sexta-feira, 30 de setembro de 2016

OS NÁUFRAGOS DE DEUS

                                                
                                                 

                                                

OS NÁUFRAGOS DE DEUS
                                                                     
                                                                              



                           
                                EPOPEIA AFRICANA EM 24 CANTOS E UM EPÍLOGO



                                                   Reservados todos os direitos
                                            De acordo com a Legislação em vigor

                                           

                                             (c) JOAQUIM LOPES BARBOSA                                             
                                               
                                           INLD N. 7078\RLINLD\2011                                                                             







                                                                             

                                                                              Que se trave o combate sobre o famoso  
                                                                              capítulo da igualdade e da propriedade!
                                                                              Que o povo derrube todas as antigas 
                                                                              instituições bárbaras! Que a guerra do rico
                                                                              contra o pobre deixe de ter esse carácter
                                                                              de toda a audácia de um lado e de toda a
                                                                              cobardia do outro!...Sim, repito, todos os
                                                                              males atingiram o seu limite, não podem
                                                                              piorar mais. Só uma subversão total os
                                                                              pode reparar... Não percamos de vista o
                                                                        fim perseguido pela sociedade. Não                       
                                                           percamos de vista a felicidade comum, e,
                                                                              passados que sejam mil anos, voltemos
                                                                              para mudar estas leis obscenas.”

                                                                                     Gracchus Babeuf  (27 Maio 1797)







                                                              CANTO 1


    
      1.1. 
 
Tem a mira da arma apontada à cabeça da primeira figura militar, que se perfila
diante do monumento um pouco avançado à restante comitiva ministerial.
É ele que, como primeira figura política, comanda a cerimónia de homenagem aos heróis nacionais.
A praça imponente, onde todos os anos se reúne a nata do regime, está embandeirada a rigor e uma enorme moldura humana enche-a por completo. Com esta festa maior o novo regime, saído da luta de libertação, homenageia todos quantos morreram no campo de batalha para que o país – que acreditam ser seu por direito de chegada, de permanência e agora reconquistado pelas armas - possa comemorar o dia da sua independência.
Antiga colónia, hoje “pátria libertada”, o novo país movimenta-se em torno de outras verdades e tradições como anticorpos de um corpo gangrenado que há muito tinha deixado de viver e fora sepultado: a herança colonial. E a verdade mais importante, agora, é esta: a data em que os antigos colonizadores saíram do país e entregaram aos libertadores uma terra que durante séculos administraram.
A nova classe dirigente está ali para comemorar, e agradecer aos que ficaram pelo caminho, a festa da sua emancipação; e o cidadão comum, o povo anónimo, identificado com o slogan de “preservar a todo o custo a unidade nacional” não deixa de responder à chamada dos seus dirigentes e acaba por encher a praça por completo.


1.2.  `

O “Dia maior de todo um Povo” faz esquecer todos os perigos, antigos e actuais, já que a atmosfera que se respira emociona todos quantos estão presentes. E embalados pelos discursos inflamados dos ministros – que o som da fanfarra militar e o troar dos foguetes, como pano de fundo, mais acentua esse embriagamento - ninguém no seu perfeito juízo se lembrará de pensar que esse dia de felicidade possa encobrir também sinais de horror e de morte!


1.3.

 Mas é exactamente isso que o atirador pensa quando olha pela mira-telescópica da arma de grande precisão que aponta à testa da figura militar que dirige os festejos. A sua longa experiência de soldado dá-lhe a certeza absoluta de que o tiro irá destruir o cérebro dessa figura que centraliza em si as comemorações dos mortos nacionais, sem possibilidade de erro. Também ele, daí a breves instantes, será um morto a homenagear no futuro. Será o primeiro de uma longa lista de figuras a abater, sem qualquer remissão; ou ele não se chame S.M..


     1.4.

S.M., nome mítico – maldito também! -, que ressuscita dos mortos com uma única ambição: voltar a estar presente nessa cerimónia evocativa nem que seja à distância como agora se encontra!


1.5.

(Quem é ele?, esse S.M. que se oculta emboscado não comparecendo à chamada em corpo inteiro, apesar de, no seu eu mais recôndito, desejar estar presente ainda que seja como fantasma? E é isso que faz, afinal: paira naquela praça como um ser invisível, um espectro apesar de não o invocarem!
Será que pode continuar a chamar-se dessa maneira: S.M.?
Não, não pode: só que a sua aparência exterior não apaga os sinais identificativos e a herança que tem dentro de si e todos eles reunidos, amalgamados em ossos, sangue e memória,  são o resultado do que sempre foi:  S.....M.....!
Há muito que deixou de poder revelar o nome verdadeiro e todos os traços originais do seu rosto foram apagados; para todos os efeitos legais não passa de um alguém para sempre extinto daquele lugar, daquele país, daquele povo!)
 

