OS NÁUFRAGOS DE DEUS
EPOPEIA AFRICANA EM
24 CANTOS E UM EPÍLOGO
Reservados todos os direitos
De
acordo com a Legislação em vigor
(c) JOAQUIM LOPES BARBOSA
INLD N. 7078\RLINLD\2011
Que se trave o combate sobre o famoso
capítulo da igualdade e da propriedade!
Que
o povo derrube todas as antigas
instituições bárbaras! Que a guerra do rico
contra
o pobre deixe de ter esse carácter
de toda a audácia de um lado e de toda a
cobardia
do outro!...Sim, repito, todos os
males atingiram o seu limite, não podem
piorar mais. Só uma subversão total os
pode reparar... Não percamos de vista o
fim perseguido pela sociedade. Não
percamos de vista a
felicidade comum, e,
passados que sejam mil anos, voltemos
para mudar estas leis obscenas.”
Gracchus
Babeuf (27 Maio 1797)
CANTO 1
1.1.
Tem a mira da arma
apontada à cabeça da primeira figura militar, que se perfila
diante do monumento um
pouco avançado à restante comitiva ministerial.
É ele que, como primeira
figura política, comanda a cerimónia de homenagem aos heróis nacionais.
A praça imponente, onde
todos os anos se reúne a nata do regime, está embandeirada a rigor e uma enorme
moldura humana enche-a por completo. Com esta festa maior o novo regime, saído
da luta de libertação, homenageia todos quantos morreram no campo de batalha
para que o país – que acreditam ser seu por direito de chegada, de permanência
e agora reconquistado pelas armas - possa comemorar o dia da sua independência.
Antiga colónia, hoje
“pátria libertada”, o novo país movimenta-se em torno de outras verdades e
tradições como anticorpos de um corpo gangrenado que há muito tinha deixado de
viver e fora sepultado: a herança colonial. E a verdade mais importante, agora,
é esta: a data em que os antigos colonizadores saíram do país e entregaram aos
libertadores uma terra que durante séculos administraram.
A nova classe dirigente
está ali para comemorar, e agradecer aos que ficaram pelo caminho, a festa da
sua emancipação; e o cidadão comum, o povo anónimo, identificado com o slogan
de “preservar a todo o custo a unidade nacional” não deixa de responder à
chamada dos seus dirigentes e acaba por encher a praça por completo.
1.2. `
O “Dia maior de todo um
Povo” faz esquecer todos os perigos, antigos e actuais, já que a atmosfera que
se respira emociona todos quantos estão presentes. E embalados pelos discursos
inflamados dos ministros – que o som da fanfarra militar e o troar dos
foguetes, como pano de fundo, mais acentua esse embriagamento - ninguém no seu
perfeito juízo se lembrará de pensar que esse dia de felicidade possa encobrir
também sinais de horror e de morte!
1.3.
Mas é exactamente isso que o atirador pensa
quando olha pela mira-telescópica da arma de grande precisão que aponta à testa
da figura militar que dirige os festejos. A sua longa experiência de soldado
dá-lhe a certeza absoluta de que o tiro irá destruir o cérebro dessa figura que
centraliza em si as comemorações dos mortos nacionais, sem possibilidade de
erro. Também ele, daí a breves instantes, será um morto a homenagear no futuro.
Será o primeiro de uma longa lista de figuras a abater, sem qualquer remissão;
ou ele não se chame S.M..
1.4.
S.M., nome mítico –
maldito também! -, que ressuscita dos mortos com uma única ambição: voltar a
estar presente nessa cerimónia evocativa nem que seja à distância como agora se
encontra!
1.5.
(Quem é ele?, esse S.M.
que se oculta emboscado não comparecendo à chamada em corpo inteiro, apesar de,
no seu eu mais recôndito, desejar estar presente ainda que seja como fantasma?
E é isso que faz, afinal: paira naquela praça como um ser invisível, um
espectro apesar de não o invocarem!
Será que pode continuar
a chamar-se dessa maneira: S.M.?
Não, não pode: só que a
sua aparência exterior não apaga os sinais identificativos e a herança que tem
dentro de si e todos eles reunidos, amalgamados em ossos, sangue e
memória, são o resultado do que sempre foi: S.....M.....!
Há muito que deixou de
poder revelar o nome verdadeiro e todos os traços originais do seu rosto foram
apagados; para todos os efeitos legais não passa de um alguém para sempre
extinto daquele lugar, daquele país, daquele povo!)
1.6.
Apesar de tudo o que
aconteceu, no passado, também hoje é um dia de festa para si: o dia em que
começa a renascer, ganhando um novo ímpeto, uma nova força; o dia em que
finalmente vai dar corpo à materialização da sua vingança!
Ter na mira da arma esse
antigo companheiro de armas, político e guerrilheiro, que ele bem conhece – hoje, segundo pensa saber, dirigente
máximo maquiavélico que aperta com tenazes de aço um povo demais sofrido para
se revoltar. O mesmo que o condenou à morte sem hipótese de defesa, tê-lo ali,
ao alcance da sua arma, irremediavelmente indefeso, fá-lo sentir,
percorrendo-lhe pelo dorso suado, um arrepio simultaneamente de gozo e de
emoção! Quanto tempo esperou para poder gozar esse momento, de estar a um passo
de concretizar o que sempre pensou ser um imperativo da sua sobrevivência
futura: a aniquilação de quantos o levaram à queda e à ruína! Que prazer
profundo e incontrolável está a sentir por estar a breves segundos de o
materializar! Sabe que não vai falhar; tem anos de espera angustiada, e de
profunda solidão, que o imunizam perante o medo e a dúvida; outro tanto
contribuiu o treino doloroso e sistemático que impôs a si mesmo, ao longo dos
anos, anestesiando-o igualmente do sofrimento, que hoje lhe serve de antídoto
para que não adormeça na sua alma o desejo de atingir o objectivo; objectivo
que está a breves segundos de dar forma e substância, resultado final de um
pensamento que o acompanha desde sempre (desde o dia da sua desgraça!); de
cristalizar como o momento supremo do início da sua desforra, da sua vingança!
