LOPES BARBOSA
OS MONUMENTOS QUEREM-SE ETERNOS
Adaptação livre de HAMLET de Willian
Shakespeare
FILMUS
COMPANHIA PRODUTORA DE FILMES
Maputo
Moçambique
de acordo com a legislação em vigor
©2019 Joaquim Lopes Barbosa
©Produção Filmus- Companhia Produtora de Filmes
INLD Nº de Registo 6686/RLINLD/2019
Nenhuma salvação é
suficiente, qualquer condenação é definitiva.
JOSÉ SARAMAGO
O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Continuação...
CENA 3
INTERIOR – DIA
GABINETE DO PRIMEIRO-MINISTRO.
O Primeiro-ministro encontra-se
sentado na secretária, tendo Guissilar e Nafiza à sua frente, de pé.
GUISSILAR
Pai, tomei a liberdade de trazer
comigo a filha do nosso Comandante-Chefe para lhe lembrar da sua promessa de
abrir o governo, que o pai dirige, ao novo sistema de iniciativa privada!
Gostaria de lhe pedir a maior brevidade! A nossa geração está ansiosa por criar
riqueza e esta, como o pai bem sabe, só se alcança através do
capital-dinheiro.
NAFIZA
E nós temos o dinheiro-família
para investir...
GUISSILAR
E
reproduzir...Por isso, a única peça que está a faltar para o nascimento do
capital privado é a sua legislação. E o pai é a pessoa indicada para fazer o
aparecimento de todas as leis necessárias ao seu funcionamento.
PRIMEIRO-MINISTRO
(Colocando-se de pé junto a secretária)
Meu filho, mais contenção. Não sou eu que decido sozinho.
Como sabem, há mais pessoas que têm de se pronunciar e assinar os Decretos que
autorizam a mudança do regime.
GUISSILAR
Pai, mas o
senhor ouviu o próprio Comandante-Chefe a referir-se sobre o assunto. As suas
palavras, mesmo proferidas de forma informal, são Lei neste país.
PRIMEIRO-MINISTRO
(Dando a volta a secretária)
Mesmo assim, há procedimentos que têm de ser respeitados.
Por isso, volto a dizer que devem ter mais contenção. Hoje mesmo vou reunir o
meu governo para avançarmos com a estratégia mais adequada para a sua
implementação. Mas o Comandante-Chefe tem de avalizar todo o edifício legal
para a entrada em funcionamento do novo regime.
NAFIZA
Sobre esse aspecto, não vejo nenhum problema. Geralmente,
o meu pai nunca contradiz a sua filha caçula.
PRIMEIRO-MINISTRO
Meus filhos. Nafiza. gravem na memória alguns preceitos,
já que vão entrar na vida adulta e, através das empresas que vão criar, vão ter
o poder de interferir com muitas famílias.
Não se esqueçam que as vossas futuras acções, por mais
pequenas que sejam, vão ser decisivas para o bem estar, ou mal estar, de muita
gente.
Eis os preceitos, transformados
em mandamentos, que vos lego:
Conhece-te a ti próprio, não dês
ouvidos a rumores, não ajas ou fales sem pensar primeiro. Sê acessível,
simples, mas sem vulgaridade. Aos amigos, após experimentados, prende-os com
arpões de aço, mas não dês primeiro a mão em demasia a qualquer estouvado
camarada. Evita, teme questionar, mas, se entrares em luta, que saias com o teu
opositor temendo-te.
Atende toda a gente, mas pensa
por ti; aceita censuras, mas reserva a tua opinião.
Quanto á vestir, seja o que tua
bolsa pode, mas sem artificialismos. Como sabes, o hábito faz o monge e os
empresários ditos de sucesso, por estarem muito expostos, muitas vezes não tem
o sucesso que ostentam.
Não sejas prestamista nem peças
emprestado, quem empresta perde por si e pelo amigo e o que pede emprestado,
em economia, é fraco.
Acima de tudo sê sincero para
contigo mesmo porque, se assim procederes, não conseguirás ser falso com
ninguém.
PRIMEIRO-MINISTRO
Guissilar e Nafiza, vão em paz e
que estes conselhos fortaleçam o vosso amadurecimento...
GUISSILAR
Pai, penso desenvolver o meu
espírito com o mesmo vigor que vou imprimir às minhas futuras empresas.
PRIMEIRO-MINISTRO
Assim
espero que faças...
GUISSILAR
Vamos
Nafiza, espera-nos muito trabalho.
