sexta-feira, 27 de setembro de 2019

OS MONUMENTOS QUEREM-SE ETERNOS CENAS 7 & 8





LOPES BARBOSA





 OS MONUMENTOS QUEREM-SE ETERNOS 








 Opereta Trágica









Adaptação livre de HAMLET de Willian Shakespeare



















FILMUS
COMPANHIA PRODUTORA DE FILMES
Maputo
Moçambique



 Reservados todos direitos
de acordo com a legislação em vigor

©2019 Joaquim Lopes Barbosa
   ©Produção Filmus- Companhia Produtora de Filmes

INLD Nº de Registo 6686/RLINLD/2019

















Nenhuma salvação é suficiente, qualquer condenação é definitiva.


JOSÉ SARAMAGO
O Evangelho Segundo Jesus Cristo







Continuação...






CENA 7
INTERIOR – DIA

GABINETE DO COMANDANTE-CHEFE
PRESENTES NO GABINETE O COMAN­DANTE-CHEFE, A VIÚVA DO PRESIDENTE, NAFIZA, PATUA, SEFO E OUTROS.

COMANDANTE-CHEFE
(Dirigindo-se a Patua)
E não podereis, sem o denunciar, tirar dele o que des­cobriu sobre a morte do Presidente?

PATUA
Ele próprio confessa que está praticamente no fim da sua investigação. Mas a conclusão final por nada a confessa...

SEFO
Nunca o encontrámos aberto a revelar o mínimo do que descobriu. E quando o forçamos parece que se entrepõe, entre nós e ele, uma força dissuasora que o mantém lúcido e o obriga a calar-se.

VIÚVA DO PRESIDENTE
Recebeu-vos bem?

PATUA
Como um verdadeiro amigo.

SEFO
Mas encontrámo-lo bastante constrangido...

PATUA
Faz muitas perguntas mas é avaro em respostas...

VIÚVA DO PRESIDENTE
Falas-te-lhes na necessidade de se divertir?

PATUA
Senhora, acontece que, no dia do nosso encontro, foi visitado também por antigos colegas da companhia de teatro que em tempos dirigiu e combinaram vol­tar a pôr em cena várias peças, inclusivé, a última que acabou recentemente de escrever e versa, exactamen­te, sobre a tragédia do vosso Presidente.

VIÚVA DO PRESIDENTE
Mas isso é uma grande revelação! Senhor Primeiro-Ministro, estava a par desta notícia?

PRIMEIRO-MINISTRO
De maneira nenhuma, senhora! Isso é uma grande novidade!


COMANDANTE-CHEFE
Uma peça de teatro que fala sobre o nosso Presidente morto?

PATUA
Nem mais Excelência! Foi o que pudemos deduzir da conversa que Samowha manteve com os actores. Se­gundo entendi, será o próximo espectáculo teatral da companhia a levar à cena, muito brevemente.

COMANDANTE-CHEFE
Precisamos de conhecer o texto antes da sua monta­gem. Patua será possível obterem para nós uma cópia do texto original?

PATUA
Excelência, não sei se vai ser possível. Não sei se o au­tor vai estar disposto a divulgar o conteúdo da peça antes da sua apresentação pública!

COMANDANTE-CHEFE
Têm de fazer o possível para nos trazerem uma cópia do texto...

SEFO
Excelência, vamos fazer o possível para vos trazermos uma cópia do texto.

COMANDANTE-CHEFE
Agradeço-vos, antecipadamente. Podem sair. Ficare­mos na expectativa de nos voltarmos a ver depois de terem conseguido o que vos estamos a pedir.

(SAEM DO GABINETE PATUA E SEFO).

COMANDANTE-CHEFE
Senhor Primeiro-Ministro, estamos frente a um acon­tecimento que requer a intervenção da polícia políti­ca. Temos toda a necessidade de saber, em primeira mão, o conteúdo do texto escrito pelo jornalista Sa­mowha sobre a morte do nosso Presidente!
Não podemos permitir que o mesmo seja levada à cena, sem o nosso conhecimento prévio! Trata-se de Segurança de Estado! Tem alguma ideia como pode­mos obter esse texto?

PRIMEIRO-MINISTRO
Só vejo uma maneira de o conseguir: é roubando-o! Porque, tenho toda a certeza que o autor não o vai entregar de livre vontade.
E como não podemos exigir a sua entrega – porque tratar-se-ai de um acto de censura – só roubando-o é que o podemos obter!
Temos de instruir a polícia política de que obter esse texto passa a ser uma prioridade nacional!



VIÚVA DO PRESIDENTE
Senhores, não nos estamos a precipitar demais expon­do-nos dessa maneira? Ao envolver a polícia política numa acção de roubo não estamos a denunciar uma culpabilidade antecipada dum juízo somente artístico e do qual nada sabemos! Porque não esperar que a peça suba à cena para nessa altura conhecermos o seu desfecho! Se o autor quer dizer alguma coisa sobre o nosso Presidente devemos dar-lhe essa liberdade. E o autor já deu por diversas vezes provas de que ama o seu Presidente!

