LOPES BARBOSA
OS MONUMENTOS QUEREM-SE ETERNOS
Adaptação livre de HAMLET de Willian
Shakespeare
FILMUS
COMPANHIA PRODUTORA DE FILMES
Maputo
Moçambique
de acordo com a legislação em vigor
©2019 Joaquim Lopes Barbosa
©Produção Filmus- Companhia Produtora de Filmes
INLD Nº de Registo 6686/RLINLD/2019
Nenhuma salvação é
suficiente, qualquer condenação é definitiva.
JOSÉ SARAMAGO
O Evangelho Segundo Jesus Cristo
CENA 1
EXTERIOR –NOITE
Dois sentinelas aproximam-se de direções contrárias e
convergem no sítio que vão fazer guarda ao palácio governamental. O local é
arborizado e ao fundo vê-se o mar. Esse sítio é parecido com uma falésia.
ANATAMBA
Quem está aí?
CANCIO
Responda. Páre e mostre-se!
(Ambos os sentinelas se aproximam um do outro)
ANATAMBA
(Faz a continência)
Viva o Comandante-Chefe!
CANCIO
És tu Anatamba?
ANATAMBA
O próprio.
CANCIO
Vens à
hora!
ANATAMBA
Sim. Já é meia-noite. Agora já podes ir para a cama,
Cancio.
CANCIO
Obrigado por não te teres atrasado. Está um frio de
rachar!
ANATAMBA
Está tudo
sossegado?
CANCIO
Nem um rato
chia.
ANATAMBA
Bem, boa noite para ti. Se vires o Okoro e o Daudo, que
vão estar comigo de guarda, diz-lhes que se apressem.
( Neste exacto momento, surgem detrás do arvoredo,
Okoro e Daudo)
CANCIO
Alto! Quem
vem lá? Ah, são vocês!
OKORO
Então, já não me conheces? Somos aqueles que vos vão
render!
DAUDO
(Diz esta frase em tom jocoso)
E somos soldados do exército de sua excelência o comandante-chefe,
como não podia deixar de ser...
CANCIO
Bem, camaradas, estou a
despedir-me. Boas noites para vocês!
DAUDO
Cancio. Quem fica no teu lugar?
CANCIO
O Anatamba fica no meu posto. Até amanhã.
(Sai Cancio)
DAUDO
Olá Anatamba!
ANATAMBA
Okoro já estás aí?
OKORO
Já estou aqui mesmo.
ANATAMBA
Vem-vindo, os dois. Que alívio já terem
chegado...
DAUDO
(Em tom de confidência)
Então? E a tal coisa voltou a
aparecer outra vez esta noite?
ANATAMBA
Para já
não. E nem sei se vai voltar a aparecer outra vez!
DAUDO
Okoro diz que é tudo imaginação. Não acredita naquilo que
vimos. Já por duas vezes. Por isso, hoje, insisti que estivesse de guarda
para, testemunhar, se voltar a acontecer a aparição! Além de nos dar razão,
diz que até está disposto a falar-lhe...
OKORO
Quanto a mim, não vai acontecer nada!
ANATAMBA
Deixa-te ficar. Não vamos massacrar-te os ouvidos com a
nossa história...
OKORO
Está bem. Aguardemos. Mas entretanto, Anatamba, fala-me
outra vez dessa coisa...
ANATAMBA
Ontem mesmo, quando o relógio marcava exactamente meia
noite, eu e o Daudo...
DAUDO
(Muito agitado, empenha a arma)
Pára! Pára! Pára aí já!
O ESPECTRO DO PRESIDENTE TORNA-SE VISÍVEL A
CERTA DISTÂNCIA DOS SOLDADOS. ESTÁ FARDADO COM FARDA DE CERIMÓNIA MILITAR.
DAUDO
...Olha! Lá
está ele de volta!
ANATAMBA
(Visívelmente surpreendido)
Mas é impossível, não acredito! É igualzinho ao nosso
Presidente morto!
DAUDO
(Agitado)
Fala-lhe tu, Okoro, que és letrado.
ANATAMBA
(Mantendo a expressão de grande surpresa)
É ou não é parecido com o nosso Presidente? Repara bem,
Okoro...
OKORO
Como duas gemas de ovo. Estou arrepiado de medo e, ao
mes-mo tempo, maravilhado.
ANATAMBA
Vamos falar-lhe?
