quarta-feira, 18 de setembro de 2019

A REINVENÇÃO DO AMOR



A REINVENÇÃO DO AMOR


Lopes Barbosa 

A tua impetuosidade, a tua despreparação, a tua cobardia
levaram-te a cometer erros,
um infinitude de erros,
que depositaste na praia,
como a tartaruga deposita os seus ovos,
convencida da sua eternidade!
Tu rolas como um seixo luzidio,
toscamente espelhado,
lá na praia batida pelo vento, e
de eterno só tens o eco do seu infortúnio,
que a maré arrasta para bem longe dos olhares
que contemplam o horizonte
de forma desapiedada!
A lonjura que criaste entre ti
e o mundo,
fazem de ti somente um sofisma!
Outrora, noutras idades, nunca te apercebeste
que irias sentir o vácuo,
o esvaziar de sentido e o
desabar do mundo quando fosses decrépito?
A tua derrocada foi equivalente
ao ruir dos Impérios
e estes quando desarmados
jazem à mercê dos bárbaros,
dos vândalos,
dos criminosos,
que esperam com infinita paciência o
momento da sua pilhagem,
da sua crucificação!
Sem te aperceberes passaste e ser o invólcuro duma penumbra
e de tanto esfaqueares o vento
este se tornou poeira
tão estéril como são as batidas
dum coração que deixou de sentir
o sentimemto do amor! 
A humanidade que poderá ainda
existir em ti só será bem-aventurança
se conseguires deixares de ser
um conceito vazio
na memória dos homens
e nada mais te restar senão
aqueceres as mãos nas labaredas dos livros sábios,
e já morto de cansaço ainda te
restar uma parcela de energia
para ergueres o teu corpo
ferido por hérnias de espanto
e descarnado por séculos de embuste
religioso
te ergueres de novo à altura de
perplexidade do mistério da vida...

e o pranto voltar a jorrar 


dos teus olhos cegos
dando lugar á decifração

do que quer dizer a palavra: Amor!

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