sexta-feira, 12 de abril de 2019

A VIÚVA DO EXPRESSO DO ORIENTE Capítulo 4 (Continuação)

                                                         
                                                               Escrito por Lopes Barbosa



4


ORHAN PAMUK



Na manhã seguinte parti à procura do endereço de Orhan Pamuk.
O meu interesse por si aumentara desde que li, entre muitos outros, o seu livro, ISTAMBUL, Memórias de uma cidade! Acabei por encontrá-lo sentado numa esplanada tomando a sua bebida preferida, café!
Passando por cima de todas as etiquetas, resolvi pedir-lhe uma entrevista! A princípio pareceu hesitar; mas depois deve ter achado piada ao meu descaramento e resolveu perguntar o que é que eu queria saber dele.
Bom, acabei por gaguejar e as perguntas não saiam da minha garganta!
Ao invés disso, acabei por lhe falar de mim, das minhas tentativas falhadas em me tornar um escritor, e também em simultâneo, potencialmente, ser um aprendiz de pintor, fotografo, etc.
Ele aí esboçou mesmo uma tentativa de se levantar e ir-se embora.
Eu implorei e acabei por lhe confessar que vivia num comboio que nunca chegava ao fim da linha, já que as suas viagens eram ininterruptas. E falei-lhe da minha mãe, que vivia comigo nesse comboio, em carruagens decoradas a rigor numa imitação burlesca do comboio Expresso do Oriente.
E ele aí quase que dava um salto da cadeira.
Parece que estaria à espera de qualquer coisa estapafúrdia ou irreverente da minha parte, mas nunca aquela revelação de que eu era um personagem de um mundo de que ainda não havia sido inventado! Uma espécie de realidade que mais parecia ter sido estraída de uma peça surrealista ou em última estância talvez fazendo parte de um reportário de um grupo teatral a roçar algo parecido com uma espécie de quinta dimensão futurista.
Agora foi ele que teve interesse em perguntar:
Orhan Pamuk: Quando posso ler algo que você tenha escrito?
Respondi : hoje, mesmo! Daqui a pouco! É só dar-me tempo de eu correr ao hotel e apanhar a  pasta onde guardo os manuscritos e trago-os usando a mesma velocidade que usei quando decidi ir buscá-los!
OP: - Você, é cómico!
: - Obrigado. E a minha entrevista, ainda está de pé?

