LOPES BARBOSA
HISTÓRIA DE UM CRIME ANUNCIADO
Adaptação para teatro
do livro MACHEL – Ícone da 1ª. República
de Severino Ngoenha
Reservados todos os
direitos de acordo com a legislação em vigor
©Joaquim Lopes
Barbosa
INLD Nº de Registo
6686/RLINLD/2019
CENA ÚNICA
É de dia e o sol é
inclemente.
Descampado ventoso e
sem árvores. Várias peças de avião sinistrado ardem no chão.
O vento levanta a poeira
e mistura-se com o fumo.
VELHO
Vou contar-vos a
história de um homem iluminado, simples e corajoso. A sua memória é um autêntico
machado de guerra.
É tempo de abrir o
passado, não fechar o sepulcro antes de darmos a conhecer as verdades sobre a
sua vida e evitar para ela um esquecimento desonroso.
O homem de quem vamos
falar foi um soldado que encontrou o seu destino lutando por o seu povo e nessa
luta libertadora, morreu.
O sangue derramado
por si, verdadeira crucificação à sua dignidade, é a prova de que a sua luta
era genuína e os ideais que a norteava estavam em sintonia com as aspirações de
libertação de todo o seu povo.
CORO
É longa a história
deste homem que se desenrolará a seguir e como uma epopeia nascerá aqui, nesta
estreiteza de terra árida onde ele jaz morto, igual a outra onde ele combateu e
morreu por ideais nobres, porque nobres são todas as lutas que servem para nos
libertar do medo, da escravidão, da ignomínia de sermos um povo sem rosto, sem
passado, sem presente e sem futuro.
VELHO
Senhor de África, eu
te convoco e peço que venhas fazer justiça a este homem-guerreiro que jaz ali, morto.
Eu vou defendê-lo
como se ele fosse meu filho e peço que sejas justo na tua sentença. Os seus actos estão ligados à defesa de valores
que para nós, pessoas simples e comuns, sempre foram eternos.
A justiça, a verdade,
a liberdade, foram os mesmos valores porque ele que lutou e morreu.
CORO
Ele nunca tolerou a
escravatura dos negros seus irmãos, como condenou com todas as suas forças o colonialismo,
esse maldito colonialismo que esteve na origem do grande sofrimento do seu
povo, como também de grande parte da humanidade.
O mesmo odioso
colonialismo que foi o responsável pela fome, pela miséria e pela pobreza de
muitos milhões de crianças, de mulheres e de homens, que viveram, e ainda hoje
vivem na periferia da História.
DEUS DE ÁFRICA
Há muitos anos que
não sou chamado para um julgamento! Quem é o réu? Qual é a sua causa? Porque eu
não me ocupo de indivíduos, mas sim de causas.
Qual é a causa que
pode ser ainda importante numa época que se define a ela mesmo como
pós-história, negação da liberdade dos homens em serem fautores de causas,
poetas de novos futuros, inventores de novos sentidos?
VELHO
Trata-se de um homem
revolucionário...
DEUS DE ÁFRICA
Revolucionário? De
quem é que falas?
VELHO
Falo de um negro que
lutou abnegadamente pela libertação de uma parte de África e pela libertação do
seu próprio povo africano.
DEUS DE ÁFRICA
África? Africanos? Os
mesmos que nunca deveriam ter confiado em exploradores? Infelizmente , nunca
cessaram de repetir os mesmos erros do passado, com consequências dramáticas!
VELHO
Sim, mas este é
diferente. Este ousou lutar e venceu, já que libertou o seu povo do jugo do
colonialismo.
DEUS DE ÁFRICA
Então, quem é esse
africano? Zumbi dos Palmares? Toussaint? Nkrumah? Diop?
VELHO
Não, não é nenhum
desses que citaste! Nem tampouco Senghor... Fanon... Towa...
DEUS DE ÁFRICA
Quem é então? Onde
estão em África actualmente pessoas que mereçam o meu juizo? Africanos que se tomem
a sério, que fixem objectivos e os cumpram até à vitória final?
VELHO
O candidato é sim um
africano, mas não é um africano qualquer. Não é fundador de um partido como
Kaunda, Nyerere ou Touré! Não é um produtor de ideias como Cabral ou Mondlane!
Mas era um homem, um homem socialista, que provavelmente nunca lera nem Marx, Engels,
Trotsky ou Gramsci... Samora Moisés Machel, trata-se de Machel, Santidade!
DEUS DE ÁFRICA
Dá-me uma razão
válida para que eu perca o meu tempo com o teu... como se chama?
VELHO
Machel, Santidade!
Ele chama-se Machel.
CORO
Ele combateu o
racismo e o tribalismo...
VELHO
E foi combatente
incansável pela inclusão e libertação da mulher.
CORO
Combateu a corrupção
e defendeu incessantemente a igualdade entre todos.
VELHO
Santidade, conhece
mais algum dirigente africano que tenha arregaçado as mangas para trabalhar na
recolha do arroz ou na limpeza da cidade, e que tenha defendido o trabalho como
um valor sagrado?
CORO
E que não tenha
hesitado em sacrificar o seu próprio povo para ir em auxilio dos povos vizinhos
da África do Sul ou do Zimbábwè, ajudando-os na luta contra a tirania?
VELHO
E sobretudo conhece
mais alguém que tenha estado imbuído pela ideia da liberdade e da igualdade
entre os homens a ponto de perder quase o sentido da realidade?
DEUS DE ÁFRICA
Está bem, está bem!
Convenceste-me. Vou ouvi-lo e pesar as suas acções. Ao meu lado direito estará
representado o seu lado BOM, no esquerdo o seu lado MAU.
Neste momento entram duas crianças
de idade aproximada de 10 anos, uma menina e um menino, que irão colocar-se de
cada um dos lados do Deus de África.
DEUS DE ÁFRICA
Que o réu se aproxime.
Samora
Machel trajando o fato tipico de guerrilheiro aproxima-se e vai postar-se frente ao Deus de África.
VELHO
Excelência...
Presidente... Marechal... Camarada. Nem
sei como chamar-vos tal a estatura que conseguiste no desempenho das vossas
atribuições como Comandante da Nação Moçambicana.
Apesar de tudo o que
fizeste que possa estar registado como
positivo no âmbito das tuas acções politicas ou sociais, mesmo assim, aqui vais
ser avaliado pelo aquilo que poderá ser considerado de bom ou de mau no decurso
desse mesmo desempenho. Pedimos-te que fales e assumas tu mesmo a tua própria
defesa.
