OS MONUMENTOS QUEREM-SE ETERNOS
Opereta Trágica
Adaptação livre de HAMLET de Willian Shakespeare
FILMUS
COMPANHIA PRODUTORA DE FILMES
Maputo
Moçambique
Reservados todos direitos
de acordo com a legislação em vigor
©2019 Joaquim Lopes Barbosa
©Produção Filmus- Companhia Produtora de Filmes
INLD Nº de Registo 6686/RLINLD/2019
Nenhuma salvação é suficiente, qualquer condenação é definitiva.
JOSÉ SARAMAGO
O Evangelho Segundo Jesus Cristo
Continuação...
CENA 7
INTERIOR – DIA
GABINETE DO COMANDANTE-CHEFE
PRESENTES NO GABINETE O COMANDANTE-CHEFE,
A VIÚVA DO PRESIDENTE, NAFIZA, PATUA, SEFO E OUTROS.
COMANDANTE-CHEFE
(Dirigindo-se a Patua)
E não podereis, sem o denunciar,
tirar dele o que descobriu sobre a morte do Presidente?
PATUA
Ele próprio confessa que está
praticamente no fim da sua investigação. Mas a conclusão final por nada a
confessa...
SEFO
Nunca o encontrámos aberto a revelar o mínimo do que
descobriu. E quando o forçamos parece que se entrepõe, entre nós e ele, uma
força dissuasora que o mantém lúcido e o obriga a calar-se.
VIÚVA DO PRESIDENTE
Recebeu-vos bem?
PATUA
Como um verdadeiro amigo.
SEFO
Mas encontrámo-lo bastante
constrangido...
PATUA
Faz muitas perguntas mas é avaro
em respostas...
VIÚVA DO PRESIDENTE
Falas-te-lhes na necessidade de
se divertir?
PATUA
Senhora, acontece que, no dia do
nosso encontro, foi visitado também por antigos colegas da companhia de teatro
que em tempos dirigiu e combinaram voltar a pôr em cena várias peças,
inclusivé, a última que acabou recentemente de escrever e versa, exactamente,
sobre a tragédia do vosso Presidente.
VIÚVA DO PRESIDENTE
Mas isso é uma grande revelação!
Senhor Primeiro-Ministro, estava a par desta notícia?
PRIMEIRO-MINISTRO
De maneira
nenhuma, senhora! Isso é uma grande novidade!
COMANDANTE-CHEFE
Uma peça de teatro que fala
sobre o nosso Presidente morto?
PATUA
Nem mais Excelência! Foi o que
pudemos deduzir da conversa que Samowha manteve com os actores. Segundo
entendi, será o próximo espectáculo teatral da companhia a levar à cena, muito
brevemente.
COMANDANTE-CHEFE
Precisamos de conhecer o texto
antes da sua montagem. Patua será possível obterem para nós uma cópia do texto
original?
PATUA
Excelência, não sei se vai ser
possível. Não sei se o autor vai estar disposto a divulgar o conteúdo da peça
antes da sua apresentação pública!
COMANDANTE-CHEFE
Têm de fazer o possível para nos
trazerem uma cópia do texto...
SEFO
Excelência, vamos fazer o
possível para vos trazermos uma cópia do texto.
COMANDANTE-CHEFE
Agradeço-vos, antecipadamente.
Podem sair. Ficaremos na expectativa de nos voltarmos a ver depois de terem
conseguido o que vos estamos a pedir.
(SAEM DO GABINETE PATUA E SEFO).
COMANDANTE-CHEFE
Senhor Primeiro-Ministro,
estamos frente a um acontecimento que requer a intervenção da polícia política.
Temos toda a necessidade de saber, em primeira mão, o conteúdo do texto escrito
pelo jornalista Samowha sobre a morte do nosso Presidente!
Não podemos permitir que o mesmo
seja levada à cena, sem o nosso conhecimento prévio! Trata-se de Segurança de
Estado! Tem alguma ideia como podemos obter esse texto?
PRIMEIRO-MINISTRO
Só vejo uma maneira de o
conseguir: é roubando-o! Porque, tenho toda a certeza que o autor não o vai
entregar de livre vontade.
E como não podemos exigir a sua
entrega – porque tratar-se-ai de um acto de censura – só roubando-o é que o
podemos obter!
Temos de instruir a polícia
política de que obter esse texto passa a ser uma prioridade nacional!
VIÚVA DO
PRESIDENTE
Senhores,
não nos estamos a precipitar demais expondo-nos dessa maneira? Ao envolver a
polícia política numa acção de roubo não estamos a denunciar uma culpabilidade
antecipada dum juízo somente artístico e do qual nada sabemos! Porque não
esperar que a peça suba à cena para nessa altura conhecermos o seu desfecho! Se
o autor quer dizer alguma coisa sobre o nosso Presidente devemos dar-lhe essa
liberdade. E o autor já deu por diversas vezes provas de que ama o seu
Presidente!