OP: O que é que você quer saber?
: - É fácil para um escritor como você continuar a publicar livros?
OP: - Esses bons anos se foram. Quando eu estava publicando meus primeiros livros, a geração anterior de autores estava desaparecendo, então fui bem recepcionado porque eu era um novo autor.
: -  Quando diz geração anterior, quem você tem em mente?
OP: Os autores que sentiam uma responsabilidade social, que sentiam que a literatura serve à moralidade à política. Eles eram realistas plenos, não experimentais. Como autores em tantos países pobres, eles desperdiçaram seus talentos tentando servir à nação.
Eu não queria ser como eles, porque mesmo na minha juventude eu aproveitei [as leituras de] Faulkner, Virginia Woolf, Proust – nunca aspirei ao modelo sócio-realista de Steinbeck e Gorky. A literatura produzida nos anos 60 e 70 estava ficando ultrapassada, então fui recepcionado como um autor de uma nova geração.
Após a metade da década de 90, quando meus livros começaram a vender quantidades que ninguém na turquia sonhou, meus anos de lua de mel com a imprensa e a intelectualidade turquesa acabaram. Dali em diante, a recepção crítica era mais uma reacção à publicidade e às vendas em vez do conteúdo dos meus livros.
Agora, infelizmente, sou notório por meus comentários políticos – muitos deles pegos de entrevistas internacionais e vergonhosamente manipulados por alguns jornais nacionalistas Turqueses que me fazem parecer mais radical e tolo politicamente do que realmente sou.
: - Orhan, seu homônimo e narrador de Neve se descreveu como um escrivão que se senta na mesma hora todo dia. Você tem essa mesma disciplina na escrita?
OP: Eu estava enfatizando a natureza clerical do romancista em vez da do poeta, que tem uma imensa e prestigiada tradição na Turquia. Ser poeta é algo popular e respeitoso. Muitos dos sultões e homens de Estados Otomanos eram poetas. Mas não da maneira que entendemos poetas hoje. Por centenas de anos foi uma forma de se estabelecer como um intelectual. Muitas dessas pessoas costumavam colecionar suas poesias em manuscritos chamados divãs. De fato, a poesia da corte Otomana é chamada poesia de divã. Metade dos homens de Estado Otomano fizeram divãs. Era uma forma sofisticada e educada de escrever coisas, com muitas regras e rituais. Muito convencional e muito repetitivo. Após as ideias do Ocidente terem vindo à Turquia, esse legado foi mesclado com a ideia romântica e moderna do poeta como alguém que queima por verdade. Adicionou peso extra ao prestígio do poeta. Por outro lado, um romancista é essencialmente uma pessoa que cobre a distância através de sua paciência, lentamente, como uma formiga. Um romancista nos impressiona não por suas visões demoníacas e românticas, mas por sua paciência.
: -  Quando você era jovem você quis ser um pintor. Quando o seu amor pela pintura deu espaço ao seu amor pela escrita?
OP: Com 22 anos. Desde os meus 7 eu queria ser um pintor, e minha família aceitou isso. Todos pensaram que eu seria um pintor famoso. Mas algo aconteceu na minha cabeça – eu percebi que um parafuso afrouxou – e parei de pintar e imediatamente comecei meu primeiro romance.
: - Um parafuso afrouxou?
OP: Não consigo dizer os meus motivos para fazer aquilo. Recentemente publiquei um livro chamado Istambul. Metade dele é minha autobiografia até aquele momento e a outra metade é um ensaio sobre Istambul, ou mais precisamente, Istambul pela visão de uma criança. É uma combinação de pensar sobre imagens e paisagens e a química de uma cidade, e a percepção de uma criança sobre essa cidade, e a autogiografia dessa criança. A última sentença do livro diz “Eu não quero ser um artista”, eu disse. “Eu vou ser um escritor”. E isso não é explicado. Embora ler o livro inteiro possa explicar algo.
: -  Sua família ficou feliz com essa decisão?
OP: Minha mãe ficou triste. Meu pai em parte foi mais compreensivo porque na juventude ele quis ser poeta e traduziu Válery para o turquês, mas desistiu quando foi zombado pelo círculo de classe mais elevada ao qual ele pertencia.
: - A abertura de A Nova Vida é “Eu li um livro um dia e minha vida inteira       mudou”. Algum livro teve esse efeito em você?
OP: O Som e a Fúria foi muito importante para mim quando eu tinha 21, 22. Comprei uma cópia da edição da Penguin. Era difícil de entender, especialmente com meu inglês pobre.  Mas tinha uma tradução maravilhosa do livro para o turquês, então eu colocava o turquês e o inglês na mesa e lia meio parágrafo de um e ia voltava a outra. Aquele livro deixou uma marca em mim. Aquele resíduo foi a voz que desenvolvi. Logo comecei a escrever na primeira pessoa do singular. Na maior parte do tempo me sinto melhor quando estou interpretando outra pessoa do que quando escrevo em terceira pessoa.
: - Com frequência os críticos caracterizam seus romances como pós-modernos. Me parece, porém, que você recorre a truques narrativos principalmente de fontes tradicionais. Você cita, por exemplo, As Mil e Uma Noites e outros textos clássicos da tradição oriental.
OP: Isso começou com O Livro Negro, apesar de eu ter lido Borges e Calvino mais cedo. Fui aos Estados Unidos com minha esposa em 1985, e lá encontrei a predominância e a imensa riqueza da cultura Americana. Com um turco vindo do Oriente Médio, tentando se reestabelecer como autor, eu me senti intimidado. Então retornei, voltei às minhas ‘raízes’. Percebi que minha geração tinha de inventar uma literatura nacional moderna.
Borges e Calvino me libertara. A conotação da literatura islâmica tradicional era tão reaccionária, tão política, e usada por conservadores de uma forma tão antiquada e tola, que eu nunca pensei que poderia fazer algo com esse material. Mas nos Estados Unidos, percebi que poderia voltar para esse material com uma mentalidade Calvinesca ou Borgianesca. Eu tive que começar a fazer uma distinção forte entre as conotações religiosas e literárias da literatura islâmica, para que eu pudesse me apropriar facilmente da riqueza de seus jogos, artifícios e parábolas. A Turquia tinha uma tradição sofisticada de uma literatura ornamental altamente refinada. Mas então os escritores socialmente comprometidos esvaziaram nossa literatura de seu conteúdo inovador.
Há muitas alegorias que se repetem nas várias tradições orais de narrar histórias – China, Índia Pérsia.Eu decidi as usar e contextualizar na Istambul contemporânea. É um experimento – coloque tudo junto, como em uma colagem Dadaísta; O Livro Negro tem essa qualidade. As vezes todas essas fontes se fundem e algo novo emerge. Então ajustei todas essas histórias reescritas a Istambul, adicionei um enredo detetivesco, e então veio O Livro Negro. Mas em sua fonte estava a força completa da cultura americana e o meu desejo de ser um escritor experimental sério. Eu não podia escrever um comentário social sobre os problemas da Turquia – eu era intimidado por eles. Então tive de tentar outra coisa.
: - O senhor nasceu e cresceu em Istambul, uma cidade em que as tradições do Ocidente e do Oriente se encontram e se misturam. Como vê esse encontro de tradições?