MACHEL
Será que ainda vou
ter forças para me expressar?
Desde aquele
derradeiro dezanove de Outubo, daquele fatídico e terrível dia, sinto-me
completamente só. Sei que ainda gritei: Camaradas porque me abandonaram?
CORO
Porque abandonaram a
causa do Povo?
MACHEL
Mas tive o silêncio
como resposta. Ninguêm estava ali para me ajudar! Mas de repente, na agonia final,
pude ainda ouvir o som de uma moeda que caía dos bolsos de um dos meus
carrascos.
CORO
Sim, sim, foi o
dinheiro que esteve na origem do teu sacrifício.
MACHEL
Entre mim e o povo
existia uma tal relação mística que não era possível o povo estar contra mim!
Quem então me condenou?
CORO
Os cúmplices do
colonialismo, foram eles que te condenaram.
MACHEL
Dinheiro, capital,
capitalismo, mercado, burguesia... Tudo o que tinhamos identificado como o
principal inimigo da nossa luta. O inimigo, isto é, a cobiça, a ganância, o individualismo
estavam no nosso seio.
CORO
Sim, foram eles que
te condenaram.
MACHEL
Como é possível?
Todos os valores que combatíamos foram eles que me derrubaram?
CORO
Confiaste demasiado.
Tu que podias ter destruído o Templo do Capitalismo em África, permitiste que
os falsos amigos, com sorrisos cínicos, que te rodeavam, sedentos de te
substituir na liderança, te levassem a não desconfiares que no último falso
aperto de mão estava afinal a tua crucificação.
MENINA
Tu tinhaste
transformado no Messias do teu Povo e isso para muita gente possou a ser
terrivelmente insuportável.
MENINO
Tu tornaras-te um
Rei, um novo Ngungunhana, e isso para minha gente tornou-se terrivelmente
insuportável!
CORO
Morte, morte...Foi
pedida a tua morte.
VELHO
Já não eras de
confiança... tinhas traído a confiança daqueles que viram em ti um meio fácil e
rápido de chegar à riqueza.
MENINA
Tu tornaras-te num
marxista-leninista...
MENINO
Ou num socialista
perigoso...
CORO
Foste acusado de
teres traído as tradições do nosso povo.
MACHEL
É falso. Toda a minha
vida combati os dois sistemas, as duas mentiras: o que fabricava os malditos
ricos e o outro, o que albergava os tradicionais depositários dos ditos valores
autênticos da memória do nosso povo. Ambos eram parasitas que viviam à nossa
custa.
CORO
Mas não te serviu de
nada. As tuas palavras levou-as o vento. Ninguêm te acreditou e foste derrotado
como perseguidor de ilusões.
MACHEL
Infelizmente é
verdade. Quando iniciamos o nosso processo de libertação, imposto pelo
colonialismo, vi-me imediatamente confrontado
com o terrivel dilema: quem combater primeiro? O sistema ignóbil e impiedoso que nos capturava e vendia como
escravos, destruia os nossos reinos, nos mandava para o xibalo, para os
trabalhos forçados, para as minas do john. Ou aqueles que, a coberto das
tradições, nos manietava eternamente no tribalismo, nas falsas divisões
étnicas, no subdesenvolvimento, na ignorância?
MENINA
A tua hesitação
condenou-te à morte... Nenhum dirigente lúcido rejeita as leis do seu povo. Tu
não respeitaste a leis do teu povo.
MACHEL
Não respeitei as
nossas leis? Mas como podia eu respeitar leis tribais, etnicas, que sempre
contribuiram para nos levar à escratura, que nos dividiram e facilitaram a
vinda do opressor! Pelo contrário, era
preciso unir o povo, era preciso criar novas utopias, fazer nascer o homem
novo.
VELHO
Machel, meu filho,
mas onde estão hoje os teus discípulos, os teus mestres-ideólogos?
CORO
Tu que te pensavas
chefe, comandante, foste usado como um simples fantoche, o parvo que emprestou
a voz, a cara e depois a própria vida.
VELHO
Os que se dizem verdadeiros,
genuínos dirigentes mudam de rumo, por escolha ou oportunismo. Os teus chefes, tiveram a astúcia necessária para
não serem sacrificados nem engolidos pela derrota.
CORO
Foram tão manhosos
como o diabo. Como Xiconhoca, eles reemergiram como escangalhadores do
velho-velho e do velho-novo. Na condição de permanecerem sempre no bom lugar.
MACHEL
Pode ser que tenham
razão. Mas para mim, o socialismo era ter a terra onde nascemos, o pão que
produziamos, e de repente foi o fim. Quanto tempo se passou? Quinhentas mil
horas? Dez milhões de minutos? Seiscentos milhões de segundos?
VELHO
Foste enganado pelos
teus companheiros. Nunca ninguêm te disse a verdade, a verdade verdadeira, nua
e crua.
CORO
Primeiro foram críticas,
condenações, fabulações. Depois de repente elogios, nostalgias, exageros.
VELHO
Algumas manifestações
de audácia aqui e ali, mas rapidamente banalizadas pela ênfase, pela repetição,
pelo exagero. Nada, ou quase nada, quanto à causa. A Causa!
MACHEL
A liberdade é um
direito inalienável dos povos... Nós também tinhamos direitos, as nossas
crianças tinham direitos, as nossas mulheres também tinham direitos... O
mundo...
VELHO
O mundo mente. A
liberdade é uma prerrogativa reservada a determinados homens que se tornaram
super-homens. O drama começa quando o escravo desperta para o sonho não de se
tornar homem, mas super-homem. Quer os mesmos direitos do super-homem! Baniu
para sempre o simples direito de ser sómemte homem. Já não lhe chega ser
simplesmente homem. Quer mais, muito mais.
MACHEL
Isso não é verdade. A
grande virtude da morte é a sua essencialidade. Ela tira-nos da banalidade dos
detalhes e confronta-nos com a sua subtância que é a própria vida. A minha vida, como a vida de muitos milhões de
homens africanos iguais a mim, pode confundir-se como um puro processo biológico que foi
desencadeado sem ter origem num acto de
amor.
A Africa, a minha
africa, sempre pertenceu aos africanos,
mas esses homens estranhos, os seus habitantes originais, nunca foram
considerados homens, iguais entre iguais, por aqueles que vieram
nos possuir.
