LOPES BARBOSA
OS MONUMENTOS QUEREM-SE ETERNOS
Adaptação livre de HAMLET de Willian
Shakespeare
FILMUS
COMPANHIA PRODUTORA DE FILMES
Maputo
Moçambique
de acordo com a legislação em vigor
©2019 Joaquim Lopes Barbosa
©Produção Filmus- Companhia Produtora de Filmes
INLD Nº de Registo 6686/RLINLD/2019
Nenhuma salvação é
suficiente, qualquer condenação é definitiva.
JOSÉ SARAMAGO
O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Continuação...
CENA 5
EXTERIOR – DIA
GABINETE DO PRIMEIRO-MINISTRO.
SENTADO À SECRETÁRIA O
PRIMEIRO-MINISTRO ENTREGA A LICUCO UM MAÇO DE PAPÉIS E ALGUM DINHEIRO EM NOTAS.
LICUCO É UM AGENTE ESPECIAL DA
SEGURANÇA DO ESTADO.
PRIMEIRO-MINISTRO
Dá-lhe este dinheiro e estes
papéis, Licuco.
LICUCO
Darei, sim, Senhor Primeiro-Ministro.
PRIMEIRO-MINISTRO
Tens de ser muito prudente,
Licuco, para não levantares suspeitas.
LICUCO
Era como
tencionava proceder...
PRIMEIRO-MINISTRO
Sabe-me primeiro quem são os estrangeiros com quem o meu
filho está relacionado. Depois, quais os negócios em que pensam investir. Isto,
como te disse, tem de ser feito com a máxima discrição. Não quero que fiquem a
saber que estamos de olho neles, que os vigiamos...
LICUCO
Muito bem,
Senhor Primeiro-Ministro.
PRIMEIRO-MINISTRO
Os próprios serviços-secretos ainda não os conhecem bem.
Por isso, temos de nos antecipar. Quero saber com quem o meu filho pensa
relacionar-se. Inventa o que quiseres, mas não levantes suspeitas.
LICUCO
O senhor Primeiro-Ministro está preocupado com alguma
coisa que o vosso filho possa fazer que possa escapar ao seu controlo?
PRIMEIRO-MINISTRO
Sim, Licuco. Temo qualquer atitude irreflectida da parte
do meu filho, que o leve a cometer actos menos próprios para um empresário em
ascenção, dada a sua ansiedade de atingir o sucesso rápido!
LICUCO
Se tal acontecesse seria, realmente, um grande descrédito
para a família!
PRIMEIRO-MINISTRO
Neste momento de fragilidade do regime, não podemos ser
atingidos por nenhum escândalo público.
LICUCO
Estou inteiramente de acordo com
vossa Excelência.
PRIMEIRO-MINISTRO
Portanto, todo o cuidado é
pouco. Não quero o meu próprio filho seja usado para me poderem atingir, se for
esse o plano...
LICUCO
Mas, o senhor Primeiro-Ministro
suspeita de alguma coisa?
PRIMEIRO-MINISTRO
Sim, tenho ouvido algumas frases
soltas, meias palavras, tons sussurrados que meu filho costuma usar quando
está em contacto com essa gente. Daí a minha preocupação. Nenhuma pessoa e,
principalmente, gente das nossas relações, a começar pelos mais próximos -
como os filhos, por exemplo – podem ter este tipo de comportamente encoberto,
sigiloso. A minha experiência recomenda-me precaução! Estás a entender,
Licuco? Por isso, conto com a tua argúcia para descobrires o que se passa na
cabeça do meu filho.
LICUCO
Tudo farei para descobrir o que
esse grupo pensa fazer. O senhor Primeiro-Ministro precisa de mais alguma coisa?
Posso
retirar-me?
PRIMEIRO-MINISTRO
Mais outra coisa, preciso de informações diárias, seja a
que horas for. Nao te acanhes e usa os meios que achares mais adequados. Conto
contigo. Agora vai.
LICUCO
Senhor Primeiro-Ministro, muito
obrigado pela confiança. Não irei decepcioná-lo. Até breve.
(LICUCO SAI DO GABINETE)
PRIMEIRO-MINISTRO
Até breve.
