quinta-feira, 5 de setembro de 2019

OS MONUMENTOS QUEREM-SE ETERNOS 1 & 2





LOPES BARBOSA





 OS MONUMENTOS QUEREM-SE ETERNOS








 Opereta Trágica









Adaptação livre de HAMLET de Willian Shakespeare



















FILMUS
COMPANHIA PRODUTORA DE FILMES
Maputo
Moçambique



 Reservados todos direitos
de acordo com a legislação em vigor

©2019 Joaquim Lopes Barbosa
   ©Produção Filmus- Companhia Produtora de Filmes

INLD Nº de Registo 6686/RLINLD/2019

















Nenhuma salvação é suficiente, qualquer condenação é definitiva.


JOSÉ SARAMAGO
O Evangelho Segundo Jesus Cristo




























CENA 1
EXTERIOR –NOITE



Dois sentinelas aproximam-se de direções con­trárias e convergem no sítio que vão fazer guarda ao palácio governamental. O local é arborizado e ao fundo vê-se o mar. Esse sítio é pareci­do com uma falésia.

ANATAMBA
Quem está aí?

CANCIO
Responda. Páre e mostre-se!

(Ambos os sentinelas se aproximam um do outro)

ANATAMBA
(Faz a continência)
Viva o Comandante-Chefe!

CANCIO
És tu Anatamba?

ANATAMBA
O próprio.
CANCIO
Vens à hora!

ANATAMBA
Sim. Já é meia-noite. Agora já podes ir para a cama, Cancio.

CANCIO
Obrigado por não te teres atrasado. Está um frio de rachar!

ANATAMBA
Está tudo sossegado?

CANCIO
Nem um rato chia.

ANATAMBA
Bem, boa noite para ti. Se vires o Okoro e o Daudo, que vão estar comigo de guarda, diz-lhes que se apres­sem.

( Neste exacto momento, surgem detrás do arvoredo, Okoro e Daudo)

CANCIO
Alto! Quem vem lá? Ah, são vocês!
OKORO
Então, já não me conheces? Somos aqueles que vos vão render!

DAUDO
(Diz esta frase em tom jocoso)
E somos soldados do exército de sua excelência o comandante-chefe, como não podia deixar de ser...
CANCIO
Bem, camaradas, estou a despedir-me. Boas noites para vocês!

DAUDO
Cancio. Quem fica no teu lugar?

CANCIO
O Anatamba fica no meu posto. Até amanhã.

(Sai Cancio)

DAUDO
Olá Anatamba!

ANATAMBA
Okoro já estás aí?

OKORO
Já estou aqui mesmo.

ANATAMBA
Vem-vindo, os dois. Que alívio já terem chegado...

DAUDO
(Em tom de confidência)
Então? E a tal coisa voltou a aparecer outra vez esta noite?

ANATAMBA
Para já não. E nem sei se vai voltar a aparecer outra vez!

DAUDO
Okoro diz que é tudo imaginação. Não acredita naquilo que vimos. Já por duas vezes. Por isso, hoje, in­sisti que estivesse de guarda para, testemunhar, se vol­tar a acontecer a aparição! Além de nos dar razão, diz que até está disposto a falar-lhe...

OKORO
Quanto a mim, não vai acontecer nada!


ANATAMBA
Deixa-te ficar. Não vamos massacrar-te os ouvidos com a nossa história...

OKORO
Está bem. Aguardemos. Mas entretanto, Anatamba, fala-me outra vez dessa coisa...

ANATAMBA
Ontem mesmo, quando o relógio marcava exacta­mente meia noite, eu e o Daudo...

DAUDO
(Muito agitado, empenha a arma)
Pára! Pára! Pára aí já!

O ESPECTRO DO PRESIDENTE TORNA-SE VI­SÍVEL A CERTA DISTÂNCIA DOS SOLDADOS. ESTÁ FARDADO COM FARDA DE CERIMÓNIA MILITAR.

DAUDO
...Olha! Lá está ele de volta!

ANATAMBA
(Visívelmente surpreendido)
Mas é impossível, não acredito! É igualzinho ao nosso Presidente morto!

DAUDO
(Agitado)
Fala-lhe tu, Okoro, que és letrado.

ANATAMBA
(Mantendo a expressão de grande surpresa)
É ou não é parecido com o nosso Presidente? Repara bem, Okoro...

