Escrito por Lopes Barbosa
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Na
manhã seguinte parti à procura do endereço de Orhan Pamuk.
O
meu interesse por si aumentara desde que li, entre muitos outros, o seu livro,
ISTAMBUL, Memórias de uma cidade! Acabei por encontrá-lo sentado numa esplanada
tomando a sua bebida preferida, café!
Passando
por cima de todas as etiquetas, resolvi pedir-lhe uma entrevista! A princípio
pareceu hesitar; mas depois deve ter achado piada ao meu descaramento e
resolveu perguntar o que é que eu queria saber dele.
Bom,
acabei por gaguejar e as perguntas não saiam da minha garganta!
Ao
invés disso, acabei por lhe falar de mim, das minhas tentativas falhadas em me
tornar um escritor, e também em simultâneo, potencialmente, ser um aprendiz de pintor,
fotografo, etc.
Ele
aí esboçou mesmo uma tentativa de se levantar e ir-se embora.
Eu
implorei e acabei por lhe confessar que vivia num comboio que nunca chegava ao
fim da linha, já que as suas viagens eram ininterruptas. E falei-lhe da minha
mãe, que vivia comigo nesse comboio, em carruagens decoradas a rigor numa
imitação burlesca do comboio Expresso do Oriente.
E
ele aí quase que dava um salto da cadeira.
Parece
que estaria à espera de qualquer coisa estapafúrdia ou irreverente da minha
parte, mas nunca aquela revelação de que eu era um personagem de um mundo de
que ainda não havia sido inventado! Uma espécie de realidade que mais parecia
ter sido estraída de uma peça surrealista ou em última estância talvez fazendo
parte de um reportário de um grupo teatral a roçar algo parecido com uma
espécie de quinta dimensão futurista.
Agora
foi ele que teve interesse em perguntar:
Orhan
Pamuk: Quando posso ler algo que você tenha escrito?
Respondi
: hoje, mesmo! Daqui a pouco! É só dar-me tempo de eu correr ao hotel e apanhar
a pasta onde guardo os manuscritos e
trago-os usando a mesma velocidade que usei quando decidi ir buscá-los!
OP:
- Você, é cómico!
:
- Obrigado. E a minha entrevista, ainda está de pé?
OP: O que é que você quer saber?
:
- É fácil para um escritor como você continuar a publicar livros?
OP: - Esses bons anos se foram.
Quando eu estava publicando meus primeiros livros, a geração anterior de
autores estava desaparecendo, então fui bem recepcionado porque eu era um novo
autor.
: - Quando diz geração anterior, quem você tem em
mente?
OP: Os autores que sentiam uma
responsabilidade social, que sentiam que a literatura serve à moralidade à
política. Eles eram realistas plenos, não experimentais. Como autores em tantos
países pobres, eles desperdiçaram seus talentos tentando servir à nação.
Eu não queria ser como eles, porque mesmo na minha
juventude eu aproveitei [as leituras de] Faulkner, Virginia Woolf, Proust –
nunca aspirei ao modelo sócio-realista de Steinbeck e Gorky. A literatura
produzida nos anos 60 e 70 estava ficando ultrapassada, então fui recepcionado
como um autor de uma nova geração.
Após a metade da década de 90, quando meus livros
começaram a vender quantidades que ninguém na turquia sonhou, meus anos de lua
de mel com a imprensa e a intelectualidade turquesa acabaram. Dali em diante, a
recepção crítica era mais uma reacção à publicidade e às vendas em vez do
conteúdo dos meus livros.
Agora, infelizmente, sou notório por meus comentários
políticos – muitos deles pegos de entrevistas internacionais e vergonhosamente
manipulados por alguns jornais nacionalistas Turqueses que me fazem parecer
mais radical e tolo politicamente do que realmente sou.
: - Orhan, seu
homônimo e narrador de Neve se descreveu como um escrivão que
se senta na mesma hora todo dia. Você tem essa mesma disciplina na escrita?
