-no; e o que é mais
singular, todos encontraram imbecis que creram neles. Teu Jesus nada fez de
mais singular que Apolônio de Tiana e, entretanto, ninguém tomou este por um
deus. Quanto a teus mártires, sem dúvida, o mais fraco de teus argumentos, são
necessários apenas entusiasmo e resistência para fazê-los; como a causa
contrária oferece-me tantos quanto a tua, jamais terei autoridade bastante para
crer mais em uma do que outra, mas, em compensação, serei levada a achar ambas
piedosas. Ah, meu amigo, se o deus que me pregas existisse de fato, teria
necessidade de milagres, de mártires e de profecias para erigir seu império? E
se, como dizes, o coração do homem fosse obra sua, não haveria de ser escolhido
para santuário de sua lei? Emanada de um deus justo, esta lei igual estaria
igualmente gravada de modo irresistível em todos os corações, e de uma parte do
universo à outra, assemelhando-se todos os homens por esse órgão delicado e
sensível, assemelhar-se-iam da mesma forma pela homenagem que rendessem ao deus
de quem o receberam; todos só conheceriam um modo de amá-lo, de adorá-lo ou de
servi-lo, e lhes seria tão impossível desconhecer esse deus quanto resistir à
inclinação secreta de seu culto. Em vez disso, o que vejo no universo? Tantos
deuses quanto países, tantas maneiras de servir suas divindades quanto
diferentes cabeças ou imaginações; e esta multiplicidade de opiniões dentre as
quais me é fisicamente impossível escolher seria para ti obra de um deus justo?
Ora, pregador, ultrajas teu deus mostrando-o assim. Deixa-me negá-lo
totalmente, pois, se ele existe, tu o ultrajas bem mais com tuas blasfêmias do
que eu com minha incredulidade. Volta à razão, pregador! Teu Jesus não vale
mais que Maomé, Maomé não mais que Moisés, e todos os três não são melhores que
Confúcio, que apesar de tudo ditou alguns bons princípios, enquanto que esse
trio disparatou. Mas ao fim das contas são todos impostores de quem o filósofo
caçoou, em quem os canalhas creram, e quem a justiça deveria ter enforcado.
P.: — Sim, e ela passou dos limites em relação
a um deles.
M.: — Foi o que mais mereceu: sedicioso,
desordeiro, caluniador, trapaceiro, libertino, grosseiro, farsante, em suma, um
perigoso mau elemento que possuía a arte de dirigir o povo e que, sem dúvida,
não passaria impune no estado em que então se encontrava o reino de Jerusalém.
Este foi muito sábio em ter se livrado dele, caso único, talvez, em que minhas
máximas, aliás, extremamente suaves e tolerantes, possam admitir a severidade
de Têmis . Perdôo todos os erros, menos aqueles que podem ser perigosos para o
governo sob o qual se vive. Os reis e sua majestade são as únicas coisas que me
se me impõem, as únicas que respeito, e quem não ama seu país e seu rei não é
digno de viver.
P.: — Mas deveis admitir algo após esta vida.
E impossível que vosso espírito jamais tenha desejado dissipar as trevas do
destino que nos aguarda. E qual sistema pode satisfazê-lo melhor do que o de
uma profusão de penas para quem pratica o mal e uma eternidade em recompensas
para quem pratica o bem?
M.: — Qual sistema, meu amigo? O do nada,
claro. Este jamais me espantou; só vejo nele consolo e simplicidade. Os outros
são obra do orgulho, só ele pertence à razão. Além disso, o nada não é
repelente nem absoluto. Não tenho sob os olhos o exemplo de tudo o que é gerado
e regenerado perpetuamente pela natureza? Coisa alguma perece ou se destrói no
mundo, meu amigo; hoje homem, amanhã verme, depois de amanha mosca, não é
sempre existir? E por que seria recompensado por virtudes de que não tenho
mérito algum ou punida por crimes de que não fui senhora? Podes conciliar a
bondade de teu pretenso deus com este sistema, e como ele me pode ter criado só
para se dar ao prazer de me punir, e ainda em conseqüência de uma escolha de
qual não me deixa ser senhora?
P.: — Vós o sois.
