Isabel.
O que retenho, hoje,
dela, do seu temperamento irrequieto e aventureiro, nos seus dezoito, dezanove
anos, aprendiz de fórmulas de alquimia, nas horas vagas e estudante de
filosofia, a tempo inteiro – falava-me a toda a hora tanto de Rousseau como de
Voltaire - desenvolta e viva, especialmente muito viva, que fazia palavras cruzadas e
jogava xadrez , e se fazia acompanhar de um violão roufenho quando queria arrancar das suas cordas algo parecido com o
flamengo por quem tinha imensa devoção.
Quando se sentou
pela primeira vez no meu colo eu estava sentado no chão daquele escritório
vazio que acabara de alugar. Este estava numa certa penumbra. A única luz que
entrava provinha duma janela, sem
estores, e atravessava a sala criando desenhos de sombra nas paredes brancas, despidas
de qualquer adorno.
Eu tinha-me
sentado no chão. E ela sem qualquer palavra (desnecessária) havia-se sentado no
meu colo de pernas abertas.
Não tirou a roupa,
mas pude adivinhar de imediato que não usava nada por debaixo das saias que na
época era moda roçarem no chão.
A sua vagina era
húmida e quente.
E foi também sem qualquer
palavra que chegamos ao fim de forma rápida e intensa. O seu jejum sexual devia
ser idêntico ao meu: o meu, correspondia
a uma abstinência prolongada e neurótica. O dela deveria ter outras nuances ou então estava em
consonância com o meu.
Durante um período
de tempo, que não durou muito, não nos voltamos a ver. Mas pela minha parte
desejava voltar a estar com aquela mulher o mais rápido possível.
A minha vida até
aquele momento tinha sido uma boa merda. Não que o quisesse. Era produto duma
enfermidade que me roubava progressivamente a criatividade e o desejo – situações
atípicas e traumatizantes para um gajo com a minha idade, que ao roçar os
trinta mal ainda correra os primeiros kilometros da maratona da vida.
Sempre me conhecera
como uma pessoa desinibida e aventureira. Mas essas características, que até
então tinham feito de mim uma pessoa feliz, desapareceram com a instalação da
filha da puta da doença.
Se namorar nunca
fora para mim um obstáculo, pelo contrário, sempre fizera dele o meu passatempo predileto, agora, dominado pela insegurança, as abordagens ao elemento feminino
passaram a ser algo penoso
Portanto,
conseguir estar com uma mulher de qualquer jeito tinha-se tornado uma obsessão.
Conseguira-o
concretizar, até ao momento, é certo!
Mas consumada a
posse o meu frenesim esfumava-se e quase
nada ficava da volúpia com que me entregava às minhas companheiras de ocasião.
Com Isabel algo
de diferente acontecera.
O que mais me
inspirava nela era a sua forma despojada de encarar a sexualidade. Estar com um homem, para ela,
era puro jogo. Até lhe dera um nome: cabra
cega.
Quase me esquecia
de acrescentar: erótico
Vendávamos os
olhos e cada um de nós, nus, partia à
procura do outro, tateando as paredes, os móveis, até os nosso corpos se
encontrarem.
Depois passávamos
à segunda fase.
Cada qual tentava
desenhar nos respectivos corpos, com marcadores de várias cores, aquilo que
mais gostávamos de fazer: eu escrevia poesia, ela desenhava.
Ao retirarmos as
vendas tentávamos combinar o que ambos havíamos
expressado.
Quando as figuras
combinavam com as palavras, e davam coerência a um pequeno texto ilustrado, passávamos depois à fase seguinte que consistia em passar essas criações ao
papel.
Foi assim que
fomos coleccionando o que as nossas tardes de amor haviam criado.
Depois convidávamos os nossos amigos e fazíamos saraus de poesia.
Eu lia os textos
e ela acompanhava-me ao violão; invariavelmente era música flamenga o que ia
para o ar.
Isabel tinha tudo
para me fazer feliz. Só que o destino não gosta de pessoas felizes. Tem raiva
da felicidade de seres livres e desenvoltos.
Por isso, a
perseguição que lhes move.
O nosso romance
acabou. Quem assim o decidiu foi a mãe de Isabel.
A senhora não
achou bem que a filha menor andasse aos beijos com um trintão, divorciado.
Escreveu-me uma
carta implorando que deixasse a filha em paz porque gajos como eu – divorciados
e com a mania que serem artistas - não dão felicidade nenhuma a filhas caçulas
de famílias endinheiradas
Fiz-lhe a
vontade.
Com a mão cheia
dos poemas que havíamos criado editei um pequeno álbum que vendeu,
razoavelmente.
Não me esqueci de
mandar um exemplar à Senhora , com a seguinte dedicatória:
Vou esperar que a
sua filha faça os vinte e um anos.
Depois casarei
com ela.

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