VELHO
Então o drama começa
quando voçês começaram a acreditar, a meteram-se a sonhar em ser livres, a ser
iguais entre os iguais, a exigir os mesmos direitos dos outros homens, dos
verdadeiros homens?
MACHEL
Sim, não podia ser de
outra maneira. No maldito passado da nossa existência, sempre nos foi vedado
sonhar, assumir a nossa africanidade, uma humanidade não excludente! A nossa
morte, a morte dos muito milhões antes de nós, para nós, para o nosso grandioso
projecto de libertação nunca passou de um simulacro! Sempre a assumimos como
produto de uma estratégia de domínio sobre nós, e nada mais. Nunca foi
definitiva, uma vez que nós sempre renasciamos!
CORO
Dizes que nunca
estivemos mortos? Que nunca morremos? Sendo assim, quem somos nós afinal, verdadeiramente?
MACHEL
Os mortos não sabem
como se escreve a história. Eles regam-na sómente com o seu sangue e não
conhecem o valor do seu sacrifício. Também nunca falam e por isso às vezes são
vítimas de acusações injustas. Eles
esqueceram para sempre o valor da palavra. Compete a nós, os vivos, falar em
nome deles, advogar as suas causas. Eu ousei falar. Não queria esperar nem mais
um segundo para resgatar o espírito de todos os que foram a enterrar sem
conhecer o valor do seu sacrífício.
CORO
E qual foi o valor
desse sacrifício, diz-nos?
MACHEL
Foi nunca nos termos
resignado, termos aceite o terrível destino de não nos considerarem gente. Mais do que isso, sermos considerados aos seus
olhos gente imprestável, lixo. Tudo fizeram para nos destruir. Foram séculos de
tortura, genocídio, de apagamento da nossa memória colectiva. Mas nós vencemos.
O nosso sacrifício não foi inútil. Conseguimos vencer as trevas e hoje estamos
aqui, senhores do nosso destino, como nos primeiros tempos da nossa história em
que eramos nós que forjavamos a nossa identidadde, o nosso devir comum!
VELHO
Ainda acreditas
nisso?
MACHEL
Sim. Depois de mim,
outros virão. Eu tenho-me como exemplo. Nunca pensei em ser político, mas era
preciso voltar a reescrever a história, a história de África onde o meu povo se
encaixava. Nessa odisseia, teriamos de começar fatalmente pelo princípio: libertar a terra e as gentes. Seria esse o
derradeiro esforço de nos voltarmos a sentir vivos, com alma, com fé, com
ideais, com sonhos. Teriamos de ter a certeza
de que eramos nós que estavamos a construir o nosso presente feito à nossa
medida, à medida das nossas capacidades, e nada imposto e alheio a nós, à nossa
vontade, ao nosso desejo profundo de resgatarmos um passado aparentemente
morto, quase sem história, quase sem Deus.
MENINO
Falas hoje de Deus,
tu que te dizias ateu, materialista, socialista...
MACHEL
Deixemos essa
discussão para depois. Concentremo-nos agora naquilo que correu mal, as razões
que me trouxeram aqui, os motivos pelos quais estou a ser julgado. Permitam que
conte a minha história, que é muito parecida com milhões de outras histórias,
histórias de gente sofredora, anónima, invisível, que cruzou os céus de Africa
desde sempre.
DEUS DE ÁFRICA
Estamos a
alongarmo-nos, a fugir do essencial. É melhor o réu começar, não temos todo o
tempo do mundo! A eternidade precisa de veredicto: quem foi este homem que está
aqui à nossa frente? Foi um herói? Um libertador? Um foi simplesmente um homem,
com os seus defeitos e virtudes, que empreendeu uma façanha maior que ele
mesmo?
MACHEL
Isso mesmo, Santidade.
Prefiro, essa última definição, fui somente um homem simples que resolveu agir
em nome de muitos outros homens, ao serviço de uma causa maior do que ele mesmo.
DEUS DE ÁFRICA
Isso agrada-me.
Avancemos.
MACHEL
Eu tinha uma profissão:
era enfermeiro. Mas ao contar a minha história significa retomar um processo,
nunca terminado no espírito dos meus irmãos moçambicanos, em que dois lados
antagónicos defendem feromente coisas diferentes.
MENINA
O tom apaixonado da
discussão começa logo na luta armada entre aqueles que viam na independência a
ocasião de vir a ocupar as cadeiras vazias deixadas pelos colonizadores,
herdando os seus privilégios, as suas mordomias, o seu poder discriminatório...
MENINO
E os outros para quem
a liberdade era um bem supremo, que requer muito trabalho, muito sacrifício,
muita abnegação... ser o último, nunca o primeiro, em bens de qualquer espécie.
MACHEL
Sim, a luta começou
logo ali. E eu que havia renegado a defesa
desses valores caducos e tomado partido pelo único valor que valia a pena combater, que era a nossa
libertação total, o símbolo de liberdade que eu representava passou a ser algo
que tinha de ser abatido.
MENINA
É raro que a verdade
e a política durmam na mesma cama...
MENINO
E nessa arena onde
uma figura é desenhada com finalidades demagógicas, não se pode esperar justiça
dos manipuladores da opinião pública.
MACHEL
Primeiro houve um
longo silêncio à volta do meu governo, mas com críticas implícitas veladas.
Depois deu-se um ressurreição e os meus detratores incobertos começaram a
render-me homenagem.
MENINA
Como na maior parte
da vezes, a verdade está no meio. Tu nem foste o santo nem o diabo que os teus
inimigos pintaram até à exasperação.
MENINO
No fundo, foste um
homem comum. Nem fogo, nem gelo, sem energias especiais para fazer o bem nem
propensão para fazer o mal.
MACHEL
Sim, um homem comum,
sem tendências ou genialidades excepcionais, sem vontade de ser um herói, mas
que, de repente, torna-se objecto de tragédia.
DEUS DE ÁFRICA
De facto, a história,
esse demiurgo, não tem necessidade de protagonistas com carácter heróico para
criar as suas tramas; a prova é a desproporção entre a tua personalidade e o
teu destino.
MACHEL
É verdade. A tragédia
começou quando a minha natureza normal se encontrou com um destino inaudito,
com uma responsabilidade que a oprimia e a esmagava e para a qual eu não estava
preparado.
