segunda-feira, 2 de setembro de 2019

HISTÓRIA DE UM CRIME ANUNCIADO






LOPES BARBOSA

HISTÓRIA DE UM CRIME ANUNCIADO


Adaptação para teatro do livro MACHEL – Ícone da 1ª. República
de Severino Ngoenha



Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor
©Joaquim Lopes Barbosa
INLD Nº de Registo 6686/RLINLD/2019









CENA ÚNICA

É de dia e o sol é inclemente.
Descampado ventoso e sem árvores. Várias peças de avião sinistrado ardem no chão.
O vento levanta a poeira e mistura-se com o fumo.



VELHO
Vou contar-vos a história de um homem iluminado, simples e corajoso. A sua memória é um autêntico machado de guerra.
É tempo de abrir o passado, não fechar o sepulcro antes de darmos a conhecer as verdades sobre a sua vida e evitar para ela um esquecimento desonroso.
O homem de quem vamos falar foi um soldado que encontrou o seu destino lutando por o seu povo e nessa luta libertadora, morreu.
O sangue derramado por si, verdadeira crucificação à sua dignidade, é a prova de que a sua luta era genuína e os ideais que a norteava estavam em sintonia com as aspirações de libertação de todo o seu povo.

CORO
É longa a história deste homem que se desenrolará a seguir e como uma epopeia nascerá aqui, nesta estreiteza de terra árida onde ele jaz morto, igual a outra onde ele combateu e morreu por ideais nobres, porque nobres são todas as lutas que servem para nos libertar do medo, da escravidão, da ignomínia de sermos um povo sem rosto, sem passado, sem presente e sem futuro.

VELHO
Senhor de África, eu te convoco e peço que venhas fazer justiça a este homem-guerreiro que  jaz ali, morto.
Eu vou defendê-lo como se ele fosse meu filho e peço que sejas justo na tua sentença. Os  seus actos estão ligados à defesa de valores que para nós, pessoas simples e comuns, sempre foram eternos.
A justiça, a verdade, a liberdade, foram os mesmos valores porque ele que lutou e morreu.

CORO
Ele nunca tolerou a escravatura dos negros seus irmãos, como condenou com todas as suas forças o colonialismo, esse maldito colonialismo que esteve na origem do grande sofrimento do seu povo, como também de grande parte da humanidade.
O mesmo odioso colonialismo que foi o responsável pela fome, pela miséria e pela pobreza de muitos milhões de crianças, de mulheres e de homens, que viveram, e ainda hoje vivem na periferia da História.

DEUS DE ÁFRICA
Há muitos anos que não sou chamado para um julgamento! Quem é o réu? Qual é a sua causa? Porque eu não me ocupo de indivíduos, mas sim de causas.
Qual é a causa que pode ser ainda importante numa época que se define a ela mesmo como pós-história, negação da liberdade dos homens em serem fautores de causas, poetas de novos futuros, inventores de novos sentidos?

VELHO
Trata-se de um homem revolucionário...

DEUS DE ÁFRICA
Revolucionário? De quem é que falas?

VELHO
Falo de um negro que lutou abnegadamente pela libertação de uma parte de África e pela libertação do seu próprio povo africano.


DEUS DE ÁFRICA
África? Africanos? Os mesmos que nunca deveriam ter confiado em exploradores? Infelizmente , nunca cessaram de repetir os mesmos erros do passado, com consequências  dramáticas!
VELHO
Sim, mas este é diferente. Este ousou lutar e venceu, já que libertou o seu povo do jugo do colonialismo.

DEUS DE ÁFRICA
Então, quem é esse africano? Zumbi dos Palmares? Toussaint? Nkrumah? Diop?

VELHO
Não, não é nenhum desses que citaste! Nem tampouco Senghor... Fanon... Towa...

DEUS DE ÁFRICA
Quem é então? Onde estão em África actualmente pessoas que mereçam o meu juizo? Africanos que se tomem a sério, que fixem objectivos e os cumpram até à vitória final?

VELHO
O candidato é sim um africano, mas não é um africano qualquer. Não é fundador de um partido como Kaunda, Nyerere ou Touré! Não é um produtor de ideias como Cabral ou Mondlane! Mas era um homem, um homem socialista, que provavelmente nunca lera nem Marx, Engels, Trotsky ou Gramsci... Samora Moisés Machel, trata-se de Machel, Santidade!

DEUS DE ÁFRICA
Dá-me uma razão válida para que eu perca o meu tempo com o teu... como se chama?

VELHO
Machel, Santidade! Ele chama-se Machel.

CORO
Ele combateu o racismo e o tribalismo...

VELHO
E foi combatente incansável pela inclusão e libertação da mulher.

CORO
Combateu a corrupção e defendeu incessantemente a igualdade entre todos.

VELHO
Santidade, conhece mais algum dirigente africano que tenha arregaçado as mangas para trabalhar na recolha do arroz ou na limpeza da cidade, e que tenha defendido o trabalho como um  valor sagrado?
CORO
E que não tenha hesitado em sacrificar o seu próprio povo para ir em auxilio dos povos vizinhos da África do Sul ou do Zimbábwè, ajudando-os na luta contra a tirania?

VELHO
E sobretudo conhece mais alguém que tenha estado imbuído pela ideia da liberdade e da igualdade entre os homens a ponto de perder quase o sentido da realidade?

DEUS DE ÁFRICA
Está bem, está bem! Convenceste-me. Vou ouvi-lo e pesar as suas acções. Ao meu lado direito estará representado o seu lado BOM, no esquerdo o seu lado MAU.

Neste momento entram duas crianças de idade aproximada de 10 anos, uma menina e um menino, que irão colocar-se de cada um dos lados do Deus de África.


DEUS DE ÁFRICA
Que o réu se aproxime.

Samora Machel trajando o fato tipico de guerrilheiro aproxima-se  e vai postar-se frente ao Deus de África.


VELHO
Excelência... Presidente... Marechal... Camarada.  Nem sei como chamar-vos tal a estatura que conseguiste no desempenho das vossas atribuições como Comandante da Nação Moçambicana.
Apesar de tudo o que fizeste que possa estar  registado como positivo no âmbito das tuas acções politicas ou sociais, mesmo assim, aqui vais ser avaliado pelo aquilo que poderá ser considerado de bom ou de mau no decurso desse mesmo desempenho. Pedimos-te que fales e assumas tu mesmo a tua própria defesa.