OP: Eu
estava enfatizando a natureza clerical do romancista em vez da do poeta, que
tem uma imensa e prestigiada tradição na Turquia. Ser poeta é algo popular e
respeitoso. Muitos dos sultões e homens de Estados Otomanos eram poetas. Mas
não da maneira que entendemos poetas hoje. Por centenas de anos foi uma forma
de se estabelecer como um intelectual. Muitas dessas pessoas costumavam
colecionar suas poesias em manuscritos chamados divãs. De fato, a poesia da
corte Otomana é chamada poesia de divã. Metade dos homens de Estado Otomano
fizeram divãs. Era uma forma sofisticada e educada de escrever coisas, com
muitas regras e rituais. Muito convencional e muito repetitivo. Após as ideias
do Ocidente terem vindo à Turquia, esse legado foi mesclado com a ideia
romântica e moderna do poeta como alguém que queima por verdade. Adicionou peso
extra ao prestígio do poeta. Por outro lado, um romancista é essencialmente uma
pessoa que cobre a distância através de sua paciência, lentamente, como uma
formiga. Um romancista nos impressiona não por suas visões demoníacas e
românticas, mas por sua paciência.
: - Quando você era jovem você quis ser um pintor.
Quando o seu amor pela pintura deu espaço ao seu amor pela escrita?
OP: Com
22 anos. Desde os meus 7 eu queria ser um pintor, e minha família aceitou isso.
Todos pensaram que eu seria um pintor famoso. Mas algo aconteceu na minha
cabeça – eu percebi que um parafuso afrouxou – e parei de pintar e
imediatamente comecei meu primeiro romance.
: - Um
parafuso afrouxou?
OP: Não
consigo dizer os meus motivos para fazer aquilo. Recentemente publiquei um
livro chamado Istambul. Metade dele é minha autobiografia até
aquele momento e a outra metade é um ensaio sobre Istambul, ou mais
precisamente, Istambul pela visão de uma criança. É uma combinação de pensar
sobre imagens e paisagens e a química de uma cidade, e a percepção de uma
criança sobre essa cidade, e a autogiografia dessa criança. A última sentença
do livro diz “Eu não quero ser um artista”, eu disse. “Eu vou ser um escritor”.
E isso não é explicado. Embora ler o livro inteiro possa explicar algo.
: - Sua
família ficou feliz com essa decisão?
OP: Minha
mãe ficou triste. Meu pai em parte foi mais compreensivo porque na juventude
ele quis ser poeta e traduziu Válery para o turquês, mas desistiu quando foi
zombado pelo círculo de classe mais elevada ao qual ele pertencia.
: - A abertura
de A Nova Vida é “Eu li um livro um dia e minha vida inteira mudou”. Algum livro teve esse efeito em
você?
OP: O
Som e a Fúria foi muito importante para mim quando eu tinha 21, 22.
Comprei uma cópia da edição da Penguin. Era difícil de entender, especialmente
com meu inglês pobre. Mas tinha uma tradução maravilhosa do livro para o
turquês, então eu colocava o turquês e o inglês na mesa e lia meio parágrafo de
um e ia voltava a outra. Aquele livro deixou uma marca em mim. Aquele resíduo
foi a voz que desenvolvi. Logo comecei a escrever na primeira pessoa do singular.
Na maior parte do tempo me sinto melhor quando estou interpretando outra pessoa
do que quando escrevo em terceira pessoa.
: - Com
frequência os críticos caracterizam seus romances como pós-modernos. Me parece,
porém, que você recorre a truques narrativos principalmente de fontes
tradicionais. Você cita, por exemplo, As Mil e Uma Noites e
outros textos clássicos da tradição oriental.
OP: Isso
começou com O Livro Negro, apesar de eu ter lido Borges e Calvino
mais cedo. Fui aos Estados Unidos com minha esposa em 1985, e lá encontrei a
predominância e a imensa riqueza da cultura Americana. Com um turco vindo do
Oriente Médio, tentando se reestabelecer como autor, eu me senti intimidado.
Então retornei, voltei às minhas ‘raízes’. Percebi que minha geração tinha de
inventar uma literatura nacional moderna.
Borges e
Calvino me libertara. A conotação da literatura islâmica tradicional era tão
reaccionária, tão política, e usada por conservadores de uma forma tão
antiquada e tola, que eu nunca pensei que poderia fazer algo com esse material.