OP: - Eu não tinha consciência disso como tenho hoje, porque o 11/9 fez com que esse “confronto” de civilizações entre o ocidente e o oriente se tornasse um tema global. Na minha infância, isso era um tema turco. Por causa de suas geografia e história, a Turquia está situada tanto na Europa quanto na Ásia. Era parte do Império Otomano. Quando esse império ruiu, todas as diferentes nações se tornaram Estados separados. Então, ficamos sozinhos com nossa “turquice”. Atatürk (Kemal Atatürk, fundador da República da Turquia e primeiro presidente do país) impôs tradições turcas a nós, junto com visões ocidentais de progresso. Foi uma decisão de “ocidentalizar” o país, algo semelhante ao que acontece com o Japão e com a Rússia. Isso gerou reações contrárias. Essa luta formou a cultura e a identidade turcas. Isso acabou até criando o romance oriental/ocidental, em que os valores do oriente e do ocidente se encontram, e então alguma garota, que acredita demais nos valores ocidentais, acaba se prostituindo... Meu próprio livro O castelo branco se baseia um pouco nesse tema.

: - Eu ia perguntar se esse encontro afetou seus trabalhos.


OP: - Sim, não afetou apenas O castelo branco, mas praticamente todos os meus romances tratam desse assunto. É preciso compreender que quem vive em Istambul não fica se perguntando: “sou ocidental ou sou oriental?” Elas vivem suas vidas. Por isso, eu não tinha consciência desse confronto entre Oriente e Ocidente como tenho hoje, porque o modo como a Turquia impôs a modernidade e a secularização, pela força das armas, a uma sociedade tradicional islâmica é basicamente o que os Estados Unidos estão tentando fazer no mundo.


: - Como o senhor vê o papel político de um escritor? Ele precisa tomar partido e defender sua posição sempre que possível?

OP: - Não. Nós tomamos partidos políticos por conta de nossa ética pessoal. Eu acredito fortemente que um escritor não deve se envolver em situações políticas, mas é inevitável. Escrever um romance é se identificar com pessoas. Não apenas o seu tipo de pessoa, mas com pessoas que são muito diferentes de você. Quando você começa a fazer isso, como eu fiz em Neve, você precisa compreender questões políticas islâmicas. Isso não significa que eu concorde com as situações políticas islâmicas apresentadas no livro. Meu dever ético não é julgar e criticar, mas me colocar na posição de alguém e tentar entender por que ele tem tanta raiva do Ocidente.