1.6.

Apesar de tudo o que aconteceu, no passado, também hoje é um dia de festa para si: o dia em que começa a renascer, ganhando um novo ímpeto, uma nova força; o dia em que finalmente vai dar corpo à materialização da sua vingança!
Ter na mira da arma esse antigo companheiro de armas, político e guerrilheiro, que ele bem  conhece – hoje, segundo pensa saber, dirigente máximo maquiavélico que aperta com tenazes de aço um povo demais sofrido para se revoltar. O mesmo que o condenou à morte sem hipótese de defesa, tê-lo ali, ao alcance da sua arma, irremediavelmente indefeso, fá-lo sentir, percorrendo-lhe pelo dorso suado, um arrepio simultaneamente de gozo e de emoção! Quanto tempo esperou para poder gozar esse momento, de estar a um passo de concretizar o que sempre pensou ser um imperativo da sua sobrevivência futura: a aniquilação de quantos o levaram à queda e à ruína! Que prazer profundo e incontrolável está a sentir por estar a breves segundos de o materializar! Sabe que não vai falhar; tem anos de espera angustiada, e de profunda solidão, que o imunizam perante o medo e a dúvida; outro tanto contribuiu o treino doloroso e sistemático que impôs a si mesmo, ao longo dos anos, anestesiando-o igualmente do sofrimento, que hoje lhe serve de antídoto para que não adormeça na sua alma o desejo de atingir o objectivo; objectivo que está a breves segundos de dar forma e substância, resultado final de um pensamento que o acompanha desde sempre (desde o dia da sua desgraça!); de cristalizar como o momento supremo do início da sua desforra, da sua vingança!


1.7.

Está: acocorado e de pernas abertas, segurando tenazmente a arma que vai desferir o tiro fatal!


1.8.

A memória transporta-o sem querer a um passado longínquo; e, no preciso momento em que se perde na bruma das recordações mais dolorosas, aperta o gatilho: a bala parte certeira e veloz não hesitando em percorrer em fracções de segundos a distância que, no corpo do atirador, totaliza uma eternidade!

(A multidão não deixa instintivamente de recuar, com a surpresa e o horror estampados na multiplicidade dos  seus rostos, quando vê o seu dirigente vitalício cair no chão com a cabeça desfeita pelo tiro mortífero.)


1.9.

Calmamente, o atirador guarda a arma e refugia-se no interior do compartimento do andar mais elevado do prédio que ladeia a praça dos heróis, edifício ministerial onde antes entrara disfarçado de militar sem patente, integrante da guarnição destacada para a ronda habitual, para posteriormente, sem ser visto, se acoitar para desferir o golpe fatal que deveria criar a primeira baixa, no primeiro de uma elite de militares e políticos, até à momentos, decisores máximos dos destinos do povo que é o mesmo de onde ele próprio provém!


1.10

      Na praça dos heróis a confusão é total com o Presidente, que acumula igualmente  o   
      cargo de comandante-em-chefe do exército, sem glória, estatelado no chão com a 
      cabeça desfeita por um único tiro, que ninguém sabe de onde partiu e quem o  
      disparou!
Quantos mais vão cair? Se o presidente foi morto, quem se seguirá? É o que cruza, como um relâmpago,  pela cabeça de quantos se encontram reunidos naquela praça! E a  comitiva ministerial, em pânico, não deixa de olhar em todas as direcções tentando  adivinhar de onde partirá o próximo tiro e qual o destino que levará!


     1.11.

Rapidamente a praça transforma-se num campo fortificado: unidades do exército que se preparavam para desfilar integradas nos festejos tomam  posições  defensivas. Mas nada mais acontece, nem nada mais se ouve, a não ser o vento que silva por entre as decorações de papel fazendo oscilar as bandeiras que ornamentam o  espaço em volta. Por breves instantes, numa espera angustiante, tudo se converte no mais puro silêncio sepulcral!


      1.12.


Depois, numa debandada que faz lembrar manadas destrambelhadas, todo aquele mar de gente que antes ocupava por inteiro a praça esperando pacientemente para prestar homenagem, entrando com solenidade no monumento dos heróis, tenta encontrar agora um abrigo onde se esconder, ministros misturados com gente comum, gente comum disputando lugares preciosos de ocultação com os seus superiores hierárquicos!
Mas tudo se aquieta com o passar pesado dos minutos. Porque nada mais acontece!