COMANDANTE-CHEFE
Senhora, é esse amor desmedido que o jornalista Sa­mowha sente pelo nosso Presidente morto que me assusta! O que estará nesse texto para querer, rapida­mente, torná-lo público?

PRIMEIRO-MINISTRO
Talvez a pertinência da data, já que vamos comemorar mais um ano de independência nacional.

COMANDANTE-CHEFE
Mesmo assim, devemos manter o autor vigiado. Se­nhor Primeiro-Ministro proceda de acordo com a gravidade da situação! O Jornalista Samowha tem de ser enquadrado num esquema de vigilância. E é de todo necessário conhecermos o teor do seu texto tea­tral.

NAFIZA
Paizinho, talvez eu possa dar uma ajuda. A raiva que o jornalista Samowha sentia por mim talvez já tenha passado e a minha aproximação seja consentida. Por­que não tentar? A perder, não temos nada!

COMANDANTE-CHEFE
Consentido, minha filha. Nesta altura todas as ajudas são bem-vindas!

NAFIZA
Foi por pensar nessa possibilidade que eu me anteci­pei e já pedi que o jornalista Samowha me procurasse. Aguardo que me contacte a todo o instante.

COMANDANTE-CHEFE
Minha filha, acabo por te render homenagem. Bem pensado. Se tudo correr bem talvez a intervenção da polícia não venha a ser necessária, o que nos pode poupar muitos embaraços. Vamos aguardar que tudo corra bem.

PRIMEIRO-MINISTRO
Sendo assim, talvez nos devessemos retirar e deixar que o destino cumpra a sua parte.

(O COMANDANTE E O PRIMEIRO-MINISTRO ESCONDEM-SE ATRÁS DE UM REPOSTEIRO. UM ASSESSOR ABRE A PORTA PARA SAMOWHA EN­TRAR).

SAMOWHA
Ser ou não ser, eis a questão. Porque interrogo, porque me atormento, porque deixo voar o pensamento? Rei morto, rei posto! Sempre foi assim deste os tempos mais remotos. Então, porque não me aquieto e deixo que a memória faça o seu trabalho: resgate no tem­po adequado as causas, os agentes, os objectivos pelo desaparecimento prematuro do nosso querido Presi­dente? Porque não dar um fim a estas penas que me transbordam do coração?

NAFIZA
Querido Samowha, por estes dias todos, como tens passado?


SAMOWHA
Bem, bem e bem. Humildemente, agradeço o vosso interesse.

NAFIZA
Como tenho lembranças vossas e como as desejava devolver.

SAMOWHA
Mas eu nunca te dei nada!

NAFIZA
Meu bom amigo, eu sei bem que sim... só o som das vossas palavras são presentes perfumados. E, neste momento, como eu gostaria de os poder devol­ver da maneira como tu mos destes: com amor.

SAMOWHA
Ah! Sois então apaixonada por mim?

NAFIZA
Meu querido Samowha, eu...

SAMOWHA
Como sois bela!

NAFIZA
O que queres dizer?

SAMOWHA
Se és séria, a tua honestidade não devia aceitar home­nagens à tua beleza.

NAFIZA
Querido Samowha, que melhor companhia posso de­sejar para a minha beleza do que, exactamente, a ho­nestidade!

SAMOWHA
Tens de ter cuidado, o poder da beleza pode ser enganador e transformar a honestidade em oportunismo!

NAFIZA
Realmente?

SAMOWHA
Sim, uma mulher menos séria está sujeita a muitas tentações e se é bela mais perigos corre! Antigamente, isso era um paradoxo, mas agora os tempos se encar­regaram de demonstrá-lo.

NAFIZA
Queres dizer que quem ama corre perigo?

SAMOWHA
Sim, se não for verdadeiro o amor que diz estar a sen­tir!

NAFIZA
E como sabemos se o amor que sentimos é verdadeiro ou não?

SAMOWHA
Depois de sentido, tem de ser muitas vezes testado e, finalmente, deixado a amadurecer. Como aconte­ce com determinados vinhos, só se revela de grande qualidade com a idade!

NAFIZA
Samowha, tu amas?

SAMOWHA
Sim, amo a poesia, e nada mais! O que é vida sem a transferência do efémero para o arco do eterno que pomos a rodar no asfalto, como na infância? Poesia é toda a vida já por nos vivida e toda a outra que veleja na saudade do que não vivemos. Dou-te um conselho Nafiza. Se casares, que seja por amor, e mantém o es­pírito do amor fiel e puro como o gelo. Os casamentos por interesse um dia hão-de acabar, digo-te eu. Os ou­tros, os verdadeiros, ficarão para sempre. Adeus.