MENINA
O carácter medíocre
nunca está habituado a suportar tensões fortes, prefere viver á sombra da
bananeira, nas zonas temperadas da sorte...
MENINO
Mas sempre uma mão
invisível te empurrava para o tumulto, para a luta, e tu não tinhas força para
te esquivar.
MACHEL
Apesar do que dizem
os mitos sobre a minha infância, eu sempre fugi a todas as formas de heroismo.
Se a minha vida passou a ter algum valor histórico, isso isso deve-se a
inexorabilidade do destino, que como um artista de almas, resolveu esculpir no
meu carácter a força, a solidez e a grandeza dos meus antepassados que em mim
dormia sepulpada.
Imprevisivelmente,
qual Cristo, senti a minha transfiguração, compreendi que acontecia em mim algo
de novo e de grande pela qual devia consagrar o resto dos meus dias.
VELHO
Antes que a tua hora chegasse
e os teus restos mortais fossem depositados, o obra de arte que era a tua vida
estava bela e terminada.
CORO
Nessa hora suprema, a
tua vida atingiu proporções trágicas e tornaste-te grande, grande como o teu
destino.
MACHEL
Todos os homens
sonham, mas ás vezes parece ser a própria história a sonhar através deles.
MENINA
Um homem surgiu, mas
parece habitado de um sonho demasiado grande para ele...
MENINO
A força irresistível
que o arrasta em frente obceca-o e acaba por consumá-lo...
CORO
Ele torna-se
prisioneiro e vitíma do seu sonho. Mas qual era esse sonho?
MACHEL
Na gloriosa noite de
vinte e cinco de Junho, enquanto a bandeira portuguesa descia, fui invadido de
uma alegria indescritível, mas ao mesmo tempo de uma grande angústia.
Aquele momento era o fim de um mundo!
Mas a grande questão era, que novo mundo vai nascer? Os meus antepassados acreditavam
nos deuses e nós acreditavamos em quê?
CORO
Pelo menos nós,
mulheres, sempre acreditamos na força da terra, na força que faz crescer as
árvores, e nos rios que nos banham o corpo, e nos nossos antepassados que sempre
velaram por nós... Sim, e vocês, homens, acreditavam em quê?
DEUS DE ÁFRICA
Muito bem ,Maxxhel!
Sejamos concisos! Estamos prontos para ouvir o homem público, a personalidade a
quem estavam confiadas as vidas de milhões de moçambicanos do passado, do
presente e, ouso mesmo dizer, do futuro. É diante dessas vidas que tens de testemunhar pelas
tuas acções e pelos valor das suas vidas. Fala-nos, então, da tua vida pública
e das vidas que te foram confiadas.
MACHEL
Eu gosto de falar,
sempre gostei de falar, mas nunca usei levianamente a minha voz. Durante muitos
anos usei uma linguagem de compaixão, curei doentes, apaziguei a dor dos que
sofriam ou encorajei aqueles que impotentes assistiam à morte dos seus entes
queridos.
Utilizei a minha voz
para contar histórias edificantes aos meus filhos, a história dos meus
antepassados, dos meus avós; histórias de luta e de sofrimento.
Durante a luta de
libertação, esta voz serviu para mobilizar novos camaradas para a causa da liberdade
do nosso povo, como serviu para dizer-lhes que o único espaço temporal sobre o
qual eles podiam insidir seria o futuro.
Disse-lhes que o
passado só tinha sentido em função do futuro. E gritei-lhes que se o passado
africano foi trágico, não foi só por culpa e pela força dos outros, mas foi-o
sobretudo por causa da nossa fraqueza e
da nossa desunião.
CORO
Ele percorreu zonas
libertadas para dizer às populações que não havia macondes nem macuas, nem
senas nem ndaus...
VELHO
Nem pretos nem
brancos, nem indianos nem mulatos, havia só moçambicanos.
MACHEL
Eu repeti aos nossos
camaradas da ZANU e do ANC que não havia liberdade de uns sem a liberdade de
todos, que o inimigo não era o branco mas o sistema de opressão.
MENINA
Nunca ninguém ficou
indiferente à sua voz, nem amigos nem inimigos.
MENINO
A sua voz
impressionava pelo seu timbre, pela viva gesticulação que a acompanhava, pela
firmeza das suas palavras, mas sobretudo pela convicção dos seus propósitos.
MACHEL
Hoje tenho que usar a
minha voz para a minha própria defesa. E de que sou acusado? De ter abandonado
a cómoda da minha profissão e dedicar-me à causa e à liberdade do meu povo? De
ter estado durante dez anos todos os dias pronto a morrer pela causa do meu
povo?
VELHO
Que funesta e lapidar
é a vida humana!
MACHEL
Depois de muito ter
servido a mobilizar as massas, a pouco e pouco a minha voz deixou de ser
mobilizadora. Eu continuava a falar, mas a minha voz tinha sempre menos impacto
sobre as pessoas. Os meus subordinados começaram a não temê-la, os meus súbditos
a não escutá-la, os meus inimigos a ficarem menos impressionados.
VELHO
Quanto tu mais
falavas, com escárnio, os teus inimigos faziam o contrário do que tu dizias...
CORO
As tuas ordens não
eram obedecidas...
VELHO
Os acordos que tu
assinavas não eram respeitados.
MACHEL
Até que naquele
derradeiro dia o avião despenhou-se. Abatido, sabotado?
MENINA
Que diferença pode
fazer isso agora?
MENINO
Digamos que caiu...
MACHEL
No chão, entre a vida
e a morte, abandonado à minha sorte, gritei como um louco pedindo ajuda,
suplicando por socorro. Mas quanto mais gritava mais parecia que a minha voz
caía na indiferença, no vazio, no silêncio...
VELHO
Certas pessoas
ficaram convencidas que a tua voz tinha desaparecido para sempre, mas não é
verdade! A tua voz tinha-se transformado na voz de um povo...
CORO
De todo um povo que
clama por justiça...
VELHO
De todos moçambicanos
que jazem nas tumbas e dos que padecem
de fome... e de todos aqueles que estão ainda por nascer!
MACHEL
Muito bem! Agora
estou pronto para ser julgado. Já fiz o meu testemunho e pouco mais posso
dizer. O legado que deixei, se é que deixei algum, só o meu povo o poderá
dizer. Se este tribunal não se constituiu para me humilhar, daquilo que ouviu,
compete-lhe extrair a verdade, somente a
verdade.