OKORO
Como duas gemas de ovo. Estou arrepiado de medo e, ao mes-mo tempo, maravilhado.

ANATAMBA
Vamos falar-lhe?

DAUDO
Faz-lhe perguntas, Okoro.

OKORO
(Adiantando-se em relação aos companheiros)
Quem és tu, que furas a noite e o tempo envolto nessa figura do nosso Presidente morto? Fala!

(O espectro do Presidente neste momento começa a des­vanecer-se)

DAUDO
      Não te respondeu.   
ANATAMBA
Olha, está a desaparecer...

OKORO
(Avança intimidatório com a arma apontada)
Pára! Fala, fala! Ordeno-te que fales!

DAUDO
Desapareceu e não te respondeu...

(Os soldados estão visivelmente assustados)

ANATAMBA
E agora, Okoro? Estás a tremer! Então era imaginação nossa! O que pensas disto?

OKORO
Se os meus próprios olhos não tivessem sido testemu­nhas, nunca poderia admitir que fosse possível ver o que vi!

DAUDO
Não se parece com o Presidente?

OKORO
Como tu te pareces contigo mesmo! E vestia a farda que envergou nesse dia memorável em que selou a paz com os seus principais inimigos.

DAUDO
Por duas noites apareceu, empertigado, no seu porte marcial.

OKORO
Mas o que quererá? Vem cá fazer o quê? Será que vem trazer alguma mensagem à sua terra e à sua gente?

DAUDO
Pensemos e responda quem souber. Porque nos man­temos vigilantes, noites a fio, e continuamos a im­portar, cada vez mais material de guerra? Porque não conseguimos negociar uma trégua duradoura que nos leve a assinar uma paz honrosa com o nosso adversá­rio?

OKORO
Eu penso poder responder. Se o que vimos há pouco é o nosso defunto Presidente, cujo fantasma apareceu mesmo agora entre nós, deve vir exigir vingança.

ANATAMBA
Acho que sim; mas, se assim é, quem vem culpar pela sua morte prematura?

OKORO
É a traição que perturba os olhos da sua alma. Está inscrito nos anais da História, não é a primeira vez que ela tomba os mais poderosos. E quando isso acon­tece, os traídos transformam-se em estrelas cadentes cujas caudas largam fogo no céu e depositam orvalhos de sangue ao nascer do dia. Auguro uma má sina! Que futura sorte nos estará destinada?

O ESPECTRO DO PRESIDENTE VOLTA A APARECER.

OKORO
Mas... calem-se! Atenção: quando ele se mover, corto-lhe o caminho! E mesmo que me assombre, vou pedir que se identifique.

O ESPECTRO PERFILA-SE E FAZ A CONTINÊNCIA MILITAR.

OKORO
Se em ti há som ou uso da palavra, fala-me! Se algo de bom por ti há a fazer, que bem te faça e por mim possa ser feito, fala-me! Se, secretamente, sabes qualquer coisa da boa sorte, ou má sorte, desta terra por nós desconhecida, fala-me! Se em vida não amontoaste o mais pequeno te­souro e, pelo contrário, idilicamente tudo tentaste dar aos pobres, diz-me o que o teu espírito busca...

(Ouve-se ao longe o canto do galo)

OKORO
Di-lo! Fica e fala! Não o deixes partir, Daudo!

DAUDO
Atiro-lhe uma rajada?

OKORO
Sim, se ele não parar.

ANATAMBA
Aí vai...
Dá uma rajada
O espectro desaparece.

OKORO
Lá vai ele.

DAUDO
Foi-se. Fizemos mal em tratá-lo daquela maneira. Além do que ele é invulnerável e os nossos golpes são inúteis brincadeiras!

ANATAMBA
Ia a começar a falar quando o galo cantou.

OKORO
Será que nos estava a experimentar a ver se ainda o reconhecíamos como o nosso muito amado Presiden­te, a quem em vida nunca faltámos ao respeito e com a lealdade merecida ao seu alto cargo, como chefe da nação!


DAUDO
Há quem diga que sempre chegará um tempo propí­cio à vinda de um salvador...

OKORO
Também o tenho ouvido e em parte creio nisso. Mas, está a amanhecer... Penso que devíamos comunicar a quem de direito e, igualmente, através da imprensa para todo o país, o que assistimos aqui, esta noite!

