segunda-feira, 9 de setembro de 2019

OS MONUMENTOS QUEREM-SE ETERNOS (CENAS 3 & 4)











LOPES BARBOSA





 OS MONUMENTOS QUEREM-SE ETERNOS 








 Opereta Trágica









Adaptação livre de HAMLET de Willian Shakespeare



















FILMUS
COMPANHIA PRODUTORA DE FILMES
Maputo
Moçambique



 Reservados todos direitos
de acordo com a legislação em vigor

©2019 Joaquim Lopes Barbosa
   ©Produção Filmus- Companhia Produtora de Filmes

INLD Nº de Registo 6686/RLINLD/2019

















Nenhuma salvação é suficiente, qualquer condenação é definitiva.


JOSÉ SARAMAGO
O Evangelho Segundo Jesus Cristo






Continuação...








CENA 3

  INTERIOR – DIA 

GABINETE DO PRIMEIRO-MINISTRO.
O Primeiro-ministro encontra-se sentado na secretária, tendo Guissilar e Nafiza à sua fren­te, de pé.

GUISSILAR
Pai, tomei a liberdade de trazer comigo a filha do nos­so Comandante-Chefe para lhe lembrar da sua pro­messa de abrir o governo, que o pai dirige, ao novo sistema de iniciativa privada! Gostaria de lhe pedir a maior brevidade! A nossa geração está ansiosa por criar riqueza e esta, como o pai bem sabe, só se alcan­ça através do capital-dinheiro.

NAFIZA
E nós temos o dinheiro-família para investir...

GUISSILAR
E reproduzir...Por isso, a única peça que está a faltar para o nascimento do capital privado é a sua legisla­ção. E o pai é a pessoa indicada para fazer o apareci­mento de todas as leis necessárias ao seu funciona­mento.

PRIMEIRO-MINISTRO
(Colocando-se de pé junto a secretária)
Meu filho, mais contenção. Não sou eu que decido sozinho. Como sabem, há mais pessoas que têm de se pronunciar e assinar os Decretos que autorizam a mudança do regime.

GUISSILAR
Pai, mas o senhor ouviu o próprio Comandante-Chefe a referir-se sobre o assunto. As suas palavras, mesmo proferidas de forma informal, são Lei neste país.

PRIMEIRO-MINISTRO
(Dando a volta a secretária)
Mesmo assim, há procedimentos que têm de ser res­peitados. Por isso, volto a dizer que devem ter mais contenção. Hoje mesmo vou reunir o meu governo para avançarmos com a estratégia mais adequada para a sua implementação. Mas o Comandante-Chefe tem de avalizar todo o edifício legal para a entrada em funcionamento do novo regime.

NAFIZA
Sobre esse aspecto, não vejo nenhum problema. Ge­ralmente, o meu pai nunca contradiz a sua filha caçula.

PRIMEIRO-MINISTRO
Meus filhos. Nafiza. gravem na memória alguns pre­ceitos, já que vão entrar na vida adulta e, através das empresas que vão criar, vão ter o poder de interferir com muitas famílias.
Não se esqueçam que as vossas futuras acções, por mais pequenas que sejam, vão ser decisivas para o bem estar, ou mal estar, de muita gente.
Eis os preceitos, transformados em mandamentos, que vos lego:
Conhece-te a ti próprio, não dês ouvidos a rumores, não ajas ou fales sem pensar primeiro. Sê acessível, simples, mas sem vulgaridade. Aos amigos, após ex­perimentados, prende-os com arpões de aço, mas não dês primeiro a mão em demasia a qualquer estouvado camarada. Evita, teme questionar, mas, se entrares em luta, que saias com o teu opositor temendo-te.
Atende toda a gente, mas pensa por ti; aceita censuras, mas reserva a tua opinião.
Quanto á vestir, seja o que tua bolsa pode, mas sem artificialismos. Como sabes, o hábito faz o monge e os empresários ditos de sucesso, por estarem muito ex­postos, muitas vezes não tem o sucesso que ostentam.
Não sejas prestamista nem peças emprestado, quem empresta perde por si e pelo amigo e o que pede em­prestado, em economia, é fraco.
Acima de tudo sê sincero para contigo mesmo por­que, se assim procederes, não conseguirás ser falso com ninguém.

PRIMEIRO-MINISTRO
Guissilar e Nafiza, vão em paz e que estes conselhos fortaleçam o vosso amadurecimento...

GUISSILAR
Pai, penso desenvolver o meu espírito com o mesmo vigor que vou imprimir às minhas futuras empresas.