UM ASSESSOR ENTRA NO GABINETE DO PRIMERO-MINISTRO
PARA COMUNICAR A PRESENÇA, DE NAFIZA, MAS ESTA ENTRA SEM ESPERAR A
COMUNICAÇÃO DO ASSESSOR.
ASSESSOR
Senhor Primeiro-Ministro, está
lá fora a menina Nafiza que deseja ser recebida por vossa Excelência.
(NAFIZA ENTRA NESTE MOMENTO NO GABINETE E O
ASSESSOR SAI)
PRIMEIRO-MINISTRO
O que há de novo, Nafiza?
Precisas de alguma coisa?
NAFIZA
(Aproximando-se do PM)
Senhor, preciso de mais alguns
conselhos. Por favor, estou muito preocupada. Peço-vos que me escuteis por mais
alguns minutos...
PRIMEIRO-MINISTRO
O que é que
te preocupa desta vez?
NAFIZA
É ainda sobre o jornalista Samowha. Cruzei-me com ele,
por acaso, e não me pareceu nada bem! Tinha o olhar parado e balbuciava
palavras, um pouco sem nexo. Tentei falar-lhe e quase me tratou mal, como se
não me conhecesse. Parecia estar agitado com qualquer coisa de muito grave que
se debatia no seu íntimo!
PRIMEIRO-MINISTRO
Isso é muito estranho. Geralmente, tem o olhar vivo e é
muito acutilante nas conversas que mantém, seja lá com quem for. Pelo seu
aspecto, parecia-te estar doente?
NAFIZA
Não sei,
Senhor. Mas temo que sim.
PRIMEIRO-MINISTRO
Sendo assim, porque estás preocupada. Todos nós estamos
sujeitos a ficar doentes?
NAFIZA
Temo que a doença que o possa ter atacado seja qualquer
coisa relacionada com a parte psíquica. A sua forma de olhar e de proceder
pareceu-me de alguém em desiquilíbrio mental.
PRIMEIRO-MINISTRO
Continua a ser muito estranho, vindo de quem vem. O
jornalista Samowha habituou-nos a um comportamento equilíbrado e lúcido. O que
terá acontecido para dar mostras de desnorte?
NAFIZA
Agarrou-me
pelos pulsos e segurou-me fortemente.Depois, afastou-me estendendo os braços e,
com uma das mãos a defrontar-me, passou a outra pelo meu rosto como quem quer
desenhar. Longamente, assim ficou. Por fim, a um estremecimento do meu braço,
três vezes meneou a cabeça e suspirou tão triste e profundamente como se ele
fosse rebentar o peito e findar a vida. Feito isso deixou-me e, de cabeça
descaída sobre o ombro, foi-se embora.
PRIMEIRO-MINISTRO
Deve estar deveras doente! O que
lhe terá acontecido para desvairar dessa maneira? Nafiza, sabes de mais alguma
coisa que possa explicar esse comportamento?
NAFIZA
Senhor Primeiro-Ministro, não
sei de mais nada. Das poucas vezes que estivemos frente a frente, sempre se
comportou com a máxima correcção. Estranho, por isso, a sua atitude para
comigo. Parecia que me odiava, como se fosse um ódio muito antigo. Não
entendo, nem um bocadinho, o que possa ter contra mim!
PRIMEIRO-MINISTRO
Talvez não fosses tu a visada,
mas outra pessoa! Não é a primeira vez que isso acontece! A isso chama-se
transferência emocional. Pode ser que o jornalista Samowha esteja a ser vítima
de uma luta interior, superior às suas forças!
NAFIZA
O que vamos fazer?
PRIMEIRO-MINISTRO
Vou mandar segui-lo para ver se descobrirmos mais qualquer
coisa que nos possa esclarecer sobre a desordem do seu comportamento. Nafiza,
se não tens mais nada para me dizer, vamos terminar a nossa conversa. Ainda me
esperam outros afazeres.
Até mais logo e dá cumprimentos
meus ao teu pai. E comunica-lhe que esta nossa conversa vai-lhe ser
transmitida, oficialmente. Fica bem.