Mas nos Estados Unidos, percebi que poderia voltar para esse material com uma
mentalidade Calvinesca ou Borgianesca. Eu tive que começar a fazer uma
distinção forte entre as conotações religiosas e literárias da literatura islâmica,
para que eu pudesse me apropriar facilmente da riqueza de seus jogos,
artifícios e parábolas. A Turquia tinha uma tradição sofisticada de uma
literatura ornamental altamente refinada. Mas então os escritores socialmente
comprometidos esvaziaram nossa literatura de seu conteúdo inovador.
Há muitas
alegorias que se repetem nas várias tradições orais de narrar histórias –
China, Índia Pérsia.Eu decidi as usar e contextualizar na Istambul
contemporânea. É um experimento – coloque tudo junto, como em uma colagem
Dadaísta; O Livro Negro tem essa qualidade. As vezes todas essas fontes se
fundem e algo novo emerge. Então ajustei todas essas histórias reescritas a
Istambul, adicionei um enredo detetivesco, e então veio O Livro Negro.
Mas em sua fonte estava a força completa da cultura americana e o meu desejo de
ser um escritor experimental sério. Eu não podia escrever um comentário social
sobre os problemas da Turquia – eu era intimidado por eles. Então tive de
tentar outra coisa.
: - O senhor nasceu e cresceu em Istambul, uma
cidade em que as tradições do Ocidente e do Oriente se encontram e se misturam.
Como vê esse encontro de tradições?
OP: - Eu não tinha consciência disso como tenho hoje,
porque o 11/9 fez com que esse “confronto” de civilizações entre o ocidente e o
oriente se tornasse um tema global. Na minha infância, isso era um tema turco.
Por causa de suas geografia e história, a Turquia está situada tanto na Europa
quanto na Ásia. Era parte do Império Otomano. Quando esse império ruiu, todas as
diferentes nações se tornaram Estados separados. Então, ficamos sozinhos com
nossa “turquice”. Atatürk (Kemal Atatürk, fundador da República da Turquia
e primeiro presidente do país) impôs tradições turcas a nós, junto
com visões ocidentais de progresso. Foi uma decisão de “ocidentalizar” o país,
algo semelhante ao que acontece com o Japão e com a Rússia. Isso gerou reações
contrárias. Essa luta formou a cultura e a identidade turcas. Isso acabou até
criando o romance oriental/ocidental, em que os valores do oriente e do
ocidente se encontram, e então alguma garota, que acredita demais nos valores
ocidentais, acaba se prostituindo... Meu próprio livro O castelo
branco se baseia um pouco nesse tema.
: - Eu ia perguntar se esse encontro afetou seus trabalhos.
OP: - Sim, não afetou apenas O castelo branco, mas praticamente
todos os meus romances tratam desse assunto. É preciso compreender que quem
vive em Istambul não fica se perguntando: “sou ocidental ou sou oriental?” Elas
vivem suas vidas. Por isso, eu não tinha consciência desse confronto entre Oriente
e Ocidente como tenho hoje, porque o modo como a Turquia impôs a modernidade e
a secularização, pela força das armas, a uma sociedade tradicional islâmica é
basicamente o que os Estados Unidos estão tentando fazer no mundo.
: - Como o senhor vê o papel político de um escritor? Ele precisa tomar
partido e defender sua posição sempre que possível?
OP: - Não. Nós tomamos partidos políticos por conta de nossa ética pessoal. Eu
acredito fortemente que um escritor não deve se envolver em situações
políticas, mas é inevitável. Escrever um romance é se identificar com pessoas.
Não apenas o seu tipo de pessoa, mas com pessoas que são muito diferentes de
você. Quando você começa a fazer isso, como eu fiz em Neve, você
precisa compreender questões políticas islâmicas. Isso não significa que eu
concorde com as situações políticas islâmicas apresentadas no livro. Meu dever
ético não é julgar e criticar, mas me colocar na posição de alguém e tentar
entender por que ele tem tanta raiva do Ocidente.
