segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O AMANHECER DO DESEJO



                                                  

Isabel.
O que retenho, hoje, dela, do seu temperamento irrequieto e aventureiro, nos seus dezoito, dezanove anos, aprendiz de fórmulas de alquimia, nas horas vagas e estudante de filosofia, a tempo inteiro – falava-me a toda a hora tanto de Rousseau como de Voltaire - desenvolta e viva, especialmente  muito viva, que fazia palavras cruzadas e jogava xadrez , e se fazia acompanhar de um violão roufenho quando queria  arrancar das suas cordas algo parecido com o flamengo por quem tinha imensa devoção.
Quando se sentou pela primeira vez no meu colo eu estava sentado no chão daquele escritório vazio que acabara de alugar. Este estava numa certa penumbra. A única luz que entrava provinha duma  janela, sem estores, e atravessava a sala criando desenhos de sombra nas paredes brancas, despidas de qualquer adorno.
Eu tinha-me sentado no chão. E ela sem qualquer palavra (desnecessária) havia-se sentado no meu colo de pernas abertas.
Não tirou a roupa, mas pude adivinhar de imediato que não usava nada por debaixo das saias que na época  era moda roçarem no chão.
A sua vagina era húmida e quente.
E foi também sem qualquer palavra que chegamos ao fim de forma rápida e intensa. O seu jejum sexual devia ser idêntico ao meu:  o meu, correspondia a uma abstinência prolongada e neurótica. O dela  deveria ter outras nuances ou então estava em consonância com o meu.
Durante um período de tempo, que não durou muito, não nos voltamos a ver. Mas pela minha parte desejava voltar a estar com aquela mulher o mais rápido possível.
A minha vida até aquele momento tinha sido uma boa merda. Não que o quisesse. Era produto duma enfermidade que me roubava progressivamente a criatividade e o desejo – situações atípicas e traumatizantes para um gajo com a minha idade, que ao roçar os trinta mal ainda correra os primeiros kilometros da maratona da vida.
Sempre me conhecera como uma pessoa desinibida e aventureira. Mas essas características, que até então tinham feito de mim uma pessoa feliz, desapareceram com a instalação da filha da puta da doença.
Se namorar nunca fora para mim um obstáculo, pelo contrário, sempre fizera dele o meu passatempo predileto, agora, dominado pela insegurança, as abordagens ao elemento feminino passaram a ser algo penoso
Portanto, conseguir estar com uma mulher de qualquer jeito tinha-se tornado uma obsessão.
Conseguira-o concretizar, até ao momento, é certo! 
Mas consumada a posse  o meu frenesim esfumava-se e quase nada ficava da volúpia com que me entregava às minhas companheiras de ocasião.
Com Isabel algo de diferente acontecera.
O que mais me inspirava nela era a sua forma despojada de encarar  a sexualidade. Estar com um homem, para ela, era puro jogo. Até lhe dera um nome:  cabra cega.
Quase me esquecia de acrescentar: erótico
Vendávamos os olhos  e cada um de nós, nus, partia à procura do outro, tateando as paredes, os móveis, até os nosso corpos se encontrarem.
Depois passávamos à segunda fase.
Cada qual tentava desenhar nos respectivos corpos, com marcadores de várias cores, aquilo que mais gostávamos de fazer: eu escrevia poesia, ela desenhava.
Ao retirarmos as vendas tentávamos combinar o que  ambos havíamos expressado.
Quando as figuras combinavam com as palavras, e davam coerência a um pequeno texto ilustrado, passávamos depois à fase seguinte que consistia em passar essas criações ao papel. 
Foi assim que fomos coleccionando o que as nossas tardes de amor haviam criado.
Depois convidávamos os nossos amigos e fazíamos saraus de poesia.
Eu lia os textos e ela acompanhava-me ao violão; invariavelmente era música flamenga o que ia para o ar.
Isabel tinha tudo para me fazer feliz. Só que o destino não gosta de pessoas felizes. Tem raiva da felicidade de seres livres e desenvoltos.
Por isso, a perseguição que lhes move.
O nosso romance acabou. Quem assim o decidiu foi a mãe de Isabel.
A senhora não achou bem que a filha menor andasse aos beijos com um trintão, divorciado.
Escreveu-me uma carta implorando que deixasse a filha em paz porque gajos como eu – divorciados e com a mania que serem artistas - não dão felicidade nenhuma a filhas caçulas de famílias endinheiradas  
Fiz-lhe a vontade.
Com a mão cheia dos poemas que havíamos criado editei um pequeno álbum que vendeu, razoavelmente.
Não me esqueci de mandar um exemplar à Senhora , com a seguinte dedicatória:
Vou esperar que a sua filha faça os vinte e um anos.
Depois casarei com ela.

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