(NAFIZA SAI DO GABINETE)
CENA 6
INTERIOR – DIA
GABINETE DO
CAMANDANTE-CHEFE
Presentes no gabinete o Comandante-Chefe, a Viúva do
Presidente, e os jornalistas estrangeiros Patua e Sefo.
COMANDANTE-CHEFE
Bem-vindos sejais, senhores Patua e Sefo! Além do desejo
de há muito vos ver, a necessidade dos vossos serviços obrigou-me a chamar-vos
com urgência.
Já, por certo, ouvistes qualquer coisa da transformação
sofrida pelo vosso colega Samowha.
Nem por dentro, nem por fora, parece o mesmo. Nós, que o
conhecemos desde sempre, não compreendemos o que está a passar-se com ele.
Além de muito reservado, cismou em isolar-se do convívio social, não
permitindo qualquer aproximação, inclusive, intervenção médica. Assim,
ocorreu-nos a possibilidade de, através de vós, como colegas do mesmo ofício e
velhos amigos, ele se possa abrir e revelar o segredo de tudo o que o aflige.
VIÚVA DO PRESIDENTE
Meus senhores, confiamos em vós
para esta tarefa. A vossa escolha não foi por acaso. Sabemos da grande amizade
que o jornalista Samowha nutre por vocês e vós por ele, desde o tempo da nossa
gloriosa revolução em que vocês se empenharam exemplarmente. O nosso grande
apreço! Nunca é tarde para esse reconhecimento.
Mas agora a nossa preocupação
centra-se na saúde do vosso colega. Queremos saber que doença o atingiu e que
lhe está a minar a alegria de viver...
PATUA
Vossas Excelências, apesar de
surpreendidos, sentimo-nos gratos por esse voto de confiança.
SEFO
Humildemente, depositamos nas
vossas mãos os nossos serviços.
COMANDANTE-CHEFE
Obrigado, Patua; obrigado Sefo.
O presente nos volta a reunir. Sobre o passado, nunca será demais o nosso
agradecimento por tudo o que fizeram em prol da nossa revolução, como já disse
sua Excelência a viúva do nosso muito amado Presidente.
VIÚVA DO PRESIDENTE
Irei mandar alguém conduzi-los até à casa de Samowha. Só
vos peço que nada lhe reveleis sobre o que aqui dissémos...
SEFO
Fazemos votos que a nossa
presença o possa ajudar no mal que o atingiu!
(Os dois jornalistas saem)
VIÚVA DO PRESIDENTE
Que Deus os oiça!
(ENTRA NO GABINETE O PRIMEIRO-MINISTRO)
PRIMEIRO-MINISTRO
(Dirigindo-se ao Comandante-chefe)
Os Ministros Fungulane e Rumeque
voltaram, Excelência, e nada satisfeitos.
COMANDANTE-CHEFE
O Senhor Primeiro-Ministro nunca
nos trás boas notícias!
PRIMEIRO-MINISTRO
Peço perdão, Excelência, mas a gravidade
do momento não me deixa outra opção! Dedico-me de alma e coração aos meus
deveres para com a Nação, mas não posso contrariar as ambições do dissidente
Vahocha. Mas a minha dedicação à política do país leva-me a afirmar que a
doença do jornalista Samowha pode ser mais um caso político que estou em vias
de desvendar...
COMANDANTE-CHEFE
Sendo assim, revelai-nos o que descobriste, pois, estamos
deveras ansiosos!
PRIMEIRO-MINISTRO
Deixai primeiro que entrem os
ministros. As revelações sobre Samowha podem ficar para segundo plano.
COMANDANTE-CHEFE
Muito bem, vou recebê-los: que
entrem, então, os ministros.
(O PRIMEIRO-MINISTRO SAI DO GABINETE)
COMANDANTE-CHEFE
(Dirigindo-se para a Viúva do Presidente)
Vossa Excelência ouviu o que eu
ouvi. O senhor Primeiro- Ministro diz que já descobriu o que se passa com o
jornalista Samowha.
VIÚVA DO PRESIDENTE
Duvido que a causa não seja
ainda a morte do meu marido - e saudoso nosso Presidente - que ele tanto
admirava!
(ENTRAM NO GABINETE O PRIMEIRO-MINISTRO E OS
MINISTROS FUNGULENE E RUMEQUE).