1.7.
Está: acocorado e de
pernas abertas, segurando tenazmente a arma que vai desferir o tiro fatal!
1.8.
A memória transporta-o
sem querer a um passado longínquo; e, no preciso momento em que se perde na bruma
das recordações mais dolorosas, aperta o gatilho: a bala parte certeira e veloz
não hesitando em percorrer em fracções de segundos a distância que, no corpo do
atirador, totaliza uma eternidade!
(A multidão não deixa
instintivamente de recuar, com a surpresa e o horror estampados na
multiplicidade dos seus rostos, quando
vê o seu dirigente vitalício cair no chão com a cabeça desfeita pelo tiro
mortífero.)
1.9.
Calmamente, o atirador
guarda a arma e refugia-se no interior do compartimento do andar mais elevado
do prédio que ladeia a praça dos heróis, edifício ministerial onde antes
entrara disfarçado de militar sem patente, integrante da guarnição destacada
para a ronda habitual, para posteriormente, sem ser visto, se acoitar para
desferir o golpe fatal que deveria criar a primeira baixa, no primeiro de uma
elite de militares e políticos, até à momentos, decisores máximos dos destinos
do povo que é o mesmo de onde ele próprio provém!
1.10
Na
praça dos heróis a confusão é total com o Presidente, que acumula
igualmente o
cargo
de comandante-em-chefe do exército, sem glória, estatelado no chão com a
cabeça
desfeita por um único tiro, que ninguém sabe de onde partiu e quem o
disparou!
Quantos mais vão cair?
Se o presidente foi morto, quem se seguirá? É o que cruza, como um
relâmpago, pela cabeça de quantos se
encontram reunidos naquela praça! E a
comitiva ministerial, em pânico, não deixa de olhar em todas as
direcções tentando adivinhar de onde
partirá o próximo tiro e qual o destino que levará!
1.11.
Rapidamente a praça
transforma-se num campo fortificado: unidades do exército que se preparavam
para desfilar integradas nos festejos tomam
posições defensivas. Mas nada
mais acontece, nem nada mais se ouve, a não ser o vento que silva por entre as
decorações de papel fazendo oscilar as bandeiras que ornamentam o espaço em volta. Por breves instantes, numa
espera angustiante, tudo se converte no mais puro silêncio sepulcral!
1.12.
Depois, numa debandada
que faz lembrar manadas destrambelhadas, todo aquele mar de gente que antes
ocupava por inteiro a praça esperando pacientemente para prestar homenagem,
entrando com solenidade no monumento dos heróis, tenta encontrar agora um
abrigo onde se esconder, ministros misturados com gente comum, gente comum
disputando lugares preciosos de ocultação com os seus superiores hierárquicos!
Mas tudo se aquieta com
o passar pesado dos minutos. Porque nada mais acontece!
1.13.
Para aquele brioso exército, derrotado antes mesmo de começar a combater, o imperativo do momento
passa a ser como descobrir o atirador ou os atiradores que poderão estar por
detrás do (tudo o parece indicar) atentado; o presidente foi morto e esse facto
não poderá ocultar - apesar da dúvida num primeito tempo poder persistir - o
que à partida parece ser óbvio: com a sua morte houve ou não intenção de
atentar contra a ordem política vigente; houve ou não golpe de estado?
Ninguém sabe responder a
essa pergunta, como, de momento, é prematuro formular teorias à volta de um
trágico acontecimento para o qual, para já, ninguém tem a resposta definitiva
nem conhece os contornos ou possíveis autores; e qual foi o braço armado que o
executou! Mas a teoria da conspiração cria desde logo corpo, ganha adeptos e
cai como uma bomba no seio da classe governamental! E a esta nada mais passa a interessar
do querer saber, a todo o custo, se houve, ou não, mudança de regime e quem
poderá ser o rosto do novo poder!
1.14.
E esta classe, sem norte
nem governante, entra em pânico e jaz desarmada no meio da praça!
1.15.
Praça que não tarda a
ser fechada à circulação, rodoviária ou humana, para imediatamente serem pedidos a todos os
presentes - excluindo obviamente os que conseguiram fugir – os elementos de
identificação pelos homens dos serviços de segurança que fazem a sua aparição
de rompante e com a violência habitual.
Sobram os ministros (e
outras entidades selectas que escapam milagrosamente à devassa), refugiando-se
nos automóveis oficiais, que partem a grande velocidade.
1.16.
O corpo sem vida do
Presidente é também retirado do local e transportado num blindado do exército,
rumo ao palácio governamental.
1.17.
O atirador desfaz-se calmamente
das roupas militares, que usou como disfarce, e acaba por se misturar com a
população em fuga, perdendo-se no meio da confusão que as muitas centenas de
pessoas em pânico foi capaz de gerar.
Estava assim consumada,
vitoriosamente, a primeira etapa de um plano desde sempre urdido com raiva,
lágrimas e na mais profunda solidão.
Continua...