MACHEL
Será que ainda vou ter forças para me expressar?
Desde aquele derradeiro dezanove de Outubo, daquele fatídico e terrível dia, sinto-me completamente só. Sei que ainda gritei: Camaradas porque me abandonaram?

CORO
Porque abandonaram a causa do Povo?

MACHEL
Mas tive o silêncio como resposta. Ninguêm estava ali para me ajudar! Mas de repente, na agonia final, pude ainda ouvir o som de uma moeda que caía dos bolsos de um dos meus carrascos.

CORO
Sim, sim, foi o dinheiro que esteve na origem do teu sacrifício.

MACHEL
Entre mim e o povo existia uma tal relação mística que não era possível o povo estar contra mim! Quem então me condenou?

CORO
Os cúmplices do colonialismo, foram eles que te condenaram.

MACHEL
Dinheiro, capital, capitalismo, mercado, burguesia... Tudo o que tinhamos identificado como o principal inimigo da nossa luta. O inimigo, isto é, a cobiça, a ganância, o individualismo estavam no nosso seio.

CORO
Sim, foram eles que te condenaram.

MACHEL
Como é possível? Todos os valores que combatíamos foram eles que me derrubaram?

CORO
Confiaste demasiado. Tu que podias ter destruído o Templo do Capitalismo em África, permitiste que os falsos amigos, com sorrisos cínicos, que te rodeavam, sedentos de te substituir na liderança, te levassem a não desconfiares que no último falso aperto de mão estava afinal a tua crucificação.

MENINA
Tu tinhaste transformado no Messias do teu Povo e isso para muita gente possou a ser terrivelmente insuportável.

MENINO
Tu tornaras-te um Rei, um novo Ngungunhana, e isso para minha gente tornou-se terrivelmente insuportável!


CORO
Morte, morte...Foi pedida a tua morte.

VELHO
Já não eras de confiança... tinhas traído a confiança daqueles que viram em ti um meio fácil e rápido de chegar à riqueza.

MENINA
Tu tornaras-te num marxista-leninista...

MENINO
Ou num socialista perigoso...

CORO
Foste acusado de teres traído as tradições do nosso povo.

MACHEL
É falso. Toda a minha vida combati os dois sistemas, as duas mentiras: o que fabricava os malditos ricos e o outro, o que albergava os  tradicionais depositários dos ditos valores autênticos da memória do nosso povo. Ambos eram parasitas que viviam à nossa custa.

CORO
Mas não te serviu de nada. As tuas palavras levou-as o vento. Ninguêm te acreditou e foste derrotado como perseguidor de ilusões.

MACHEL
Infelizmente é verdade. Quando iniciamos o nosso processo de libertação, imposto pelo colonialismo, vi-me  imediatamente confrontado com o terrivel dilema: quem combater primeiro? O sistema ignóbil e  impiedoso que nos capturava e vendia como escravos, destruia os nossos reinos, nos mandava para o xibalo, para os trabalhos forçados, para as minas do john. Ou aqueles que, a coberto das tradições, nos manietava eternamente no tribalismo, nas falsas divisões étnicas, no subdesenvolvimento, na ignorância?

MENINA
A tua hesitação condenou-te à morte... Nenhum dirigente lúcido rejeita as leis do seu povo. Tu não respeitaste a leis do teu povo.

MACHEL
Não respeitei as nossas leis? Mas como podia eu respeitar leis tribais, etnicas, que sempre contribuiram para nos levar à escratura, que nos dividiram e facilitaram a vinda do opressor! Pelo contrário,  era preciso unir o povo, era preciso criar novas utopias, fazer nascer o homem novo.

VELHO
Machel, meu filho, mas onde estão hoje os teus discípulos, os teus mestres-ideólogos?

CORO
Tu que te pensavas chefe, comandante, foste usado como um simples fantoche, o parvo que emprestou a voz, a cara e depois a própria vida.

VELHO
Os que se dizem verdadeiros, genuínos dirigentes mudam de rumo, por escolha ou oportunismo. Os  teus chefes, tiveram a astúcia necessária para não serem sacrificados nem engolidos pela derrota.

CORO
Foram tão manhosos como o diabo. Como Xiconhoca, eles reemergiram como escangalhadores do velho-velho e do velho-novo. Na condição de permanecerem sempre no bom lugar.


MACHEL
Pode ser que tenham razão. Mas para mim, o socialismo era ter a terra onde nascemos, o pão que produziamos, e de repente foi o fim. Quanto tempo se passou? Quinhentas mil horas? Dez milhões de minutos? Seiscentos milhões de segundos?

VELHO
Foste enganado pelos teus companheiros. Nunca ninguêm te disse a verdade, a verdade verdadeira, nua e crua.

CORO
Primeiro foram críticas, condenações, fabulações. Depois de repente elogios, nostalgias, exageros.

VELHO
Algumas manifestações de audácia aqui e ali, mas rapidamente banalizadas pela ênfase, pela repetição, pelo exagero. Nada, ou quase nada, quanto à causa. A Causa!

MACHEL
A liberdade é um direito inalienável dos povos... Nós também tinhamos direitos, as nossas crianças tinham direitos, as nossas mulheres também tinham direitos... O mundo...

VELHO
O mundo mente. A liberdade é uma prerrogativa reservada a determinados homens que se tornaram super-homens. O drama começa quando o escravo desperta para o sonho não de se tornar homem, mas super-homem. Quer os mesmos direitos do super-homem! Baniu para sempre o simples direito de ser sómemte homem. Já não lhe chega ser simplesmente homem. Quer mais, muito mais.

MACHEL
Isso não é verdade. A grande virtude da morte é a sua essencialidade. Ela tira-nos da banalidade dos detalhes e confronta-nos com a sua subtância que é a própria vida. A  minha vida, como a vida de muitos milhões de homens africanos iguais a mim, pode confundir-se como  um puro processo biológico que foi desencadeado  sem ter origem num acto de amor.
A Africa, a minha africa,  sempre pertenceu aos africanos, mas esses homens estranhos, os seus habitantes originais, nunca foram considerados  homens,  iguais entre iguais, por aqueles que vieram nos possuir.