COMANDANTE-CHEFE
Bem-vindos, meus queridos
amigos. Que novidades trazem do nosso rival?
FUNGULENE
Os meus sinceros cumprimentos,
Excelência. As novidades não são boas,
infelizmente! Logo que chegámos mandou suspender, num gesto tido de boa
vontade, os alistamentos para o exército que está a organizar na esperança de a
guerra não vir a ser necessária.
No entanto, as suas exigências
parecem-me excessivas e a guerra pode vir a ser necessária.
Vossa excelência saberá
interpretar melhor as suas absurdas condições e se estará disposto a desistir
do poder voluntariamente, porque outra coisa ele não quer! Democracia, foi
assim que ele se expressou. Para não haver guerra só existe uma condição
prévia: temos de realizar eleições para a instauração de um regime democrata.
As demais condições serão
posteriormente negociadas para contemplar outras exigências como liberdade de
reunião e de expressão, liberdade de imprensa, defesa dos direitos humanos, etc.
Tudo o demais está escrito neste documento, que lhe entrego.
COMANDANTE-CHEFE
Tais condições não nos agradam,
sumariamente. Com tempo leremos a carta e responderemos após pensar no que nos
exigem. Entretanto, vos agradecemos pelo vosso bom trabalho. Ide repousar.
Amanhã nos reuniremos. Sede bem-vindos à nossa Pátria!
(OS MINISTROS SAEM DO GABINETE)
PRIMEIRO-MINISTRO
Excelência, sem querer ser
arauto da desgraça, prevejo dias difíceis para a nossa Pátria. Pelo que ouvi,
as exigências do dissidente Vahocha não nos deixam grandes hipóteses; ou
desistimos do regime de partido único e, desta maneira nos tornamos orfãos da herança
política do nosso glorioso Presidente morto, ou vamos para eleições abrindo,
desta maneira, a Pátria às incógnitas do futuro.
VIÚVA DO PRESIDENTE
De ambas as maneira, estamos a trair os
nobres ideias do meu marido e nosso muito querido
Presidente, que não acreditava, nem por um
momento, nos benefícios do capitalismo. O poder ao povo, dizia ele!
PRIMEIRO-MINISTRO
Senhora, juro-vos que o meu
raciocínio nada tem de falacioso. São as condições impostas que não deixam de
apontar para a mudança: ou eleições ou guerra!
VIÚVA DO PRESIDENTE
Não podemos permitir que toda a
vida sacrificada do meu marido tenha um final tão fútil!
PRIMEIRO-MINISTRO
Um momento, minha senhora. Não
está nas minhas palavras o mais leve indício que tenhamos de nos submeter à
vontade do dissidente Vahocha. O comité central do nosso partido é soberano
para decidir o melhor para a nossa Pátria! O que eu quero dizer é que, o que
nos exigem, não nos vai dá grande margem de manobra para fugirmos à guerra.
Porque penso, pessoalmente, que não podemos entregar o nossa Pátria aos
desvarios dum futuro não controlado por nós. É essa a minha opinião.
COMANDANTE-CHEFE
O senhor Primeiro-Ministro tem razão para estar
apreensivo! Tudo indica que não vamos ter grandes alternativas para fugir ao
embate das duas filosofias.
PRIMEIRO-MINISTRO
Essa é a minha visão, mais liminar...
COMANDANTE-CHEFE
No entanto, temos de estudar em
detalhe os termos das condições que nos são impostas para nos podermos
pronunciar com segurança.
VIÚVA DO PRESIDENTE
Só espero que não se deixem embriagar
pelas ilusões dum futuro imitativo e se esqueçam da herança do nosso querido
Presidente.
COMANDANTE-CHEFE
Senhora, a herança do nosso
querido Presidente é inegociável. Preferimos a guerra do que despojar a nossa
Pátria dos seus ensinamentos. Se for preciso vamos mesmo para a guerra. Mas o
comité central, como já foi dito nesta sala, é soberano. Cabe-lhe a ele definir
as linhas mestras da actuação do nosso glorioso Partido. Vamos convocá-lo e
tudo lá será decidido. Senhor Primeiro-Ministro, incumbo-o de proceder de
harmonia com as minhas orientações.
