Quem se lembra, outrora, da atmosfera putrefacta das ruas...
e do silêncio das
palavras não ditas.
Só ditas por quem tinha o poder de as dize
r para os
compêndios do ensinar a ler
se fossem conjugados, ad eternum, os verbos sofrer, morrer
ou simplesmente, não-ser.
Quem se lembra das gramáticas que não tinham préstimo algum
porque o povo jamais aprendera a ler?
Quem se lembra ainda dos lábios e das flores entreabertas
que mais pareciam lábios de pétalas
em sobreposição com os lábios das mulatas
que os tinham aveludados
antes de se tornarem murchos nas noites de festins descarnados!
Quem se lembra ainda do desdém com que as palavras eram arremessadas
como se fossem comandadas por vozes abençoadas
nessa sociedade militarizada
onde a amor jazia na berma da estrada
e o bendito dia nunca nascia e a noite parecia eterna e
amaldiçoada!
Ah! Cidade dos meus sonhos que desapareceste nas brumas do acordar
sem te dares conta como doloroso foi o teu finar
porque afinal nunca te atreveste a sonhar!
Sempre fizeste parte dos Livros dos Mortos
que te saudavam das suas mortalhas
ensanguentadas
onde o sangue maldito nunca coagulava
já que jorrava de ventres
de mães esfomeadas e maltratadas!
Hoje a maldita cidade morreu...
e no passado onde foi a enterrar
só os murmúrios das sombras
que arrastou nesse terrível e longo penar
está afinal a metamorfose dum sinistro ressuscitar.
Para servir outras causas
novos anseios
de outros notabilíssimos tribunos...
Um novo e mais profundo abismo
Abre-se nessa sua vocação de não humanizar
cumprindo assim um cruel destino
que nenhum amor consegue resgatar.

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