: - Assim com o senhor sofreu forte oposição por comentar assuntos
considerados tabus (como o genocídio de armênios cometido pelos turcos em
1915), vários escritores latino-americanos foram vítimas de oposição por causa
de seus livros. O senhor sente algum tipo de identificação com eles?
OP: - Claro. Depois que meus problemas começaram, eu senti ainda mais essa
identificação. Mas em 1979, quando Harold Pynter e Arthur Miller foram à
Turquia – naquela época eu não era um escritor tão famoso, mas tinha alguns
livros publicados –, eu servi de guia a eles. E era um período de forte
repressão, mas eu acreditava na liberdade de expressão. No final, meu principal
valor é a liberdade de expressão. Eu entendo qualquer escritor, de qualquer lugar
no mundo, que sofra repressão.
: - Para o senhor, qual é o papel da literatura?
OP: - Comunicação. Olhar para o coração humano. Ver humanidade em todas as
culturas, em todas as situações, em todas as classes, cores, raças, sexos. Ver
a vida claramente. Para me perguntar a mim mesmo coisas como “por que vivemos,
quais são nossos valores na vida, quais são os valores que devemos respeitar,
que tipo de vida devemos viver”. Questões que as pessoas esperam da religião,
da filosofia, eu espero de romances, de literatura. Não acredito em força
política fora dos romances, mas, sabe, às vezes as pessoas me pedem para
assinar algo, um abaixo-assinado, e eu preciso assinar. É inevitável, em países
em que a democracia é limitada, não fazer parte disso. Tenho sorte, sou famoso,
e acabo me envolvendo. Mas minhas motivações não são nunca políticas. Quero
escrever bons romances. Eu escrevo pela beleza do romance. Ponto final. Mas
também quero ser uma pessoa politicamente correcta.
: - Notei que o senhor tem uma conexão muito forte com Jorge Luis Borges.
Como o senhor vê essa relação?
OP: - Literatura não tem a ver com política. Traduções são feitas, você pode
comprar livros em lojas como o Amazon em cinco minutos... literatura é,
hoje, um mundo muito grande, mas a comunicação o torna bem pequeno de se
alcançar. Não prestamos atenção se ele argentino. Ele é um grande escritor,
queremos ler o que ele escreve. Ele transforma a literatura. Eu gosto do
Borges, como um escritor. Sinto prazer em ler suas coisas. Mas como me ajudou
na minha vida! Em 1985, eu estava em Nova York, e pela primeira vez na vida eu
passava tanto tempo longe da Turquia. Eu estava fascinado pelas bibliotecas
americanas, pela cultura americana, pelos museus... Eu ficava me perguntando:
“onde está meu sentimento turco?” Depois disso, comecei a ler literatura
clássica islâmica. E Borges me ajudou a enxergar as alegorias, os jogos de
palavras, os truques narrativos, que podem ser encontrados aos montes na
literatura islâmica. Por causa de Borges, li esses textos apenas pelo seu valor
intelectual. E a partir de então eu decidi que eu poderia usar esses truques
nos meus romances, como fiz com O livro negro e Meu
nome é vermelho.
: - No seu livro, O romancista ingênuo e o sentimental, o senhor fala da sua
experiência como leitor de romances. O senhor consegue se lembrar se houve
algum momento claro em que decidiu não apenas ler, mas também escrever?
OP: - Foi algo relacionado ao fato de eu ter chegado a um beco sem saída com
minhas pinturas. Eu queria ser um pintor, como disse no meu livro Istambul,
mas, de alguma maneira, cheguei a um beco sem saída. Não sei explicar como. Mas
eu sabia que estava destinado a viver num quarto, sozinho, sendo criativo, em
vez de trabalhar em uma empresa, recebendo ordens, ou sendo um professor, um
vendedor... Sabia que não seria assim. Então, minha decisão foi ser criativo.
De fazer algo sozinho, com papel e caneta. Então, trocar para a literatura foi
uma maneira de usar minha criatividade. Me lembro do dia em que quis ser
romancista. Eu estava assustado, mas sabia que precisava escrever algo em uma
página. Lembro de ler, naquela época, apenas O estrangeiro, de
Albert Camus. Simplesmente porque ele lhe dá tanta boa vontade. Eu me sentia optimista.