: - Assim com o senhor sofreu forte oposição por comentar assuntos considerados tabus (como o genocídio de armênios cometido pelos turcos em 1915), vários escritores latino-americanos foram vítimas de oposição por causa de seus livros. O senhor sente algum tipo de identificação com eles?

OP: - Claro. Depois que meus problemas começaram, eu senti ainda mais essa identificação. Mas em 1979, quando Harold Pynter e Arthur Miller foram à Turquia – naquela época eu não era um escritor tão famoso, mas tinha alguns livros publicados –, eu servi de guia a eles. E era um período de forte repressão, mas eu acreditava na liberdade de expressão. No final, meu principal valor é a liberdade de expressão. Eu entendo qualquer escritor, de qualquer lugar no mundo, que sofra repressão.

: - Para o senhor, qual é o papel da literatura?

OP: - Comunicação. Olhar para o coração humano. Ver humanidade em todas as culturas, em todas as situações, em todas as classes, cores, raças, sexos. Ver a vida claramente. Para me perguntar a mim mesmo coisas como “por que vivemos, quais são nossos valores na vida, quais são os valores que devemos respeitar, que tipo de vida devemos viver”. Questões que as pessoas esperam da religião, da filosofia, eu espero de romances, de literatura. Não acredito em força política fora dos romances, mas, sabe, às vezes as pessoas me pedem para assinar algo, um abaixo-assinado, e eu preciso assinar. É inevitável, em países em que a democracia é limitada, não fazer parte disso. Tenho sorte, sou famoso, e acabo me envolvendo. Mas minhas motivações não são nunca políticas. Quero escrever bons romances. Eu escrevo pela beleza do romance. Ponto final. Mas também quero ser uma pessoa politicamente correcta.

: - Notei que o senhor tem uma conexão muito forte com Jorge Luis Borges. Como o senhor vê essa relação?

OP: - Literatura não tem a ver com política. Traduções são feitas, você pode comprar livros em lojas como o Amazon em cinco minutos...  literatura é, hoje, um mundo muito grande, mas a comunicação o torna bem pequeno de se alcançar. Não prestamos atenção se ele argentino. Ele é um grande escritor, queremos ler o que ele escreve. Ele transforma a literatura. Eu gosto do Borges, como um escritor. Sinto prazer em ler suas coisas. Mas como me ajudou na minha vida! Em 1985, eu estava em Nova York, e pela primeira vez na vida eu passava tanto tempo longe da Turquia. Eu estava fascinado pelas bibliotecas americanas, pela cultura americana, pelos museus... Eu ficava me perguntando: “onde está meu sentimento turco?” Depois disso, comecei a ler literatura clássica islâmica. E Borges me ajudou a enxergar as alegorias, os jogos de palavras, os truques narrativos, que podem ser encontrados aos montes na literatura islâmica. Por causa de Borges, li esses textos apenas pelo seu valor intelectual. E a partir de então eu decidi que eu poderia usar esses truques nos meus romances, como fiz com O livro negro e Meu nome é vermelho.


: - No seu livro, O romancista ingênuo e o sentimental, o senhor fala da sua experiência como leitor de romances. O senhor consegue se lembrar se houve algum momento claro em que decidiu não apenas ler, mas também escrever?

OP: - Foi algo relacionado ao fato de eu ter chegado a um beco sem saída com minhas pinturas. Eu queria ser um pintor, como disse no meu livro Istambul, mas, de alguma maneira, cheguei a um beco sem saída. Não sei explicar como. Mas eu sabia que estava destinado a viver num quarto, sozinho, sendo criativo, em vez de trabalhar em uma empresa, recebendo ordens, ou sendo um professor, um vendedor... Sabia que não seria assim. Então, minha decisão foi ser criativo. De fazer algo sozinho, com papel e caneta. Então, trocar para a literatura foi uma maneira de usar minha criatividade. Me lembro do dia em que quis ser romancista. Eu estava assustado, mas sabia que precisava escrever algo em uma página. Lembro de ler, naquela época, apenas O estrangeiro, de Albert Camus. Simplesmente porque ele lhe dá tanta boa vontade. Eu me sentia optimista. Escrever parecia tão simples: ir à praia, observar pessoas, escrever de maneira lírica. Eu estava lendo, relendo, relendo, e tentando escrever minhas sentenças. Meu primeiro livro não teve nada a ver com ele – tinha mais a ver com longos épicos, mas eu estava tentando me formar lendo esse livro de que eu gostava tanto.