DAUDO

De acordo, já esta manhã irei providenciar as respectivas declarações.    




































CENA 2
 INTERIOR - DIA


SALA DE CONFERÊNCIAS DO PALÁCIO
Estão presentes na Sala de Conferências, o Co­mandante-Chefe, a viúva do Presidente, Assessores, o Primeiro-Ministro e o seu filho Guissilar. O Jornalista Samohwa e outros jornalistas de vários orgãos de in­formação também se fazem presentes.

COMANDANTE-CHEFE
Como ainda está fresca na memória de todos nós a tragédia que se abateu sobre o nosso amado país, com a morte do nosso muito querido Presidente. Uma nova fatalidade batemos à porta. Refiro-me à decla­ração de guerra da ala fraccionista do nosso partido, comandada pelo dissidente Vahocha, que nos intima a entregar-lhe a chefia do governo porque, diz, o nos­so jovem país está a conhecer um desnorte profun­do com a morte do nosso muito amado Presidente só corrigível com uma nova partilha do poder, etc, etc...   

Entram os Ministros Fungulane e Romeque, colocando-se ao lado do comandante-chefe.

COMANDANTE-CHEFE
Assim, como conclusão da reunião de emergência que o nosso partido efectuou e em deliberação oficial, resolveu nomear os Ministros Fungulane e Romeque com a missão de auscultar os termos de um armistício prévio com a ala dissidente com vista à nomeação de uma comissão-mista para a análise dos pressupostos para uma nova partilha do poder...

FUNGULANE
Quando ordenares, partiremos imediatamente. Nisso e em tudo o mais cumpriremos as ordens recebidas.

COMANDANTE-CHEFE
Não duvido.

UM ASSESSOR DO COMANDANTE-CHEFE APRO­XIMA-SE DELE E SEGREDA-LHE ALGO DISCRE­TAMENTE.

COMAMDANTE-CHEFE
Agora nós, Guissilar. Que dizes de ti? Faláveis de certo pedido... O que é que o filho do Primeiro-Ministro, me quer pedir?

GUISSILAR
Excelência: em nome de um grupo de cidadãos de elevada respeitabilidade e, a Bem da Nação, ousamos pedir a abertura do regime à Iniciativa Privada, que o mesmo é dizer, poderem os nacionais efectuar peque­nos ou grandes negócios contribuindo desta maneiraque o mesmo é dizer, poderem os nacionais efectuar pequenos ou grandes negócios contribuindo desta maneira para o enriquecimento da nova nação que Vossa Excelência, esclarecidamente, quer instituir.

COMANDANTE-CHEFE
E tens apoio ou licença do teu pai? Que diz o Primei­ro-Ministro a isso?
PRIMEIRO-MINISTRO
Tem sim, Excelência. Pedindo e insistindo conseguiu, finalmente, que eu apusesse à sua petição o selo do meu difícil consentimento.

COMANDANTE-CHEFE
Concordo. Escolhe o bom negócio, Guissilar. A ini-ciativa privada é toda tua, usa-a como quiseres e o melhor que possas!
Mas, agora, o comunicado para a imprensa. O jorna­lista Samowha está presente?

SAMOWHA
Sim, está presente, mas um bocado decepcionado...

COMANDANTE-CHEFE
Como? Sempre ainda essas nuvens sobre ti?

SAMOWHA
Nem por isso, Excelência. Estou bem ao sol...

VIÚVA DO PRESIDENTE
Meu caro Samowha, despe essas cores da noite e deixa que os teus olhos sejam amigos deste país. Nao fiques buscando, eternamente, com pálpebras cerradas, meu marido no pó da sepultura! Bem sabes que é a lei da vida que tudo pereça e, da natureza, passe à eternidade.

SAMOWHA
Sim, minha Senhora, é a lei comum da vida...

VIÚVA DO PRESIDENTE
Ora, se assim é, porque te parece a ti tão estranha?

SAMOWHA
Parece? Não, não parece: sei que são só aparências... E, principalmente, falta esclarecer as evidências. Mas, até lá, fiquemo-nos pelas aparências!

COMANDANTE-CHEFE
Grata e recomendável a tua natureza, Samowha, porque através do que escreves prestas homenagem premanente ao nosso Presidente desaparecido. Mas, continuar a manter luto pesado pela sua morte já nos surge como impiedosa teimosia. Tal dor, por inuma­na, ofende até a Deus e brada aos céus! A morte, entre todos os seres vivos, é normal e, entre nós, altos diri­gentes, pode ser vulgar e, muitas vezes, até chega a ser prematura: do pó vieste ... ao pó voltarás! É a lei da vida! Por isso, pedimos-te: lançai por terra essa dor infinita, e pensa em nós com o mesmo fervor com que admiravas o nosso querido Presidente.