Escrever parecia tão simples: ir à praia, observar pessoas, escrever de maneira
lírica. Eu estava lendo, relendo, relendo, e tentando escrever minhas
sentenças. Meu primeiro livro não teve nada a ver com ele – tinha mais a ver
com longos épicos, mas eu estava tentando me formar lendo esse livro de que eu
gostava tanto.
: - Nesse mesmo livro, o senhor fala de escritores famosos. Quais foram os
autores que mais influenciaram sua maneira de escrever?
OP: - Nesse ponto, não sou muito diferente de outros: Tolstói, Dostoievski,
Proust e Thomas Mann são meus quatro maiores romancistas. Eles são muito bons.
Gosto do apetite deles e da atenção aos detalhes. E eles também escrevem
grandes livros, e eu gosto disso. Eles também continuaram por anos, e espero
ser capaz de fazer isso. Além disso, há também outro grupo de escritores:
Borges, Nabokov, Calvino. Eles me deram algo para pensar em uma literatura
“caixa dentro de caixa dentro de caixa”. Literatura pós-moderna. Me deram os
meios de sair do formato padrão do romance do século XIX, que eu respeito e, de
certa maneira, voltei a ele em meu livro O museu da inocência.
Mas é preciso usar esse formato de maneiras diferentes.
: - Há algum escritor que foi inócuo em sua formação? O senhor leu, mas ele
não teve influência nenhuma na sua maneira de escrever?
OP: - Li Patricia Highsmith, mas não fui influenciado por ela. Não que eu
não quisesse ser influenciado – não tenho medo das influências. Como vivo em um
lugar tão distante, o fato de escrever sobre Istambul já evita que as
influências fiquem claras.
: - Hoje, quais são os autores que mais chamam sua atenção?
OP: - Não leio mais tanto quanto costumava. Admiro
Thomas Bernhardt, Samuel Beckett. García Marquez também.
: - O senhor dá várias palestras ao redor do mundo. Conhecer seus leitores
é algo importante?
OP: - Quando você dá uma palestra, você não conhece apenas seus leitores. Você
chega perto de suas culturas. É sempre óptimo conhecer meus leitores, que
gostam dos meus livros, sorriem de maneira tão gentil. É óptimo, eu me sinto
honrado. Mas ando pelas ruas, vou a museus, tento compreender os jornais,
visito livrarias. Eu gostei muito do que vi, porque sempre comparo com o que
vejo em Istambul. Sou professor de Humanidade na Universidade de Columbia. Mas
quero ser professor de Modernidade Comparada, que é uma disciplina que eu quero
inventar. Brasil, México, Índia, China, Coreia são muito similares. Jornais,
publicidade, programas de televisão, raivas, diferença entre classes mais e
menos abastadas, pretensões das classes superiores, legitimação do poder, papel
do exército... Essas coisas são tão parecidas e tão diferentes, ao mesmo tempo,
em vários lugares, que eu digo a mim mesmo que deveria haver uma cadeira de Modernidade
Comparada em Columbia. Gosto de comparar esses detalhes. Sempre que viajo tento
observar isso.
: - O senhor é adepto de novas tecnologias? Como o senhor escreve seus
romances?
OP: - Eu escrevo à mão, e isso não vai mudar. Quando as primeiras máquinas
de escrever chegaram, eu já escrevia à mão. Quando surgiram os primeiros
computadores eu tentei escrever, mas eles machucavam meus olhos, porque eram
muito primitivos. Já sou velho, não vou mudar meus hábitos. Mas é claro que eu
mando emails, que eu tenho um iPad, um celular... Tenho interesse nessas
tecnologias, mas elas mudam tão rápido que preciso que alguém me ensine como
usá-las. Eu tenho uma assistente que me ajuda. Livros digitais são,
definitivamente, uma revolução. Editores falam muito deles e escritores estão
assustados. Nós, escritores, não conhecemos muito sobre o assunto. Mas é uma
revolução. Os hábitos de leitura vão mudar. No final, isso vai dar mais livros
às pessoas de maneira barata. Mas vai haver brigas porque eles mudam os
direitos dos autores, dos editores, das editoras. Mas se você olhar, por
exemplo, de Marte, você vai ver a evolução. Um dia, você vai apertar um botão e
vai ter todos os livros do mundo em um pequeno aparelho. Claro, vai ser barato
e bom para as pessoas.
