quinta-feira, 11 de abril de 2019

A VIÚVA DO EXPRESSO DO ORIENTE Capítulo 3 (Continuação)


Escrito por Lopes Barbosa

  

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  ISTAMBUL

Istambul. A sua beleza é reconhecida há centenas de anos, quando a cidade ainda se designava  de outra maneira: Constantinopla.
Edmondo de Amicis, sobre ela escreveu: “o sítio mais bonito do mundo, e quem se atrever a negá-lo demonstra uma falta de gratidão perante Deus e a Natureza”, e “os nossos sentidos não conseguiriam suportar uma beleza maior do que a de Constantinopla”.
Por sua vez, Paul Theroux, afirmou que Istambul “é tão mágica como escrevem. Dizer que é maravilhosa é tão óbvio que é frívolo, mas a visão das suas mesquitas e igrejas pode ser quase de fazer parar o coração.”
Quando conheci a cidade pela primeira vez parecia que essas afirmações correspondiam ao seu perfil de cidade magestática e misteriosa!
Assim que saí do hotel, fui a pé até à ponte de Galata, para desse ponto ter uma visão panorâmica de Istambul.
À minha direita, a parte asiática da cidade (onde começa a Anatólia) e o Bósforo, o estreito que divide a Europa da Ásia e que liga o Mar Negro ao Mar de Mármara.
Do meu lado esquerdo, fica o Corno de Ouro, um braço de mar que penetra a margem europeia de Istambul, onde antigamente começava a Trácia.
Frente aos meus olhos, estão as antigas cidades de Galata e Pera, que já foram Bizâncio e que são hoje os mais cosmopolitas bairros de Istambul.
Atrás de mim, abarcando as sete colinas, está o centro histórico, o coração palpitante da majestosa Constantinopla.
Reparando bem, Istambul e Veneza têm bastantes semelhanças. Uma delas é pertinente: a água domina-as.
Veneza foi erguida sobre estacas, Istambul, a pérola turca, não.
Veneza é atravessada por centenas de canais, Istambul praticamente tem só dois grandes canais.
Durante todo o dia uma quantidade de ferries liga os principais pontos de Istambul.
“Istambul não é uma cidade; é um delírio colectivo. Em nenhuma outra parte do planeta pode existir uma cidade onde cada um dos sentidos do visitante é estimulado e abalado de forma tão implacável. É uma experiência simultaneamente confusa, vagamente enervante e estranhamente excitante”, escreveu Bill Bryson sobre o centro de Istambul.
Por sua vez, Sultanahmet é “o Oriente das mil cores”, um mundo de mesquitas, bazares, vendedores ambulantes e lojas de todas as formas e feitios.
É difícil aos nossos sentidos absorverem tamanha quantidade de pormenores informativos, daí a necessidade de não explorarmos uma área demasiado grande. É mais sensato dedicarmos a nossa atenção a um conjunto de ruas! A riqueza dos detalhes de uma cidade conseguimos abarcá-los desta maneira, doutra forma eles nos escapariam.
Acabei o dia atravessando a ponte de Galata e detive-me junto ao Bósforo.
Como afirmava o mais célebre escritor istambulense, Orhan Pamuk, “o espírito e a força de Istambul provêm do Bósforo.” Parti à procura dessas características.
Encontrei-as em Karakoy, mesmo encostado ao mar.
“Gosto de contemplar os crepúsculos precoces, as árvores nuas que tremem no poyraz [vento norte] e, nos dias de transição entre Outono e o Inverno, as pessoas que, pela meia escuridão das ruas regressam apressadas a casa, embrulhadas nos sobretudos pretos. E as paredes dos prédios antigos e dos konak de madeira em ruínas, que em Istambul ganham uma tonalidade própria por falta de manutenção e pintura, despertam em mim uma agradável tristeza e o prazer da contemplação”, escreveu Orhan Pamuk.
Como ele, perdi-me em horas de contemplação junto  ao cais de Karakoy.
Daí pude contemplar o movimento incessante dos ferries, numa coreografia lenta, a que se misturavam centenas de gaivotas atrás de cada um à espera de um pedaço de pão.
Pamuk ainda os usa como antídoto para a melancolia, dedicando-se a contá-los enquanto cruzam o Bósforo: “se não contar os barcos que passam, serei mais rapidamente agarrado pela tristeza e pelo sentimento de perda que a cidade difunde”.
Quando resolvi regressar ao hotel, não pude deixar de sentir uma enorme sensação de quietude e de tranquilidade de espírito! Penso que o muezim das cinco da tarde e a suave luminosidade do crepúsculo também contribuiram para isso
Pela primeira vez em muitos dias, dormi profundamente e em paz comigo mesmo.

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