COMANDANTE-CHEFE
Senhora, é esse amor desmedido
que o jornalista Samowha sente pelo nosso Presidente morto que me assusta! O
que estará nesse texto para querer, rapidamente, torná-lo público?
PRIMEIRO-MINISTRO
Talvez a pertinência da data, já
que vamos comemorar mais um ano de independência nacional.
COMANDANTE-CHEFE
Mesmo assim, devemos manter o
autor vigiado. Senhor Primeiro-Ministro proceda de acordo com a gravidade da
situação! O Jornalista Samowha tem de ser enquadrado num esquema de vigilância.
E é de todo necessário conhecermos o teor do seu texto teatral.
NAFIZA
Paizinho, talvez eu possa dar
uma ajuda. A raiva que o jornalista Samowha sentia por mim talvez já tenha
passado e a minha aproximação seja consentida. Porque não tentar? A perder,
não temos nada!
COMANDANTE-CHEFE
Consentido, minha filha. Nesta
altura todas as ajudas são bem-vindas!
NAFIZA
Foi por pensar nessa
possibilidade que eu me antecipei e já pedi que o jornalista Samowha me
procurasse. Aguardo
que me contacte a todo o instante.
COMANDANTE-CHEFE
Minha filha, acabo por te render homenagem. Bem pensado.
Se tudo correr bem talvez a intervenção da polícia não venha a ser necessária,
o que nos pode poupar muitos embaraços. Vamos aguardar que tudo corra bem.
PRIMEIRO-MINISTRO
Sendo assim, talvez nos
devessemos retirar e deixar que o destino cumpra a sua parte.
(O COMANDANTE E O PRIMEIRO-MINISTRO
ESCONDEM-SE ATRÁS DE UM REPOSTEIRO. UM ASSESSOR ABRE A PORTA PARA SAMOWHA ENTRAR).
SAMOWHA
Ser ou não ser, eis a questão.
Porque interrogo, porque me atormento, porque deixo voar o pensamento? Rei
morto, rei posto! Sempre foi assim deste os tempos mais remotos. Então, porque
não me aquieto e deixo que a memória faça o seu trabalho: resgate no tempo
adequado as causas, os agentes, os objectivos pelo desaparecimento prematuro do
nosso querido Presidente? Porque não dar um fim a estas penas que me
transbordam do coração?
NAFIZA
Querido Samowha, por estes dias
todos, como tens passado?
SAMOWHA
Bem, bem e bem. Humildemente,
agradeço o vosso interesse.
NAFIZA
Como tenho lembranças vossas e como as desejava devolver.
SAMOWHA
Mas eu nunca te dei nada!
NAFIZA
Meu bom amigo, eu sei bem que sim...
só o som das vossas palavras são presentes perfumados. E, neste momento, como
eu gostaria de os poder devolver da maneira como tu mos destes: com amor.
SAMOWHA
Ah! Sois então apaixonada por mim?
NAFIZA
Meu querido Samowha, eu...
SAMOWHA
Como sois bela!
NAFIZA
O que queres dizer?
SAMOWHA
Se és séria, a tua honestidade
não devia aceitar homenagens à tua beleza.
NAFIZA
Querido Samowha, que melhor
companhia posso desejar para a minha beleza do que, exactamente, a honestidade!
SAMOWHA
Tens de ter cuidado, o poder da beleza pode ser enganador
e transformar a honestidade em oportunismo!
NAFIZA
Realmente?
SAMOWHA
Sim, uma mulher menos séria está
sujeita a muitas tentações e se é bela mais perigos corre! Antigamente, isso
era um paradoxo, mas agora os tempos se encarregaram de demonstrá-lo.
NAFIZA
Queres dizer que quem ama corre perigo?
SAMOWHA
Sim, se não for verdadeiro o
amor que diz estar a sentir!
NAFIZA
E como sabemos se o amor que
sentimos é verdadeiro ou não?
SAMOWHA
Depois de sentido, tem de ser
muitas vezes testado e, finalmente, deixado a amadurecer. Como acontece com
determinados vinhos, só se revela de grande qualidade com a idade!
NAFIZA
Samowha, tu amas?
SAMOWHA
Sim, amo a poesia, e nada mais!
O que é vida sem a transferência do efémero para o arco do eterno que pomos a rodar
no asfalto, como na infância? Poesia é toda a vida já por nos vivida e toda a
outra que veleja na saudade do que não vivemos. Dou-te um conselho Nafiza. Se
casares, que seja por amor, e mantém o espírito do amor fiel e puro como o
gelo. Os casamentos por interesse um dia hão-de acabar, digo-te eu. Os outros,
os verdadeiros, ficarão para sempre. Adeus.