VELHO
Então o drama começa quando voçês começaram a acreditar, a meteram-se a sonhar em ser livres, a ser iguais entre os iguais, a exigir os mesmos direitos dos outros homens, dos verdadeiros homens?

MACHEL
Sim, não podia ser de outra maneira. No maldito passado da nossa existência, sempre nos foi vedado sonhar, assumir a nossa africanidade, uma humanidade não excludente! A nossa morte, a morte dos muito milhões antes de nós, para nós, para o nosso grandioso projecto de libertação nunca passou de um simulacro! Sempre a assumimos como produto de uma estratégia de domínio sobre nós, e nada mais. Nunca foi definitiva, uma vez que nós sempre renasciamos!

CORO
Dizes que nunca estivemos mortos? Que nunca morremos? Sendo assim, quem somos nós afinal, verdadeiramente?

MACHEL
Os mortos não sabem como se escreve a história. Eles regam-na sómente com o seu sangue e não conhecem o valor do seu sacrifício. Também nunca falam e por isso às vezes são vítimas de acusações injustas.  Eles esqueceram para sempre o valor da palavra. Compete a nós, os vivos, falar em nome deles, advogar as suas causas. Eu ousei falar. Não queria esperar nem mais um segundo para resgatar o espírito de todos os que foram a enterrar sem conhecer o valor do seu sacrífício.

CORO
E qual foi o valor desse sacrifício, diz-nos?


MACHEL
Foi nunca nos termos resignado, termos aceite o terrível destino de não nos considerarem gente.  Mais do que isso, sermos considerados aos seus olhos gente imprestável, lixo. Tudo fizeram para nos destruir. Foram séculos de tortura, genocídio, de apagamento da nossa memória colectiva. Mas nós vencemos. O nosso sacrifício não foi inútil. Conseguimos vencer as trevas e hoje estamos aqui, senhores do nosso destino, como nos primeiros tempos da nossa história em que eramos nós que forjavamos a nossa identidadde, o nosso devir comum!


VELHO
Ainda acreditas nisso?

MACHEL
Sim. Depois de mim, outros virão. Eu tenho-me como exemplo. Nunca pensei em ser político, mas era preciso voltar a reescrever a história, a história de África onde o meu povo se encaixava. Nessa odisseia, teriamos de começar fatalmente pelo princípio:  libertar a terra e as gentes. Seria esse o derradeiro esforço de nos voltarmos a sentir vivos, com alma, com fé, com ideais, com sonhos. Teriamos de ter  a certeza de que eramos nós que estavamos a construir o nosso presente feito à nossa medida, à medida das nossas capacidades, e nada imposto e alheio a nós, à nossa vontade, ao nosso desejo profundo de resgatarmos um passado aparentemente morto, quase sem história, quase sem Deus.

MENINO
Falas hoje de Deus, tu que te dizias ateu, materialista, socialista...

MACHEL
Deixemos essa discussão para depois. Concentremo-nos agora naquilo que correu mal, as razões que me trouxeram aqui, os motivos pelos quais estou a ser julgado. Permitam que conte a minha história, que é muito parecida com milhões de outras histórias, histórias de gente sofredora, anónima, invisível, que cruzou os céus de Africa desde sempre.

DEUS DE ÁFRICA
Estamos a alongarmo-nos, a fugir do essencial. É melhor o réu começar, não temos todo o tempo do mundo! A eternidade precisa de veredicto: quem foi este homem que está aqui à nossa frente? Foi um herói? Um libertador? Um foi simplesmente um homem, com os seus defeitos e virtudes, que empreendeu uma façanha maior que ele mesmo?


MACHEL
Isso mesmo, Santidade. Prefiro, essa última definição, fui somente um homem simples que resolveu agir em nome de muitos outros homens, ao serviço de uma causa maior do que ele mesmo.


DEUS DE ÁFRICA
Isso agrada-me. Avancemos.

MACHEL
Eu tinha uma profissão: era enfermeiro. Mas ao contar a minha história significa retomar um processo, nunca terminado no espírito dos meus irmãos moçambicanos, em que dois lados antagónicos defendem feromente coisas diferentes.

MENINA
O tom apaixonado da discussão começa logo na luta armada entre aqueles que viam na independência a ocasião de vir a ocupar as cadeiras vazias deixadas pelos colonizadores, herdando os seus privilégios, as suas mordomias, o seu poder discriminatório...

MENINO
E os outros para quem a liberdade era um bem supremo, que requer muito trabalho, muito sacrifício, muita abnegação... ser o último, nunca o primeiro, em bens de qualquer espécie.

MACHEL
Sim, a luta começou logo ali.  E eu que havia renegado a defesa desses valores caducos e tomado partido pelo único valor  que valia a pena combater, que era a nossa libertação total, o símbolo de liberdade que eu representava passou a ser algo que tinha de ser abatido.

MENINA
É raro que a verdade e a política durmam na mesma cama...

MENINO
E nessa arena onde uma figura é desenhada com finalidades demagógicas, não se pode esperar justiça dos manipuladores da opinião pública.

MACHEL
Primeiro houve um longo silêncio à volta do meu governo, mas com críticas implícitas veladas. Depois deu-se um ressurreição e os meus detratores incobertos começaram a render-me homenagem.

MENINA
Como na maior parte da vezes, a verdade está no meio. Tu nem foste o santo nem o diabo que os teus inimigos pintaram até à exasperação.

MENINO
No fundo, foste um homem comum. Nem fogo, nem gelo, sem energias especiais para fazer o bem nem propensão para fazer o mal.

MACHEL
Sim, um homem comum, sem tendências ou genialidades excepcionais, sem vontade de ser um herói, mas que, de repente, torna-se objecto de tragédia.

DEUS DE ÁFRICA
De facto, a história, esse demiurgo, não tem necessidade de protagonistas com carácter heróico para criar as suas tramas; a prova é a desproporção entre a tua personalidade e o teu destino.


MACHEL
É verdade. A tragédia começou quando a minha natureza normal se encontrou com um destino inaudito, com uma responsabilidade que a oprimia e a esmagava e para a qual eu não estava preparado.