DAUDO
Faz-lhe perguntas, Okoro.
OKORO
(Adiantando-se em relação aos companheiros)
Quem és tu, que furas a noite e o tempo envolto nessa
figura do nosso Presidente morto? Fala!
(O espectro do Presidente neste momento começa a desvanecer-se)
DAUDO
Não te
respondeu.
ANATAMBA
Olha, está a desaparecer...
OKORO
(Avança intimidatório com a arma apontada)
Pára! Fala, fala! Ordeno-te que fales!
DAUDO
Desapareceu e não te respondeu...
(Os soldados estão visivelmente assustados)
ANATAMBA
E agora, Okoro? Estás a tremer! Então era imaginação
nossa! O que pensas disto?
OKORO
Se os meus próprios olhos não tivessem sido testemunhas,
nunca poderia admitir que fosse possível ver o que vi!
DAUDO
Não se parece com o Presidente?
OKORO
Como tu te pareces contigo mesmo! E vestia a farda que
envergou nesse dia memorável em que selou a paz com os seus principais
inimigos.
DAUDO
Por duas noites apareceu, empertigado, no seu porte marcial.
OKORO
Mas o que
quererá? Vem cá fazer o quê? Será que vem trazer alguma mensagem à sua terra e
à sua gente?
DAUDO
Pensemos e responda quem souber.
Porque nos mantemos vigilantes, noites a fio, e continuamos a importar, cada
vez mais material de guerra? Porque não conseguimos negociar uma trégua
duradoura que nos leve a assinar uma paz honrosa com o nosso adversário?
OKORO
Eu penso poder responder. Se o
que vimos há pouco é o nosso defunto Presidente, cujo fantasma apareceu mesmo
agora entre nós, deve vir exigir vingança.
ANATAMBA
Acho que sim; mas, se assim é,
quem vem culpar pela sua morte prematura?
OKORO
É a traição que perturba os
olhos da sua alma. Está inscrito nos anais da História, não é a primeira vez
que ela tomba os mais poderosos. E quando isso acontece, os traídos
transformam-se em estrelas cadentes cujas caudas largam fogo no céu e depositam
orvalhos de sangue ao nascer do dia. Auguro uma má sina! Que futura sorte nos
estará destinada?
O ESPECTRO DO PRESIDENTE VOLTA A
APARECER.
OKORO
Mas...
calem-se! Atenção: quando ele se mover, corto-lhe o caminho! E mesmo que me
assombre, vou pedir que se identifique.
O ESPECTRO
PERFILA-SE E FAZ A CONTINÊNCIA MILITAR.
OKORO
Se em ti há som ou uso da
palavra, fala-me! Se algo de bom por ti há a fazer, que bem te faça e por mim
possa ser feito, fala-me! Se, secretamente, sabes qualquer coisa da boa sorte,
ou má sorte, desta terra por nós desconhecida, fala-me! Se em vida não
amontoaste o mais pequeno tesouro e, pelo contrário, idilicamente tudo
tentaste dar aos pobres, diz-me o que o teu espírito busca...
(Ouve-se ao longe o canto do
galo)
OKORO
Di-lo! Fica e fala! Não o deixes
partir, Daudo!
DAUDO
Atiro-lhe uma rajada?
OKORO
Sim, se ele não parar.
ANATAMBA
Aí vai...
Dá uma rajada
O espectro desaparece.
OKORO
Lá vai ele.
DAUDO
Foi-se. Fizemos mal em tratá-lo daquela maneira. Além do
que ele é invulnerável e os nossos golpes são inúteis brincadeiras!
ANATAMBA
Ia a começar a falar quando o
galo cantou.
OKORO
Será que nos estava a experimentar
a ver se ainda o reconhecíamos como o nosso muito amado Presidente, a quem em
vida nunca faltámos ao respeito e com a lealdade merecida ao seu alto cargo,
como chefe da nação!
DAUDO
Há quem diga que sempre chegará
um tempo propício à vinda de um salvador...
OKORO
Também o tenho ouvido e em parte
creio nisso. Mas, está a amanhecer... Penso que devíamos comunicar a quem de
direito e, igualmente, através da imprensa para todo o país, o que assistimos
aqui, esta noite!
DAUDO
De acordo, já esta manhã irei providenciar as respectivas
declarações.