NAFIZA
Vai tu, se não te importas, queria falar um pouco a sós
com o teu pai.
GUISSILAR
(Saindo
da sala)
Sendo
assim, adeus.
PRIMEIRO-MINISTRO
(Acercando-se
de Nafiza)
Qual é o assunto que queres tratar comigo, sem a presença
do meu filho?
NAFIZA
Está
relacionado com o jornalista Samowha.
PRIMEIRO-MINISTRO
Com o jornalista Samowha ou com a imprensa em geral?
NAFIZA
Só com ele. De forma discreta, tem-me falado com ternura
e dado provas da sua afeição por mim.
PRIMEIRO-MINISTRO
Afeição? Tens a certeza que é só isso?
NAFIZA
Não sei. Nem sei o que hei-de pensar?
PRIMEIRO-MINISTRO
Excelente! Vou ensinar-te. Falaste de afeição? Ternura?
Sendo quem és, a mim cheira-me
mais a interesse de abordagem familiar. Tem cuidado.
E mantém as convenientes
distâncias...
NAFIZA
Senhor, ele insiste dizendo que
me admira, honestamente, etc...
PRIMEIRO-MINISTRO
Fantasias. Fica atenta...
NAFIZA
Deu mostras de sinceridade ao
falar-me. Jurou-me por tudo que há no céu...
PRIMEIRO-MINISTRO
Fogachos, minha querida.
Fogachos que parecem dar
muita luz mas ficam em cinzas
muito depressa. Não tome luz por fogueira. Doravante, sê mais selectiva e
encarece um pouco mais as tuas entrevistas. Quanto ao jornalista Samowha,
quero alertar-te para teres cuidado. Toda a gente sabe das suas obsessões e
pode andar, digamos, mais a rédea solta do que seria desejável.
PRIMEIRO-MINISTRO
Em resumo, Nafiza, não acredites
nos seus juramentos, nem nas suas pretensões de desejos pouco santos,
perfumados de virtude e piedade. Penso que está a fazer isso para te enganar.
NAFIZA
Sim,
Senhor. Obrigado pelas suas palavras. Vou lembrar-me de tudo o que me disse.
(NAFIZA SAI DO GABINETE DO P.M.)
PRIMEIRO-MINISTRO
Vai em paz e tem cuidado.
EXTERIOR – NOITE
No local onde os sentinelas costumam
fazer a ronda da guarda, junto ao Palácio Governamental. Samowha encontra-se
meio escondido junto do arvoredo. Presentes para a ronda estão os soldados
Okoro e Daudo, devidamente armados.
SAMOWHA
A noite está péssima...Está um destes frios!
OKORO
Frio, fino e cortante, realmente!
SAMOWHA
Que horas são?
OKORO
Creio que é quase meia-noite.
DAUDO
Não, já passa.
OKORO
O certo é que ainda a não ouvi soar. Mas deve estar próximo.
É o momento apetecido para a aparição do vulto desconhecido...
NESTE PRECISO MOMENTO, OUVE-SE
DISTINTAMENTE, ECOANDO NA NOITE, TOQUE DE FANFARRA MILITAR E PEÇAS DE
ARTILHARIA DISPARAM COM O SEU RUÍDO CARACTERISTICO.
OKORO
O que significa isto?
SAMOWHA
Ah! Tínhamos-nos esquecido.
Comemoramos hoje mais um ano da nossa independência.
OKORO
Como temos andado distraídos! É
o costume!
SAMOWHA
Exactamente, é a tradição. Mas
vindo de quem vem, não sei se haverá muita festa para comemorar...
O ESPECTRO NESTE MOMENTO FAZ A
SUA APARIÇÃO.
OKORO
Olhai, senhor jornalistra. Ei-lo
que chega.
SAMOWHA
Sejas tu espírito de bem ou uma
alma danada, tragas contigo ares do céu ou labaredas do inferno, sejas portador
de boas ou más intenções, mostrai-vos, pois quero falar-vos. Responde: quem és tu? E
porque os teus ossos
romperam as pesadas e frias mortalhas e resolveram, de novo, dar corpo ao teu
espírito? Que quer isto dizer? Com que fim o teu cadáver aos raios da lua se
mostra de novo, assombrando a noite? Horrorizamos-nos de pensar que, para além
da nossa alma, algo mais consegue ainda perturbar-nos!
SAMOWHA
Diz! Diz o que é isto! E o que
devemos fazer?