MENINA
O carácter medíocre nunca está habituado a suportar tensões fortes, prefere viver á sombra da bananeira, nas zonas temperadas da sorte...

MENINO
Mas sempre uma mão invisível te empurrava para o tumulto, para a luta, e tu não tinhas força para te esquivar.

MACHEL
Apesar do que dizem os mitos sobre a minha infância, eu sempre fugi a todas as formas de heroismo. Se a minha vida passou a ter algum valor histórico, isso isso deve-se a inexorabilidade do destino, que como um artista de almas, resolveu esculpir no meu carácter a força, a solidez e a grandeza dos meus antepassados que em mim dormia sepulpada.
Imprevisivelmente, qual Cristo, senti a minha transfiguração, compreendi que acontecia em mim algo de novo e de grande pela qual devia consagrar o resto dos meus dias.

VELHO
Antes que a tua hora chegasse e os teus restos mortais fossem depositados, o obra de arte que era a tua vida estava bela e terminada.

CORO
Nessa hora suprema, a tua vida atingiu proporções trágicas e tornaste-te grande, grande como o teu destino.



MACHEL
Todos os homens sonham, mas ás vezes parece ser a própria história a sonhar através deles.

MENINA
Um homem surgiu, mas parece habitado de um sonho demasiado grande para ele...

MENINO
A força irresistível que o arrasta em frente obceca-o e acaba por consumá-lo...

CORO
Ele torna-se prisioneiro e vitíma do seu sonho. Mas qual era esse sonho?

MACHEL
Na gloriosa noite de vinte e cinco de Junho, enquanto a bandeira portuguesa descia, fui invadido de uma alegria indescritível, mas ao mesmo tempo de uma grande angústia. Aquele  momento era o fim de um mundo! Mas a grande questão era, que novo mundo vai nascer? Os meus antepassados acreditavam nos deuses e nós acreditavamos em quê?

CORO
Pelo menos nós, mulheres, sempre acreditamos na força da terra, na força que faz crescer as árvores, e nos rios que nos banham o corpo, e nos nossos antepassados que sempre velaram por nós... Sim, e vocês, homens, acreditavam em quê?

DEUS DE ÁFRICA
Muito bem ,Maxxhel! Sejamos concisos! Estamos prontos para ouvir o homem público, a personalidade a quem estavam confiadas as vidas de milhões de moçambicanos do passado, do presente e, ouso mesmo dizer, do futuro. É diante  dessas vidas que tens de testemunhar pelas tuas acções e pelos valor das suas vidas. Fala-nos, então, da tua vida pública e das vidas que te foram confiadas.


MACHEL
Eu gosto de falar, sempre gostei de falar, mas nunca usei levianamente a minha voz. Durante muitos anos usei uma linguagem de compaixão, curei doentes, apaziguei a dor dos que sofriam ou encorajei aqueles que impotentes assistiam à morte dos seus entes queridos.
Utilizei a minha voz para contar histórias edificantes aos meus filhos, a história dos meus antepassados, dos meus avós; histórias de luta e de sofrimento.
Durante a luta de libertação, esta voz serviu para mobilizar novos camaradas para a causa da liberdade do nosso povo, como serviu para dizer-lhes que o único espaço temporal sobre o qual eles podiam insidir seria o futuro.
Disse-lhes que o passado só tinha sentido em função do futuro. E gritei-lhes que se o passado africano foi trágico, não foi só por culpa e pela força dos outros, mas foi-o sobretudo por causa  da nossa fraqueza e da nossa desunião.

CORO
Ele percorreu zonas libertadas para dizer às populações que não havia macondes nem macuas, nem senas nem ndaus...

VELHO
Nem pretos nem brancos, nem indianos nem mulatos, havia só moçambicanos.

MACHEL
Eu repeti aos nossos camaradas da ZANU e do ANC que não havia liberdade de uns sem a liberdade de todos, que o inimigo não era o branco mas o sistema de opressão.

MENINA
Nunca ninguém ficou indiferente à sua voz, nem amigos nem inimigos.

MENINO
A sua voz impressionava pelo seu timbre, pela viva gesticulação que a acompanhava, pela firmeza das suas palavras, mas sobretudo pela convicção dos seus propósitos.

MACHEL
Hoje tenho que usar a minha voz para a minha própria defesa. E de que sou acusado? De ter abandonado a cómoda da minha profissão e dedicar-me à causa e à liberdade do meu povo? De ter estado durante dez anos todos os dias pronto a morrer pela causa do meu povo?

VELHO
Que funesta e lapidar é a vida humana!

MACHEL
Depois de muito ter servido a mobilizar as massas, a pouco e pouco a minha voz deixou de ser mobilizadora. Eu continuava a falar, mas a minha voz tinha sempre menos impacto sobre as pessoas. Os meus subordinados começaram a não temê-la, os meus súbditos a não escutá-la, os meus inimigos a ficarem menos impressionados.

VELHO
Quanto tu mais falavas, com escárnio, os teus inimigos faziam o contrário do que tu dizias...

CORO
As tuas ordens não eram obedecidas...

VELHO
Os acordos que tu assinavas não eram respeitados.

MACHEL
Até que naquele derradeiro dia o avião despenhou-se. Abatido, sabotado?

MENINA
Que diferença pode fazer isso agora?

MENINO
Digamos que caiu...

MACHEL
No chão, entre a vida e a morte, abandonado à minha sorte, gritei como um louco pedindo ajuda, suplicando por socorro. Mas quanto mais gritava mais parecia que a minha voz caía na indiferença, no vazio, no silêncio...

VELHO
Certas pessoas ficaram convencidas que a tua voz tinha desaparecido para sempre, mas não é verdade! A tua voz tinha-se transformado na voz de um povo...

CORO
De todo um povo que clama por justiça...

VELHO
De todos moçambicanos que jazem nas tumbas  e dos que padecem de fome... e de todos aqueles que estão ainda por nascer!

MACHEL
Muito bem! Agora estou pronto para ser julgado. Já fiz o meu testemunho e pouco mais posso dizer. O legado que deixei, se é que deixei algum, só o meu povo o poderá dizer. Se este tribunal não se constituiu para me humilhar, daquilo que ouviu, compete-lhe  extrair a verdade, somente a verdade.