PRIMEIRO-MINISTRO
Assim espero que faças... 

GUISSILAR
Vamos Nafiza, espera-nos muito trabalho.

NAFIZA
Vai tu, se não te importas, queria falar um pouco a sós com o teu pai.

GUISSILAR
(Saindo da sala)
Sendo assim, adeus.

PRIMEIRO-MINISTRO
(Acercando-se de Nafiza)
Qual é o assunto que queres tratar comigo, sem a pre­sença do meu filho?

NAFIZA
Está relacionado com o jornalista Samowha.

PRIMEIRO-MINISTRO
Com o jornalista Samowha ou com a imprensa em geral?

NAFIZA
Só com ele. De forma discreta, tem-me falado com ternura e dado provas da sua afeição por mim.



PRIMEIRO-MINISTRO
Afeição? Tens a certeza que é só isso?

NAFIZA
Não sei. Nem sei o que hei-de pensar?

PRIMEIRO-MINISTRO
Excelente! Vou ensinar-te. Falaste de afeição? Ternura?
Sendo quem és, a mim cheira-me mais a interesse de abordagem familiar. Tem cuidado. 
E mantém as con­venientes distâncias...

NAFIZA
Senhor, ele insiste dizendo que me admira, honesta­mente, etc...

PRIMEIRO-MINISTRO
Fantasias. Fica atenta...

NAFIZA
Deu mostras de sinceridade ao falar-me. Jurou-me por tudo que há no céu...

PRIMEIRO-MINISTRO
Fogachos, minha querida. Fogachos que parecem dar
muita luz mas ficam em cinzas muito depressa. Não tome luz por fogueira. Doravante, sê mais selectiva e encarece um pouco mais as tuas entrevistas. Quan­to ao jornalista Samowha, quero alertar-te para teres cuidado. Toda a gente sabe das suas obsessões e pode andar, digamos, mais a rédea solta do que seria dese­jável.

PRIMEIRO-MINISTRO
Em resumo, Nafiza, não acredites nos seus juramen­tos, nem nas suas pretensões de desejos pouco santos, perfumados de virtude e piedade. Penso que está a fa­zer isso para te enganar.

NAFIZA
Sim, Senhor. Obrigado pelas suas palavras. Vou lembrar-me de tudo o que me disse.

(NAFIZA SAI DO GABINETE DO P.M.)

PRIMEIRO-MINISTRO
Vai em paz e tem cuidado.










 CENA 4

EXTERIOR – NOITE

No local onde os sentinelas costumam fazer a ronda da guarda, junto ao Palácio Governa­mental. Samowha encontra-se meio escondi­do junto do arvoredo. Presentes para a ronda estão os soldados Okoro e Daudo, devidamente armados.

SAMOWHA
A noite está péssima...Está um destes frios!

OKORO
Frio, fino e cortante, realmente!

SAMOWHA
Que horas são?

OKORO
Creio que é quase meia-noite.

DAUDO
Não, já passa.

OKORO
O certo é que ainda a não ouvi soar. Mas deve estar próximo. 
É o momento apetecido para a aparição do vulto desconhecido...

NESTE PRECISO MOMENTO, OUVE-SE DISTIN­TAMENTE, ECOANDO NA NOITE, TOQUE DE FANFARRA MILITAR E PEÇAS DE ARTILHARIA DISPARAM COM O SEU RUÍDO CARACTERISTI­CO.

OKORO
O que significa isto?

SAMOWHA
Ah! Tínhamos-nos esquecido. Comemoramos hoje mais um ano da nossa independência.

OKORO
Como temos andado distraídos! É o costume!

SAMOWHA
Exactamente, é a tradição. Mas vindo de quem vem, não sei se haverá muita festa para comemorar...

O ESPECTRO NESTE MOMENTO FAZ A SUA APA­RIÇÃO.


OKORO
Olhai, senhor jornalistra. Ei-lo que chega.

SAMOWHA
Sejas tu espírito de bem ou uma alma danada, tragas contigo ares do céu ou labaredas do inferno, sejas portador de boas ou más intenções, mostrai-vos, pois quero falar-vos. Responde: quem és tu? E porque os teus ossos romperam as pesadas e frias mortalhas e resolveram, de novo, dar corpo ao teu espírito? Que quer isto dizer? Com que fim o teu cadáver aos raios da lua se mostra de novo, assombrando a noite? Hor­rorizamos-nos de pensar que, para além da nossa alma, algo mais consegue ainda perturbar-nos!