(SAMOWHA SAI)

NAFIZA
Ah! Como cai na escuridão um espírito outrora tão lúcido! Como foi espelho e flor desta nação, um exem­plo de rectidão, a sua linguagem tinha a exactidão dos putilos - e fazia-se notar pela coragem na busca da im­parcialidade! Hoje, mudou! Fala de coisas que não são comum à maioria dos mortais! Como pode continuar a ser exemplo a seguir?

(O COMANDANTE-CHEFE E O PRIMEIRO-MINIS­TRO SAEM DE TRÁS DO REPOSTEIRO)

COMANDANTE-CHEFE
Amor? Não parece para aí inclinado...Nem sequer no que diz, nem no que faz. Há qualquer coisa dentro de si, em incubação, que receio poder vir a ser perigosa e que é preciso evitar a todo custo! E há-de ser para já... Tal­vez mandá-lo com urgência para um país distante, em missão de serviço. Terras diferentes e novas paisagens podem expulsar-lhe do coração o mal oculto.

COMANDANTE-CHEFE
Senhor Primeiro-Ministro, o que pensa da ideia?

PRIMEIRO-MINISTRO
Talvez resulte. Mas continuo a pensar que a origem e o começo do seu mal estão ligados ao amor! Nafiza, não te terás enganado na forma como avaliaste as suas motivações? Apesar de termos ouvido tudo quanto se disse aqui, continuo inclinado a pensar que padece de amor profundo, a roçar a loucura! Excelência, porque não continuar a vigiá-lo até termos conseguido iden­tificar a origem do mal de que padece?

COMANDANTE-CHEFE
Que seja como dizeis. A loucura dos grandes mais re­quer que se vigie.

(AMBOS SAEM DO GABINETE)



                                                                 CENA 8
INTERIOR – DIA

SALA DE TEATRO. ESTÃO PRESENTES SAMOWHA E TRÊS ACTORES

SAMOWHA
Diz a tirada que te dei tal e qual; mas sem hesitações. Não feches muito o ar com as mãos. Nada de esbrace­jar. Até na tempestade ou no próprio ciclone da paixão é possível a temperança que lhe dá suavidade.

PRIMEIRO ACTOR
Sim, Mestre...

SAMOWHA
Mas não sejas frio em demasia: deixa que o teu bom senso te guie. Que o gesto sirva a palavra e esta sirva a acção. Mostra a virtude tal como ela e da infâmia dá o seu cariz exacto.

PRIMEIRO ACTOR
Mestre, espero que tenhamos feito todas as correcções necessárias.

SAMOWHA
Estou totalmente convencido que sim. Os ensaios ter­minaram. Podem sair.

(SAEM OS ACTORES E ENTRAM O PRIMEIRO-MI­NISTRO, PATUA E SEFO)

SAMOWHA
Meus caros amigos, Senhor Primeiro-Ministro, calcu­lo que vêm saber quando estreamos a peça?

PRIMEIRO-MINISTRO
Exactamente, a expectativa é grande no seio do Go­verno! Agravada pelo secretismo com que decorre­ram os seus ensaios!

SAMOWHA
Acabamos, agora mesmo, de marcar a sua ante-estreia para amanhã, em sessão especial para todos os Mem­bros do Governo e para todos os que quiserem nos dar a honra de assistir à sua primeira exibição.

PRIMEIRO-MINISTRO
Perfeito! Vou, pessoal e imediatamente, comunicar esta boa notícia a todo o corpo do Governo.

PATUA
Eu e Sefo iremos divulgá-la à sociedade em geral.

(SAEM. EM SIMULTÂNEO ENTRA O SOLDADO OKORO, VESTIDO À CIVIL.)

SAMOWHA
Okoro, ainda bem que vieste.

OKORO
Não podia deixar de vir, tal como me pediste.

SAMOWHA
De todos os meus amigos, és tu, Okoro, aquele em quem confio.

OKORO
Sinto-me muito honrado por isso...

SAMOWHA
O que vou pedir-te tem de ficar só entre nós...

OKORO
Mesmo sem saber o que pretendes, já tens a minha palavra de nada revelar se for essa a tua intenção!

SAMOWHA
Sim. Então escuta: amanhã vamos fazer a ante-estreia da minha peça mais recente. Como já tive
ocasião de te contar, vão-se desenrolar algumas cenas que têm correspondência com os últimos momentos da vida e da morte do nosso Presidente. O que te peço é fiques atento às reacções dos Ministros e, em particular, não tires os olhos do comportamento do Comandante-Chefe. Os meus próprios olhos estarão cravados no seu rosto, espiando-lhe também as possíveis reacções. Depois, juntos julgaremos o que eles deixarem trans­parecer.

OKORO
Sim, amigo, não deixarei de anotar as suas reacções, nos momentos fulcrais da peça, exactamente nos pon­tos que assinalaste.

SAMOWHA
Exacto. É isso que te peço. Agora, vamo-nos. Amanhã, o que estiver para ser revelado, revelado será!

Continua...