(SAMOWHA SAI)
NAFIZA
Ah! Como cai na escuridão um
espírito outrora tão lúcido! Como foi espelho e flor desta nação, um exemplo
de rectidão, a sua linguagem tinha a exactidão dos putilos - e fazia-se notar
pela coragem na busca da imparcialidade! Hoje, mudou! Fala de coisas que não
são comum à maioria dos mortais! Como pode continuar a ser exemplo a seguir?
(O COMANDANTE-CHEFE E O PRIMEIRO-MINISTRO
SAEM DE TRÁS DO REPOSTEIRO)
COMANDANTE-CHEFE
Amor? Não parece para aí
inclinado...Nem sequer no que diz, nem no que faz. Há qualquer coisa dentro de
si, em incubação, que receio poder vir a ser perigosa e que é preciso evitar a
todo custo! E há-de ser para já... Talvez mandá-lo com urgência para um país
distante, em missão de serviço. Terras diferentes e novas paisagens podem
expulsar-lhe do coração o mal oculto.
COMANDANTE-CHEFE
Senhor Primeiro-Ministro,
o que pensa da ideia?
PRIMEIRO-MINISTRO
Talvez resulte. Mas continuo a
pensar que a origem e o começo do seu mal estão ligados ao amor! Nafiza, não te
terás enganado na forma como avaliaste as suas motivações? Apesar de termos
ouvido tudo quanto se disse aqui, continuo inclinado a pensar que padece de
amor profundo, a roçar a loucura! Excelência, porque não continuar a vigiá-lo
até termos conseguido identificar a origem do mal de que padece?
COMANDANTE-CHEFE
Que seja como dizeis. A loucura
dos grandes mais requer que se vigie.
(AMBOS SAEM DO GABINETE)
CENA 8
INTERIOR – DIA
SALA DE TEATRO. ESTÃO
PRESENTES SAMOWHA E TRÊS ACTORES
SAMOWHA
Diz a tirada que te dei tal e qual;
mas sem hesitações. Não feches muito o ar com as mãos. Nada de esbracejar. Até
na tempestade ou no próprio ciclone da paixão é possível a temperança que lhe
dá suavidade.
PRIMEIRO ACTOR
Sim, Mestre...
SAMOWHA
Mas não sejas frio em demasia:
deixa que o teu bom senso te guie. Que o gesto sirva a palavra e esta sirva a
acção. Mostra a virtude tal como ela e da infâmia dá o seu cariz exacto.
PRIMEIRO ACTOR
Mestre, espero que tenhamos feito todas as correcções
necessárias.
SAMOWHA
Estou totalmente convencido que
sim. Os ensaios terminaram. Podem sair.
(SAEM OS ACTORES E ENTRAM O PRIMEIRO-MINISTRO,
PATUA E SEFO)
SAMOWHA
Meus caros amigos, Senhor
Primeiro-Ministro, calculo que vêm saber quando estreamos a peça?
PRIMEIRO-MINISTRO
Exactamente, a expectativa é
grande no seio do Governo! Agravada pelo secretismo com que decorreram os
seus ensaios!
SAMOWHA
Acabamos, agora mesmo, de marcar
a sua ante-estreia para amanhã, em sessão especial para todos os Membros do
Governo e para todos os que quiserem nos dar a honra de assistir à sua primeira
exibição.
PRIMEIRO-MINISTRO
Perfeito! Vou, pessoal e
imediatamente, comunicar esta boa notícia a todo o corpo do Governo.
PATUA
Eu e Sefo iremos divulgá-la à
sociedade em geral.
(SAEM. EM SIMULTÂNEO ENTRA O SOLDADO OKORO,
VESTIDO À CIVIL.)
SAMOWHA
Okoro,
ainda bem que vieste.
OKORO
Não podia deixar de vir, tal
como me pediste.
SAMOWHA
De todos os meus amigos, és tu,
Okoro, aquele em quem confio.
OKORO
Sinto-me muito honrado por isso...
SAMOWHA
O que vou pedir-te tem de ficar
só entre nós...
OKORO
Mesmo sem saber o que pretendes,
já tens a minha palavra de nada revelar se for essa a tua intenção!
SAMOWHA
Sim. Então escuta: amanhã vamos fazer a
ante-estreia da minha peça mais recente. Como já tive
ocasião de te contar, vão-se
desenrolar algumas cenas que têm correspondência com os últimos momentos da
vida e da morte do nosso Presidente. O que te peço é fiques atento às reacções
dos Ministros e, em particular, não tires os olhos do comportamento do Comandante-Chefe.
Os meus próprios olhos estarão cravados no seu rosto, espiando-lhe também as
possíveis reacções. Depois, juntos julgaremos o que eles deixarem transparecer.
OKORO
Sim, amigo,
não deixarei de anotar as suas reacções, nos momentos fulcrais da peça,
exactamente nos pontos que assinalaste.
SAMOWHA
Exacto. É isso que te peço.
Agora, vamo-nos. Amanhã, o que estiver para ser revelado, revelado será!

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