VIÚVA DO PRESIDENTE
E não deixes que a suspeita infundada envenene a tua inteligência e ofusque a tua compreensão.

VIÚVA DO PRESIDENTE
E não deixes que a suspeita infundada envenene a tua
inteligência e ofusque a tua compreensão.
SAMOWHA
Como jornalista, tudo farei para ser imparcial e rigo­roso na análise dos pressupostos que estão na génese da tragédia que nos atingiu.

COMANDANTE-CHEFE
Damo-nos por satisfeitos com a tua resposta que, como sempre, revela um espírito lúcido e responsável. Nada de acusar sem provas! Meus senhores, damos por encerrada a sessão.

A COMITIVA DO COMANDANTE-CHEFE , COM ELE A FRENTE , DESAPARECE ATRAVÉS DA POR­TA LATERAL. A ASSISTÊNCIA E OS JORNALISTAS COMEÇAM A ARRUMAR OS SEUS MATERIAIS.

SAMOWHA
Pudesse eu livrar-me desta dúvida que persiste em me atormentar. Pudesse eu fundir-me... solver-me em or­valho... e vestir a pele dos assassinos.
Oh Deus, como tudo o que é subreptício neste mun­do me parece inútil, movediço e traiçoeiro! Fora, fora com o dissimulado, o escorregadio, o mentiroso!
Ao que chegámos! Onze anos bastaram... tão exce­lente Presidente, obreiro da nossa independência, e já está morto! Porquê? Por quem? Parte-se-me o cora­ção, mas tenho de me calar.

ENQUANTO A ASSISTÊNCIA VAI EVACUANDO A SALA, ENTRAM EM SENTIDO CONTRÁRIO NA MESMA SALA, OS SOLDADOS OKORO, ANA­TAMBA E DAUDO, QUE SE APROXIMAM DE SA­MOWHA.                                                                                                                                 

OKORO
Boa tarde, senhor jornalista.

SAMOWHA
Como estão, soldados?

OKORO
Estamos bem, senhor. Temos ordem para fechar a sala de conferências.

SAMOWHA
Desculpem, já estava de saída. No entanto no silêncio desta sala não pude evitar falar sozinho...

DAUDO
O que é que o angustia, senhor jornalista? Será que padece do mesmo mal que nos atingiu a todos?

SAMOWHA
Não tenha dúvidas, soldado. Pudesse eu livrar-me desta dúvida que me dilacera a carne e me embota o pensamento!

OKORO
Qual é a dúvida que não o deixa sossegar? Será a mes­ma que varre a nação?



SAMOWHA
Os nossos inimigos souberam escolher a hora e o gol­pe decisivo para que nos tornássemos orfãos de pai....

OKORO
Do pai da nação? 

SAMOWHA
Sim. E para que a esperança da independência con­solidada não venha a ser também assassinada, só nos resta procurar com afinco os nossos inimigos inter­nos...

OKORO
Quer dizer que...

SAMOWHA
Exactamente. Não dúvido, nem por um segundo, que temos poderosos inimigos internos que deram uma grande ajuda aos que estão fora das nossas fronteiras.

OKORO
O senhor jornalista tem consciência do que acaba de
dizer?

SAMOWHA
Como dois e dois serem quatro. Todas as evidências apontam nesse sentido. Só os que se fazem de cegos é que não querem ver...

OKORO
Não seria melhor aguardar pela conclusão do inquéri­to para avançar para uma condenação fundamentada?

SAMOWHA
Não estou, para já, a acusar ninguem. Mas virei a fazê-lo, publicamente, quando conseguir reunir todas as provas das várias pistas que investigo.

DAUDO
                                        Senhor jornalista: conte connosco. Se o pudermos ajudar...                                                                                                                                                     

SAMOWHA
Sei que posso contar, principalmente, com quem não tem nada a perder. Como é o vosso caso. Vocês são soldados e se o nosso Presidente gostava de alguém era de vocês soldados, obreiros da independência na­cional. Foi com a vossa ajuda que ganhámos a nossa africanidade, o nosso destino histórico, a nossa iden­tidade. Vocês devem lealdade... à verdade.

