Escrito por Lopes Barbosa
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ISTAMBUL
Istambul. A
sua beleza é reconhecida há centenas de anos, quando a cidade ainda se
designava de outra maneira:
Constantinopla.
Edmondo
de Amicis, sobre ela escreveu: “o sítio mais bonito do mundo, e quem se atrever
a negá-lo demonstra uma falta de gratidão perante Deus e a Natureza”, e “os
nossos sentidos não conseguiriam suportar uma beleza maior do que a de
Constantinopla”.
Por
sua vez, Paul Theroux, afirmou que Istambul “é tão mágica como escrevem. Dizer
que é maravilhosa é tão óbvio que é frívolo, mas a visão das suas mesquitas e
igrejas pode ser quase de fazer parar o coração.”
Quando
conheci a cidade pela primeira vez parecia que essas afirmações correspondiam
ao seu perfil de cidade magestática e misteriosa!
Assim
que saí do hotel, fui a pé até à ponte de Galata, para desse ponto ter uma
visão panorâmica de Istambul.
À
minha direita, a parte asiática da cidade (onde começa a Anatólia) e o Bósforo,
o estreito que divide a Europa da Ásia e que liga o Mar Negro ao Mar de
Mármara.
Do
meu lado esquerdo, fica o Corno de Ouro, um braço de mar que penetra a margem
europeia de Istambul, onde antigamente começava a Trácia.
Frente
aos meus olhos, estão as antigas cidades de Galata e Pera, que já foram
Bizâncio e que são hoje os mais cosmopolitas bairros de Istambul.
Atrás
de mim, abarcando as sete colinas, está o centro histórico, o coração
palpitante da majestosa Constantinopla.
Reparando
bem, Istambul e Veneza têm bastantes semelhanças. Uma delas é pertinente: a
água domina-as.
Veneza
foi erguida sobre estacas, Istambul, a pérola turca, não.
Veneza
é atravessada por centenas de canais, Istambul praticamente tem só dois grandes
canais.
Durante
todo o dia uma quantidade de ferries liga os principais pontos
de Istambul.
“Istambul
não é uma cidade; é um delírio colectivo. Em nenhuma outra parte do
planeta pode existir uma cidade onde cada um dos sentidos do visitante é
estimulado e abalado de forma tão implacável. É uma experiência
simultaneamente confusa, vagamente enervante e estranhamente excitante”,
escreveu Bill Bryson sobre o centro de Istambul.
Por
sua vez, Sultanahmet é “o Oriente das mil cores”, um mundo de mesquitas,
bazares, vendedores ambulantes e lojas de todas as formas e feitios.
É
difícil aos nossos sentidos absorverem tamanha quantidade de pormenores
informativos, daí a necessidade de não explorarmos uma área demasiado grande. É
mais sensato dedicarmos a nossa atenção a um conjunto de ruas! A riqueza dos
detalhes de uma cidade conseguimos abarcá-los desta maneira, doutra forma eles
nos escapariam.
Acabei
o dia atravessando a ponte de Galata e detive-me junto ao Bósforo.
Como
afirmava o mais célebre escritor istambulense, Orhan Pamuk, “o espírito e a
força de Istambul provêm do Bósforo.” Parti à procura dessas características.
Encontrei-as
em Karakoy, mesmo encostado ao mar.
“Gosto
de contemplar os crepúsculos precoces, as árvores nuas que tremem no poyraz [vento
norte] e, nos dias de transição entre Outono e o Inverno, as pessoas que, pela
meia escuridão das ruas regressam apressadas a casa, embrulhadas nos sobretudos
pretos. E as paredes dos prédios antigos e dos konak de
madeira em ruínas, que em Istambul ganham uma tonalidade própria por falta de
manutenção e pintura, despertam em mim uma agradável tristeza e o prazer da contemplação”,
escreveu Orhan Pamuk.
Como
ele, perdi-me em horas de contemplação junto ao cais de Karakoy.
Daí
pude contemplar o movimento incessante dos ferries, numa
coreografia lenta, a que se misturavam centenas de gaivotas atrás de cada um à
espera de um pedaço de pão.
Pamuk
ainda os usa como antídoto para a melancolia, dedicando-se a contá-los enquanto
cruzam o Bósforo: “se não contar os barcos que passam, serei mais rapidamente
agarrado pela tristeza e pelo sentimento de perda que a cidade difunde”.
Quando
resolvi regressar ao hotel, não pude deixar de sentir uma enorme sensação de
quietude e de tranquilidade de espírito! Penso que o muezim das
cinco da tarde e a suave luminosidade do crepúsculo também contribuiram para
isso
Pela
primeira vez em muitos dias, dormi profundamente e em paz comigo mesmo.

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