VELHO
Perdoe-me, camarada Maxxhel, mas está equivocado! Não vos convocamos aqui para vos humilhar e, ainda menos não somos contra o sentido da história. Mas existem coisas que, hoje, tu desconheces! Enquanto os moçambicanos celebravam a dita liberdade reencontrada do fim da guerra, do liberalismo triunfante, da liberdade da imprensa, de opinião, das escolas livres que vós privatizastes, do multi-partidarismo que proibistes, do comércio da morte que combatestes...

CORO
Enquanto celebravam a exploração dos mais fracos, o racismo e o tribalismo que combatestes com severidade...

VELHO
Enquanto cantavam glória à privatização das empresas, dos bens nacionalizados, e mesmo da terra...

CORO
Enquanto reabriam as novas ruas Araújo, criavam-se mercados de droga e de tráfico de órgãos...

VELHO
Enquanto os teus antigos camaradas partilhavam as empresas e acumulavam riquezas colossais, não tinha sentido chamar-vos para te colocarmos em causa. Se te fossem imputadas todas essas consequências, terias sido um réu fácilmente condenável por qualquer tribunal! A questão era: quem estaria disposto a estar ao teu lado defendo causas sem defesa? De todos quantos privaram contigo na luta armada estaria disposto a defender a honra de um morto se o tivesse de o fazer pela troca dos seus muitos milhões de dólares acumulados, vilas ou  carros de luxo?

CORO
Conheces alguém disposto a defender utopias passadas e ultrapassadas como “o nosso povo”,  “sermos responsáveis pelo nosso destino”, orgulho, solidariedade, justiça social, liberdade?

VELHO
Em suma, apesar de não poderes contar praticamente com ninguém ao teu lado, dessa gente que te falsamente te endeusava, a tua herança está hoje depositada nas mãos dos artistas que representam o restauro da tua memória e da tua obra...




CORO
E que representam uma tendência, podemos dizer dominante, já que tem a maioria do povo ao seu lado...

VELHO
Povo convicto por não sido convidado para o banquete liberal. Eis porque, hoje, mais do que nunca, o teu julgamento tem uma pertinência histórica.

DEUS DE AFRICA
Porque, sejamos claros. Não estamos aqui para julgar um homem mas a causa que esse homem representa, simboliza.

VELHO
Pareceu-nos mais justo dar-vos a oportunidade de defender a vossa causa. Qual é a voz que com a mesma eloquência, convicção e veracidade  poderia apresentar as causas profundas da vossa luta?

MENINO
Pelo vosso estilo vida e deontologia existencial, muitos moçambicanos hoje tem orgulho na sua moçambicanidade...

MENINA
Todos os que têm critícas a fazer, verdades a proclamar, nacionalismos a defender, fazem sistematicamente referência ao vosso nome como porto de moçambicanidade extremamente seguro.

VELHO
Por mais diferentes que possam ser as opiniões de uma montanha de gente diversa, todos concordam que, sob o vosso governo, Moçambique atingiu grande esplendor e dignidade.
Mas eu gostaria de exprimir o que penso de vós sem incorrer na suspeita de adulação dizendo claramente que não existe um antepassado que vós não tenhais ultrapassado no comportamento, nas convicções, na eloquência e na palavra.
Mas quantos dos vossos adeptos gostariam de voltar a viver sob as vossas ordens?
Assim, penso que, a invocação do vosso nome tem hoje muito de uma invocação romântica.

MACHEL
Muito bem! Se eu estou aqui para ser julgado então peço para ser julgado pelo meu povo, pelos homens que comandei, que governei, dos homens do presente e do futuro que padecem e padecerão como consequência das minhas acções. Que sejam eles a decidir o que foi bom e justo, e o que não foi.

VELHO
Concordo, e acho justo. Que cada um meta a tua vida pública e a tua acção política à esquerda ou à direita e faça inclinar a balança, em consciência, para onde lhe parecer mais justo.

MACHEL
No meu silêncio de morto, tenho estado a reflectir sobre a relação entre a história e a verdade. O que se chama história é sempre uma interpretação, muita vezes parcial, de factos. E cada historiador avalia os factos a partir da sua própria sensibilidade e pré-compreensão. E esta pré-compreensão tem a ver com sua ideologia, a sua verdade, a sua maneira de ver o mundo.
A história que ensinamos aos nossos filhos, mais do que a história da verdade dos homens e sobre os homens, é a história da vitória de uma verdade sobre as outras verdades.

CORO
Mas em que é que a verdade derrotada é menos verdadeira do que a verdade vencedora?

MACHEL
Quem legitima a história são os vencedores e a história, que por sua vez legitimam a visão dos vencedores.


VELHO
Será a visão legitimada por massacres, mortes, opressão, discrimInação,  mais verdadeira do que a verdade que se queria solidariedade, igualdade e liberdade?

MACHEL
Eu perdi? Sim! Os meus ideais foram vencidos? Sim! Tenho de aceitar por isso que a verdade está do lado dos que me venceram? Não será isso aceitar que o colonialismo, a exploração e mesmo a escravatura sejam verdades humanas?

CORO
Não será isso aceitar que Moçambique e África possam legitimamente voltar a cair no colonialismo e na dominação?

MACHEL
Se vocês não forem livres , se vocês não conservarem a liberdade que nós conquistamos com sangue, e se não a legarem como herança aos vossos filhos, então eu terei perdido! A minha vitória ou derrota não podem depender da queda de um avião, da morte de um símbolo que eu fui, mas da morte do que eu simbolizava.

CORO
É verdade. Nós não somos ainda completamente livres. A nossa economia, os nossos projectos educativos, a nossa própria alimentação já nem sequer depende do trabalho das nossas machambas...

VELHO
Será que iremos continuar a ter forças para aguentar a batalha da vida ou, pouco a pouco, os mesmo de outrora nos irão tirar as poucas energias de que ainda dispomos?