VELHO
Perdoe-me, camarada
Maxxhel, mas está equivocado! Não vos convocamos aqui para vos humilhar e,
ainda menos não somos contra o sentido da história. Mas existem coisas que,
hoje, tu desconheces! Enquanto os moçambicanos celebravam a dita liberdade
reencontrada do fim da guerra, do liberalismo triunfante, da liberdade da
imprensa, de opinião, das escolas livres que vós privatizastes, do
multi-partidarismo que proibistes, do comércio da morte que combatestes...
CORO
Enquanto celebravam a
exploração dos mais fracos, o racismo e o tribalismo que combatestes com
severidade...
VELHO
Enquanto cantavam
glória à privatização das empresas, dos bens nacionalizados, e mesmo da
terra...
CORO
Enquanto reabriam as
novas ruas Araújo, criavam-se mercados de droga e de tráfico de órgãos...
VELHO
Enquanto os teus antigos
camaradas partilhavam as empresas e acumulavam riquezas colossais, não tinha
sentido chamar-vos para te colocarmos em causa. Se te fossem imputadas todas
essas consequências, terias sido um réu fácilmente condenável por qualquer
tribunal! A questão era: quem estaria disposto a estar ao teu lado defendo
causas sem defesa? De todos quantos privaram contigo na luta armada estaria
disposto a defender a honra de um morto se o tivesse de o fazer pela troca dos
seus muitos milhões de dólares acumulados, vilas ou carros de luxo?
CORO
Conheces alguém
disposto a defender utopias passadas e ultrapassadas como “o nosso povo”, “sermos responsáveis pelo nosso destino”,
orgulho, solidariedade, justiça social, liberdade?
VELHO
Em suma, apesar de
não poderes contar praticamente com ninguém ao teu lado, dessa gente que te
falsamente te endeusava, a tua herança está hoje depositada nas mãos dos
artistas que representam o restauro da tua memória e da tua obra...
CORO
E que representam uma
tendência, podemos dizer dominante, já que tem a maioria do povo ao seu lado...
VELHO
Povo convicto por não
sido convidado para o banquete liberal. Eis porque, hoje, mais do que nunca, o
teu julgamento tem uma pertinência histórica.
DEUS DE AFRICA
Porque, sejamos
claros. Não estamos aqui para julgar um homem mas a causa que esse homem representa,
simboliza.
VELHO
Pareceu-nos mais
justo dar-vos a oportunidade de defender a vossa causa. Qual é a voz que com a
mesma eloquência, convicção e veracidade
poderia apresentar as causas profundas da vossa luta?
MENINO
Pelo vosso estilo
vida e deontologia existencial, muitos moçambicanos hoje tem orgulho na sua
moçambicanidade...
MENINA
Todos os que têm
critícas a fazer, verdades a proclamar, nacionalismos a defender, fazem
sistematicamente referência ao vosso nome como porto de moçambicanidade
extremamente seguro.
VELHO
Por mais diferentes
que possam ser as opiniões de uma montanha de gente diversa, todos concordam
que, sob o vosso governo, Moçambique atingiu grande esplendor e dignidade.
Mas eu gostaria de
exprimir o que penso de vós sem incorrer na suspeita de adulação dizendo
claramente que não existe um antepassado que vós não tenhais ultrapassado no
comportamento, nas convicções, na eloquência e na palavra.
Mas quantos dos
vossos adeptos gostariam de voltar a viver sob as vossas ordens?
Assim, penso que, a
invocação do vosso nome tem hoje muito de uma invocação romântica.
MACHEL
Muito bem! Se eu
estou aqui para ser julgado então peço para ser julgado pelo meu povo, pelos
homens que comandei, que governei, dos homens do presente e do futuro que
padecem e padecerão como consequência das minhas acções. Que sejam eles a
decidir o que foi bom e justo, e o que não foi.
VELHO
Concordo, e acho
justo. Que cada um meta a tua vida pública e a tua acção política à esquerda ou
à direita e faça inclinar a balança, em consciência, para onde lhe parecer mais
justo.
MACHEL
No meu silêncio de
morto, tenho estado a reflectir sobre a relação entre a história e a verdade. O
que se chama história é sempre uma interpretação, muita vezes parcial, de
factos. E cada historiador avalia os factos a partir da sua própria
sensibilidade e pré-compreensão. E esta pré-compreensão tem a ver com sua
ideologia, a sua verdade, a sua maneira de ver o mundo.
A história que
ensinamos aos nossos filhos, mais do que a história da verdade dos homens e
sobre os homens, é a história da vitória de uma verdade sobre as outras
verdades.
CORO
Mas em que é que a verdade
derrotada é menos verdadeira do que a verdade vencedora?
MACHEL
Quem legitima a
história são os vencedores e a história, que por sua vez legitimam a visão dos
vencedores.
VELHO
Será a visão
legitimada por massacres, mortes, opressão, discrimInação, mais verdadeira do que a verdade que se queria
solidariedade, igualdade e liberdade?
MACHEL
Eu perdi? Sim! Os
meus ideais foram vencidos? Sim! Tenho de aceitar por isso que a verdade está
do lado dos que me venceram? Não será isso aceitar que o colonialismo, a
exploração e mesmo a escravatura sejam verdades humanas?
CORO
Não será isso aceitar
que Moçambique e África possam legitimamente voltar a cair no colonialismo e na
dominação?
MACHEL
Se vocês não forem
livres , se vocês não conservarem a liberdade que nós conquistamos com sangue,
e se não a legarem como herança aos vossos filhos, então eu terei perdido! A
minha vitória ou derrota não podem depender da queda de um avião, da morte de
um símbolo que eu fui, mas da morte do que eu simbolizava.
CORO
É verdade. Nós não
somos ainda completamente livres. A nossa economia, os nossos projectos
educativos, a nossa própria alimentação já nem sequer depende do trabalho das
nossas machambas...
VELHO
Será que iremos
continuar a ter forças para aguentar a batalha da vida ou, pouco a pouco, os
mesmo de outrora nos irão tirar as poucas energias de que ainda dispomos?
MACHEL
Companheiro, não te
sei responder. O que eu sei é que, quando á meia-noite de vinte e cinco de
junho de 1975, vimos descer a bandeira portuguesa, estavamos cheios de lágrimas.