OKORO
Em vivo, vi-o várias vezes. Não servi sob o seu coman­do directo. Mas era um grande militar.


SAMOWHA
Era um homem em tudo e por tudo. Jamais vereis um semelhante.

OKORO
(Aproximando-se de Samowha)
Senhor jornalista, peço-lhe que não faça uso daquilo que lhe vamos contar. Por favor, está em causa a nossa integridade física e psíquica. Trata-se de uma visão que não sabemos se será verdadeira!

SAMOWHA
O que me querem dizer, soldados?

OKORO
(Quase sussurrando ao ouvido de Samowha)
Pensamos ter visto o nosso Presidente ontem à noite, ou então é alguém muito parecido com ele!

SAMOWHA
(Incrédulo) Viste!? Quem?

OKORO
O Presidente, falecido.

SAMOWHA
O nosso Presidente?

OKORO
Deixai um instante o vosso espanto sossegar e ouvi-me atento para que eu possa, com o testemunho des­tes dois camaradas, contar-vos tamanha maravilha.

SAMOWHA
Por amor de Deus, fala!

OKORO
Duas noites seguidas, estes dois companheiros, em serviço de guarda, tiveram um encontro: um vulto como o do nosso Presidente, dos pés à cabeça, far­dado a rigor, em pose e passo solene, pairou por uns instantes diante dos seus olhos. Por três vezes os ron­dou e por três vezes, de terror, os seus lábios gelou! Só em segredo me contaram o terrível susto que sofre­ram. Com eles, na terceira noite, de guarda fiquei e tal como me confidenciaram, quanto à hora e à forma da aparição, o vulto voltou.
Senhor jornalista: se não era o nosso Presidente morto estas duas minhas mãos não podem ser mais parecidas!

SAMOWHA
Mas onde foi isso? 

OKORO
Na falésia, junto ao Palácio Governamental, onde pas­sa a ronda da guarda.


SAMOWHA
Não lhe falaste?

OKORO
Falei. Mas nada de resposta; contudo, pareceu-me que, ao erguer a cabeça e começar a andar, fez gesto de quem quer falar. Mas então o galo cantou a anunciar o dia e, com tal som, o vulto se esgueirou e desapareceu da nossa vista.

SAMOWHA
É muito estranho!

OKORO
É tão verdade como estarmos vivos. Pensamos até no­tificar esta ocorrência, deixando-a escrita no relatório da guarda, para que conste.

SAMOWHA
Decerto, decerto, bem pensado! Mas perturba-me! Fazeis parte da guarda desta noite?

DAUDO E ANATAMBA
(Respondendo ao mesmo tempo, ansiosamente.)
Fazemos, senhor.

SAMOWHA
Devidamente armados?

AMBOS
Fortemente armados.

SAMOWHA
Dos pés à cabeça?

AMBOS
Até aos dentes!

SAMOWHA
Uma coisa me intriga: não lhe viste o rosto?

OKORO
Vi, sim.

SAMOWHA
E então? Parecia carrancudo?

OKORO
Talvez mais desgostoso que colérico...

SAMOWHA
Pálido ou corado?
OKORO
Oh, pálido, muito pálido.

SAMOWHA
E cravou os olhos em ti?

OKORO
Constante e fixamente.

SAMOWHA
Quereria ter lá estado!

OKORO
Bem assombrado ficarias!

SAMOWHA
Bem provável, bem provável! E ficou muito tempo?

OKORO
O tempo de contar até cem sem grandes pressas.

AMBOS
Mais! Mais!...

OKORO
Não quando eu o vi.

SAMOWHA
Tinha a barba grisalha?

OKORO
Tinha sim. Como sempre lha vi: negra e de prata sal-
picada.

SAMOWHA
Estarei esta noite com vocês. Conto com a vossa ajuda para penetrar no Palácio. Talvez por acaso ele volte.

OKORO
Garanto-vos que sim.

SAMOWHA
Se mostra a nobre figura do nosso Presidente, hei-de falar-lhe nem que o inferno se abra e me peça a al­maem troca. A voçês peço que guardeis segredo por mais algum tempo. Adeus, até ao nosso encontro na mura lha entre as onze e a meia-noite.

TODOS
Até lá.
(Todos saiem da sala e as portas são fechadas)


Continua...

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