PRIMEIRO-MINISTRO
Muito bem, Excelência, assim
irei fazer. E quanto à imprensa, como iremos proceder?
COMANDANTE-CHEFE
A imprensa fica para depois. Vamos primeiro nos reunir e
depois tratamos do comunicado para a imprensa.
(ENTRA NO GABINETE UM SOLDADO)
SOLDADO
Excelência. O jornalista Samowha
insiste, a todo o custo, em ser recebido. O que faço nesta situação? Deixo-o
entrar ou recuso a sua audiência?
COMANDANTE-CHEFE
O jornalista Samowha? O que
estava doente? Não me digam que as notícias tristes já chegaram aos jornais?
VIÚVA DO PRESIDENTE
Ou a sua vinda até nós já é
resultado da acção dos seus colegas Patua e Sefo? Deixemo-lo entrar para sabermos
como está de saúde e qual o motivo da sua visita!
COMANDANTE-CHEFE
O senhor Primeiro-Ministro
também ficou de nos comunicar o que tinha descoberto sobre o comportamento do
jornalista Samowha. Pelos vistos, não vai ser necessário. Temo-lo aí em pessoa.
Só nos resta saber de viva voz o que andou a roer-lhe as entranhas. Soldado,
mande-o entrar. Vou recebê-lo em audiência.
(SAI O SOLDADO E ENTRA NO GABINETE SAMOWHA A
LER UM LIVRO).
VIÚVA DO PRESIDENTE
Vede como vem triste o pobre desventurado e a
ler!
COMANDANTE-CHEFE
Retirai-vos
ambos, peço-vos. Vou ouvi-lo, imediatamente.
(SAEM DO GABINETE O
PRIMEIRO-MINISTRO E A VIÚVA DO PRESIDENTE)
COMANDANTE-CHEFE
Como vai o bom amigo Samowha?
SAMOWHA
Bem, graças a Deus.
COMANDANTE-CHEFE
Porquê esta urgência em ver-me?
Quais os assuntos que queres tratar com o Comandante-Chefe?
SAMOWHA
Quero falar com o peixeiro.
COMANDANTE-CHEFE
Com o peixeiro? Que brincadeira é esta?
SAMOWHA
Pois, era o que eu queria que fosses.
Tão honesto como ele.
COMANDANTE-CHEFE
Honesto? O que quer isso dizer?
SAMOWHA
Honesto, sim senhor. Pela forma
como vai o mundo ser-se honesto e tão difícil como o homem ser peixe. Daí a
analogia...
COMANDANTE-CHEFE
Se não te
expressas de forma conveniente mando-te já prender.
SAMOWHA
Até o sol – que beijador de carnes podres! – cria vermes
no corpo dum cão morto. Tendes uma filha?
COMANDANTE-CHEFE
Tenho sim.
Qual o problema?
SAMOWHA
Não a deixes andar ao sol. Conceber é uma benção, mas
como tal não pode acontecer à tua filha, amigo, toma cuidado.
COMANDANTE-CHEFE
Endoideceu de vez! Primeiro confunde-me com um peixeiro,
agora pensa que a minha filha poderá não conceber se andar ao sol.
Vou fazer uma última tentativa sobre a sua lucidez: que
andais a ler?
SAMOWHA
Palavras,
palavras, só palavras sempre.
COMANDANTE-CHEFE
Sobre quê?
Qual a questão?
SAMOWHA
Entre quem
é a questão?
COMANDANTE-CHEFE
Queria dizer, questão-assunto, o que lês nesse livro?
SAMOWHA
Calúnias! Este satírico escritor diz aqui que os velhos
têm barba grisalha, rugas na cara e olhos apurgar um espesso ambar ou goma de
ameixoeira, que são totalmente desprovidos de espírito e têm fracos jarretes.
Tudo coisas, aliás, senhor, as quais dou poderosa e fortemente o meu
assentimento e crédito. Contudo acho que não é sério escrevê-lo, pois vós se
andasseis como o caranguejo para trás devieis ser mais ou menos da minha
idade.