Eram lágrimas de alegria, mas que também escondiam uma grande angústia: será
que iriamos ter capacidade para erguer uma nova pátria onde todos nós
pudessemos caber?
A chama da liberdade
exigiu, num primeiro tempo, unir no sangue todos os moçambicanos. Era o
sacrifício indelével pelo qual a nossa liberdade teve de passar.
CORO
O novo mundo estava
ali...
MACHEL
Cada vez que uma vida
caía, nossa ou mesmo do inimigo, o nosso sofrimento era grande. Contudo, nós
tinhamos que aceitar esse preço para que pudesse nascer um mundo novo, cimentado
na confiança recíproca entre individuos e povos que durante séculos haviam
vivido com costumes e valores diferentes.
VELHO
Sim, os ecos da vossa
luta chegavam-nos e nós sabiamos que os limites dessa luta, mais do que vencer
o inimigo, tinha como objectivo a conquista do coração de cada moçambicano.
CORO
Porque, qualquer
homem digno desse nome não tem somente como único objectivo da sua luta, a
própria luta.
MACHEL
É verdade. Assim, se
vocês me perguntarem onde nós tinhamos fixado o limite do nosso avanço eu só
vos posso responder que a nossa meta não era só física, geográfica ou espacial,
mas era essencialmente espiritual. Compreender a diversidade humana passou a
ser um imperativo, já que haviamos atingido um outro limite, menos tangível e
mais misterioso: o das possibilidades humanas.
Descobrimos que o
mundo velho que combatíamos era muito maior do que pensavamos em Nachingweia ou
em Dar-es-Salam... Por isso, tinhamos, sobretudo, que absorver em nós todos os
valores espirituais que esses povos tinham criado antes de nós.
CORO
Vocês nunca seriam
capazes de unir esses mundos diferentes se não começassem a fazê-lo pelo vosso
coração.
MACHEL
Mas alguns homens não
compreendiam isso. Eles tinham permanecido pequenos homens chaganas, chopes,
macuas. Eles tinham permanecido pequenos camponeses, agarrados as suas suas
terras, às suas tradições, àvidos de poder e de importância.
CORO
A vossa luta e o
sacrifício ainda não os havia transformado...
MACHEL
Eu era mais livre,
não pelo lugar que ocupava, mas sobretudo pela sublimação, pela maneira como concebia
e encarava o que já era a minha missão histórica.
CORO
Sempre foi difícil
congregar o mundo e os homens...
MACHEL
Para dizer a verdade,
durante toda a luta de libertação eu tive que combater ao mesmo tempo contra a
força armada portuguesa e contra os preconceitos racistas e tribais dos nossos
combatentes.
Eu tive que empregar
tanta ou mais energia para destruir a resistência dos meus companheiros do que
abater o general inimigo.
VELHO
E quando conquistaste
as primeiras vitórias e nomeaste os vossos primeios dignitários, a ideia de
comandar subiu-lhes de tal maneira à cabeça que muitos só pensavam em ocupar lugares de relevo, em acumular
riquezas. Em ocupar o lugar deixado vazio pelos detentores do mundo que vocês
queriam destruir.
MACHEL
Comecei a perceber
que o mundo velho estava mais enraizado em nós do que podíamos pensar. Por isso
quanto mais sangue se derramava, mais se concretizava a nossa liberdade mas com
ela, para muitos, também a apetência de consolidar poder, grandeza, honrarias
pessoais.
CORO
Conhecem algum mundo
novo que não se tenha criado com sangue, sacrifício e ambição?
MACHEL
A pouco e pouco, os
tambores que tinham servido para tocar hinos iniciáticos entoavam agora velhas
melodias mas com um novo significado.
Finalmente o novo
mundo sonhado por nós, à custa de muitos sacrifícios e de muito sangue, ia
ganhando forma. Mas de repente, de repente...
CORO
De repente, o quê? O
que é que aconteceu de repente?
MACHEL
De repente, todo o
nosso grande processo de libertação foi interrompido. A liberdade estava ali,
ao nosso alcance. E no entanto... Abandonamos e esquecemos depressa as nossas
trincheiras cheias de sacrifícios e de sangue, abandonamos o lugar da morte, de
sacrfício, mas também da verdadeira edificação do mundo novo, onde não caberia
nem o racismo nem o tribalismo, nem a desigualdade entre os homens.
Tinhamos conquistado
a nossa independência mas continuava a reinar no coração dos homens mundos
velhos, incompatíveis com o mundo que através do sacrifício tinhamos jurado edificar.
VELHO
Como era possível que
o novo mundo continuasse a ser definido pela raça? Pela pureza da raça?
MACHEL
Como podia aceitar
que o homem novo fosse definido pela sua raça? Que a hierarquia da vida
dependesse da cor da pele? No passado, esta questão sempre me pareceu aberrante
e sem sentido.
O racismo sempre
esteve ligado à desordem e à injustiça social e representou uma ordem caótica e
violenta, que determinados homens primários criaram na esperança de perpectuar
o seu poder para sempre.
Como podia aceitar
que esse anátema continuasse entre nós?
CORO
Sim, como podias tu
aceitar que uns fossem mais iguais do que outros?
MACHEL
E isso era
intolerrável, não foi para isso que combatemos. Quando em 25 de Junho de 1975,
com o hastear da bandeira do opressor, eu sabia que a inferioridade dos
moçambicanos chegava ao fim, como as
terríveis desigualdades impostas pelo colonizadores não voltariam a ser
permitidas.
VELHO
Como foste sonhador,
amigo! Como te enganaste?
MACHEL
Eu pensei que o meu exemplo era extensível a todos! Já que
nunca me permiti ser possuidor de tesouros a não ser que eu estivesse em pé de
igualdade com todo o meu povo.
CORO
Mas isso não foi o
bastante para que os teus detractores não minassem a tua autoridade...
MACHEL
A isso chama-se,
traição! Porque de tudo o que eu fiz
nunca considerei ser legítimo para mim e ilegítimo para os outros. A Lei
estendia-se a todos da mesma maneira, como o ar que respiravamos.
MENINA
Estás a ser verdadeiro? Quando distraidamente, um dia, tu
deitaste um pouco de vinho no chão...
MENINO
E viste que todos te
olhavam esperando uma explicação, tu disseste: é para os nossos antepassados...
MENINA
É para Mondlane,
Simango, Joana Simeão, para todos aqueles que morreram, até mesmo pelos portugueses...