SAMOWHA
Diz! Diz o que é isto! E o que devemos fazer?

O ESPECTRO ACENA A SAMOWHA

OKORO
Ele está a fazer-vos sinal para que o acompanheis. Tal­vez tenha qualquer coisa de grave a comunicar-
-vos, bem a sós.

DAUDO
(Apontando a arma na direção do Espectro).
Não o sigais, senhor.

OKORO
(Igualmente com a arma apontada na direção do Es­pectro)
Também acho que não o deves seguir, de forma alguma...

SAMOWHA
Mas ele não falará se não o acompanhar. Segui-lo-ei, portanto.

OKORO
Nao faça isso, senhor jornalista.

SAMOWHA
Porquê? Que medo é esse? Para mim a vida vale o pre­ço de uma revelação, vinda ela de um imortal.                                                                    Acena-me de novo. Vou segui-lo.                                                                                                              

OKORO
E se ele vos tenta para a falésia que desce para o mar e lá em cima se transforma em algo horrível que vos enlouqueça? Pensai bem, senhor antes de o seguires.

SAMOWHA
Continua a fazer-me sinais. Vamos. Segui-lo-ei.

DAUDO
(Okoro e Daudo tentam agarrar Samowha)
Não o deveis fazer, senhor, por nada deste mundo.

SAMOWHA
Tirem-me as mãos de cima!

OKORO
(Libertando Samowha)
Sê prudente! Não o sigais.

SAMOWHA
Tarde demais, soldados. A minha sorte está lançada. Se eu não voltar, sabem que agi por uma boa causa.

OKORO
Não faça isso, senhor jornalista.

SAMOWHA CAMINHA EM DIRECÇÃO AO ESPEC­TRO QUE SE ENCONTRA A POUCOS METROS DO SÍTIO ONDE ESTÃO OS SOLDADOS.

OKORO
Enlouqueço só de pensar o pior...

DAUDO
Sigamo-lo. É melhor que obedecer-lhe.

OKORO
Vamos, sem o perder de vista. E que Deus o guie!

DAUDO
Seja como for, sigamo-lo.

OKORO E DAUDO CAMINHAM A POUCA DIS­TÂNCIA DE SAMOWHA, SEGUINDO-O JUNTO AO RECANTO DA MURALHA QUE LADEIA O PALÁ­CIO GOVERNAMENTAL.

SAMOWHA
(Que se aproxima do Espectro).
Onde me queres levar? Fala! Não vou mais além.

ESPECTRO
Estás pronto para ouvir?

SAMOWHA
Estou pronto.

ESPECTRO
É quase chegada a hora de regressar à dor do esqueci­mento sem fim...

SAMOWHA
Oh! Pobre alma penada!

ESPECTRO
Não me lamentes; antes escuta-me, ouvindo a sério o que eu te revelar...

SAMOWHA
Fala. Estou preparado para ouvir.

ESPECTRO
Assim o estejas para fazeres também justiça após me teres ouvido!

SAMOWHA
Sim, assim farei...Mas agora, por favor, fala!

ESPECTRO
Sou o espírito do teu Presidente, condenado, por al­gum tempo, a vaguear perdido na noite e de dia con­finado ao isolamento e à cegueira até que os loucos crimes por mim cometidos, enquanto vivo, me sejam perdoados. É-me vedado revelar-te os segredos da morte. E se tos contasse, gelar-se-te-iam o sangue e a alma. Ouve, Samowha, ouve: se é que algum dia esti­maste o teu Presidente...

SAMOWHA
Ó! Deus!

ESPECTRO
...Peço-te que faças justiça, descobrindo as verdadei­ras causas da minha morte.

SAMOWHA
Presidente, o que se passou realmente nesse fatídico dia em que todos pereceram?

ESPECTRO
Não sabemos e onde estamos está-nos vedada, para sempre, a compreensão para o que realmente acon­teceu

SAMOWHA
Presidente, não vai ser fácil descobrir a verdade. A sua morte está envolta em Segredo de Estado. Compreen­de o alcance desta medida decidida pelo orgão máxi­mo da chefia do Estado?

ESPECTRO
Sim, entendo, mas não entendo porque querem en­cobrir o que realmente aconteceu: será que foi sabo­tagem ou acidente o que esteve por detrás do que nos vitimou? No momento da minha morte, senti-me afetado no laço da verdade, os meus últimos pensa­mentos foram para ti, meu fiel amigo, pela tua postura de nunca me teres bajulado ou escondido críticas à forma como governei o nosso querido país, enquanto fui seu presidente. E é em ti, pois, que deposito esta necessidade de descoberta das reais causas da minha morte.