CENA 2
INTERIOR - DIA
SALA DE CONFERÊNCIAS DO PALÁCIO
Estão presentes na Sala de
Conferências, o Comandante-Chefe, a viúva do Presidente, Assessores, o
Primeiro-Ministro e o seu filho Guissilar. O Jornalista Samohwa e outros
jornalistas de vários orgãos de informação também se fazem presentes.
COMANDANTE-CHEFE
Como ainda
está fresca na memória de todos nós a tragédia que se abateu sobre o nosso
amado país, com a morte do nosso muito querido Presidente. Uma nova fatalidade
batemos à porta. Refiro-me à declaração de guerra da ala fraccionista do nosso
partido, comandada pelo dissidente Vahocha, que nos intima a entregar-lhe a
chefia do governo porque, diz, o nosso jovem país está a conhecer um desnorte
profundo com a morte do nosso muito amado Presidente só corrigível com uma
nova partilha do poder, etc, etc...
Entram os
Ministros Fungulane e Romeque, colocando-se ao lado do comandante-chefe.
COMANDANTE-CHEFE
Assim, como conclusão da reunião
de emergência que o nosso partido efectuou e em deliberação oficial, resolveu
nomear os Ministros Fungulane e Romeque com a missão de auscultar os termos de
um armistício prévio com a ala dissidente com vista à nomeação de uma
comissão-mista para a análise dos pressupostos para uma nova partilha do
poder...
FUNGULANE
Quando ordenares, partiremos
imediatamente. Nisso e em tudo o mais cumpriremos as ordens recebidas.
COMANDANTE-CHEFE
Não duvido.
UM ASSESSOR DO COMANDANTE-CHEFE
APROXIMA-SE DELE E SEGREDA-LHE ALGO DISCRETAMENTE.
COMAMDANTE-CHEFE
Agora nós, Guissilar. Que dizes
de ti? Faláveis de certo pedido... O que é que o filho do Primeiro-Ministro, me
quer pedir?
GUISSILAR
Excelência: em nome de um grupo de cidadãos de elevada
respeitabilidade e, a Bem da Nação, ousamos pedir a abertura do regime à
Iniciativa Privada, que o mesmo é dizer, poderem os nacionais efectuar pequenos
ou grandes negócios contribuindo desta maneiraque o mesmo é dizer, poderem os
nacionais efectuar pequenos ou grandes negócios contribuindo desta maneira para
o enriquecimento da nova nação que Vossa Excelência, esclarecidamente, quer
instituir.
COMANDANTE-CHEFE
E tens apoio ou licença do teu
pai? Que diz o Primeiro-Ministro a isso?
PRIMEIRO-MINISTRO
Tem sim, Excelência. Pedindo e
insistindo conseguiu, finalmente, que eu apusesse à sua petição o selo do meu
difícil consentimento.
COMANDANTE-CHEFE
Concordo. Escolhe o bom negócio,
Guissilar. A ini-ciativa privada é toda tua, usa-a como quiseres e o melhor que
possas!
Mas, agora, o comunicado para a
imprensa. O jornalista Samowha está presente?
SAMOWHA
Sim, está presente, mas um bocado
decepcionado...
COMANDANTE-CHEFE
Como? Sempre ainda essas nuvens
sobre ti?
SAMOWHA
Nem por isso, Excelência. Estou
bem ao sol...
VIÚVA DO PRESIDENTE
Meu caro Samowha, despe essas cores da noite e deixa que
os teus olhos sejam amigos deste país. Nao fiques buscando, eternamente, com
pálpebras cerradas, meu marido no pó da sepultura! Bem sabes que é a lei da
vida que tudo pereça e, da natureza, passe à eternidade.
SAMOWHA
Sim, minha Senhora, é a lei
comum da vida...
VIÚVA DO PRESIDENTE
Ora, se assim é, porque te
parece a ti tão estranha?
SAMOWHA
Parece? Não, não parece: sei que
são só aparências... E, principalmente, falta esclarecer as evidências. Mas,
até lá, fiquemo-nos pelas aparências!
COMANDANTE-CHEFE
Grata e recomendável a tua
natureza, Samowha, porque através do que escreves prestas homenagem premanente
ao nosso Presidente desaparecido. Mas, continuar a manter luto pesado pela sua
morte já nos surge como impiedosa teimosia. Tal dor, por inumana, ofende até a
Deus e brada aos céus! A morte, entre todos os seres vivos, é normal e, entre
nós, altos dirigentes, pode ser vulgar e, muitas vezes, até chega a ser
prematura: do pó vieste ... ao pó voltarás! É a lei da vida! Por isso,
pedimos-te: lançai por terra essa dor infinita, e pensa em nós com o mesmo
fervor com que admiravas o nosso querido Presidente.