Estavas a ser sincero? Estavas a ser justo?
MACHEL
Eu recordo-me. Todos
sabem que não era contra os portugueses, como povo, que nós lutavamos! Nós
lutavamos para destruir o velho mundo. Por isso tiveram de sucumbir ao lado dos
portugueses, com a queda desse velho mundo, homens como Simango, Joana Simeão e
outros.
MENINA
Penso que aí erraste:
Simango não pertencia a esse velho mundo que dizias combater. Era um combatente
como tu, um patriota e um nacionalista como tu...
MACHEL
Não, não era. Tinha
ideias muito parecidas com as ideias do velho mundo que combatíamos...
MENINA
E a sua esposa
Celina? Tinha as mesmas ideias retrógadas do volho mundo que tu encarniçadamente
combatias.
MACHEL
Sim, eram muito
parecidas. Por isso não hesitamos em tirá-los do nosso caminho, do caminho do
homem novo!
MENINO
Mas o homem novo que
tu idealisticamente pensaste criar revelou-se um grande malogro! Hoje não sobra
nada dele!
MACHEL
Hoje reconheço que foi
uma utopia, mas foi essa utopia que nos uniu, que nos deu força, apesar de vir
a revelar-se inconsistente. Mas conhecem
algum mundo novo que não tenha um mito fundador?
Mondlane e Josina –
todos sabem quanto eu amava Josina – são a parte positiva desse mito. Simeão e
Simango a parte negativa. Uns negativos e outros positivos. É por isso que, antes de beber, eu derramava
um pouco do meu vinho, para evocá-los a todos como necessários.
Neste momente entram em cena, saindo
do nevoeiro, Simango de mão dada com a esposa Celina, Joana Simeão e Filipe
Samuel Magaia, entre outros vultos de ambos os sexos, indeferencidos.
DEUS DE ÁFRICA
A simples invocação
de pessoas mortas por ti, ou sob as tuas ordens, no decurso do teu mandato
enquanto chefe guerrilheiro ou Presidente, obriga-me que tais pessoas possam regressar dos seus
sepulcros e testemunhem neste tribunal. Queremos avaliar da tua inocência, ou não, no senticiamento
das suas mortes.
Por isso, este tribunal
pede que Uria Simango se pronuncie dizendo o que sabe sobre os autores e as
razões que estiveram na origem da sua morte.
Uria Simango dá vários passos em
frente e vem colocar-se no centro da cena. Depois de olhar em redor com os seus olhos vítrios, fixa-os em Machel, e pronuncia as seguintes palavras.
URIA SIMANGO
Porquê, Machel?
Porque me sacrifiram a mim, que podia ter sido o nosso elo para o futuro? Um
futuro mais sólido, promissor e inteligente para o desenvolvimento da nossa
Pátria?
MACHEL
Não, não podias! Não
reunias as condições necessárias que fariam de ti o que pensas: o elo para o
futuro!
URIA SIMANGO
Como estás enganado!
Vê agora no que deu o teu sonho utópico: temos uma pátria destroçada e a
igualdade que pensavas construir é tudo menos isso!
MACHEL
Mas os ideais porque
lutei mantem-se de pé: o povo continua acreditar que é possível a criação de
uma pátria onde a faternidade, a igualdade e a
liberdade são possíveis de instituir, apesar do meu desaparecimento
fisíco!
URIA SIMANGO
Como te enganas... A
tua verdadeira herança resume-se ao domínio da nossa pátria por um tipo de
fenómeno novo que dá pelo nome de crime organizado. Quem manda no nosso país é
um tipo de bandido, que não tem nada a ver com os bandidos que conhecíamos no
passado. É o bandido do colarinho branco, saído das hostes guerrilheiras, que se
infiltrou no Aparelho do Estado e domina todas as instituições, manipulando até
à exaustão o povo que diz amar, mas na essência controlando-o, manietando-o e
sugando-o, tornado-o passivo de tal maneira que o converte numa nova espécie de
escravo.
CELINA
E a mulher não tem
melhor sorte. A ela, à mulher moçambicana, está reservado um papel meramente
subalterno, bajulador e artificial no desempenho de quaisquer funções, sejam
elas sociais ou políticas. Principalmente a sua participação política é
esvasiada de espíríto crítico e espera-se dela somente uma espécie de yes man
de todas as iniciativas de quem controla efectivamente a máquina do poder.
URIA SIMANGO
São eles os teu
antigos companheiros, os que te colocaram e arrearam do comando, que
verdadeiramente mandam na nossa Pátria. Gente para quem a ambição não tem
limites e fizeram da governação do nosso povo um novo paradigma: criar um homem
sem direitos e onde o passado milenar de resistência e de luta é renegado para os antípodas do inferno! Nada conta para
este tipo de gente sem escrúpulos a não ser o acumular dinheiro, atrás de
dinheiro, de perferência muito, muito dinheiro.
MACHEL
Sou alheio a todo a
esse fenómeno. Todos sabem da minha luta abnegada para destruir tudo que era
ambição pessoal e pelo acumular de riquesas nas costas do povo...
URIA SIMANGO
Isso nada mais
representou do que ideais românticos, da tua parte, dificeis de sustentar. O
que te faltou foi bagagem intelectual que te desse a noção exacta da tua precaridade
face aos fenónemos ideológicos e políticos que dominavam o mundo na época em
que combatíamos e que passaram a estar em jogo, como um microcosmo, dentro do
nosso próprio movimento, movimento esse que tu vieste a chefiar sem estares
minimamente preparado para o fazeres!
MACHEL
Talvez o que dizes
seja verdade! Mas não na altura não me apercebi da minha vulnerabilidade.
Sentia-me um super homem, dificil de igualar. Não era vaidade o que sentia, mas
sim orgulho por sido escolhido, entre tantos outros iguais ou melhores do que
eu, para ocupar o lugar deixado vago por ti!
URIA SIMANGO
Lugar que me
roubaram!
MACHEL
Eu não te roubei
nada...
URIA SIMANGO
Não sejas ingénuo...
Sabias muito bem que conspiraram para me retirarem da chefia do movimento! E
essa acção foi feita de forma ilícita, como um acto de pura traição! Chefia que
te foi entregue posteriormente... ou não sabias que me sucedeste da pior
maneira, não de forma democrática, mas anómala, eivada de erros?