M.: — Sim, conforme teus preconceitos. Mas a
razão os destrói, e o sistema de liberdade do homem foi inventado apenas para
fabricar o da graça, que se tornou tão favorável a teus devaneios. Qual homem
no mundo, vendo o cadafalso ao lado do crime, cometê-lo-ia, se estivesse livre
de não cometê-lo? Somos arrastados por uma força irresistível, e jamais, sequer
um instante, temos o poder de nos determinar para outra coisa além daquela a
que estamos inclinados. Não há uma só virtude que não seja necessária à natureza
e, da mesma forma, um só crime de que ela não tenha necessidade. Toda a sua
ciência consiste na manutenção de ambos em perfeito equilíbrio. Somos culpados
pelo lado em que ela nos lança? Não mais que a vespa ao aferroar tua pele.
P.: — Então, nem o maior dos crimes nos deve
inspirar horror?
M.: — Não foi isso que eu disse. Para que ele
nos inspire repulsa ou horror, basta a lei condená-lo e o gládio da justiça
puni-lo; mas se infelizmente foi cometido, é preciso saber tomar seu partido
sem se entregar ao remorso estéril; o efeito deste é vão, já que não nos livra
de o ter cometido, e nulo, já que não se pode repará-lo. Portanto, é um absurdo
entregar-se ao remorso e mais ainda temer ser punido em outro mundo se somos
felizes de termos escapado disso neste. Deus me livre encorajar com isso o
crime: certamente é preciso evitá-lo o quanto se possa, mas é pela razão que
devemos saber fugir a ele, não por falsas crenças que não levam a nada, e cujo
efeito logo se dissipa numa alma que seja um pouco firme. A razão, meu amigo,
tão somente a razão nos deve advertir que prejudicar nossos semelhantes jamais
nos tornará felizes, e nosso coração, que contribuir para a felicidade deles é
a melhor coisa que a natureza nos pode conceder na terra. Toda a moral humana
encerrase nestas palavras: tomar os outros tão felizes quanto desejamos sê-los
nós mesmos, e jamais lhes fazer mais mal do que gostaríamos de receber. Eis aí,
meu amigo, os únicos princípios que devemos seguir; e não necessitamos de
religião nem deus para prová-los e admiti-los, somente um bom coração. Mas
estou perdendo as forças. Pregador, abandona teus preconceitos, sê homem, sê
humano, sem temor nem esperança. Deixa de lado teus deuses e tuas religiões,
que só servem para acorrentar os homens; só o nome desses horrores derramou
mais sangue sobre a terra do que todas as guerras e flagelos ao mesmo tempo.
Renuncia à idéia de outro mundo, que não existe, mas jamais ao prazer em ser e
tornar outros felizes neste em que vivemos. Eis o único modo que a natureza oferece
para dobrar ou prolongar tua existência. Meu amigo, a volúpia sempre foi o mais
caro dos meus bens; eu a incensei durante toda a vida e gostaria de acabar em
seus braços.
P.: - És irredutível! Não tenho mais nada para
te dizer!
M.: - Sim, padre, não temos mais nada para
dizer! Mas mesmo assim estou contente por te ter conhecido e por teres vindo
até mim! A tua presença galvanizou-me e algumas dúvidas dissiparam-me do meu
íntimo! Hoje sou uma mulher nova e apesar da idade tenciono recomeçar a viver ainda
com mais intensidade! E só a ti agradeço! Obrigado!
P.: - Não sei o que aprendeste comigo... mas
se te fui útil, ainda bem!
M.: - Muito útil... nem sabes quanto! E agora
vou convidar-te a tomares um chá comigo para selarmos o nosso encontro.
E neste instante minha mãe levantou-se e fez
soar uma campainha. Uns segundos depois a sua camareira privativa entrava no
salão. E minha mãe com tua a delicadeza pediu que o chã da tarde fosse servido.
Resolvi afastar-me do meu esconderijo e fui
directo aos meus aposentos.
A minha mãe tinha-me dado uma tremenda lição de
filosofia!
Durante muito tempo as suas palavras ficaram a
soar bem nítidas nos meus ouvidos.
O padre acabou por sair na próxima estação.

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