COMANDANTE-CHEFE
Coitado, está possuído de
loucura, apesar de haver algum método na forma como organiza o pensamento. Não
quereis sair daqui, por uns tempos? Mudar de ares...
SAMOWHA
O quê? Ir para a minha sepultura?
COMANDANTE-CHEFE
Realmente, mudava todo o ar. Na
cova não o há. Mas isso são pensamentos radicais que te deves abster de
formular. Digo que estás a precisar de descansar.
SAMOWHA
Que aborrecidos, estes velhos tontos!
(ENTRAM NESTE MOMENTO PATUA E SEFO,
ACOMPANHADOS DE DOIS SOLDADOS).
COMANDANTE-CHEFE
Ainda bem que chegam. Se procurais Samowha, hei-lo aqui.
Só não sei se vai adiantar alguma coisa a vossa presença. Parece-me estar já
em adiantado estado de demência! Vou deixá-los a sós. Soldados, acompanhem os
presentes à sala da imprensa: tem a minha autorização para se reunirem.
(SAEM SAMOWHA, PATUA E SEFO E DIRIGEM-SE A SALA DA
IMPRENSA)
PATUA
Como estás Samowha?
SEFO
Meu querido amigo, como estais?
SAMOWHA
Meus grandes amigos! Como vais
tu Sefo? Eh Patua! Gente brava, como vão vocês os dois?
PATUA
Como filhos atentos desta terra...
SEFO
E felizes por sermos demais
felizes. Mas não somos laureados da fortuna...
SAMOWHA
Nem nas solas dos vossos sapatos, pois não?
PATUA
Não, nem pensar...
SAMOWHA
Ficam-se aí pela cintura... a meio termo?
SEFO
Nem isso. Só sabemos escrever,
ganhar dinheiro limpo não é fácil...
SAMOWHA
É verdade o que dizes! A fortuna é leviana... Só favorece
quem pouco a merece... Mas o que vos trás por cá? Novidades? Sabem vocês alguma
coisa que eu não saiba?
PATUA
Vimos ver-vos, só isso! Ainda
que, o mundo gire e a honestidade esteja cada vez mais longe do seu horizonte!
SAMOWHA
A quem o dizes! Então eu não
sei! Mas dizes que viestes ver-me! Porquê? O que eu fiz para merecer tamanha
honraria!
SEFO
Samowha, constou-nos estares a
passar um mau bocado! Quisemos nos certificar, com os nossos próprios olhos, e
dar-te uma ajuda, se tal precisasses!
SAMOWHA
Obrigado, amigos. Mas o mal de
que padeço está relacionado com a precaridade da vida e em particular com a
prisão em que o meu País se converteu!
PATUA
Então todo o mundo o é também.
SAMOWHA
Não sei se será! Sei que o meu
País está cheio de prisões, onde não impera a liberdade e as pessoas deixaram
de ser felizes!
PATUA
Não é o que
julgamos, Samowha.
SAMOWHA
Se para vós não o é, é porque nada é bom ou mau senão no
pensamento de quem julga. Para mim é uma prisão.
PATUA
Se a vossa percepção faz dele uma prisão é porque,
decerto, ele tornou-se demasido estreito para o vosso pensamento.
SAMOWHA
Ó Deus do céu! Eu podia estar fechado numa casca de nós e
sentir-me soberano desse espaço ínfimo, não fosse o sofrimento que me causam os
maus sonhos.
SEFO
Sonhos que devem ser de ambição, pois, a íntima trama da
ambição não é mais do que a sombra de um sonho...
SAMOWHA
Sonho que, por sua vez, de sombra não passa...
PATUA
Certamente! E a nossa ambição é tão aerea, tão leve, que
não é mais do que sombra de outra sombra.
SAMOWHA
E o que são os nossos corpos pobres, os nossos chefes,
os nossos dilatados heróis: sombras e sombras de pobres. Pobreza absoluta.
Vamos sair amigos. Francamente, estou cansado de raciocínios...
AMBOS
Acampanhar-vos-emos.
SAMOWHA
Nada disso! Não quero que vos transformeis em meus
criados. Mas, voltando ao princípio da conversa, que fazeis no meu País?
PATUA
Viemos
visitar-vos, Samowha, nada mais.