VIÚVA DO PRESIDENTE
E não deixes que a suspeita
infundada envenene a tua inteligência e ofusque a tua compreensão.
VIÚVA DO PRESIDENTE
E não deixes que a suspeita
infundada envenene a tua
inteligência
e ofusque a tua compreensão.
SAMOWHA
Como jornalista, tudo farei para ser imparcial e rigoroso
na análise dos pressupostos que estão na génese da tragédia que nos atingiu.
COMANDANTE-CHEFE
Damo-nos por satisfeitos com a tua resposta que, como
sempre, revela um espírito lúcido e responsável. Nada de acusar sem provas!
Meus senhores, damos por encerrada a sessão.
A COMITIVA DO COMANDANTE-CHEFE , COM ELE A FRENTE ,
DESAPARECE ATRAVÉS DA PORTA LATERAL. A ASSISTÊNCIA E OS JORNALISTAS COMEÇAM A
ARRUMAR OS SEUS MATERIAIS.
SAMOWHA
Pudesse eu livrar-me desta dúvida que persiste em me
atormentar. Pudesse eu fundir-me... solver-me em orvalho... e vestir a pele
dos assassinos.
Oh Deus, como tudo o que é subreptício neste mundo me
parece inútil, movediço e traiçoeiro! Fora, fora com o dissimulado, o
escorregadio, o mentiroso!
Ao que chegámos! Onze anos bastaram... tão excelente
Presidente, obreiro da nossa independência, e já está morto! Porquê? Por quem?
Parte-se-me o coração, mas tenho de me calar.
ENQUANTO A
ASSISTÊNCIA VAI EVACUANDO A SALA, ENTRAM EM SENTIDO CONTRÁRIO NA MESMA SALA, OS
SOLDADOS OKORO, ANATAMBA E DAUDO, QUE SE APROXIMAM DE SAMOWHA.
OKORO
Boa tarde, senhor jornalista.
SAMOWHA
Como estão, soldados?
OKORO
Estamos bem, senhor. Temos ordem para fechar a sala de
conferências.
SAMOWHA
Desculpem, já estava de saída. No entanto no silêncio
desta sala não pude evitar falar sozinho...
DAUDO
O que é que o angustia, senhor jornalista? Será que
padece do mesmo mal que nos atingiu a todos?
SAMOWHA
Não tenha dúvidas, soldado. Pudesse eu livrar-me desta
dúvida que me dilacera a carne e me embota o pensamento!
OKORO
Qual é a dúvida que não o deixa sossegar? Será a mesma
que varre a nação?
SAMOWHA
Os nossos inimigos souberam escolher a hora e o golpe
decisivo para que nos tornássemos orfãos de pai....
OKORO
Do pai da
nação?
SAMOWHA
Sim. E para que a esperança da independência consolidada
não venha a ser também assassinada, só nos resta procurar com afinco os nossos
inimigos internos...
OKORO
Quer dizer que...
SAMOWHA
Exactamente. Não dúvido, nem por um segundo, que temos
poderosos inimigos internos que deram uma grande ajuda aos que estão fora das
nossas fronteiras.
OKORO
O senhor jornalista tem consciência do que acaba de
dizer?
SAMOWHA
Como dois e dois serem quatro. Todas as evidências
apontam nesse sentido. Só os que se fazem de cegos é que não querem ver...
OKORO
Não seria melhor aguardar pela conclusão do inquérito
para avançar para uma condenação fundamentada?
SAMOWHA
Não estou, para já, a acusar ninguem. Mas virei a
fazê-lo, publicamente, quando conseguir reunir todas as provas das várias
pistas que investigo.
DAUDO
Senhor jornalista: conte connosco. Se o pudermos ajudar...
SAMOWHA
Sei que posso contar, principalmente, com quem não tem
nada a perder. Como é o vosso caso. Vocês são soldados e se o nosso Presidente
gostava de alguém era de vocês soldados, obreiros da independência nacional.
Foi com a vossa ajuda que ganhámos a nossa africanidade, o nosso destino
histórico, a nossa identidade. Vocês devem lealdade... à verdade.
