domingo, 25 de setembro de 2016

A CIDADE DOS VIVOS E DOS MORTOS



                                           


Quem se lembra, outrora, da atmosfera putrefacta das ruas...
 e do silêncio das palavras não ditas.

Só ditas por quem tinha o poder de as dize
r para os compêndios do ensinar a ler
se fossem conjugados, ad eternum, os verbos sofrer, morrer
ou simplesmente, não-ser. 

Quem se lembra das gramáticas que não tinham préstimo algum porque o povo jamais aprendera a ler?

Quem se lembra ainda dos lábios e das flores entreabertas
que mais pareciam lábios de pétalas
em sobreposição com os lábios das mulatas
que os tinham aveludados
antes de se tornarem murchos nas noites de festins descarnados!

Quem se lembra ainda do desdém com que as palavras eram arremessadas
como se fossem comandadas por vozes abençoadas
nessa sociedade militarizada
onde a amor jazia na berma da estrada
e o bendito dia nunca nascia e a noite parecia eterna e amaldiçoada!

Ah! Cidade dos meus sonhos que desapareceste nas brumas do acordar
sem te dares conta como doloroso foi o teu finar
porque afinal nunca te atreveste a sonhar!
Sempre fizeste parte dos Livros dos Mortos
que te saudavam das suas mortalhas
ensanguentadas
onde o sangue maldito nunca coagulava
 já que jorrava de ventres de mães esfomeadas e maltratadas!

Hoje a maldita cidade morreu...
e no passado onde foi a enterrar
só os murmúrios das sombras  
que arrastou nesse terrível e longo penar 
está afinal a metamorfose dum sinistro ressuscitar.

Para servir outras causas
novos anseios 
de outros notabilíssimos tribunos...

Um novo e mais profundo abismo
Abre-se nessa sua vocação de não humanizar  
cumprindo assim um cruel destino
que nenhum amor consegue resgatar.
                                                                                                                         

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