SAMOWHA
Mendigo que sou até no agradecer sou pobre. Mas
agradeço-vos, embora ache que os meus agradecimentos não valem um centavo.
Mas... quem vos mandou? Os vossos sentimentos? Espontaneamente? Vamos, jogo
leal comigo! Vamos, falem!
SEFO
Que havemos
de dizer, Samowha?
SAMOWHA
A verdade, só a verdade. Mandaram-vos chamar não é
verdade? Há qualquer coisa de confissão nos vossos olhares, que não conseguem
disfarçar. Foi o Comandante-Chefe e a Viúva do Presidente que vos mandou
chamar?
PATUA
E para quê,
Samowha?
SAMOWHA
Isso é o que me haveis de dizer, sem ter de invocar os
deveres de camaradagem e de amizade que nos unem. É verdade, ou não, que vos
mandaram chamar?
PATUA
Que havemos
de vos dizer?
SAMOWHA
Reparai que não tiro os olhos de vós. Se sois meus amigos
nada de sofismas!
SEFO
É verdade, Samowha. Mandaram-nos chamar.
SAMOWHA
Agora sou eu que vos vou dizer porquê. E que o meu
pressentimento não vos faça trair o segredo que devem ao Comandante-Chefe e à
Viúva do Presidente. Não há muito tempo dei por mim a conjecturar sobre a
precaridade da existência. Quem é o homem? Quem é esta obra-prima da natureza?
Porque foi criado? Para dar expressão às suas infinitas e admiráveis
faculdades e expressivos sentimentos? Age como um anjo e entende como um deus.
Maravilha do mundo, supra-sumo do reino animal! E, todavia, porquê e para quê?
Para mim, não passa da quinta-essência do pó da terra.
SAMOWHA
E a mulher não é melhor, embora depreenda do vosso
sorriso que a achais melhor!
PATUA
Eu não
estou a pensar nada...
SAMOWHA
Então porque sorrias quando eu dizia que as delícias
humanas não são nada para mim?
PATUA
Pensar que a natureza humana não vos delicia e, pelo contrário,
vos deixa apreensivo e temeroso! Samowha, como queres viver com essa dúvida
pressistente? E, antigamente, essa gente do teatro que dirigias, o que pensava
de ti? Representar a comédia humana representava, afinal, nessa época, a
catarse de que precisavas de fazer para conseguires viver?
SAMOWHA
O que dizes deve ser verdade!
Era através dos Comediantes da Cidade que exorcisava muitos dos meus
fantasmas!
PATUA
Porque paraste de escrever os
teus textos e de os fazeres representar? Também se servia a revolução através
do teatro...
SAMOWHA
A minha desistência não os
impediu de continuarem a ser apreciados. Ainda hoje têm admiradores e casas
cheias!
PATUA
Sim, mas tu? Porque paraste?
SAMOWHA
Comecei a repetir-me e tive a
sensação de, os textos que escrevia, começaram a ser inúteis pois não serviam
quem deviam servir!
PATUA
E quem deviam servir?
SAMOWHA
Os que estão na base da
pirâmide, os que não têm voz, os que não têm nome, os espoliados, etc. Afinal,
os que estão por detrás do espelho duma revolução bem sucedida e vitoriosa!
PATUA
E o teatro que, actualmente, é
representado não traz à cena essas pessoas e os valores que elas representam?
SAMOWHA
Não, estão em cena outras
opções, outras classes, outras virtudes!
PATUA
Realmente, dum e doutro lado, há
muito a dizer. A nação não perde nada por acirrar controvérsias! O debate é
salutar!
SAMOWHA
Mas não há debate. Há
monocordismo, há asfixia, há o esvaziar do sentido primeiro e da génese da
revolução: a criação do homem novo.
SEFO
A revolução proletária-camponesa
morreu?
SAMOWHA
E está enterrada. Com a morte do
nosso Presidente encerrou-se o ciclo vital da revolução. O que sobra ainda está
por definir...
SEFO
Sopram ventos de mudança?