O ESPECTRO ACENA A SAMOWHA
OKORO
Ele está a fazer-vos sinal para que o
acompanheis. Talvez tenha qualquer coisa de grave a comunicar-
-vos, bem a sós.
DAUDO
(Apontando a arma na direção
do Espectro).
Não o sigais, senhor.
OKORO
(Igualmente com a arma
apontada na direção do Espectro)
Também acho que não o deves
seguir, de forma alguma...
SAMOWHA
Mas ele não falará se não o
acompanhar. Segui-lo-ei, portanto.
OKORO
Nao faça isso, senhor jornalista.
SAMOWHA
Porquê? Que
medo é esse? Para mim a vida vale o preço de uma revelação, vinda ela de um
imortal. Acena-me de novo. Vou segui-lo.
OKORO
E se ele vos tenta para a falésia que desce para o mar e
lá em cima se transforma em algo horrível que vos enlouqueça? Pensai bem,
senhor antes de o seguires.
SAMOWHA
Continua a fazer-me sinais. Vamos. Segui-lo-ei.
DAUDO
(Okoro e Daudo tentam agarrar Samowha)
Não o deveis fazer, senhor, por nada deste mundo.
SAMOWHA
Tirem-me as mãos de cima!
OKORO
(Libertando Samowha)
Sê prudente! Não o sigais.
SAMOWHA
Tarde demais, soldados. A minha sorte está lançada. Se eu
não voltar, sabem que agi por uma boa causa.
OKORO
Não faça isso, senhor jornalista.
SAMOWHA CAMINHA EM DIRECÇÃO AO ESPECTRO QUE SE ENCONTRA
A POUCOS METROS DO SÍTIO ONDE ESTÃO OS SOLDADOS.
OKORO
Enlouqueço
só de pensar o pior...
DAUDO
Sigamo-lo.
É melhor que obedecer-lhe.
OKORO
Vamos, sem o perder de vista. E que Deus o guie!
DAUDO
Seja como for, sigamo-lo.
OKORO E DAUDO CAMINHAM A POUCA DISTÂNCIA DE SAMOWHA,
SEGUINDO-O JUNTO AO RECANTO DA MURALHA QUE LADEIA O PALÁCIO GOVERNAMENTAL.
SAMOWHA
(Que se aproxima do Espectro).
Onde me queres levar? Fala! Não vou mais além.
ESPECTRO
Estás
pronto para ouvir?
SAMOWHA
Estou
pronto.
ESPECTRO
É quase chegada a hora de regressar à dor do esquecimento
sem fim...
SAMOWHA
Oh! Pobre
alma penada!
ESPECTRO
Não me lamentes; antes escuta-me, ouvindo a sério o que
eu te revelar...
SAMOWHA
Fala. Estou
preparado para ouvir.
ESPECTRO
Assim o estejas para fazeres também justiça após me teres
ouvido!
SAMOWHA
Sim, assim
farei...Mas agora, por favor, fala!
ESPECTRO
Sou o espírito do teu Presidente, condenado, por algum
tempo, a vaguear perdido na noite e de dia confinado ao isolamento e à
cegueira até que os loucos crimes por mim cometidos, enquanto vivo, me sejam
perdoados. É-me vedado revelar-te os segredos da morte. E se tos contasse,
gelar-se-te-iam o sangue e a alma. Ouve, Samowha, ouve: se é que algum dia estimaste
o teu Presidente...
SAMOWHA
Ó! Deus!
ESPECTRO
...Peço-te que faças justiça, descobrindo as verdadeiras
causas da minha morte.
SAMOWHA
Presidente, o que se passou realmente nesse fatídico dia
em que todos pereceram?
ESPECTRO
Não sabemos e onde estamos está-nos vedada, para sempre,
a compreensão para o que realmente aconteceu
SAMOWHA
Presidente, não vai ser fácil descobrir a verdade. A sua
morte está envolta em Segredo de Estado. Compreende o alcance desta medida decidida
pelo orgão máximo da chefia do Estado?
ESPECTRO
Sim, entendo, mas não entendo
porque querem encobrir o que realmente aconteceu: será que foi sabotagem ou
acidente o que esteve por detrás do que nos vitimou? No momento da minha morte,
senti-me afetado no laço da verdade, os meus últimos pensamentos foram para
ti, meu fiel amigo, pela tua postura de nunca me teres bajulado ou escondido
críticas à forma como governei o nosso querido país, enquanto fui seu
presidente. E é em ti, pois, que deposito esta necessidade de descoberta das
reais causas da minha morte.