: - Nesse mesmo livro, o senhor fala de escritores famosos. Quais foram os autores que mais influenciaram sua maneira de escrever?

OP: - Nesse ponto, não sou muito diferente de outros: Tolstói, Dostoievski, Proust e Thomas Mann são meus quatro maiores romancistas. Eles são muito bons. Gosto do apetite deles e da atenção aos detalhes. E eles também escrevem grandes livros, e eu gosto disso. Eles também continuaram por anos, e espero ser capaz de fazer isso. Além disso, há também outro grupo de escritores: Borges, Nabokov, Calvino. Eles me deram algo para pensar em uma literatura “caixa dentro de caixa dentro de caixa”. Literatura pós-moderna. Me deram os meios de sair do formato padrão do romance do século XIX, que eu respeito e, de certa maneira, voltei a ele em meu livro O museu da inocência. Mas é preciso usar esse formato de maneiras diferentes.

: - Há algum escritor que foi inócuo em sua formação? O senhor leu, mas ele não teve influência nenhuma na sua maneira de escrever?

OP: - Li Patricia Highsmith, mas não fui influenciado por ela. Não que eu não quisesse ser influenciado – não tenho medo das influências. Como vivo em um lugar tão distante, o fato de escrever sobre Istambul já evita que as influências fiquem claras.

: - Hoje, quais são os autores que mais chamam sua atenção?

OP: - Não leio mais tanto quanto costumava. Admiro Thomas Bernhardt, Samuel Beckett.  García Marquez também.


: - O senhor dá várias palestras ao redor do mundo. Conhecer seus leitores é algo importante?

OP: - Quando você dá uma palestra, você não conhece apenas seus leitores. Você chega perto de suas culturas. É sempre óptimo conhecer meus leitores, que gostam dos meus livros, sorriem de maneira tão gentil. É óptimo, eu me sinto honrado. Mas ando pelas ruas, vou a museus, tento compreender os jornais, visito livrarias. Eu gostei muito do que vi, porque sempre comparo com o que vejo em Istambul. Sou professor de Humanidade na Universidade de Columbia. Mas quero ser professor de Modernidade Comparada, que é uma disciplina que eu quero inventar. Brasil, México, Índia, China, Coreia são muito similares. Jornais, publicidade, programas de televisão, raivas, diferença entre classes mais e menos abastadas, pretensões das classes superiores, legitimação do poder, papel do exército... Essas coisas são tão parecidas e tão diferentes, ao mesmo tempo, em vários lugares, que eu digo a mim mesmo que deveria haver uma cadeira de Modernidade Comparada em Columbia. Gosto de comparar esses detalhes. Sempre que viajo tento observar isso.


: - O senhor é adepto de novas tecnologias? Como o senhor escreve seus romances?

OP: - Eu escrevo à mão, e isso não vai mudar. Quando as primeiras máquinas de escrever chegaram, eu já escrevia à mão. Quando surgiram os primeiros computadores eu tentei escrever, mas eles machucavam meus olhos, porque eram muito primitivos. Já sou velho, não vou mudar meus hábitos. Mas é claro que eu mando emails, que eu tenho um iPad, um celular... Tenho interesse nessas tecnologias, mas elas mudam tão rápido que preciso que alguém me ensine como usá-las. Eu tenho uma assistente que me ajuda. Livros digitais são, definitivamente, uma revolução. Editores falam muito deles e escritores estão assustados. Nós, escritores, não conhecemos muito sobre o assunto. Mas é uma revolução. Os hábitos de leitura vão mudar. No final, isso vai dar mais livros às pessoas de maneira barata. Mas vai haver brigas porque eles mudam os direitos dos autores, dos editores, das editoras. Mas se você olhar, por exemplo, de Marte, você vai ver a evolução. Um dia, você vai apertar um botão e vai ter todos os livros do mundo em um pequeno aparelho. Claro, vai ser barato e bom para as pessoas.