1.13.

Para aquele brioso exército, derrotado antes mesmo de começar a combater, o imperativo do momento passa a ser como descobrir o atirador ou os atiradores que poderão estar por detrás do (tudo o parece indicar) atentado; o presidente foi morto e esse facto não poderá ocultar - apesar da dúvida num primeito tempo poder persistir - o que à partida parece ser óbvio: com a sua morte houve ou não intenção de atentar contra a ordem política vigente; houve ou não golpe de estado?
Ninguém sabe responder a essa pergunta, como, de momento, é prematuro formular teorias à volta de um trágico acontecimento para o qual, para já, ninguém tem a resposta definitiva nem conhece os contornos ou possíveis autores; e qual foi o braço armado que o executou! Mas a teoria da conspiração cria desde logo corpo, ganha adeptos e cai como uma bomba no seio da classe governamental! E a esta nada mais passa a interessar do querer saber, a todo o custo, se houve, ou não, mudança de regime e quem poderá ser o rosto do novo poder!



1.14.

E esta classe, sem norte nem governante, entra em pânico e jaz desarmada no meio da praça!


1.15.

Praça que não tarda a ser fechada à circulação, rodoviária ou humana, para  imediatamente serem pedidos a todos os presentes - excluindo obviamente os que conseguiram fugir – os elementos de identificação pelos homens dos serviços de segurança que fazem a sua aparição de rompante e com a violência habitual.
Sobram os ministros (e outras entidades selectas que escapam milagrosamente à devassa), refugiando-se nos automóveis oficiais, que partem a grande velocidade.


      1.16.

O corpo sem vida do Presidente é também retirado do local e transportado num blindado do exército, rumo ao palácio governamental.


1.17.

O atirador desfaz-se calmamente das roupas militares, que usou como disfarce, e acaba por se misturar com a população em fuga, perdendo-se no meio da confusão que as muitas centenas de pessoas em pânico foi capaz de gerar.
Estava assim consumada, vitoriosamente, a primeira etapa de um plano desde sempre urdido com raiva, lágrimas e na mais profunda solidão.  



                                                                                                                                          Continua...


segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O AMANHECER DO DESEJO



                                                  