MACHEL
Eu não tive nada a
ver com isso. Estás a acusar-me sem provas. Alguém decidiu dar-me o comando
militar do movimento, coisa para a qual tu não tinhas vocação. Era preciso
imprimir ao movimento uma nova dinâmica e tu sempre te tinhas revelado um ser
pacífico, pacífico de mais, cordato de mais, contemporizador de mais! Penso que
os meus camaradas não tiveram outra opção...
URIA SIMANGO
Pobre Machel! Como
continuas a ser benevolente contigo próprio e com aqueles que te sentenciaram à
morte. Porque foram os mesmos que te colocaram no poder, que te de lá retiraram sem qualquer peso na consciência! Da
mesma forma que te bajularam até à exaustão, convencendo-te da tua missão quase
divina de levares o movimento à glória, da mesma forma esvasiaram tudo à tua
volta até ao ponto de te sentires sózinho e perdido!
No fundo, não
passaste de uma pobre marionete que a prazo sairia de cena, tal como veio a
acontecer...
Filipe Samuel Magaia sai do nevoeiro
e vem ocupar o centro do debate colocando-se ao lado de Uria Simango.
FILIPE S.MAGAIA
E eu Machel? Como
explicas a tua inocência perante a minha morte de que foste o principal beneficiário?
Não nos venhas também dizer que não sabias que me sentenciram à morte para tu
poderes ocupar o meu lugar?
MACHEL
Isso é igualmente
falso! Eu nada tive a ver com isso. Vocês nunca fizeram ideia como o movimento
funcionava, as intrigas que se urdiam a toda a hora, as ciladas e as artimanhas
a que todos nós estavamos sujeitos, mas que nada mais visavam do que retirar do
caminho quem não servia o movimento, como o movimento pensava de que devia ser
servido!
Luta pelo poder ou
mera luta pela sobrevivência? A certa altura, eu já não sabia distinguir uma
coisa da outra! O que eu fiz foi tentar
pairar acima dessas lutas intestinas que minavam o movimento, lhe retirava
energia vital já que o expurgava de muitos seus melhores quadros!
E dediquei-me à luta
guerrilheira de corpo e alma! Talvez essa dedicação me tenha salvo, pelo menos,
provisoriamente, a vida!
FILIPE S.MAGAIA
Não me convences com
a tua pseudo inocência! E a minha mulher? Como explicas, teres ficado com a
minha companheira após a minha morte? Não achas isso demasiado tétrico para ser
verdade? Só podemos conceber essa atitude pelo demasiado poder que passaste a deter
dentro do movimento! Tu tinhas-te tornado o chefe inconstado, o mao tsé tung, o
stalin moçambicano, cujo poder draconiano a certa altura se confundia com o
próprio Céu. Com o poder do Criador!
E quiseste imitar os
grandes ditadores nos seus mais infimos e ridiculos detalhes!
Não havia mais
mulheres dentro do movimento com quem tu pudesses acasalar? Porquê casar exactamente
com a mulher que tinha sido minha esposa? Não achas essa atitude de uma enorme
falta de pudor e de respeito para com ela, para comigo, para com todos os
guerrilheiros que viram na tua atitude uma coisa muito parecida com o abuso de
poder, e desrespeitosa para quem os havia chefiado com competência, como foi o
meu caso, e que só um pode absoluto, mas imoral, como o teu, podia permitir!
MACHEL
Penso que não estou
aqui a ser julgado por actos de amor... mas sim por actos políticos, bons ou
maus, por mim cometidos no decurso do meu mandato enquanto presidente da nação
moçambicana!
FILIPE S. MAGAIA
Mete nojo a tua
tentativa de varreres para debaixo do tapete a porcaria que fizeste com a minha
mulher!
MACHEL
Se estou aqui para
ser julgado por atitudes que transcendem a minha visão de estadista, que se
pronuncie então quem tem poder para isso!
DEUS DE ÁFRICA
Inicialmente fui
convocado para julgar a Causa que moveu este homem, enquanto vivo, e o que o
levou a precorrer os caminhos da história! Mas não podemos ficar indiferentes a
determinados detalhes que sejam
reveladores do seu verdadeiro
carâcter, da personalidade de quem foi responsável por imensos feitos, uns
gloriosos outros nem tanto.
MENINA
Ora aí está uma
matéria que encaixa perfeitamente nas definição daquilo que podemos chamar de crime
de“assédio sexual”!
Camarada Machel, nunca se deu conta que a sua atitude podia ser
interpretada dessa maneira ao perseguir, dizem, deliberamente e sem descanso,
uma mulher recentemente viúva, cujo marido havia sido assassinado no decurso de
uma operação militar por alguém, dentro do movimento, que ficou provado ter
recebido ordens expressamente para esse fim?
MACHEL
Não sei nada disso!
Só posso dizer perante este tribunal que sou inocente desse crime, apesar de
todas as evidências poderem apontar para mim como principal suspeito.
Mas juro pela minha
honra de que não sei de onde partiu a ordem que assassinou Filipe Samuel
Magaia!
FILIPE S.MAGAIA
Não acredito em ti,
Machel! És manhoso e maquiavélico demais para admitires seres tu o autor do miserável
golpe que me tirou a vida.
JOANA SEMEÃO
É curioso constatar
que agora não há culpados para tudo o que de nefasto se fez no decurso da
libertação do nosso país!
E se as nossas mortes
continuam no anonimato e sobre elas caiu um manto de silêncio, é porque
há demasiada gente poderosa envolvida nestes assassinatos.
Gente que entretanto
se transcendeu passando de simples guerrilheiros maquiavélicos a pessoas de
bem, hoje detentores de impérios financeiros e comerciais, que não podem de
maneira nenhuma ser envolvidos, porque isso lhes estala o verniz, em verdadeiros
crimes de guerra dum passado onde há muito sangue derramado por inocentes.
Mas foram homens como
tu, Machel, que estiveram na origem e deram cobertura ao nosso aniquilamento,
tanto fisíco como espiritual!
E nós, Machel ,nada
mais queriamos do que ter a possibilidade de que a nossa voz pudesse ser
ouvida, como foi a tua e a de muitos outros!
Porque nos
silenciaram? O que é ela tinha de tão diferente
para que não pudesse ser ouvida, já que o que ela visava era simplesmente dizer
quais os trilhos que podíamos seguir
para que a nossa Pátria viesse a ser mais livre e mais próspera!
Continua...

Nenhum comentário:
Postar um comentário