SAMOWHA
Presidente, como previ a sua
morte... Como li, nas entrelinhas, que alguma coisa nefasta podia vir a
acontecer-lhe...
ESPECTRO
E aconteceu mesmo, meu querido
amigo.
SAMOWHA
No entanto, até hoje, nada de decisivo foi
revelado que nos possa conduzir à total descoberta da
verdade. Homocídio ou acidente?
Golpe de Estado ou puro acaso na mudança do devir histórico do nosso povo?
ESPECTRO
Samowha, deixo nas tuas mãos a possibilidade de poderes
apaziguar o infortúnio que nos atingiu. Não te esqueças, nem por um instante,
que não são só os vivos que precisam de saber a verdade. Os mortos, apesar de
todas as evidências, continuam à procura do melhor caminho para deixar para
sempre a opacidade da vida que viveram e mergulharem, finalmente, na
eternidade.
(O ESPECTRO INTERROMPE A FALA)
ESPECTRO
Adeus, amigo. O pirilampo mostra que chega a
manhã pelo apagar do seu leve fogo. Adeus, Samowha. Mais uma vez, lembra-te de
mim.
(O ESPECTRO DESAPARECE DESVANECENDO-SE)
SAMOWHA
Adeus, Presidente. Para poder
cumprir o que me pedes viverei para decifrar os enigmas que a tua vida criou e
a própria morte não enterrou.
Adeus, Adeus! “Lembra-te de
mim!” Será doravante a minha divisa. Juro-te.
(OS SOLDADOS OKORO E DAUDO APROXIMAM-SE DO
LOCAL ONDE ESTÁ SAMOWHA.)
OKORO E DAUDO
Senhor Jornalista! Senhor
Jornalista!
DAUDO
Senhor jornalista.
OKORO
Está bem?
Sente-se bem?
SAMOWHA
Estou bem,
obrigado.
OKORO
Estávamos
muito preocupados, consigo!
SAMOWHA
Em nenhum momento corri perigo. Mas obrigado pela vossa
preocupação!
DAUDO
Conseguiu
falar-lhe?
OKORO
É mesmo o
nosso Presidente?
SAMOWHA
Nunca vi
tamanho prodígio.
OKORO
Senhor
jornalista, o que aconteceu?
SAMOWHA
Não vos posso contar. Corria o risco de vocês revelarem
o que aconteceu aqui, nesta noite.
OKORO
Juro por Deus, se necessário, nada revelar se for esse o
vosso desejo.
DAUDO
Eu também
juro, nada dizer...
SAMOWHA
Seja.
Sereis discretos?
AMBOS
Sim, por
amor de Deus, confiai em nós.
SAMOWHA
Coitado do nosso Presidente, porque era mesmo ele,
agitado, inquieto, vítima da ignorância ou perfídia humana.
OKORO
É uma alma penada?
SAMOWHA
Não sei. Sei que me pediu para descobrir porque morreu.
OKORO
Sabe ao
menos, quem o matou?
SAMOWHA
Não, não sabe. Por isso a sua grande perplexidade!
OKORO
Como deve
sofrer!
SAMOWHA
Onde está, espera que o libertemos das amarras da dúvida.
OKORO E DAUDO
Que
infelicidade!
SAMOWHA
Soldados,
como meus amigos, chegou a hora de vos pedir um grande favor.
Não digam nunca o
que viram esta noite.
AMBOS
Nada
diremos.
SAMOWHA
Sim, mas
jurem.
OKORO
Pela minha
honra, nada direi!
DAUDO
Nem eu,
senhor, juro.
SAMOWHA
Aceito o vosso juramento, como verdadeiro. Só vos posso
dizer que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia.
E, vós, Presidente que me escolheste para ser o vosso intérprete nas interrogações
que vos atormentam só vos posso dizer que me sinto pequeno para a dimensão
daquilo que me pedes.
No entanto, por mais fraco que me venha a revelar, fica a
promessa de fidelidade aos ideais que forjaste e uma luta sem tréguas em prol
da justiça e da verdade, que o teu sonho de uma sociedade justa, embora discutível,
cristalizava.
Fica em paz, estejas onde estiveres.
(SAMOWHA INTERROMPE A FALA)
SAMOWHA
Vamos embora, amigos, que a aurora desponta.
De hoje em diante, somos irmãos e cúmplices perante a morte. Mas o inadiável da
vida espera-nos. Vamos e que Deus nos ajude.
Continua...

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