Isabel.
O que retenho, hoje, dela, do seu temperamento irrequieto e aventureiro, nos seus dezoito, dezanove anos, aprendiz de fórmulas de alquimia, nas horas vagas e estudante de filosofia, a tempo inteiro – falava-me a toda a hora tanto de Rousseau como de Voltaire - desenvolta e viva, especialmente  muito viva, que fazia palavras cruzadas e jogava xadrez , e se fazia acompanhar de um violão roufenho quando queria  arrancar das suas cordas algo parecido com o flamengo por quem tinha imensa devoção.
Quando se sentou pela primeira vez no meu colo eu estava sentado no chão daquele escritório vazio que acabara de alugar. Este estava numa certa penumbra. A única luz que entrava provinha duma  janela, sem estores, e atravessava a sala criando desenhos de sombra nas paredes brancas, despidas de qualquer adorno.
Eu tinha-me sentado no chão. E ela sem qualquer palavra (desnecessária) havia-se sentado no meu colo de pernas abertas.
Não tirou a roupa, mas pude adivinhar de imediato que não usava nada por debaixo das saias que na época  era moda roçarem no chão.
A sua vagina era húmida e quente.
E foi também sem qualquer palavra que chegamos ao fim de forma rápida e intensa. O seu jejum sexual devia ser idêntico ao meu:  o meu, correspondia a uma abstinência prolongada e neurótica. O dela  deveria ter outras nuances ou então estava em consonância com o meu.
Durante um período de tempo, que não durou muito, não nos voltamos a ver. Mas pela minha parte desejava voltar a estar com aquela mulher o mais rápido possível.
A minha vida até aquele momento tinha sido uma boa merda. Não que o quisesse. Era produto duma enfermidade que me roubava progressivamente a criatividade e o desejo – situações atípicas e traumatizantes para um gajo com a minha idade, que ao roçar os trinta mal ainda correra os primeiros kilometros da maratona da vida.
Sempre me conhecera como uma pessoa desinibida e aventureira. Mas essas características, que até então tinham feito de mim uma pessoa feliz, desapareceram com a instalação da filha da puta da doença.
Se namorar nunca fora para mim um obstáculo, pelo contrário, sempre fizera dele o meu passatempo predileto, agora, dominado pela insegurança, as abordagens ao elemento feminino passaram a ser algo penoso
Portanto, conseguir estar com uma mulher de qualquer jeito tinha-se tornado uma obsessão.
Conseguira-o concretizar, até ao momento, é certo! 
Mas consumada a posse  o meu frenesim esfumava-se e quase nada ficava da volúpia com que me entregava às minhas companheiras de ocasião.
Com Isabel algo de diferente acontecera.
O que mais me inspirava nela era a sua forma despojada de encarar  a sexualidade. Estar com um homem, para ela, era puro jogo. Até lhe dera um nome:  cabra cega.
Quase me esquecia de acrescentar: erótico
Vendávamos os olhos  e cada um de nós, nus, partia à procura do outro, tateando as paredes, os móveis, até os nosso corpos se encontrarem.
Depois passávamos à segunda fase.
Cada qual tentava desenhar nos respectivos corpos, com marcadores de várias cores, aquilo que mais gostávamos de fazer: eu escrevia poesia, ela desenhava.
Ao retirarmos as vendas tentávamos combinar o que  ambos havíamos expressado.
Quando as figuras combinavam com as palavras, e davam coerência a um pequeno texto ilustrado, passávamos depois à fase seguinte que consistia em passar essas criações ao papel. 
Foi assim que fomos coleccionando o que as nossas tardes de amor haviam criado.
Depois convidávamos os nossos amigos e fazíamos saraus de poesia.
Eu lia os textos e ela acompanhava-me ao violão; invariavelmente era música flamenga o que ia para o ar.
Isabel tinha tudo para me fazer feliz. Só que o destino não gosta de pessoas felizes. Tem raiva da felicidade de seres livres e desenvoltos.
Por isso, a perseguição que lhes move.
O nosso romance acabou. Quem assim o decidiu foi a mãe de Isabel.
A senhora não achou bem que a filha menor andasse aos beijos com um trintão, divorciado.
Escreveu-me uma carta implorando que deixasse a filha em paz porque gajos como eu – divorciados e com a mania que serem artistas - não dão felicidade nenhuma a filhas caçulas de famílias endinheiradas  
Fiz-lhe a vontade.
Com a mão cheia dos poemas que havíamos criado editei um pequeno álbum que vendeu, razoavelmente.
Não me esqueci de mandar um exemplar à Senhora , com a seguinte dedicatória:
Vou esperar que a sua filha faça os vinte e um anos.
Depois casarei com ela.

domingo, 25 de setembro de 2016

A CIDADE DOS VIVOS E DOS MORTOS



                                           


Quem se lembra, outrora, da atmosfera putrefacta das ruas...
 e do silêncio das palavras não ditas.

Só ditas por quem tinha o poder de as dize
r para os compêndios do ensinar a ler
se fossem conjugados, ad eternum, os verbos sofrer, morrer
ou simplesmente, não-ser. 

Quem se lembra das gramáticas que não tinham préstimo algum porque o povo jamais aprendera a ler?

Quem se lembra ainda dos lábios e das flores entreabertas
que mais pareciam lábios de pétalas
em sobreposição com os lábios das mulatas
que os tinham aveludados
antes de se tornarem murchos nas noites de festins descarnados!

Quem se lembra ainda do desdém com que as palavras eram arremessadas
como se fossem comandadas por vozes abençoadas
nessa sociedade militarizada
onde a amor jazia na berma da estrada
e o bendito dia nunca nascia e a noite parecia eterna e amaldiçoada!

Ah! Cidade dos meus sonhos que desapareceste nas brumas do acordar
sem te dares conta como doloroso foi o teu finar
porque afinal nunca te atreveste a sonhar!
Sempre fizeste parte dos Livros dos Mortos
que te saudavam das suas mortalhas
ensanguentadas
onde o sangue maldito nunca coagulava
 já que jorrava de ventres de mães esfomeadas e maltratadas!

Hoje a maldita cidade morreu...
e no passado onde foi a enterrar
só os murmúrios das sombras  
que arrastou nesse terrível e longo penar 
está afinal a metamorfose dum sinistro ressuscitar.

Para servir outras causas
novos anseios 
de outros notabilíssimos tribunos...

Um novo e mais profundo abismo
Abre-se nessa sua vocação de não humanizar  
cumprindo assim um cruel destino
que nenhum amor consegue resgatar.