: - Quando o senhor está escrevendo um romance, qual é seu método de
trabalho?
OP: - Eu acordo, às vezes ainda de pijama, sento na minha mesa e tomo meu
café e meu chá enquanto leio o que escrevi no dia anterior, como as pessoas
leem jornais. Eu só leio jornais depois das duas da tarde, porque quero manter
minha mente livre de raiva, porque são sempre más notícias. Gosto de manter
minha mente limpa de manhã para escrever. Depois, leio jornais, leio meus
emails, e volto a trabalhar depois. Eu gosto do meu trabalho. Tenho tantas
coisas para escrever, tantos romances que quero escrever...
: - Quando o senhor se dedica a um romance, já tem o enredo pronto em sua
cabeça?
OP: - Em comparação com outros autores, eu planeio mais meus livros. Eu tenho um
cuidado especial com a primeira frase. Isso é importante, mas pensar no final é
ainda mais importante. Depois que você tem isso, é uma alegria. Eu sempre tento
encontrar o final. Isso me ajuda muito. Ser um escritor é como ser um corredor
de maratonas. É preciso ter força. A força de um romancista não é apenas sua
criatividade, mas sua persistência e determinação. Há dias bons e dias ruins, você
precisa seguir como um comboio.
: - O senhor está trabalhando em um novo romance?
OP: - Sim. É sobre um vendedor de rua que vende iogurte e boza, uma bebida
fermentada popular encontrada no Oriente Médio e no norte da África. É uma
crônica da imigração da Anatólia para Istambul. Veremos o surgimento de uma
nação. Veremos muita pobreza, mas assim como acontece com países como Brasil e
China, essa nação vai ficando rica. Em paralelo, veremos a imigração para
velhas cidades imperiais, que acabam mudando. Estou escrevendo, nesse sentido,
sobre os excluídos de Istambul. É uma crônica das pessoas pobres de Istambul,
do século XVII até hoje. Mas não estou escrevendo um livro do John Steinbeck.
Estou escrevendo um livro de Orhan Pamuk, então essa crônica de costumes, assim
como em Neve e Meu nome é vermelho, vai ser
combinada com minha imaginação, com anedotas, com surrealismo, observação
antropológica. O título, por enquanto, é Strangeness in my mind (Estranheza
em minha mente). O romance quer ser tanto uma crônica realista da vida de
vendedores de rua quanto um panorama da vida em Istambul e da imigração.
: - Vai ser um grande livro, então.
OP: - Sim, assim espero! E vai me tomar muito tempo.
Paramos. Tinha a sensação que esgotara os temas para continuar com a
entrevista. Olhamos um para o outro a indagar se tinhamos realmente chegado ao
fim.
Ele aproveitou para dizer:
OP: E então? Os seus manuscritos? Posso dar-lhes uma vista de olhos?
Passei-lhe a pasta e disse-lhe: empresto-os somente com uma condição! Que
os leve e os analize em sua casa numa apreciação não apressada! É muito
importante a sua opinião sobre eles! Promete?
OP: - Concerteza! Está prometido! A minha apreciação crítica será honesta!
A impressão que eu tiver deles lhe direi com a máxima objectividade e isenção!
Apertamos as mãos e à laia de despedida ainda lhe disse: quando nos
voltaremos a ver?
OP: - De imediato, não. Parto amanhã para Nova Iorque! Quando você voltar a
Istambul, na sua próxima viagem, procure-me. Nessa altura já terei lido os seus
manuscritos e estarei em condições de poder falar deles. Até breve.
Apertamos as mãos mais uma vez e comecei a vê-lo a afastar-se rua abaixo
até desaparecer na dobra da esquina.
Voltei para o hotel.
Enquanto a comboio não trazia a minha casa de volta restava-me somente
esperar!
No entanto tinha a impressão que dera finalmente um passo gigante para
colocar alguma ordem no caos da minha vida!

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