MACHEL
Companheiro, não te sei responder. O que eu sei é que, quando á meia-noite de vinte e cinco de junho de 1975, vimos descer a bandeira portuguesa, estavamos cheios de lágrimas. Eram lágrimas de alegria, mas que também escondiam uma grande angústia: será que iriamos ter capacidade para erguer uma nova pátria onde todos nós pudessemos caber?
A chama da liberdade exigiu, num primeiro tempo, unir no sangue todos os moçambicanos. Era o sacrifício indelével pelo qual a nossa liberdade teve de passar.

CORO
O novo mundo estava ali...

MACHEL
Cada vez que uma vida caía, nossa ou mesmo do inimigo, o nosso sofrimento era grande. Contudo, nós tinhamos que aceitar esse preço para que pudesse nascer um mundo novo, cimentado na confiança recíproca entre individuos e povos que durante séculos haviam vivido com costumes e valores diferentes.

VELHO
Sim, os ecos da vossa luta chegavam-nos e nós sabiamos que os limites dessa luta, mais do que vencer o inimigo, tinha como objectivo a conquista do coração de cada moçambicano.

CORO
Porque, qualquer homem digno desse nome não tem somente como único objectivo da sua luta, a própria luta.

MACHEL
É verdade. Assim, se vocês me perguntarem onde nós tinhamos fixado o limite do nosso avanço eu só vos posso responder que a nossa meta não era só física, geográfica ou espacial, mas era essencialmente espiritual. Compreender a diversidade humana passou a ser um imperativo, já que haviamos atingido um outro limite, menos tangível e mais misterioso: o das possibilidades humanas.
Descobrimos que o mundo velho que combatíamos era muito maior do que pensavamos em Nachingweia ou em Dar-es-Salam... Por isso, tinhamos, sobretudo, que absorver em nós todos os valores espirituais que esses povos tinham criado antes de nós.

CORO
Vocês nunca seriam capazes de unir esses mundos diferentes se não começassem a fazê-lo pelo vosso coração.

MACHEL
Mas alguns homens não compreendiam isso. Eles tinham permanecido pequenos homens chaganas, chopes, macuas. Eles tinham permanecido pequenos camponeses, agarrados as suas suas terras, às suas tradições, àvidos de poder e de importância.

CORO
A vossa luta e o sacrifício ainda não os havia transformado...


MACHEL
Eu era mais livre, não pelo lugar que ocupava, mas sobretudo pela sublimação, pela maneira como concebia e encarava o que já era a minha missão histórica.

CORO
Sempre foi difícil congregar o mundo e os homens...


MACHEL
Para dizer a verdade, durante toda a luta de libertação eu tive que combater ao mesmo tempo contra a força armada portuguesa e contra os preconceitos racistas e tribais dos nossos combatentes.
Eu tive que empregar tanta ou mais energia para destruir a resistência dos meus companheiros do que abater o general inimigo.


VELHO
E quando conquistaste as primeiras vitórias e nomeaste os vossos primeios dignitários, a ideia de comandar subiu-lhes de tal maneira à cabeça que muitos só pensavam em  ocupar lugares de relevo, em acumular riquezas. Em ocupar o lugar deixado vazio pelos detentores do mundo que vocês queriam destruir.


MACHEL
Comecei a perceber que o mundo velho estava mais enraizado em nós do que podíamos pensar. Por isso quanto mais sangue se derramava, mais se concretizava a nossa liberdade mas com ela, para muitos, também a apetência de consolidar poder, grandeza, honrarias pessoais.

CORO
Conhecem algum mundo novo que não se tenha criado com sangue, sacrifício e ambição?


MACHEL
A pouco e pouco, os tambores que tinham servido para tocar hinos iniciáticos entoavam agora velhas melodias mas com um novo significado.
Finalmente o novo mundo sonhado por nós, à custa de muitos sacrifícios e de muito sangue, ia ganhando forma. Mas de repente, de repente...

CORO
De repente, o quê? O que é que aconteceu de repente?

MACHEL
De repente, todo o nosso grande processo de libertação foi interrompido. A liberdade estava ali, ao nosso alcance. E no entanto... Abandonamos e esquecemos depressa as nossas trincheiras cheias de sacrifícios e de sangue, abandonamos o lugar da morte, de sacrfício, mas também da verdadeira edificação do mundo novo, onde não caberia nem o racismo nem o tribalismo, nem a desigualdade entre os homens.
Tinhamos conquistado a nossa independência mas continuava a reinar no coração dos homens mundos velhos, incompatíveis com o mundo que através do sacrifício tinhamos jurado  edificar.


VELHO
Como era possível que o novo mundo continuasse a ser definido pela raça? Pela pureza da raça?

MACHEL
Como podia aceitar que o homem novo fosse definido pela sua raça? Que a hierarquia da vida dependesse da cor da pele? No passado, esta questão sempre me pareceu aberrante e sem sentido.
O racismo sempre esteve ligado à desordem e à injustiça social e representou uma ordem caótica e violenta, que determinados homens primários criaram na esperança de perpectuar o seu poder para sempre.
Como podia aceitar que esse anátema continuasse entre nós?

CORO
Sim, como podias tu aceitar que uns fossem mais iguais do que outros?

MACHEL
E isso era intolerrável, não foi para isso que combatemos. Quando em 25 de Junho de 1975, com o hastear da bandeira do opressor, eu sabia que a inferioridade dos moçambicanos chegava ao fim,  como as terríveis desigualdades impostas pelo colonizadores não voltariam a ser permitidas.

VELHO
Como foste sonhador, amigo! Como te enganaste?

MACHEL
Eu pensei que o  meu exemplo era extensível a todos! Já que nunca me permiti ser possuidor de tesouros a não ser que eu estivesse em pé de igualdade com todo o meu povo.



CORO
Mas isso não foi o bastante para que os teus detractores não minassem a tua autoridade...

MACHEL
A isso chama-se, traição!  Porque de tudo o que eu fiz nunca considerei ser legítimo para mim e ilegítimo para os outros. A Lei estendia-se a todos da mesma maneira, como o ar que respiravamos.

MENINA
Estás a ser  verdadeiro? Quando distraidamente, um dia, tu deitaste um pouco de vinho no chão...

MENINO
E viste que todos te olhavam esperando uma explicação, tu disseste: é para os nossos antepassados...

MENINA
É para Mondlane, Simango, Joana Simeão, para todos aqueles que morreram, até mesmo pelos portugueses... Estavas a ser sincero? Estavas a ser justo?