: - Quando o senhor está escrevendo um romance, qual é seu método de trabalho?

OP: - Eu acordo, às vezes ainda de pijama, sento na minha mesa e tomo meu café e meu chá enquanto leio o que escrevi no dia anterior, como as pessoas leem jornais. Eu só leio jornais depois das duas da tarde, porque quero manter minha mente livre de raiva, porque são sempre más notícias. Gosto de manter minha mente limpa de manhã para escrever. Depois, leio jornais, leio meus emails, e volto a trabalhar depois. Eu gosto do meu trabalho. Tenho tantas coisas para escrever, tantos romances que quero escrever...

: - Quando o senhor se dedica a um romance, já tem o enredo pronto em sua cabeça?

OP: - Em comparação com outros autores, eu planeio mais meus livros. Eu tenho um cuidado especial com a primeira frase. Isso é importante, mas pensar no final é ainda mais importante. Depois que você tem isso, é uma alegria. Eu sempre tento encontrar o final. Isso me ajuda muito. Ser um escritor é como ser um corredor de maratonas. É preciso ter força. A força de um romancista não é apenas sua criatividade, mas sua persistência e determinação. Há dias bons e dias ruins, você precisa seguir como um comboio.

: - O senhor está trabalhando em um novo romance?

OP: - Sim. É sobre um vendedor de rua que vende iogurte e boza, uma bebida fermentada popular encontrada no Oriente Médio e no norte da África. É uma crônica da imigração da Anatólia para Istambul. Veremos o surgimento de uma nação. Veremos muita pobreza, mas assim como acontece com países como Brasil e China, essa nação vai ficando rica. Em paralelo, veremos a imigração para velhas cidades imperiais, que acabam mudando. Estou escrevendo, nesse sentido, sobre os excluídos de Istambul. É uma crônica das pessoas pobres de Istambul, do século XVII até hoje. Mas não estou escrevendo um livro do John Steinbeck. Estou escrevendo um livro de Orhan Pamuk, então essa crônica de costumes, assim como em Neve e Meu nome é vermelho, vai ser combinada com minha imaginação, com anedotas, com surrealismo, observação antropológica. O título, por enquanto, é Strangeness in my mind (Estranheza em minha mente). O romance quer ser tanto uma crônica realista da vida de vendedores de rua quanto um panorama da vida em Istambul e da imigração.

: - Vai ser um grande livro, então.

OP: - Sim, assim espero! E vai me tomar muito tempo.

Paramos. Tinha a sensação que esgotara os temas para continuar com a entrevista. Olhamos um para o outro a indagar se tinhamos realmente chegado ao fim.
Ele aproveitou para dizer:

OP: E então? Os seus manuscritos? Posso dar-lhes uma vista de olhos?

Passei-lhe a pasta e disse-lhe: empresto-os somente com uma condição! Que os leve e os analize em sua casa numa apreciação não apressada! É muito importante a sua opinião sobre eles! Promete?

OP: - Concerteza! Está prometido! A minha apreciação crítica será honesta! A impressão que eu tiver deles lhe direi com a máxima objectividade e isenção!

Apertamos as mãos e à laia de despedida ainda lhe disse: quando nos voltaremos a ver?

OP: - De imediato, não. Parto amanhã para Nova Iorque! Quando você voltar a Istambul, na sua próxima viagem, procure-me. Nessa altura já terei lido os seus manuscritos e estarei em condições de poder falar deles. Até breve.

Apertamos as mãos mais uma vez e comecei a vê-lo a afastar-se rua abaixo até desaparecer na dobra da esquina.

Voltei para o hotel.

Enquanto a comboio não trazia a minha casa de volta restava-me somente esperar!

No entanto tinha a impressão que dera finalmente um passo gigante para colocar alguma ordem no caos da minha vida!

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