OKORO
Em vivo, vi-o várias vezes. Não servi sob o seu comando
directo. Mas era um grande militar.
SAMOWHA
Era um homem em tudo e por tudo. Jamais vereis um semelhante.
OKORO
(Aproximando-se de Samowha)
Senhor jornalista, peço-lhe que não faça uso daquilo que
lhe vamos contar. Por favor, está em causa a nossa integridade física e
psíquica. Trata-se de uma visão que não sabemos se será verdadeira!
SAMOWHA
O que me querem dizer, soldados?
OKORO
(Quase sussurrando ao ouvido de Samowha)
Pensamos ter visto o nosso Presidente ontem à noite, ou
então é alguém muito parecido com ele!
SAMOWHA
(Incrédulo) Viste!?
Quem?
OKORO
O Presidente, falecido.
SAMOWHA
O nosso Presidente?
OKORO
Deixai um instante o vosso
espanto sossegar e ouvi-me atento para que eu possa, com o testemunho destes
dois camaradas, contar-vos tamanha maravilha.
SAMOWHA
Por amor de Deus, fala!
OKORO
Duas noites seguidas, estes dois
companheiros, em serviço de guarda, tiveram um encontro: um vulto como o do
nosso Presidente, dos pés à cabeça, fardado a rigor, em pose e passo solene,
pairou por uns instantes diante dos seus olhos. Por três vezes os rondou e por
três vezes, de terror, os seus lábios gelou! Só em segredo me contaram o
terrível susto que sofreram. Com eles, na terceira noite, de guarda fiquei e
tal como me confidenciaram, quanto à hora e à forma da aparição, o vulto
voltou.
Senhor jornalista: se não era o nosso
Presidente morto estas duas minhas mãos não podem ser mais parecidas!
SAMOWHA
Mas onde
foi isso?
OKORO
Na falésia, junto ao Palácio Governamental, onde passa a
ronda da guarda.
SAMOWHA
Não lhe falaste?
OKORO
Falei. Mas nada de resposta; contudo, pareceu-me que, ao
erguer a cabeça e começar a andar, fez gesto de quem quer falar. Mas então o
galo cantou a anunciar o dia e, com tal som, o vulto se esgueirou e desapareceu
da nossa vista.
SAMOWHA
É muito estranho!
OKORO
É tão verdade como estarmos vivos. Pensamos até notificar
esta ocorrência, deixando-a escrita no relatório da guarda, para que conste.
SAMOWHA
Decerto, decerto, bem pensado! Mas perturba-me! Fazeis
parte da guarda desta noite?
DAUDO E ANATAMBA
(Respondendo ao mesmo tempo, ansiosamente.)
Fazemos, senhor.
SAMOWHA
Devidamente armados?
AMBOS
Fortemente
armados.
SAMOWHA
Dos pés à cabeça?
AMBOS
Até aos dentes!
SAMOWHA
Uma coisa me intriga: não lhe viste o rosto?
OKORO
Vi, sim.
SAMOWHA
E então? Parecia carrancudo?
OKORO
Talvez mais desgostoso que colérico...
SAMOWHA
Pálido ou corado?
OKORO
Oh, pálido,
muito pálido.
SAMOWHA
E cravou os
olhos em ti?
OKORO
Constante e
fixamente.
SAMOWHA
Quereria
ter lá estado!
OKORO
Bem
assombrado ficarias!
SAMOWHA
Bem provável, bem provável! E ficou muito tempo?
OKORO
O tempo de contar até cem sem grandes pressas.
AMBOS
Mais!
Mais!...
OKORO
Não quando
eu o vi.
SAMOWHA
Tinha a
barba grisalha?
OKORO
Tinha sim. Como sempre lha vi: negra e de prata sal-
picada.
SAMOWHA
Estarei esta noite com vocês. Conto com a vossa ajuda
para penetrar no Palácio. Talvez por acaso ele volte.
OKORO
Garanto-vos que sim.
SAMOWHA
Se mostra a
nobre figura do nosso Presidente, hei-de falar-lhe nem que o inferno se abra e
me peça a almaem troca. A voçês peço que guardeis segredo por mais algum
tempo. Adeus, até ao nosso encontro na mura lha entre as onze e a meia-noite.
TODOS
Até lá.
(Todos saiem da sala e as portas
são fechadas)
Continua...
Continua...

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