MACHEL
Eu recordo-me. Todos sabem que não era contra os portugueses, como povo, que nós lutavamos! Nós lutavamos para destruir o velho mundo. Por isso tiveram de sucumbir ao lado dos portugueses, com a queda desse velho mundo, homens como Simango, Joana Simeão e outros.

MENINA
Penso que aí erraste: Simango não pertencia a esse velho mundo que dizias combater. Era um combatente como tu, um patriota e um nacionalista como tu...


MACHEL
Não, não era. Tinha ideias muito parecidas com as ideias do velho mundo que combatíamos...

MENINA
E a sua esposa Celina? Tinha as mesmas ideias retrógadas do volho mundo que tu encarniçadamente combatias.
MACHEL
Sim, eram muito parecidas. Por isso não hesitamos em tirá-los do nosso caminho, do caminho do homem novo!

MENINO
Mas o homem novo que tu idealisticamente pensaste criar revelou-se um grande malogro! Hoje não sobra nada dele!

MACHEL
Hoje reconheço que foi uma utopia, mas foi essa utopia que nos uniu, que nos deu força, apesar de vir a revelar-se  inconsistente. Mas conhecem algum mundo novo que não tenha um mito fundador?
Mondlane e Josina – todos sabem quanto eu amava Josina – são a parte positiva desse mito. Simeão e Simango a parte negativa. Uns negativos e outros positivos.  É por isso que, antes de beber, eu derramava um pouco do meu vinho, para evocá-los a todos como necessários.

Neste momente entram em cena, saindo do nevoeiro, Simango de mão dada com a esposa Celina, Joana Simeão e Filipe Samuel Magaia, entre outros vultos de ambos os sexos,  indeferencidos.



DEUS DE ÁFRICA
A simples invocação de pessoas mortas por ti, ou sob as tuas ordens, no decurso do teu mandato enquanto chefe guerrilheiro ou Presidente, obriga-me  que tais pessoas possam regressar dos seus sepulcros e testemunhem neste tribunal. Queremos  avaliar da tua inocência, ou não, no senticiamento das suas mortes.
Por isso, este tribunal pede que Uria Simango se pronuncie dizendo o que sabe sobre os autores e as razões que estiveram na origem da sua morte.

Uria Simango dá vários passos em frente e vem colocar-se no centro da cena. Depois de olhar em redor com os seus  olhos vítrios,  fixa-os em Machel,  e pronuncia as seguintes palavras.



URIA SIMANGO
Porquê, Machel? Porque me sacrifiram a mim, que podia ter sido o nosso elo para o futuro? Um futuro mais sólido, promissor e inteligente para o desenvolvimento da nossa Pátria?

MACHEL
Não, não podias! Não reunias as condições necessárias que fariam de ti o que pensas: o elo para o futuro!

URIA SIMANGO
Como estás enganado! Vê agora no que deu o teu sonho utópico: temos uma pátria destroçada e a igualdade que pensavas construir é tudo menos isso!

MACHEL
Mas os ideais porque lutei mantem-se de pé: o povo continua acreditar que é possível a criação de uma pátria onde a faternidade, a igualdade e a  liberdade são possíveis de instituir, apesar do meu desaparecimento fisíco!

URIA SIMANGO
Como te enganas... A tua verdadeira herança resume-se ao domínio da nossa pátria por um tipo de fenómeno novo que dá pelo nome de crime organizado. Quem manda no nosso país é um tipo de bandido, que não tem nada a ver com os bandidos que conhecíamos no passado. É o bandido do colarinho branco, saído das hostes guerrilheiras, que se infiltrou no Aparelho do Estado e domina todas as instituições, manipulando até à exaustão o povo que diz amar, mas na essência controlando-o, manietando-o e sugando-o, tornado-o passivo de tal maneira que o converte numa nova espécie de escravo.

CELINA
E a mulher não tem melhor sorte. A ela, à mulher moçambicana, está reservado um papel meramente subalterno, bajulador e artificial no desempenho de quaisquer funções, sejam elas sociais ou políticas. Principalmente a sua participação política é esvasiada de espíríto crítico e espera-se dela somente uma espécie de yes man de todas as iniciativas de quem controla efectivamente a máquina do poder.

URIA SIMANGO
São eles os teu antigos companheiros, os que te colocaram e arrearam do comando, que verdadeiramente mandam na nossa Pátria. Gente para quem a ambição não tem limites e fizeram da governação do nosso povo um novo paradigma: criar um homem sem direitos e onde o passado milenar de resistência e de luta é renegado  para os antípodas do inferno! Nada conta para este tipo de gente sem escrúpulos a não ser o acumular dinheiro, atrás de dinheiro, de perferência muito, muito dinheiro.


MACHEL
Sou alheio a todo a esse fenómeno. Todos sabem da minha luta abnegada para destruir tudo que era ambição pessoal e pelo acumular de riquesas nas costas do povo...

URIA SIMANGO
Isso nada mais representou do que ideais românticos, da tua parte, dificeis de sustentar. O que te faltou foi bagagem intelectual que te desse a noção exacta da tua precaridade face aos fenónemos ideológicos e políticos que dominavam o mundo na época em que combatíamos e que passaram a estar em jogo, como um microcosmo, dentro do nosso próprio movimento, movimento esse que tu vieste a chefiar sem estares minimamente preparado para o fazeres!

MACHEL
Talvez o que dizes seja verdade! Mas não na altura não me apercebi da minha vulnerabilidade. Sentia-me um super homem, dificil de igualar. Não era vaidade o que sentia, mas sim orgulho por sido escolhido, entre tantos outros iguais ou melhores do que eu, para ocupar o lugar deixado vago por ti!

URIA SIMANGO
Lugar que me roubaram!

MACHEL
Eu não te roubei nada...

URIA SIMANGO
Não sejas ingénuo... Sabias muito bem que conspiraram para me retirarem da chefia do movimento! E essa acção foi feita de forma ilícita, como um acto de pura traição! Chefia que te foi entregue posteriormente... ou não sabias que me sucedeste da pior maneira, não de forma democrática, mas anómala, eivada de erros?