SAMOWHA
Sim, avizinham-se tempos difíceis para o meu País. Tudo
indica que a guerra está iminente. As mudanças pedidas, exigidas - pelo que sei
– não vão ser satisfeitas. Só que tudo ainda está encoberto; o final dos
tempos ainda não chegou para a sua consumação...
SEFO
Então a situação é muito grave?
SAMOWHA
Sim, só que os actores
principais desta tragédia ainda não o sabem...
(ENTRA NA SALA DA IMPRENSA O PRIMEIRO-MINISTRO)
PRIMEIRO-MINISTRO
Sua Excelência o
Comandante-Chefe, incumbiu-me de os avisar que, amanhã por esta mesma hora,
estão convocados para uma reunião cujo teor é a divulgação do comunicado
oficial que dá a conhecer a posição do nosso governo sobre o ultimato expresso
pelos dissidentes do regime.
SAMOWHA
Profetizo que nos vem dizer
aquilo que, há muito tempo, passou a ser uma necessidade: a clarificação do
regime sobre o seu futuro e o destino de todos nós.
(ENTRAM NESTE MOMENTO OS MESMOS SOLDADOS E UM
DELES SEGREDA ALGO AO OUVIDO DO PRIMEIRO-MINISTRO)
PRIMEIRO-MINISTRO
Jornalista Samowha, tem pessoas lá fora que o querem ver.
Dado o seu estado de saúde vou autorizar a sua entrada, excepcionalmente. Soldado mande
entrar as visitas.
(ENTRAM NA SALA QUATRO ACTORES DA COMPANHIA
DE TEATRO)
SAMOWHA
Conheço-vos. Bem-vindos!
Bem-vindos todos! Sinto--me feliz de os ver. Bem-vindos, bons amigos. Mas,
porque me procuram fora da minha casa? Qual a urgência que vos move ao ponto
de me procurarem na minha hora de trabalho?
PRIMEIRO ACTOR
Senhor, o que ouvimos sobre o
vosso estado de saúde não nos tranquilizou nem por um momento. Chegaram a
dizer-nos que já agonizavas! Daí a nossa pressa em vos encontrar, fosse onde
fosse, para vos oferecer os nossos préstimos! Mas, pelos vistos, estás bem de
saúde! O vosso aspecto confirma tudo menos que estás agonizante! Porque corre esse boato?
SAMOWHA
Não faço
ideia. Sei que tenho passado um mau bocado, ultimamente, mas nada que inspire
cuidados! A prova é que continuo a trabalhar e vocês apanham-me na finalização
de uma entrevista que acabei de fazer a Sua Excelência, o Comandante-Chefe. A
prova de que fui bem sucedido é a minha presença nesta sala acompanhado por
estes colegas. Podem perguntar-lhes o que diagnosticaram sobre o meu estado: se
é bom ou mau? Sua Excelência, o nosso Primeiro-Ministro, também pode
testemunhar a meu favor...
PRIMEIRO-MINISTRO
Se todos chegamos a temer, a dado momento, pela saúde do
jornalista Samowha, hoje, eu próprio, testemunho que parece estar de boa
saúde. Não se confirmou o pior. Bem haja!
PRIMEIRO ACTOR
Os boatos corriam com muita velocidade e todos apontavam
que tinhas perdido o juízo por causa desconhecida! É verdade que não conhecias
as causas que te faziam sofrer?
SAMOWHA
Homem! Desde a primeira hora que soube o que me fazia
sofrer! Como ainda hoje, o sei! Porque o mal não está ainda debelado; é maleita
velha que penetra nos ossos e não nos deixa sossegar!
PRIMEIRO ACTOR
Que esperas
então para expurgá-lo?
SAMOWHA
O momento e
o sítio certo para o fazer!
PRIMEIRO-MINISTRO
Pelas tuas palavras deduzo que o mal que te aflige parece
ter rosto e mover-se como se fosse gente?
SAMOWHA
Tal e qual, Excelência! De fantasma é que ele não tem
nada!
PRIMEIRO-MINISTRO
Jornalista
Samowha, autorizo-o a divulgar o que tanto o aflige.
SAMOWHA
Excelência, como já disse, espero o melhor momento para o
divulgar. E quando o fizer pode crer que o farei publicamente!
PRIMEIRO-MINISTRO
Continua...

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