SAMOWHA
Presidente, como previ a sua morte... Como li, nas en­trelinhas, que alguma coisa nefasta podia vir a acontecer-lhe...

ESPECTRO
E aconteceu mesmo, meu querido amigo.

SAMOWHA
No entanto, até hoje, nada de decisivo foi revelado que nos possa conduzir à total descoberta da
verdade. Ho­mocídio ou acidente? Golpe de Estado ou puro acaso na mudança do devir histórico do nosso povo?

ESPECTRO
Samowha, deixo nas tuas mãos a possibilidade de po­deres apaziguar o infortúnio que nos atingiu. Não te esqueças, nem por um instante, que não são só os vi­vos que precisam de saber a verdade. Os mortos, ape­sar de todas as evidências, continuam à procura do melhor caminho para deixar para sempre a opacidade da vida que viveram e mergulharem, finalmente, na eternidade.

(O ESPECTRO INTERROMPE A FALA)

ESPECTRO
Adeus, amigo. O pirilampo mostra que chega a ma­nhã pelo apagar do seu leve fogo. Adeus, Samowha. Mais uma vez, lembra-te de mim.

(O ESPECTRO DESAPARECE DESVANECENDO-SE)

SAMOWHA
Adeus, Presidente. Para poder cumprir o que me pe­des viverei para decifrar os enigmas que a tua vida criou e a própria morte não enterrou.
Adeus, Adeus! “Lembra-te de mim!” Será doravante a minha divisa. Juro-te.

(OS SOLDADOS OKORO E DAUDO APROXIMAM-SE DO LOCAL ONDE ESTÁ SAMOWHA.)

OKORO E DAUDO
Senhor Jornalista! Senhor Jornalista!

DAUDO
Senhor jornalista.

OKORO
Está bem? Sente-se bem?

SAMOWHA
Estou bem, obrigado.

OKORO
Estávamos muito preocupados, consigo!

SAMOWHA
Em nenhum momento corri perigo. Mas obrigado pela vossa preocupação!

DAUDO
Conseguiu falar-lhe?

OKORO
É mesmo o nosso Presidente?

SAMOWHA
Nunca vi tamanho prodígio.

OKORO
Senhor jornalista, o que aconteceu?

SAMOWHA
Não vos posso contar. Corria o risco de vocês revela­rem o que aconteceu aqui, nesta noite.

OKORO
Juro por Deus, se necessário, nada revelar se for esse o vosso desejo.

DAUDO
Eu também juro, nada dizer...

SAMOWHA
Seja. Sereis discretos? 

AMBOS
Sim, por amor de Deus, confiai em nós.

SAMOWHA
Coitado do nosso Presidente, porque era mesmo ele, agitado, inquieto, vítima da ignorância ou perfídia humana.

OKORO
É uma alma penada?

SAMOWHA
Não sei. Sei que me pediu para descobrir porque mor­reu.

OKORO
Sabe ao menos, quem o matou?

SAMOWHA
Não, não sabe. Por isso a sua grande perplexidade!

OKORO
Como deve sofrer!
SAMOWHA
Onde está, espera que o libertemos das amarras da dúvida.

OKORO E DAUDO
Que infelicidade!

SAMOWHA
Soldados, como meus amigos, chegou a hora de vos pedir um grande favor. 
                                                       Não digam nunca o que viram esta noite.                                                                                                                                                          

AMBOS
Nada diremos.

SAMOWHA
Sim, mas jurem.

OKORO
Pela minha honra, nada direi!

DAUDO
Nem eu, senhor, juro.

SAMOWHA
Aceito o vosso juramento, como verdadeiro. Só vos posso dizer que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa filosofia. E, vós, Presidente que me escolheste para ser o vosso intérprete nas interroga­ções que vos atormentam só vos posso dizer que me sinto pequeno para a dimensão daquilo que me pedes.
No entanto, por mais fraco que me venha a revelar, fica a promessa de fidelidade aos ideais que forjaste e uma luta sem tréguas em prol da justiça e da verdade, que o teu sonho de uma sociedade justa, embora dis­cutível, cristalizava.
Fica em paz, estejas onde estiveres.

(SAMOWHA INTERROMPE A FALA)

SAMOWHA

Vamos embora, amigos, que a aurora desponta. De hoje em diante, somos irmãos e cúmplices perante a morte. Mas o inadiável da vida espera-nos. Vamos e que Deus nos ajude.

















Continua...

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