MACHEL
Eu não tive nada a ver com isso. Estás a acusar-me sem provas. Alguém decidiu dar-me o comando militar do movimento, coisa para a qual tu não tinhas vocação. Era preciso imprimir ao movimento uma nova dinâmica e tu sempre te tinhas revelado um ser pacífico, pacífico de mais, cordato de mais, contemporizador de mais! Penso que os meus camaradas não tiveram outra opção...

URIA SIMANGO
Pobre Machel! Como continuas a ser benevolente contigo próprio e com aqueles que te sentenciaram à morte. Porque foram os mesmos que te colocaram no poder, que te de lá  retiraram sem qualquer peso na consciência! Da mesma forma que te bajularam até à exaustão, convencendo-te da tua missão quase divina de levares o movimento à glória, da mesma forma esvasiaram tudo à tua volta até ao ponto de te sentires sózinho e perdido!
No fundo, não passaste de uma pobre marionete que a prazo sairia de cena, tal como veio a acontecer...

Filipe Samuel Magaia sai do nevoeiro e vem ocupar o centro do debate colocando-se ao lado de Uria Simango.




FILIPE S.MAGAIA
E eu Machel? Como explicas a tua inocência perante a minha morte de que foste o principal beneficiário? Não nos venhas também dizer que não sabias que me sentenciram à morte para tu poderes ocupar o meu lugar?

MACHEL
Isso é igualmente falso! Eu nada tive a ver com isso. Vocês nunca fizeram ideia como o movimento funcionava, as intrigas que se urdiam a toda a hora, as ciladas e as artimanhas a que todos nós estavamos sujeitos, mas que nada mais visavam do que retirar do caminho quem não servia o movimento, como o movimento pensava de que devia ser servido!
Luta pelo poder ou mera luta pela sobrevivência? A certa altura, eu já não sabia distinguir uma coisa da outra!  O que eu fiz foi tentar pairar acima dessas lutas intestinas que minavam o movimento, lhe retirava energia vital já que o expurgava de muitos seus melhores quadros!
E dediquei-me à luta guerrilheira de corpo e alma! Talvez essa dedicação me tenha salvo, pelo menos, provisoriamente, a vida!

FILIPE S.MAGAIA
Não me convences com a tua pseudo inocência! E a minha mulher? Como explicas, teres ficado com a minha companheira após a minha morte? Não achas isso demasiado tétrico para ser verdade? Só podemos conceber essa atitude pelo demasiado poder que passaste a deter dentro do movimento! Tu tinhas-te tornado o chefe inconstado, o mao tsé tung, o stalin moçambicano, cujo poder draconiano a certa altura se confundia com o próprio Céu. Com o poder do Criador!
E quiseste imitar os grandes ditadores nos seus mais infimos e ridiculos detalhes!
Não havia mais mulheres dentro do movimento com quem tu pudesses acasalar? Porquê casar exactamente com a mulher que tinha sido minha esposa? Não achas essa atitude de uma enorme falta de pudor e de respeito para com ela, para comigo, para com todos os guerrilheiros que viram na tua atitude uma coisa muito parecida com o abuso de poder, e desrespeitosa para quem os havia chefiado com competência, como foi o meu caso, e que só um pode absoluto, mas imoral, como o teu, podia permitir!

MACHEL
Penso que não estou aqui a ser julgado por actos de amor... mas sim por actos políticos, bons ou maus, por mim cometidos no decurso do meu mandato enquanto presidente da nação moçambicana!

FILIPE S. MAGAIA
Mete nojo a tua tentativa de varreres para debaixo do tapete a porcaria que fizeste com a minha mulher!
MACHEL
Se estou aqui para ser julgado por atitudes que transcendem a minha visão de estadista, que se pronuncie então quem tem poder para isso!

DEUS DE ÁFRICA
Inicialmente fui convocado para julgar a Causa que moveu este homem, enquanto vivo, e o que o levou a precorrer os caminhos da história! Mas não podemos ficar indiferentes a determinados detalhes que sejam  reveladores  do seu verdadeiro carâcter, da personalidade de quem foi responsável por imensos feitos, uns gloriosos outros nem tanto.

MENINA
Ora aí está uma matéria que encaixa perfeitamente nas definição daquilo que podemos chamar de crime de“assédio sexual”!
Camarada Machel,  nunca se deu conta que a sua atitude podia ser interpretada dessa maneira ao perseguir, dizem, deliberamente e sem descanso, uma mulher recentemente viúva, cujo marido havia sido assassinado no decurso de uma operação militar por alguém, dentro do movimento, que ficou provado ter recebido ordens expressamente para esse fim?

MACHEL
Não sei nada disso! Só posso dizer perante este tribunal que sou inocente desse crime, apesar de todas as evidências poderem apontar para mim como principal suspeito.
Mas juro pela minha honra de que não sei de onde partiu a ordem que assassinou Filipe Samuel Magaia!

FILIPE S.MAGAIA
Não acredito em ti, Machel! És manhoso e maquiavélico demais para admitires seres tu o autor do miserável golpe que me tirou a vida.

JOANA SEMEÃO
É curioso constatar que agora não há culpados para tudo o que de nefasto se fez no decurso da libertação do nosso país!
E se as nossas mortes continuam no anonimato e sobre elas caiu um manto de silêncio, é   porque há demasiada gente poderosa envolvida nestes assassinatos.
Gente que entretanto se transcendeu passando de simples guerrilheiros maquiavélicos a pessoas de bem, hoje detentores de impérios financeiros e comerciais, que não podem de maneira nenhuma ser envolvidos, porque isso lhes estala o verniz, em verdadeiros crimes de guerra dum passado onde há muito sangue derramado por inocentes.
Mas foram homens como tu, Machel, que estiveram na origem e deram cobertura ao nosso aniquilamento, tanto fisíco como espiritual!
E nós, Machel ,nada mais queriamos do que ter a possibilidade de que a nossa voz pudesse ser ouvida, como foi a tua e a de muitos outros!
Porque nos silenciaram?  O que é ela tinha de tão diferente para que não pudesse ser ouvida, já que o que ela visava era simplesmente dizer quais  os trilhos que podíamos seguir para que a nossa Pátria viesse a ser mais livre e mais próspera!

Continua...



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